EntreContos

Detox Literário.

A Casa de Adelle (Samuel Serran)

 

Chegando a casa de Adelle, mamãe dizia algumas vezes ‘Urru, Adeeelle! Urru!’, e o papagaio de Adelle repetia ‘Urrrrrru, Adéééllééé! Adéééllééé! Adéééllééé!’, balançando-se no poleiro, levantando e abaixando a cabecinha, querendo mostrar as novidades que chegavam. Parecia uma folha ao vento, presa ao poleiro, descendo e subindo. Adelle chegava, dava a ele um pouco de sementes de girassol e vinha nos receber: ‘Rosalie! Samuel, querido!’. Falava isso com alegria toda semana, como se ficáramos longe dela por um longo tempo, mostrando uma surpresa tão acolhedora que nos fazia acreditar que aquela semana fora feita de muitos anos.

Ouvir o papagaio de Adelle falar tão corretamente deixava-me radiante: as aves nos entendiam, embora o papagaio de Adelle nos confundisse com tão poucas palavras. ‘Ele não fala, Samuel, só repete o que ouve…’, mamãe simplificava. Mas que desoladora verdade seria aquela? Negava-me a acreditar em algo tão absurdo: era óbvio que o papagaio de Adelle falava, e falava certinho, carregando nos erres e alongando as consoantes como um estrangeiro que não aprendera de todo a nossa língua… mas entendia tudo.

 

A casa de Adelle era um lugar pacificado pela ausência dos cuidados que desorientam o descanso, pois como garantir que aquele vaso, com aquela planta, naquele específico dia e lugar, não gostaria de ali permanecer, imóvel, tomando o ar, a luz, a sombra que o fazia sentir-se o mais belo vaso com a mais bela begônia do mundo? Por isso continuavam ali, quietos, vaso e begônia, até que demonstrassem alguma desordem: uma folha murcha, uma flor apequenada, um caule enfraquecido. Então, sim, seria hora de os mover em direção a outro sol, outro ar, outra sombra, uma nova umidade feita do pó fino das águas, outro conjunto de cheiros, talvez doces, talvez azedos.

Na casa de Adelle a natureza reinava tranquila, sem podas, plantios regulares, mobilidades excessivas de vasos ou ajustes estéticos; no máximo havia as habilidades de uma colher de jardineiro que afastava galhos e folhas caídas que dificultavam caminhar pelos jardins. 

 

Adelle adorava gatos e tivera um deles, um grande gato siamês, em tudo arredio. Ela o chamava de senhor Morse, pois ele tinha o hábito de antecipar sinais quando se preparava para fazer algum malfeito, tal como roubar comida ou destruir algo de Adelle. Um gato grande que se afeiçoara aos ambientes, que foi ficando, engordando, ocupando lugares, tornando-os seus, sobre poltronas, sofás, que foram sendo derrotados por unhas longas e afiadas. 

Adelle se desfez do senhor Morse quando seu papagaio chegou, vindo a cair bem diante da sua porta, ferido quase de morte e com uma asa partida. Adelle tentou por algum tempo a convivência pacífica entre ambos, que viu ser impossível quando percebeu no felino um olhar selvagem. Não soube se por ciúmes ou decorrente do seu instinto caçador.

 

As leis da permanência eram praticadas na casa de Adelle com extremo rigor. Tudo ali era quase intocado, livre para cumprir o destino de crescer, florescer, frutificar, lançar sementes e então morrer. Mas poucas coisas morriam sob os cuidados de Adelle: seu quintal tornara-se um grande pomar, um bosque de muitas cores e odores, todos duradouros.

As únicas coisas capazes de a incomodar eram as formigas. ‘Malditas formigas! Devo comprar um tamanduá, Rosalie?’, dizia ela à mamãe. ‘Será que posso comprar um tamanduá e deixá-lo no quintal comendo essas formigas?’. 

Quando Adelle falava das formigas, tudo crescia, se avolumava, perdia a real proporção. Elas ficavam enormes, com presas que decepariam dedos, tribais e determinadas a arruinar tudo com seus longos túneis, derrubando plantas, desequilibrando árvores ao construírem pelo quintal enormes fossos e castelos de terra que cresciam assemelhados às construções de Gaudí: pontudas, terrosas e indecifráveis, que atingiam mais de metro em poucos dias.

Algumas vezes chegamos a casa de Adelle, e lá estava o homem do fole disparando golfadas de ar quente com arsênico pelos túneis das formigas. 

‘Formigas infernais, Rosalie; destroem tudo…’.

‘Não faça caso, Adelle…’, dizia mamãe.

‘Elas arruínam tudo, acabam com tudo…’

O exterminador de formigas se chamava Castúnio Aparício. Homem pequeno, socado, pele morena e débil azulamento nas mãos calosas. Tinha a aparência de alguém saído de um passado profano para cumprir uma tarefa de morte. Alheio e imune, era focado na sina de exterminar, imerso em nuvens de fumaça quente saídas do seu fole. 

Por algum tempo ficávamos vendo suas perícias: um pouco de arsênico, um punhado de carvões em brasa e a mais absoluta disposição para fazer a sanfona de couro do fole despejar fumaça e veneno pelos labirintos das formigas, que como gêiseres, fazia emergir longe uma fumaça branco-azulada revelando as habilidades das formigas em construir túneis intermináveis.

‘Veja, Rosalie…’

 

Ao chegar a casa de Adelle, íamos beirando uma cerca de sebe até atingir sua varanda, na parte de trás. Estagiávamos na cozinha e só então, depois de uma fatia de bolo com chá de flores de laranjeira, estávamos prontos para o acolhimento em seus sofás, submersos em conversas amenas e silêncios sonolentos acompanhados pelo tiquetaquear de um relógio na parede.

‘Conhece esse ponto, Rosalie?’

‘Creio que não, Adelle’, dizia mamãe com duvidoso interesse.

‘Primeira carreira e as ímpares: um ponto tricô, uma laçada em tricô, dois pontos em tricô terminando com um ponto tricô. Não é fácil?’, certificava Adelle, surpresa por mamãe desconhecer aquele ponto.

Mamãe nunca foi mulher de trabalhos manuais, dedicava-se apenas àqueles que tiravam de suas mãos a música que amava. Seus dedos não iam às plantas, aos vasos, à terra, plantios ou podas. Seus dedos haviam sido doados às teclas do seu piano, à Música de Câmara. Unhas sempre aparadas em dedos longos e fortes, que como galhos vigorosos, deixavam o tronco rosado de sua palma e corriam ao timbre das notas musicais. 

De Adelle mamãe gostava da presença, das conversas amenas, dos silêncios permitidos pelo amor que tinham uma pela outra, da serenidade da vida doméstica que sentia em sua casa. Gostava de ouvir e dizer coisas despidas de orgulhos ou interesses oblíquos. Atavam-se pela sensível linha harmoniosa da convivência que sobrevivera à infância e à adolescência, e se fortificara na maturidade. O amor de mamãe por Adelle e sua casa, desfazia a ideia de que a intimidade é um caminho que leva ao tédio dos silêncios, pois era nesses silêncios que ambas teciam seus afetos.

Nunca ouvi qualquer conversa entre mamãe e Adelle em que houvesse algum desvalor, rusgas, ínfimas que fossem, intrigas que amuassem, onde o tempo cumpria apenas o destino de conceder e cobrar. Vizinhos nunca eram rivais, e nada ruim diziam do moço das entregas, da louca que gritava pelas ruas, dos sons que vinham de longe anunciando uma tempestade, da chuva pesada que chegava, dos inclementes sóis de todos os dias, de uma morte anunciada, de um inesperado nascimento, de uma alegria intempestiva, das tristezas, que nunca seriam merecidas: tudo era parte da simples e sublime urdidura do tempo: vida, fazer e espera. O Tempo.

Sentados na sala de Adelle o mundo parecia girar bem mais devagar. 

 

Dizem que idosos são como crianças, e isto se manifestava profundamente na casa de Adelle. Gertrudes Abramov, sua mãe, estava definitivamente imune à corrosão do tempo: eu acreditava que ela havia passado dos cem, talvez duzentos anos… Mantinha-se atenta quando podia, quase sempre calada como eu. Dávamos sorrisos quando de nós diziam algo sobre os extremos de nossas idades. Eu, muito criança; Gertrudes, muito idosa; direções opostas sobre a mesma linha: o Tempo, novamente. 

Gertrudes se reduzira, minguara, como se lhe evaporassem excessos do corpo, deixando nela apenas o que lhe cabia em essência: seca, encovada, com seus sapatinhos de tricô em pés que quase não tocavam o chão, avental branco, lenço escondendo o raleamento dos cabelos. Gostava de concordar e sorrir balançando a cabeça em sinal de presença entre nós. ‘Não é mesmo, mamãe?’, dizia Adelle, querendo certificar-se de que Gertrudes vivia, muitas vezes despertando-a de sonos imprescindíveis.

A casa de Adelle era o lugar onde a água, a terra, o fogo, o ar, o tempo, enfim, tinham por desejo preservar e não destruir. O tempo passava devagar, apenas arranhando a tessitura das coisas: os vasos, as plantas, as pessoas que ali moravam, sem incomodá-los em sua doce e eterna passividade. 

 

Nunca soube se Adelle algum dia havia trabalhado, deixado a casa para uma vida de urgências, dinheiro, negócios. Cumpria uma rotina amena cuidando da mãe, do papagaio, dos jardins, atenta para que não faltassem os alimentos, as sementes de girassol, o anil em pedra e o sabão em barra. 

Adelle tinha a aparência contida de uma mulher que não conhecera o sexo e manifestava uma mansa docilidade por nunca lhe haver sublevado o desejo de o conhecer. Gostava de estar com o seu avental branco protegendo a saia florida, o lenço por sobre os cabelos e os sapatos de cano alto para transitar pelos jardins distribuindo sementes ou dando diretrizes em voz suave para que as plantas cumprissem seu destino de floração, frutificação e semeadura. A vida na casa de Adelle começava pela manhã e terminava ao anoitecer quantas vezes isto lhe fosse destinado pelo acaso ou pelas necessidades do mundo.

Seus jardins chamavam aos passeios antes de nossas visitas terminarem, e as despedidas eram entre flores ou sob caramanchões, quando as conversas se estendiam a cada uma das plantas, novas e antigas, onde víamos flores transformadas pelas regas e pelo húmus abundante: uma semente que vingou quando não era esperado. Isto era surpreendente. 

Ficávamos maravilhados diante de tanta beleza: uma crista-de-galo com franjas purpúreas, uma crista-plumosa que floresceu antecipadamente, gerânios, avencas, jacintos, hibiscos, prímulas azuis, um grande vaso de onze-horas, um ipê amarelo que floria colorindo o chão com suas flores caídas, as caliandras, as buganvílias, o perfume deixado por uma florida dama-da-noite. 

Mamãe sempre deixava a casa de Adelle com algumas novas mudas de plantas para logo as descobrir, em nossa casa, anêmicas, carentes de muita rega ou pouca água, de extremo sol ou sombra densa; quase mortas, a despeito de seus inábeis cuidados. Então, ela as levava de volta aos jardins de Adelle para que lá renascessem sob suas urgências de indiferentes cuidados. Adelle as olhava por um curto instante e as colocava em suas câmaras de restauração: à sombra de um arbusto ou a pleno sol. Era o que bastava.

 

‘Rosalie, veja estes bulbos, não são perfeitos?’

‘Batatas, Adelle, são batatas…’

‘Ó, Rosalie, não os insulte… Não são lindos?, tão peludinhos… parecem bichinhos…’

Os toques de Adelle faziam as plantas despertarem à vida. Ainda que frágeis, reagiam como se amparadas em um leito, oxigenadas, mimadas, observadas as pulsações, até que seus bulbos, raízes, caules e cílios se agarrassem à terra fazendo-as despertar, criar galhos, folhas, florir e voltar a viver. 

Mamãe compensava seus desacertos com as plantas levando de presente para Adelle alguns livros, sempre de Eça, Garrett ou Raul Brandão. Creio que deste último Adelle gostasse muito do rosto bonito onde havia um enorme bigode negro. Em sua sala havia uma fotografia de Raul Brandão com um texto que depois encontrei em Húmus, dizendo: O tempo era limitado, a paciência pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura séculos ninguém espera um minuto

 

A cozinha de Adelle era pacificada pela ausência dos excessos de zelo, e tantas frutas chegavam às fruteiras que muitas apodreciam deixando no ar cheiros difusos, às vezes frescos e doces, às vezes azedos e pungentes. O que mais me encantava eram as favas de urucum, que eram como frutos peludos que por vezes eu confundia com lagartas peludas de fogo prontas para um susto se delas eu me aproximasse. 

Enquanto a visitávamos, por vezes, eu empreendia pela casa um passeio de descobertas: o fole de matar formigas de seu Castúnio parecia uma enorme perna de pau de pirata, as pencas formadas por quatro garrafas, que penduradas em cada uma das janelas e portas eram vigias contra intrusos, pareciam cachos de frutas que nasciam em árvores que davam pomos de vidro. Ao lado do papagaio havia uma estante que dizia das leituras de Adelle: Lolita, O Coração das Trevas, A Montanha Mágica e livros de Eça, Garrett e Raul Brandão. 

Em seu banheiro eu sentia uma enorme alegria quando podia admirar aquele grande aquário onde tartarugas conviviam com acarás, golfinhos, anêmonas, algas, e peixes-leão, todos em harmonia flutuando perpetuamente no plástico da cortina do box do chuveiro. Olhava cada um daqueles animaizinhos flutuando no azul de um mar profundo e paralisado, sentindo o cheiro do sabonete Cashmere Bouquet. Creio que com tudo isso construía minhas memórias permanentes.

 

Papai havia retornado de Portugal, e a pedido de mamãe, trouxera uma coleção em três volumes das obras de Eça de Queiroz saída pela Lello. Eram livros bonitos de capa marrom que mamãe acreditava seriam um bom presente para Adelle. Ela os acomodou numa caixa de papelão, cobriu-a com papel com desenhos de hibiscos vermelhos, e, sobre tudo, pôs uma fita de cetim. Era uma forma de compensar suas frustrações com as plantas que ganhava e não sabia cuidar. Só então fomos até sua casa buscando surpreendê-la. 

Naquele dia a manhã parecia tomada por estranhas urgências; ventava um ar apressado, arredio e incômodo, como se pressagiasse irreconciliáveis desordens. A casa silenciosa como sempre, agora parecia transformada em saudades, lembranças, odores adocicados, frutas apodrecidas. Cruzamos todo o trajeto com mamãe segurado afetuosamente em seus braços a caixa com os livros até chegarmos à varanda. 

‘Urru!, Adeeelleee! Urru!’, mamãe disse algumas vezes.

O papagaio de Adelle manteve-se quieto. Tinha diante de si uma caixinha de sementes de girassol e um grande recipiente com água limpa, ambos novos ali. Mamãe chamava por Adelle e o silêncio se perpetuava. Na cozinha havia um nauseante cheiro azedo que beirava à morrinha de coisas apodrecidas. 

Mamãe caminhou pela casa chamando por Adelle enquanto eu percorria com os olhos os cachos de pomos de vidro, a perna de pau do pirata, os armários antigos, as canecas de ágata, o fogão, o bule de café passado sobre a pia sempre arrumada. 

Pude ouvir um grito quando mamãe se deu conta de que Adelle estava morta ao lado da mãe, Gertrudes Abramov, que morrera também, talvez quatro ou cinco dias antes de Adelle.

Sobre a mesinha da sala ainda estava o chá de flores de laranjeira que tomara, alguns biscoitos e balas de alcaçuz, um açucareiro, uma xícara e o frasco de arsênico usado por Castúnio Aparício para exterminar as malditas formigas com seu fole.

 

Como Adelle viveu os dias ao lado da mãe sabendo-a morta, com seus sapatinhos de crochê que quase não tocavam o chão? A saudade, a solidão prenunciada, a perda definitiva. Esquecer para sempre tudo aquilo? Talvez tenha compreendido que a vida não é um caminho de solidão, mas de amor e companhia. Adelle havia pesado suas chances, talvez após tocar em Gertrudes já morta e não poder transferir a ela a força que dava aos bulbos, aos caules, às raízes, fazendo com que Gertrudes brotasse e florisse como havia florido por tantos anos. Creio que foi quando Adelle soube que não seria capaz daquele simples milagre.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.