EntreContos

Detox Literário.

Vigilância (Ford)

 

Diante do caos, qualquer pessoa tratará de tentar encontrar ali alguma ordem, traço inconfundivelmente humano. Era assim para Henrique Fontes e havia mais de uma forma de encarar a ordem que criara. Olhos fechados, daquela vez ele escolhera escutá-la: o contato dos uniformes com a pele, o suspirar de cansaço e o fôlego puxado pelos que levantavam peso, além das ocasionais conversas cochichadas, ritmadas pelo olhar severo do gerente. Ouvidos atentos encontrariam no meio disso tudo uma constante, sua obra prima, maestrina daquela orquestra: a linha de montagem, deslizando suavemente, a servir a gradual construção dos produtos da fábrica.

Abrir os olhos não trouxe nenhuma revelação. Ele já sabia onde tudo estava, cada peça em seu lugar, cada um dos operários alocados à sua tarefa específica, a contribuição de cada um contabilizada por eles por minuto e, pelos contratantes das Indústrias Fontes, por drones de artilharia. Resguardado atrás da cabine da administração, nenhum dos trabalhadores sabiam da sua presença e era justamente nesse fato que estava o admirável: não importava. Todo o trabalho era extraído em seu completo potencial e nenhum deles ousaria se desviar maior tempo de sua labuta do que já calculado. Não existe aproveitamento completo, mas existe o máximo.

Entre ele e a janela, um painel repleto de monitores possibilitava a vigília sobre cada trabalhador individualmente, mas aquilo era para a gerência. A Henrique Fontes animava apenas o panorama. Quase se assustou ao chamado do general. Apesar da irritação, dirigiu-lhe o típico sorriso que dizia: o cliente tem sempre razão.

─ Em que posso ajudá-lo, general?

O militar ostentava uma prancheta e a apatia burocrática de um funcionário estatal. Sentaram, Henrique munido de seu sorriso empresarial.

─ Não confunda a nossa preocupação por insatisfação, senhor Fontes, mas…

─ São as fábricas nordestinas, não é? ─ Não deixou o prazer de vê-lo surpreso contaminar seu sorriso ─ É mesmo conveniente que me dirija respeito, afinal, a produção está de acordo com o especulado no contrato. Não é o meu lado que descompensa, mas o seu. ─ Inclinou-se um pouco para frente, como se fosse partilhar um segredo. ─ A guerra não vai tão bem, não é? Não temos como produzir drones para substituir todos os soldados e estes, infelizmente, morrem. Ora, produzíssemos drones o suficiente para vencer a guerra, seriam meus trabalhadores que morreriam. ─ Uma risada curta e aguda o devolveu ao encosto da cadeira e só o visível desconforto do general a fez genuína. ─ Mas o problema mesmo é o método… é só pedir, general, a V-35 reduziria aquele planetinha à poeira estrelar.

─ Existem tratados diplomáticos, senhor.

─ Certo, querem mais drones, não é? É possível. Basta aumentar as horas de trabalho, um pouco da remuneração, e o governo deixar a comida entrar. ─ Um tapinha na perna. ─ Deixar o monstro da inflação fora de casa, não é? 

─ Os trabalhadores não…

─ O quê?

─ Eles não poderiam… reagir?

Foi a vez de Henrique Fontes de se surpreender.

─ Não, jamais! Afinal, eu só elevaria as horas de trabalho nas fábricas-colônias, o que já atenderia à sua demanda.

─ E o que tem a ver?

Não queria provocar o general, mas era evidente que o militar já passara a fantasiar com a possibilidade de esganá-lo desde que Henrique mostrou seu conhecimento sobre os rumos da guerra, então não poupou o tom professoral em seu discurso.

─ As fábricas-colônias são de outra ordem, general. Os operários destas residem nas vilas operárias, construídas apenas para a sua residência. No entanto, existem restrições do contrato para que tenham a moradia: devem ser casados, não devem ingerir álcool, devem se submeter às mínimas dez horas de trabalho, parte do salário é para a manutenção dos parques, etecetera, etecetera… Tem que seguir toda a cartilha do bom trabalhador do século XXII.

─ Sim, já ouvi sobre os seus currais. ─ O general abandonara a polidez, para o seu divertimento.

─ Mas veja, se existe um contrato, é como qualquer outro negócio, e estou no meu direito de verificar se o acordo está sendo cumprido. ─ Apontou para os monitores, cujas telas alternavam entre os rostos cansados dos operários. O militar acompanhou com insolência, mas então entendeu, de boca aberta. ─ É comum que saiam da linha, sabe? Qualquer um, o presidente eleito e a puta da esquina, cumprem suas agendas na rua, são quem tem que ser… Mas é dentro de casa, entre as paredes sagradas do lar, que se acham seguros, onde podem ser eles mesmos. E nós temos leis contra esse tipo de autonomia, não temos? ─ Também abandonara a máscara. Seu sorriso era sinistro, pura malícia. ─ Conheço todas as casas das vilas operárias e todos que vivem nela. Conheço meus trabalhadores. ─ Batia com a ponta do indicador na têmpora, seus olhos reluziam num azul artificial. ─ Alguns perceberam, é claro, e tentaram avisar aos outros… Confesso que não me importei em procurar saber o que aconteceu a eles quando os encaminhei ao Ministério da Defesa. O ministro me retribuiu o favor ao não perguntar como eu soube o que eles planejavam. É esse tipo de paz nacional pela qual nós prezamos tanto quando estamos em guerra, não é?

A boca do general estava ainda mais aberta. Henrique Fontes de repente pareceu o mesmo empresário que o recebera minutos antes.

─ Então devo aumentar a produção em trinta por cento. Mais alguma coisa, general? 

─ Ah… perdão. Embora tenhamos plena confiança em sua administração, senhor Fontes, o alto escalão imaginou se não seria apropriado que visitasse as fábricas em que as horas seriam elevadas… para levantar a moral.

A proposta alargou o seu sorriso.

─ Um tour? Ótima ideia!

Aperto de mãos, tapinhas nas costas, Fontes dispensou o general. Agora se voltava ao painel de monitores. Sem precisar de nada mais do que um piscar de olhos – que ainda brilhavam daquele modo desnaturado – metade das telas se ocupou de um único operário. Era jovem, vigoroso, feições maduras, barba malfeita. A outra metade das telas exibiam a sua ficha, com o tipo sanguíneo, dados médicos, origem, idade… Ele era casado e é claro que a esposa também trabalhava em uma de suas filiais. Era tão jovem e bonita quanto ele. Dos olhos brilhantes ao cálculo frio e a maneira mecânica de falar, muitos que conheceram Henrique pessoalmente o chamaram de robô. A ereção que subia por debaixo da calça, no entanto, era completamente natural.

Também não precisou se mover para contatar o gerente lá embaixo, que o atendeu pelo fone auricular imediatamente.

─ Ao dispor.

─ Aquele trabalhador da fileira seis, posto quatro. Sim, aquele. Encaminhe-o à cabine, quero fazer uma proposta.

Enquanto o trabalhador subia para a cabine, Henrique já se esforçava para manter aparente a sua polidez patronal. Queria já ter prontas as palavras com as quais amaciaria aquele rapaz, mas outras conjeturas em sua mente eram mais persistentes. Estava longe de ser a primeira vez que brincava com operários e esse lazer já lhe custara alguns deles. Inventor que era, esforçava-se para que cada uma dessas ocasiões fosse uma novidade, mas Henrique já ostentava mais de uma centena de anos e ficava cada vez mais difícil de se surpreender. Já conseguia escutar os passos do rapaz e aquelas dúvidas permaneciam em sua mente. Era medo, outro traço inconfundivelmente humano.

Henrique recebeu o rapaz com um sorriso afável.

***

Os pequenos gestos fizeram falta naquela noite, mas Ângela foi paciente. Requentaram o almoço para o jantar e enquanto ela narrava seu dia no trabalho, ele apenas acenava com a cabeça. Ele nem sequer a olhava e também não a tocou antes de deixar a mesa. Tentavam a gravidez tinha alguns meses, desde que souberam que as Indústrias Fontes visavam instalar escolas nas vilas operárias, e aquela era uma das noites reservadas. Mas ocupavam as camas nas noites não reservadas, também. Não se seguravam.

Já bem tarde, a TV desligada, ele se sentava à beira da cama, ela vinha do banho. As gotículas d’água refletiam a luz que vazava pelas persianas, orientando os olhos brilhantes de seu marido pelo seu corpo nu, brilho que não era só reflexo, mas também desejo. Ele a tocou na cintura, deixou a mão escorregar pela nádega, provocativo beliscão. A mão voltou a passear, a outra a convidava pela cintura. Ângela estava entregue como sempre estivera e não se lembrava de já não ter estado. Ela fechara os olhos, cedera ao toque, ao calor, ao tremor. Arquejou quando ele lhe tocou na umidade entre as pernas, os dedos dela correram pelo crespo de seus cabelos… e a mão dele se afastou.

Não foi mero afastar, mas um movimento brusco, arrependido. Ele se vestiu tão rápido quanto se levantou e a deixou para trás. Ângela escutou a porta da frente bater. Seu corpo se retraíra, ela sentia frio e posicionava as mãos à frente do corpo como quem escondesse algo. Confusão, frustração, tristeza… a sucessão de infortúnios não tardou a alcançar a raiva. Sem nem mesmo se secar, vestiu-se e foi atrás dele.  

Ele caminhava a passos largos e duros, sem olhar para trás. Ela vinha o seguindo numa desvantagem de uns vinte metros, quis gritar, mas já sentindo os olhos dos vizinhos a acompanharem, aguardou que chegassem na praça.

Leandro, pare já!

O marido obedeceu e se voltou para ela, enfim olhando para trás. Os olhos brilhavam, mas eram lágrimas. Abraçou-o como se esquecida da ira que a acometera um minuto antes. Ele retribuiu, um abraço apertado bem-vindo numa noite fria que só agora ela começava a sentir, estremecendo. Pegou-o pela mão.

─ Vamos para casa conversar…

Mas ele resistiu ao convite. Balançou a cabeça, tão enfático que a assustou.

─ Não… eles estariam escutando.

Ela não precisou falar nada para que ele soubesse que ela não entendera. E então ele explicou.

De início, achara graça, mas pouco a pouco a convicção de Leandro foi a convencendo.

─ Lembra do Jorge? Lembra que ele e a esposa saíram do nada, sem aviso?

Ela se lembrava. Não gostava do sujeito, ele e o Leandro eram amigos e era esse Jorge que sempre dava um jeito de arranjar ou até fabricar bebida dentro da vila. Reunia os casais e bebiam às escondidas, fugidos dos síndicos que rondavam as casas. Ela desaprovava, mas Leandro gostava, então não falava nada… e agora Jorge tinha sumido. Mas não foi só ele. Ramon, Carlos, Margarida… todos foram movidos para outras filiais. É claro que Ângela levantara a possibilidade de ser coincidência, mas Leandro argumentara que quando Jorge contou de ter descoberto o monitoramento das casas, eram justamente os sumidos que estavam presentes.

Ângela percebia, então, aquilo que Leandro também entendera. Estavam sentados num quiosque, ela apertada contra o seu peito, cercada pelos seus braços. Soltou-se de repente. Olhou-o nos olhos, constatando que a mesma dor estava também nele.

─ Lê, isso significa que…

─ Que eles têm vigiado.

Ela puxou as roupas por cima do corpo como se pudesse se cobrir ainda mais, ele só baixou a cabeça. Ficaram assim por alguns minutos, até ela perguntar.

─ E agora?

O olhar do seu marido se tornou sombrio.

─ Eu soube que ele está fazendo um tour…

─ Ele quem?

─ Henrique Fontes em pessoa. Soube que logo ele vai estar aqui.

***

O discurso havia sido feito em cima de um púlpito, diante de todos os trabalhadores que, mesmo virados para Henrique, reservavam-se em seus postos predeterminados. Harmonia, trabalho e patriotismo, as palavras de ordem para aqueles tempos de guerra. As expressões deles não se alteraram e um olhar mais atento aos operários revelava um vazio em seus olhares, como se apenas aguardassem pelo final do discurso. A câmera flutuava entre eles, alternando entre os melhores ângulos para a composição da propaganda que circularia no país. Aplaudiram ao fim, como tinham sido instruídos a fazerem.

Agora resguardado na cabine da gerência, indagava quanto tempo mais demoraria para que pudesse substituir todo o trabalho braçal humano pelos autômatos, apesar das leis contra essa modernização. De trilha para as suas reflexões, rolava a linha montagem e, por isso, nos milésimos de segundo precedentes à explosão, escutou o súbito silêncio que se fez com a parada da esteira pela qual passava todo o processo de produção dos drones de artilharia. Depois ouviu o estouro.

A janela da cabine rachou e o susto o fez cair sentado. Os autofalantes passaram a repetir uma série de impropérios com o seu nome e antes que pudesse tomar algum apoio, seguranças já o içavam pelas axilas para colocá-lo de pé. Um deles se encarregara de levá-lo até o carro. Chegou a colocá-lo no banco passageiro, mas aí a porta se fechou sobre os dedos do homem, que caíram partidos sobre o seu colo, respingando sangue em sua calça. O carro andou em marcha ré, deixando o segurança gritante para trás. Os olhos de Henrique brilharam intensamente, mas o carro não parou, o esforço só deu dor de cabeça. À frente, o volante se movia para a esquerda sozinho, redirecionando o veículo. Havia pelo menos uma vintena de anos que optara pelos carros automáticos, mas sempre os controlara. 

Do rádio, saiu uma voz.

─ Henrique Fontes. 

Ele piscou, confuso, mas entendeu que estava sendo sequestrado. Não era o primeiro atentado que sofria e tampouco a primeira tentativa de sequestro, por isso, não fraquejou.

─ Seja quem for, existe um fundo específico para quitar a…

─ Sabemos que o senhor tem vigiado. – Henrique então compreendeu. Perplexo, não percebia que o carro se dirigia ao incêndio que se formara com a explosão. ─ E agora, somos nós que vigiamos o senhor.

O empresário, dono de mais de uma centena de anos e de um império internacional, estremeceu. Percebeu para onde o carro seguia, mas não foi isso que o chocou.

─ Por favor, diga o seu nome. ─ Suplicava, o azul em seus olhos sobressaindo na careta tenebrosa na qual o terror transformara o seu rosto. ─ Não precisa parar o carro, só me diga o seu nome. ─ Henrique se jogou sobre o painel, esmurrando-o. ─ NÃO É JUSTO. EU TENHO QUE TE VER!

O carro não parou. O rádio, mudo.

***

Não houve nada mais nos noticiários do que o incidente com o empresário Henrique Fontes. Repercutiam as homenagens e as investigações policiais quanto ao hackeamento do carro e a autoria da explosão. Ângela e Leandro não assistiram ou pensaram em assistir aos jornais. Dedicaram-se apenas um ao outro.

Cegos na escuridão do quarto, guiavam-se pelo prazer. Ele a tinha na ponta da língua, ela entrelaçava suas costas com as pernas, puxando, incitando. Balbuciava o seu nome. Para os dois, a noite não teve fim. Estavam juntos, ninguém os vigiava.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.