EntreContos

Detox Literário.

Sertão de Aço e de Fome (Santos Barros)

Juazeiro, 3019

Uma catedral de aço brilha em meio a um desértico cenário. Barracas feitas de panos velhos se dispõem ao redor, onde mulheres sujas e crianças mirradas vivem seus dias tristes. Do lado de dentro, uma luxúria sem precedentes. Hologramas da via crucis adornam as paredes. Um Jesus Cristo de olhos azuis pregado a uma cruz de nióbio. Dos alto-falantes praticamente invisíveis, cantos gregorianos ecoam, como se anjos metálicos cantando a um Deus máquina.

 

Padre Matias me convocou à arquidiocese. Lhe encontrei bebendo vinho toscano e comendo carne de mico-leão-dourado com molho de tâmara. Me lançou aquele olhar como que dizendo que esperasse que terminasse refeição. Observei enquanto gordura lhe escorria por canto de boca, umedecendo queixo e sujando batina. Sugava osso com avidez, língua girando em torno de objeto calcificado, buscando por tutano que sorvia com brutalidade. Olho brilhava e girava, em movimento quase orgásmico. Lançou osso a prato, levantou, limpou mão na toalha de mesa e disse com língua vermelha que eu devia levar osso de Padre Cícero pra Nova Canudos.

Sem muito questionar, assenti, ajoelhando em sua frente e beijando mão. Ele, no entanto, fez sinal em negativa, inserindo dedo em minha boca. Suguei, o gosto de carne de mico ainda presente. Vi membro se enrijecer por baixo de batina enquanto ele gemia de prazer.

 

Um deserto sem fim. Restos do que um dia foram estradas. Partes velhas de carros largadas ao tempo. Enterrados na areia, cadáveres putrefatos de crianças famintas com fone de ouvido eternamente reproduzindo uma triste canção. Postos de vigilância abandonados com robôs policiais desativados. Uma placa de limite de velocidade suja de sangue.

 

Tinha comigo dois companheiro. Vênus era travesti negra de um metro e noventa de altura. Seio farto que teimava em saltar pra fora diante de menor movimento. Adonis era anão cego e gordo, coisa horrível de se olhar, que vivia cuspindo por canto.

Colocamo osso de Cícero em contêiner, enfiamo em carroça e partimo. Mercúrio, jegue que puxava carro, fez sinal de resistir, mas vez que se pôs a trotar, não parou até anoitecer.

Lua já ia alta, iluminando a imensidão de sertão. Areia se misturava a sangue de cangaceiro pra sustentar pé. E se parasse pra ouvir, Lampião gritava de lá pra cá pra cuidar de Padre Cícero que homem era santo.

Paramo. Levantamo acampamento e cabra seguiu rumo. Acordei de madrugada ouvindo gemido. Achava que era espírito de Virgulino voltando pra assombrar. Fui olhar e descobri Adonis chupando Vênus, naquela luz tênue que toma primeira hora de manhã. Nem se dero trabalho de tirar osso de Cícero de presença. Anão sugava com força. Cego, não via que fazia. Só ouvia gemido de Vênus e ordem pra continuar. Depois virou e vi membro entrar. Adonis gemeu feito herói grego, e voz ecoou no sertão.

Manhã veio. Em Sol de matar burro, Mercúrio cedeu. Desmoronou em terra seca e disse adeus pra mundo de jeito que bicho faz. Ardeu peito de ver companheiro partir daquele jeito. Comemo carne aquele dia.

Sonhei com Cícero. Ele apareceu em sonho com A Virgem. Me mostraro o sertão coberto de gente, aquele povo faminto com osso tudo aparecendo. E tava tudo pelado e gemendo e fazendo filho. E filho que nascia, crescia, e fazia mais filho. E sertão não aguentava tanta gente com fome e chorava. E descia de céu aquela água bonita e todo mundo bebia. E era festa, aquele povo bonito e colorido. E Gonzaga tocava sanfona, e Lampião dançava com Maria Bonita enquanto Cícero e Conselheiro abençoava todo mundo. E sertão era lugar mais feliz de mundo.

 

Uma barreira montada no meio do caminho. Homens de fardas metálicas, monocromáticas, portando armas a lazer. Os olhos cheios de ódio e de fome. Ao seu redor, animais de carga com partes robóticas. Velhos ventiladores inúteis zunindo na imensidão do deserto.

 

Encontramo soldado em meio de caminho. Perguntou que era que carregava. Não esperou resposta. Pegou Vênus e Adônis e dero pra cavalo. E cavalo achou que era par e montou como se fosse. E Vênus e Adônis choraro no sertão.

Gritei nome de Matías e soldado ouviu. E deixou eu ir com osso de Cícero e me deu burro pra montar. E parti, deixando corpo de Vênus e de Adônis pra urubu comer.

 

Um oásis no meio do deserto. Uma figura de aço com um cajado de ouro na mão. Uma sombra colossal, advinda de torres espirais verde-esmeralda. Drones de segurança sobrevoando, protegendo nada de ninguém. Um resto de gente com um resto de esperança lutando por um resto de felicidade no tempo que lhes resta.

 

Foi em entrada de Canudos que estátua de Conselheiro me recebeu, lágrima em olho e sangue em mão. Com osso de Cícero nas costa, subi escada de catedral, pedi benção dA Virgem, entrei por porta, ajoelhei em frente de altar.

Juntei osso de Cícero. Um a um, montei cruz. Em altar, ergui corpo de Cícero, agora cruz de Cícero. Ao lado de Cristo, Nosso Senhor, e dA Virgem, padinho se colocou, abençoando povo, como devia ser.

Entrou padre e entrou fiel, e viu osso de Cícero, agora cruz de Cícero, erguido em altar. Ajolharo tudo e pediro por água no sertão, e por macaxeira pra comer. E olhando pra alto, pensei em Adônis e Vênus, e em burro Mercúrio, e em cada alma que se perdeu em sertão. E chorei, olhando pra cruz de Cícero, pensando que destino de sertanejo é ver terra secar em seu redor, enquanto ele mesmo passa fome e sede e olha pra alto pedindo misericórdia, só pra ver Sol lá em cima, ardendo, sem responder prece nenhuma.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.