EntreContos

Detox Literário.

A Caça (safado-de-uma-perna-só)

 

O barco estava quase pronto. Em outras terras só faltaria por um nome e mandar para a água, mas não ali. Ali faltava o mais importante. Haveria uma caçada, e se ela fosse bem-sucedida aquele barco tocaria as águas do Amazonas. 

O fim da tarde pintava de vermelho as águas do rio, abrindo caminho para a noite sem Lua. A ausência de luz ajuda a localizar a caça, mas o verdadeiro trabalho vem depois disso. Dois homens guardavam as ferramentas, mas apenas um sairia naquela noite. O barco era de Caio, e é o dono do barco que deve caçar. 

— Já separou as armas, fio? — Perguntou o mais velho. Seu João, homem experiente, já teve dezenas de barcos, e já passou dezenas daquelas noites na floresta. Um sobrevivente sem igual. 

— Já sim, tio. Afiadas igual dente de piranha. 

— E a pinga?

— Tá aqui. E o fumo também. 

— Só falta o cipó enrolado.

Caio riu. Não sabia se deveria ou não responder Tio João. Afinal, ele era o veterano ali, grande pescador, grande construtor, por consequência grande caçador. Mas Caio, um jovem moderno daqueles que estudou na cidade grande e por algum amor a terra voltou pra seguir pescando nas águas do Amazonas, tinha dificuldade em aceitar certas superstições. Ao menos parte delas. A modernidade, que não fez com que ele abandonasse a tradição, também fazia com que o rapaz prestasse atenção nos fatos. Os três últimos pescadores que entraram na floresta levando novelos de cipó não voltaram. Quando se caça algo conhecido por sua curiosidade, não faz sentido levar sempre a mesma novidade. 

Um instante pra pensar e Caio se calou sobre o assunto. 

— Vou providenciar antes de ir, Tio. 

— É sua primeira caçada, e espero que não seja a última.

— Deus te ouça.

— Deus não, que Deus não se mete nesses assuntos. Aqui no mato são outros poderes. O que importa é você estar preparado.

Não estava. Mas nunca estamos prontos pra fazer o que tem que ser feito. O que nos resta é agir da melhor forma possível, aprender com os erros e seguir em frente. Neste caso, com os erros dos outros, já que ninguém volta sem a caça.

 Entrou na mata densa, na noite sem lua, no desconhecido, sabendo o que fazer: vagar pela floresta, fora das trilhas demarcadas, tentando fazer o melhor para se perder. Dessa forma, segundo dizem, ele o encontraria. Depois disso era o processo, a caçada em si, a disputa. Controlar e dominar, lhe disse tio João. Controlar e dominar o que? Ninguém dizia. Ninguém fala sobre a caçada que fez e sobreviveu, as orientações são sempre vagas. 

Caio não tinha um relógio nem contava seus passos. Fez o melhor que pode pra se perder ouvindo a floresta cantar a noite. Gritos e sussurros de toda a vida que ali se movia na sua dinâmica cotidiana. 

Um brilho distante foi o sinal. Caio o segui ficando cada vez mais perdido. Um brilho tremeluzente, dançante, saltitante. O brilho do fogo. Seguiu com cautela. Se aproximando cada vez mais, tentando não ser visto. O brilho parou e Caio avançou, devagar e tentando não fazer barulho. O brilho aumentava, tomando conta da noite.

De perto, os cabelos de fogo da criatura eram ofuscantes. A noite se tornava dia ao seu redor. Um dia claro e quente de verão. Caio olhou para os cabelos, como pode, e para os pés, as duas marcas mais conhecidas da sua caça.

— Você não é um curupira! — Gritou Caio. 

A criatura se virou num salto, com olhos curiosos escaneando Caio. 

— Claro que não! sou O Curupira. — Disse O Curupira. Sua voz parecia o som da mil animais noturnos tentando se comunicar na escuridão. Se a Amazônia tivesse uma voz, seria aquela. 

— Mas seus pés. — Caio constatava o óbvio. Tirando o incêndio que fazia as vezes de cabelo, esvoaçante como em queda livre, o Curupira era como um menino comum, talvez doze ou treze anos. Pintura vermelha sobre a pele acobreada. Nada dos detalhes mais assustadores sobre aquele que Caio deveria assassinar. Sim, agora parecia mais assassinato do que caçada. 

Vocês são engraçados. Encontram no meio do mato um cara com fogo no lugar de cabelos, e tudo que conseguem pensar é que os pés não são como vocês imaginavam. Se eu tivesse que fazer sentido, eu nem existia. Vocês têm dificuldade de entender essas coisas. Falando nisso, como você me achou?

Caio apontou para o próprio cabelo, um tanto confuso com toda aquela conversa.

—Ah sim, isso! Aquele safado-de-uma-perna não me passa o contato de quem faz os gorros dele, aí fico por aí com uma tocha na cabeça. — O Curupira ajeitou as madeixas flamejantes, dando um nó e fazendo um coque impossível. — De que adianta despistar as pegadas, fazer as folhas fecharem minha trilha, fazer os animais tocarem quem me caça, não é mesmo? — Ele riu. Seu riso era um coral de pássaros em época de acasalamento. 

Depois do riso, o silêncio.

O silêncio já estava ali, mas só então Caio o notou, em contraste com um riso que ocupava os espaços. Era o silêncio que a floresta faz quando há algum predador à espreita. Caio já não tinha tanta certeza sobre quem era a caça naquela situação. 

— E então, o que você veio fazer aqui? — perguntou o Curupira.  

Houve um grito no meio da noite. Um som estridente, um grito de horror. O canto de um pássaro conhecido por pressagiar tragédias. 

Quando Caio voltou a olhar para a frente, a noite já estava de volta, escura como graúna. 

—Droga!

Caio seguiu noite a dentro. Respeitava a tradição, mas na comunidade se falava de um pequeno monstro devorador de crianças. Não uma criança, exceto pelo que poderíamos chamar de cabeça quente, comum. 

Caio pensava na imagem que viu. Visagem, como alguns diziam, agora fazia sentido. Teve medo de não conseguir cumprir sua sina. Nunca havia matado sozinho. Uma vez ajudou o pai e os tios a caçar uma onça que rondava a comunidade. Ouviu tiros e rugidos, mas não ficou pra ver o corpo. Noutra vez, quando o cachorro da vizinha o mordeu, seu pai ofereceu a espingarda e o cão amarrado.

— Tem que mostrar pra eles quem manda!

Caio não conseguiu. O cachorro tinha olhos que imploravam pela vida, e a mordida no braço, apesar de ter doído, não causou o ódio que havia nos olhos do pai. Vagando na noite lembrava dele, que sempre lhe disse o quanto o achava fraco e mole. Enquanto estava estudando, nas poucas vezes que conversaram, ele fazia questão de lembra-lo do que pensava. 

A ida pra cidade grande só piorou a visão do pai sobre Caio. Construir o barco, caçar sua carranca, pescar como o avô fazia era também uma forma de Caio mostrar para ele que não era fraco e mole. Fraco e mole talvez fosse seu pai, que criava gado e nunca teve coragem de enfrentar a mata escura e a fúria das águas. 

Mas no meio da floresta, no escuro, Caio duvidava.

Parou. Reparou em dois pontos brilhantes, poucos metros a sua frente. Fumaça e o brilho alaranjado da brasa começaram assurgir.

— Merda! — Disse o curupira, tirando da cabeça uma panela de ferro, com o topo já vermelho e dois furos no lugar dos olhos. — Tá vendo! Sem um gorro igual ao do Saci eu não consigo me esconder, nem com esse gorro de ferro que me deram eu consigo. Ele também queima.

Havia frustração na voz do Curupira, mas também outra coisa. 

Caio não falou. Não havia o que dizer. 

— Você veio me matar? 

Caio desviou o olhar. Se lembrou do cachorro da vizinha, que morreu mesmo Caio tendo escolhido não matar. Seu pai fez “o que era preciso”.

— Já não sei mais o que vim fazer aqui, me contaram…

Curupira já não estava mais ali. 

—Diabo!

A noite estava de volta. O breu, as estrelas, a ausência da lua. E o silêncio. Intenso, uma personagem a mais na nossa história. Um silêncio que ocupa espaços, faz da ausência de som sua presença. Cada passo de Caio soava para ele como os fogos de Copacabana. Um estrondo de folhas amassadas e galhos quebrados. Não poderia seguir sua presa sem ser notado. O Silêncio não permitiria. 

Foi quando correu. Não poderia se esgueirar, logo correr seria a saída. Galhos arranhando o rosto, a floresta iluminada pelas estrelas se transformando em um borrão pouco uniforme. Correu esperando que, ao invés de rastrear sua presa essa o encontrasse. Se ele realmente encontrava aqueles perdidos nas matas, Caio daria tudo de si, se perdendo por completo.

Correu por séculos. 

Funcionou.

A corrida foi interrompida. Caio não soube bem pelo que, só sentiu as pernas se atrapalharem debaixo de si e o impacto macio do chão da floresta nas suas costas. Rolou por uma pequena clareira, coisa rara nessas terras, e quando parou era dia novamente. O Curupira, parado no alto de um galho, rindo. Seu sorriso também era fogo, assim como os olhos. Fogo antigo, que não pode ser apagado. 

—Já ia embora?

— Não — respondeu Caio levantando. Viu que por poucos centímetros não atingiu o que sobrou de uma arvore cortada, um toco ainda com as raízes cravadas na terra, lutando, se segurando ao chão onde cresceu. Se sentou ali.

— Só corri pra você me achar. 

O Curupira riu alto e desapareceu, surgindo atrás de Caio, que podia sentir o calor, mesmo o Curupira estando a uma boa distância, muito longe do seu alcance. 

— O que você quer?

— Já não sei mais. 

— O que veio buscar? 

— Uma carranca pra meu barco. Um nome pra ele. Já não sei se consigo. 

— E como você conseguiria isso?

Caio pegou a pinga e o fumo. 

—Presentes! Não ache que vai me conquistar assim tão fácil, mas aceito. 

A garrafa e o saco plástico desapareceram das mãos de Caio. Ele não sentiu alguém os pegando, nem notou o Curupira saindo do lugar. A noite tirou os presentes de suas mãos. 

— Vamos! Se você quisesse só me agradar você teria deixado isso ai na entrada da mata, não entrado na mata. O que você quer?

Caio tirou o novelo de cipó da sua sacola. Ainda não arriscou pegar em armas. 

— Me caçar? É isso?

Caio concordou com a cabeça enquanto o Curupira ria. 

— E com um novelo de cipó? Na segunda vez que você pega um desses já não tem mais graça. 

—Eu sabia! — Havia tristeza e felicidade na voz de Caio. — Posso pelo menos tirar uma foto sua? — Caio sabia que quem falhava morria, mas na hora do desespero esquecemos das coisas importantes. 

— Não dá. Meu fogo queima isso, já trouxeram pra mim câmeras, nenhuma funcionou. 

— Não é uma dessas.

Havia alguma esperança, quem sabe, talvez.

Caio tirou o celular do bolso. Não era um modelo novo, mas dependendo de quem olhasse, poderia ser uma novidade. 

Os olhos do curupira se tornaram um par de jabuticabas, refletindo as estrelas, mas de um outro céu, estrelas nunca vistas por gente de carne, osso e ausência de mágica. 

— O que é isso?

— É uma ferramenta, é um brinquedo, é uma câmera, como as que você viu, mas sem filme, e serve pra falar com quem está muito longe, sem ter que gritar. 

— Telepatia? Humanos não fazem telepatia!

— Não é telepatia. Não sei explicar. Dá pra ver quem está do outro lado também, mas aqui isso não vai funcionar, não tem sinal, mas posso te mostrar a câmera. 

O Curupira sumiu, e voltou a aparecer na frente de Caio, tomando o telefone da sua mão. Virou de costas e se abaixou, tomado por completo pela sua novidade. Tocava na tela, aprendendo mais rápido que uma criança a navegar pelo sistema operacional da coisa. Caio admirou a beleza da cena, mas sacou suas facas da bolsa. 

Essa era a hora, o momento pelo qual buscou. O Curupira só poderia ser abatido enquanto distraído, caso contrário era sabido ser feito impossível. Caio mirou na cabeça de fogo, precisaria de toda sua forca num movimento preciso. A posição era perfeita. Deu mais um passo e hesitou. 

Entrou na floresta esperando encontrar um monstro, algum tipo de animal violento ou fera mágica. Mas encontrou um menino com cabelos de fogo, muito inteligente e curioso. Não era a mesma coisa. Matar pra comer, pra se defender, era até aceitável, mas isso era outra coisa. Era assassinato. Caio guardou suas armas e se virou pra partir.

— Parabéns. — Disse o curupira — Vou fazer sua …

O Curupira disse um nome. Soava parecido com carranca, mas era outra coisa, tinha sons que a boca humana não foi feita pra reproduzir. 

— Não entendo.

— Achei que você era esperto. Mate o Curupira e faça a sua Carranca. Não funciona assim, afinal, é a lenda Do Curupira, no singular. Eu sou um só desde a primeira vez que um humano veio me ver.  

— Então você faz as carrancas? 

— Para quem no meu teste. Os outros eu mato mesmo, essa parte é verdade. — O Curupira respondeu com toda a sua naturalidade e estendeu a mão para um tronco caído, já apodrecendo. Quando o tocou ele ganhou vida, suas cores se transformaram, os olhos, os dentes, o nariz, todos surgindo de dentro da madeira. Era grande, longa. Ele a levantou como se fosse feita de papel. Caio precisaria de toda a força de seus braços para levar a carranca até seus ombros. 

— Obrigado. 

— Só não conte a ninguém. Nosso segredo é parte do acordo. 

O Curupira se virou e desapareceu na mata escura. 

Caio amarrou a carranca nas costas e notou que não saberia pra onde ir. Toda aquela caçada, aquela corrida sem rumo. Estava de fato perdido. Talvez tivesse que esperar o sol nascer pra tentar se orientar. Então Caio ouviu a voz do Curupira, como se viesse da própria terra.

— Siga as brasas. 

Na sua frente surgiu uma trilha de pegadas. As folhas nelas estavam em brasa, brilhando vermelhas na noite. As pegadas estavam invertidas, como de alguém que tivesse partido da comunidade para dentro na mata. Ouviu a voz mais uma vez, a última:

— Houve uma cadela que foi assassinada. Chamava Luna. 

 

Quando Caio chegou na comunidade o dia já se preparava pra amanhecer. Tio João o esperava sentando num toco perto do barco. 

— Muito bom. 

Ele se levantou e foi ajudar caio a instalar a carranca em seu lugar derradeiro. 

— Tio João, só estamos nós aqui. Será que posso falar do que aconteceu lá?

Tio João baforou seu cachimbo, pensativo. 

— É um trato, e um símbolo. Os outros espíritos sabem que a carranca é dele, e nos deixam em paz. Alguns fazem os peixes chegarem mais perto, outros fazem o vento soprar a favor e outros evitam as tempestades. É um acordo que não deve ser quebrado falando dele por aí. 

— Não se fala como matar um curupira. 

— Isso. 

Com a carranca no lugar, tendo pintado um nome na proa que ainda não havia secado, e ainda sem dormir, Caio saiu e pescou pela primeira vez no barco chamado Luna.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.