EntreContos

Detox Literário.

A Gata de Luvas (Hello Kitty)

 

— Mais uma pergunta, senhora Roberta. Por que a senhora demorou tanto a entrar em contato com a polícia?  

Roberta olhava fixamente para um ponto aleatório na parede, acima do ombro do homem que a arguia.

— Não sei dizer… 

A voz falhou, as lágrimas encheram novamente os olhos inchados.

— Tivemos uma pequena discussão… coisa de casal. Voltei sozinha ao hotel, tomei banho… depois fiquei olhando as fotos, bebi um pouco vinho, acabei pegando no sono… 

O policial dirigiu-lhe um olhar duro, indiferente às lágrimas em seu rosto convulsionado e sem cor.

— E só acordou no dia seguinte às duas da tarde? 

 

Conheci a Roberta na terapia. Não, eu não era o terapeuta clichê que se apaixona pela paciente fragilizada. Eu era o sujeito atendido às quintas depois dela.  

Ela me cumprimentava sem me ver, como se eu fosse um objeto de decoração da sala de espera, até o dia em que nossa terapeuta saiu do consultório segurando-a pelo braço e me indagou:  

— Ivan, explica pra Roberta o que é paz.

Eu não lembro exatamente o que respondi, mas a resposta veio na ponta da língua, apurada por uma sensibilidade que eu não costumava ter. Algo como a paz ser a certeza de que tudo vai ficar bem no final, só que num texto mais elaborado.  

Foi então que ela se deu conta de que eu não era um abajur nem um jarro. Esboçou um sorriso de agradecimento e me encarou com aqueles olhos de gata. Fiquei animado, não foi uma expressão qualquer, havia um interesse da parte dela. Eu sabia que ela era casada. Sabia também, por experiência própria, que casamentos acabam.   

 

Roberta queria engravidar, mas o marido pensava de outra forma. A discussão no alto do penhasco começou em tom de brincadeira por causa de uma divergência tola na escolha da regulagem da câmera fotográfica e evoluiu, como sempre, para essa outra diferença incômoda para a qual nos últimos tempos convergiam todos os embates entre eles. 

Por isso Roberta voltou sozinha para o hotel. Por isso, embora estranhando a demora do marido, abriu uma garrafa de vinho enquanto editava as fotos feitas naquele fim de tarde. Por isso não percebeu que o lugar dele na cama permaneceu desocupado por toda a noite e acordou, mais que preocupada, irritada julgando que a pirraça de Pedro dessa vez havia ido longe demais. 

 

Comecei a terapia para superar a sensação de fracasso com o término do meu casamento. Um dos motivos da separação foi o fato de a minha mulher não querer engravidar. Desconfiei que a Roberta era a mulher da minha vida quando descobri que ela era eu com sinal contrário, queria ser mãe e o marido se recusava. Escutava as queixas dela em quase todas as sessões pelas paredes finas de dry-wall entre a sala de espera e o consultório,  

Fiquei bem nervoso quando ela aceitou sair comigo pela primeira vez, uns dois meses depois de o marido desaparecer. Estava grávida, eu já sabia. Havia escutado pouco depois do acidente ela contar para a doutora Lilian, nossa psicóloga, que a gravidez da qual ela suspeitava havia se confirmado nos exames de laboratório. 

 

Passado um mês de buscas, nenhuma pista sobre o desaparecimento de Pedro havia sido encontrada. A hipótese mais provável era de que ele tivesse se afogado após sofrer uma queda ou ter sido arrastado por uma onda. Esse tipo de acidente acontecia com certa frequência no local. 

Sem um corpo, Roberta não se considerava viúva. Assim como depois de procurar em todos os lugares possíveis um objeto perdido – um óculos, uma chave — o achamos em algum local improvável, Roberta acreditava que Pedro ainda pudesse ser encontrado. Fantasiava hipóteses tais como a de que ele pudesse ter batido a cabeça em uma pedra ao cair e estar vagando pelas ruas desmemoriado ou de que, tendo simplesmente a abandonado, acabaria sendo encontrado mais cedo ou mais tarde. 

Só agora a polícia havia pedido que ela enviasse as fotos feitas naquele fim de tarde. Havia, sim, imagens de pessoas que, como eles, caminhavam pelas pedras aguardando o pôr do sol. Era isso que a polícia procurava. Em algumas fotos, via-se um casal ao longe; em outras um homem encasacado, a cabeça coberta pelo capuz, de costas.  

Não havia notado antes a presença de um gato no local. Em mais de uma foto o animal aparecia bem nítido, iluminado pelos raios oblíquos do sol poente, uma aura dourada fantasmática acentuando seu porte extraordinário. Ampliou as imagens intrigada, o gato parecia-se assustadoramente com Troia, sua gata de estimação, presente da avó quando criança. Graúda, a linha de transição da cor do pelo bem definida, cinza no dorso e na cabeça, a barriga e as patas muito alvas. 

 

A doutora Lilian era o tipo de terapeuta interessada em dar alta aos pacientes e parecia acreditar que juntar-nos era a maneira mais rápida de se livrar de nós.  Lapidava-nos o interesse um pelo outro em nossas sessões individuais embriagando-nos com um chá de alecrim perfumado que, segundo a Roberta, continha um filtro de amor. Só magia para explicar a evolução acelerada de um romance tão desencontrado, dizia ela. Eu não concordava.

O problema era que para efeitos jurídicos, na ausência de um corpo, Roberta continuava casada e, resolvidas as pendências relacionadas ao acesso aos bens – à conta bancária, sobretudo — ela não parecia estar preocupada com isso. Eu era o namorado que fazia companhia e resolvia os problemas. Sempre disponível, fui a todos os pré-natais posando orgulhoso de pai da Beatriz. 

Quando eu dizia que precisávamos resolver a situação, transformar a sucessão provisória em definitiva, ou sei lá o que tinha de ser feito para que pudéssemos nos casar, ela não se mostrava minimamente interessada e à medida que a Bia crescia meu incômodo só aumentava. 


De sua longa história com Troia, Roberta contou à psicóloga apenas as bordas – como a gata entrara em sua vida e dela se afastara anos mais tarde — enquanto lhe mostrava as fotos e narrava seu assombro com a presença de um animal tão idêntico no cenário do acidente. 

Contou que a avó a presenteara com a gata quando sua mãe estava internada, praticamente desenganada, com uma infecção grave da qual acabou morrendo. Como o pai morava em outro estado e não tinha estrutura para criá-la, Roberta ficou sob os cuidados da avó e a diligência de Troia, zelosa e ciumenta como uma mãe por seu filhote. Porque Pedro detestava gatos, deixou-a com a avó ao se casar, mas ela fugiu pouco tempo depois. Roberta não chegou a contar à terapeuta, mas depois de casada costumava sonhar com Troia com alguma frequência, sentindo estranhamente o pelo e o calor do animal como uma concretude entre ela e o marido sob as cobertas. 

Mais do que com o relato, a doutora Lilian ficou muito impressionada com a aparência da gata. Era difícil mesmo acreditar que pudessem existir dois animais tão extraordinários. Chamou-a gata de luvas por causa das patas brancas em contraste com o dorso cinzento e observou a cor verde acastanhada dos olhos, exatamente o mesmo tom dos olhos de Roberta. 

 

Conforme Beatriz ia se desenvolvendo uma nova inquietação começou a me atormentar. A garota não lembrava em nada o pai. Para mim isso era um fato. Roberta dizia que o formato do rosto dos dois era parecido, o mesmo queixo afilado, mas eu não conseguia enxergar nenhuma correlação entre as mandíbulas quadradas do pai e o rosto ovalado e miúdo da Bia. 

Também notava que a Roberta parecia evitar as visitas da família do pai. Ela dizia que não, era um afastamento natural; os familiares do marido, sim, aos poucos se distanciavam, argumentava. Queriam esquecer a tragédia, era normal evitarem as situações e pessoas que pudessem lembrá-la, acrescentava. Eu não achava nada disso natural, nem normal.

A outra coisa que me incomodava cada vez mais era o desinteresse da Roberta. Como se ela tivesse alguém por fora que, digamos, resolvesse as necessidades dela. A nossa vida sexual nunca tinha sido uma maravilha. No princípio eu relevava, óbvio, porque ela estava grávida. Mas depois de quatro, cinco meses do nascimento da Bia não dava. 

Eu já dava uma conferidinha básica nas redes sociais dela desde antes dos nossos primeiros encontros, mas foi nessa época que mergulhei de verdade na vida digital da Roberta.

 

Para a doutora Lilian, Ivan e Roberta eram como pão e manteiga, uma combinação óbvia e prática, bem ao alcance de sua influência enérgica. Sabia que o luto de Roberta ia passar um dia e, entendia, seu papel como psicóloga era acelerar a cadência dessa marcha natural. Roberta acabou aceitando sair com Ivan por conta da insistência dela. 

Para Roberta, grávida, era oportuno ter um homem com quem contar. Assim como fora oportuno casar-se antes de perder a avó, a única família que lhe restara já que com o pai nunca pudera contar. Além disso, Ivan era uma companhia agradável.  

Por motivos pragmáticos, acolheu, mesmo com certo desconforto, a proposta dele de morarem juntos na casa dela. Entrava no oitavo mês de gravidez, a barriga disforme entre eles, quando juntaram os chinelos.  O estranhamento inicial harmonizou-se assim que Bia nasceu, como se a menina fosse a peça que faltava para o sucesso do lego existencial que montavam, ao menos na opinião dela.

A doutora Lilian vibrava à distância. Após o nascimento de Bia, os dois já não frequentavam o consultório, mas Roberta mandava notícias, prometendo visitá-la assim que pudesse.

Bia já havia completado cinco meses quando essa visita aconteceu. O casamento nessa altura já dava sinais de que azedava. Foi a terapeuta quem recomendou mudarem de ambiente por uns dias sugerindo uma viagem curta de férias. 

 

É claro que encontrei uma porrada de coisas suspeitas nos perfis de twitter, facebook, instagram da Roberta. Deu um pouquinho de trabalho, mas também fucei o whatsapp dela. O e-mail foi a parte fácil, ela usava uma senha bem idiota. 

Atravessava madrugadas obcecado em descobrir alguém que pudesse ser o pai da Bia, provavelmente o mesmo cara com quem ela me traía agora. A privação de sono afundava minhas olheiras e embaçava minha sanidade.  Achei vários candidatos.

Desencavei coisas antigas, a Roberta não excluía nada. Flerte com conhecidos da juventude, com colegas de trabalho, um costume de espalhar charme gratuitamente, típico de mulher vadia. Uma coisa saltava à vista: a quantidade de seguidores homens nas redes sociais dela era muito, mas muito mesmo, maior que a de mulheres. Só isso já me embrulhava o estômago. 

Mas o mais bizarro mesmo foram umas imagens que encontrei remexendo o computador dela. Fotos sensuais, ela posando com uma gata. Só de calcinha, a gata pela frente, entre as pernas, uma medalhinha cor-de-rosa no pescoço, a linguinha encostada no mamilo dela. Ou então nua com um lençol cobrindo a perereca, a boca entreaberta, a gata roçando a barriga, as coxas dela. Explorei as fotos uma a uma, a garganta seca, o pau duro, receoso de encontrar alguma coisa ainda mais perversa.   

Aquilo me abalou, jamais conseguiria olhar para a Roberta da mesma forma. Dali para sempre, entre nós haveria sempre a sombra daquela gata.    

 

Roberta escolheu uma casa na serra, Bia ainda era muito pequena para uma temporada na praia.  Ivan não demonstrou grande entusiasmo com a viagem, mas não se opôs. Não saberiam dizer quem sugeriu que viajassem em dois carros, mas foi dessa forma que partiram em uma manhã sem sol. No de Roberta, os incontáveis apetrechos de bebê enchendo a mala e o banco de trás; no de Ivan, além dos objetos pessoais, o notebook em cujo drive ele armazenava criteriosamente tudo que havia coletado sobre o passado de Roberta. 

 

Só aceitei viajar porque calculei que a Roberta não iria sozinha. A casa é isolada; a estrada, muito sinuosa. Apesar de tudo, me preocupo com ela.

Nosso relacionamento está cada vez mais complicado. Ultimamente comecei a suspeitar inclusive que ela possa ter assassinado o marido empurrando-o penhasco abaixo. A história de ela ter demorado a chamar a polícia por causa de ter bebido uma garrafa inteira de vinho nunca me convenceu. Comigo ela mal consegue beber duas taças! É muito angustiante imaginar que a mulher com quem você vive é capaz de cometer uma coisa dessas. 

 

A conversa entre os dois acabou acontecendo em uma noite fria e chuvosa. Bia dormia no andar de cima, os dois haviam acabado de jantar, Roberta bebera menos do que suas duas habituais taças de vinho; Ivan, o restante da garrafa, o suficiente para destravá-lo além do que seria conveniente de seus receios em confrontá-la. 

Roberta constrangeu-se menos com as indagações sobre sua conduta do que com a invasão abusiva de sua privacidade.

— Isso foi antes de eu casar, nem conhecia o Pedro. Não fazia ideia que essa bobagem ainda estava salva… — explicou, ainda calmamente.

— Coisa de rede social, não tenho nada, nunca tive, com nenhum desses caras! — a voz dois tons acima, a paciência perto de se esgotar. 

Quando ele mostrou na tela do notebook as fotos dela com Troia, Roberta finalmente compreendeu o absurdo daquela conversa. Horror – constrangimento e asco misturados — além de tristeza antecipada. Depois daquilo nada mais seria possível, nenhum tipo de relacionamento restaria daquele desastre. Ainda se deu o trabalho de explicar — a voz interrompida pelos soluços — que as fotos haviam sido feitas por ela mesma usando um tripé, na intimidade do seu quarto, com sua gata de estimação, experimentando o que aprendera nas aulas de fotografia, nunca as havia mostrado a ninguém. 

— Você é louco… — sussurrou por fim numa voz inexistente para o homem de olhos fundos e transtornados em que Ivan havia se transformado.

Subiu as escadas e se trancou no quarto onde Beatriz ronronava alheia à confusão no andar de baixo. Enxugou as lágrimas, abraçou-a por trás e afagou com delicadeza sua cabeça, os pelos finos arrepiando-se ao contato com seus dedos mornos. A menina virou-se encostando a ponta do nariz gelado em sua face ainda transtornada pelo choro e ela foi aos poucos se aquietando. 

Não demorou muito, ouviu Ivan arrancar com o carro. 

A doutora Lilian soube do acidente no dia seguinte por uma prima de Ivan, sua paciente também. A mulher enviou-lhe uma mensagem comunicando que ele havia falecido e Roberta estava internada em choque. Em seguida à mensagem, uma foto do carro no fundo de um despenhadeiro, completamente destruído, cercado pela mata. No canto da imagem ampliada com a ponta dos dedos, entre os galhos partidos, uma gata, o dorso cinzento, o abdômen e as patas muito alvas.

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.