EntreContos

Detox Literário.

Sertão de Aço e de Fome (Evandro Furtado)

Juazeiro, 3019

Uma catedral de aço brilha em meio a um desértico cenário. Barracas feitas de panos velhos se dispõem ao redor, onde mulheres sujas e crianças mirradas vivem seus dias tristes. Do lado de dentro, uma luxúria sem precedentes. Hologramas da via crucis adornam as paredes. Um Jesus Cristo de olhos azuis pregado a uma cruz de nióbio. Dos alto-falantes praticamente invisíveis, cantos gregorianos ecoam, como se anjos metálicos cantando a um Deus máquina.

 

Padre Matias me convocou à arquidiocese. Lhe encontrei bebendo vinho toscano e comendo carne de mico-leão-dourado com molho de tâmara. Me lançou aquele olhar como que dizendo que esperasse que terminasse refeição. Observei enquanto gordura lhe escorria por canto de boca, umedecendo queixo e sujando batina. Sugava osso com avidez, língua girando em torno de objeto calcificado, buscando por tutano que sorvia com brutalidade. Olho brilhava e girava, em movimento quase orgásmico. Lançou osso a prato, levantou, limpou mão na toalha de mesa e disse com língua vermelha que eu devia levar osso de Padre Cícero pra Nova Canudos.

Sem muito questionar, assenti, ajoelhando em sua frente e beijando mão. Ele, no entanto, fez sinal em negativa, inserindo dedo em minha boca. Suguei, o gosto de carne de mico ainda presente. Vi membro se enrijecer por baixo de batina enquanto ele gemia de prazer.

 

Um deserto sem fim. Restos do que um dia foram estradas. Partes velhas de carros largadas ao tempo. Enterrados na areia, cadáveres putrefatos de crianças famintas com fone de ouvido eternamente reproduzindo uma triste canção. Postos de vigilância abandonados com robôs policiais desativados. Uma placa de limite de velocidade suja de sangue.

 

Tinha comigo dois companheiro. Vênus era travesti negra de um metro e noventa de altura. Seio farto que teimava em saltar pra fora diante de menor movimento. Adonis era anão cego e gordo, coisa horrível de se olhar, que vivia cuspindo por canto.

Colocamo osso de Cícero em contêiner, enfiamo em carroça e partimo. Mercúrio, jegue que puxava carro, fez sinal de resistir, mas vez que se pôs a trotar, não parou até anoitecer.

Lua já ia alta, iluminando a imensidão de sertão. Areia se misturava a sangue de cangaceiro pra sustentar pé. E se parasse pra ouvir, Lampião gritava de lá pra cá pra cuidar de Padre Cícero que homem era santo.

Paramo. Levantamo acampamento e cabra seguiu rumo. Acordei de madrugada ouvindo gemido. Achava que era espírito de Virgulino voltando pra assombrar. Fui olhar e descobri Adonis chupando Vênus, naquela luz tênue que toma primeira hora de manhã. Nem se dero trabalho de tirar osso de Cícero de presença. Anão sugava com força. Cego, não via que fazia. Só ouvia gemido de Vênus e ordem pra continuar. Depois virou e vi membro entrar. Adonis gemeu feito herói grego, e voz ecoou no sertão.

Manhã veio. Em Sol de matar burro, Mercúrio cedeu. Desmoronou em terra seca e disse adeus pra mundo de jeito que bicho faz. Ardeu peito de ver companheiro partir daquele jeito. Comemo carne aquele dia.

Sonhei com Cícero. Ele apareceu em sonho com A Virgem. Me mostraro o sertão coberto de gente, aquele povo faminto com osso tudo aparecendo. E tava tudo pelado e gemendo e fazendo filho. E filho que nascia, crescia, e fazia mais filho. E sertão não aguentava tanta gente com fome e chorava. E descia de céu aquela água bonita e todo mundo bebia. E era festa, aquele povo bonito e colorido. E Gonzaga tocava sanfona, e Lampião dançava com Maria Bonita enquanto Cícero e Conselheiro abençoava todo mundo. E sertão era lugar mais feliz de mundo.

 

Uma barreira montada no meio do caminho. Homens de fardas metálicas, monocromáticas, portando armas a lazer. Os olhos cheios de ódio e de fome. Ao seu redor, animais de carga com partes robóticas. Velhos ventiladores inúteis zunindo na imensidão do deserto.

 

Encontramo soldado em meio de caminho. Perguntou que era que carregava. Não esperou resposta. Pegou Vênus e Adônis e dero pra cavalo. E cavalo achou que era par e montou como se fosse. E Vênus e Adônis choraro no sertão.

Gritei nome de Matías e soldado ouviu. E deixou eu ir com osso de Cícero e me deu burro pra montar. E parti, deixando corpo de Vênus e de Adônis pra urubu comer.

 

Um oásis no meio do deserto. Uma figura de aço com um cajado de ouro na mão. Uma sombra colossal, advinda de torres espirais verde-esmeralda. Drones de segurança sobrevoando, protegendo nada de ninguém. Um resto de gente com um resto de esperança lutando por um resto de felicidade no tempo que lhes resta.

 

Foi em entrada de Canudos que estátua de Conselheiro me recebeu, lágrima em olho e sangue em mão. Com osso de Cícero nas costa, subi escada de catedral, pedi benção dA Virgem, entrei por porta, ajoelhei em frente de altar.

Juntei osso de Cícero. Um a um, montei cruz. Em altar, ergui corpo de Cícero, agora cruz de Cícero. Ao lado de Cristo, Nosso Senhor, e dA Virgem, padinho se colocou, abençoando povo, como devia ser.

Entrou padre e entrou fiel, e viu osso de Cícero, agora cruz de Cícero, erguido em altar. Ajolharo tudo e pediro por água no sertão, e por macaxeira pra comer. E olhando pra alto, pensei em Adônis e Vênus, e em burro Mercúrio, e em cada alma que se perdeu em sertão. E chorei, olhando pra cruz de Cícero, pensando que destino de sertanejo é ver terra secar em seu redor, enquanto ele mesmo passa fome e sede e olha pra alto pedindo misericórdia, só pra ver Sol lá em cima, ardendo, sem responder prece nenhuma.

20 comentários em “Sertão de Aço e de Fome (Evandro Furtado)

  1. Brenno
    16 de setembro de 2019

    Acabei de ler o conto “Sertão de Aço e de Fome”, e achei interessante, dentre tantas outras características desta ótima distopia, a abordagem do ato homessexual como sendo exacerbado e imediato, o que denota as possíveis sequelas que a opressão por parte do establishment pode trazer para esta classe. E mostra também o quanto o puritanismo de um governo é ineficaz, até mesmo num período distópico, pois vemos membros da prezada igreja agindo à margem do que se espera da ordem vigente e da instituição. Enfim, reflexão interessante sobre o período atual do Brasil e de como ele pode refletir no futuro dessas pessoas.

  2. Ricardo Gnecco Falco
    15 de setembro de 2019

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    CONTO AVALIADO: Sertão de Aço e de Fome
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    Olá Santos Barros; tudo bem?
    O seu conto é o décimo sexto trabalho da Série B que eu estou lendo e avaliando.
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    O QUE ACHEI DO SEU TEXTO
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    Gostei bastante da crítica social que perpassa toda a narrativa, relembrando ao leitor o enorme poder destrutivo que uma política compactuada por tanto tempo à ganância e à corrupção de seus representantes acaba exercendo de forma cruel no povo, difundindo profundo sofrimento e morte, principalmente às parcelas mais necessitadas da sociedade, comumente usadas como massas de manobra pelos tais para obtenção de privilégios pessoais, ocultos por trás de discursos sempre belos e inspiradores, porém hipócritas e demagogos.
    Gostei também da regionalidade embutida no texto, caracterizando suas personagens e aproximando o leitor da história contada.
    Alguns poucos erros (portando armas a lazer…) não chegaram a prejudicar o ótimo trabalho apresentado, sendo facilmente corrigidos após uma revisão um pouco mais detalhada.
    Parabéns pelo tocante conto e boa sorte no Desafio!
    Bem, pra finalizar… As regras do Certame exigem que eu faça um resuminho da história avaliada, para comprovar minha leitura. Então, vamos lá:
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    RESUMO DA HISTÓRIA
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    Um texto ácido, contendo críticas sociais, religiosas e políticas, que remete a um futuro não muito diferente do presente, principalmente em locais que, já hoje, parecem ‘esquecidos’ (pós-eleições, é claro) por aqueles que sempre dizem se importar com os mais sofridos. (Nota: 3)

  3. Marco Aurélio Saraiva
    15 de setembro de 2019

    O personagem principal é convocado a levar os ossos de Padre Cícero até Nova Canudos, para trazer um pouco de esperança para o povo. Segue-se uma viagem pelo sertão futurista, mais cruel do que o de hoje, onde a desigualdade social encontra-se em níveis astronômicos. O personagem é acompanhado por um travesti e um anão, além de seu burro, todos alusões a deuses antigos, todos relacionando-se de alguma forma e, no final, morrendo. Os ossos são entregues, e o povo ganha a sua esperança.

    Seu conto é uma espécie de Cyberpunk do sertão; muito interessante mesmo. Um cenário pitoresco, narrado de uma forma simples, em uma linguagem simplória, justamente para refletir a mentalidade do narrador. A leitura não ficou cansativa; pelo contrário, a sua escolha de linguagem trouxe mais imersão e intimidade entre leitor e personagem.

    O cenário descrito é vivo e cruel. Surgiu nítido em minha mente; cada personagem, cada situação.

    O enredo é simples, mas cheio de mensagens. Por fora, é uma reflexão sobre as desigualdades sociais e uma crítica à religião e a sua dominação das massas. Em seu ínterim, faz alusão ao Homem e à Mulher, aqui Adônis e Vênus, pintados como caricaturas grotescas – o homem um anão gordo e cego, a mulher, um travesti. Vi como uma espécie de “crítica conservadora”: no futuro, onde chegaremos com toda esta liberdade de gênero? Ainda teremos homens e mulheres, ou apenas identidades sexuais aos milhares? No fim, ambos Adônis e Vênus morrem como animais, destruídos pelo sistema, que não os aceita. Até mesmo Mercúrio, o Mensageiro, o jegue que carregava Cícero, morre. O sertão não poupa nem os deuses.

    É um conto profundo e rápido; uma mensagem bem passada e uma reflexão bem feita. Parabéns!

  4. Fabio Baptista
    14 de setembro de 2019

    RESUMO: Grupo recebe missão de transportar os ossos do Padre Cícero através de um Sertão futurístico punk distópico.
    Dois dos três integrantes morrem no caminho. O protagonista (narrador) consegue cumprir a missão e termina com uma reflexão de desesperança.

    COMENTÁRIO: O conto é muito bom, com uma ambientação fantástica, na linha desses Cyberagreste e/ou Sertãopunk que estão bombando e causando polêmica ultimamente.
    O regionalismo faz a gente ler com a voz do personagem, o que é ótimo, mas achei que não foi tão bem caracterizado… na maior parte do tempo me parecia um “índio” narrando.
    A parte em que os dois companheiros de viagem morrem foi bem confusa… li umas 5 vezes aquele parágrafo e não tenho certeza (ou talvez não queira ter certeza) sobre o que ocorreu ali.
    O final é seco e pesado como o solo do sertão. Muito bom.

    NOTA: 4

  5. Daniel Reis
    14 de setembro de 2019

    Categoria: FC distópico, com ambientação agreste
    No ano de 3019, O Narrador recebe de Padre Matias a incumbência de levar os ossos de Padre Cícero, de Juazeiro para Nova Canudos. Com ele, vão Vênus (uma travesti negra) e um anão, Adonis, gordo e cego, mais Mercúrio, o jegue. Com os ossos do santo guardados, Mercúrio morre pelo caminho, os três são parados pela polícia, Vênus e Adonis são estuprados pelo cavalo (?) e morrem. O Narrador segue viagem, e ao chegar em Nova Canudos, monta na igreja uma cruz com os ossos do Padre Cícero. O padre e a comunidade entram para rezar e manter a fé, enquanto o narrador eleva os pensamentos aos colegas que ficaram pelo caminho.
    PREMISSA: a odisseia transportada para o sertão! Que sacada bacana! A construção do contexto, a missão, as dificuldades, a conquista final, está tudo lá.
    TÉCNICA: Uma narrativa com sotaque regional, que em alguns momentos resvalaram para o exagero. Mas que são plenamente justificáveis, para dar veracidade à narrativa.
    EFEITO: o texto apresenta duas camadas – a externa, que é a viagem e a missão, e a outra é o contexto distópico e a ironia de que, mil anos à frente, tudo continua parecido com o tempo de Lampião, Padre Cícero e a aura do Conselheiro. Apenas como observação, achei algumas partes bem confusas, como a história do cavalo com Adonis e Vênus.

  6. Shay Soares
    14 de setembro de 2019

    Resumo
    Um homem tem a missão de levar os ossos de um padre até uma igreja distante através do sertão.

    Sensação
    Terminei de ler com o sentimento que o conto não ficou à altura da ideia.

    Execução
    Nos primeiros parágrafos, não ficou muito claro que havia sido adotado um estilo de linguagem, ficou mais parecendo que o texto havia sido mal escrito. Ainda mais porque a introdução foi fraca, com alguns clichês e imposições.
    Achei interessante a ideia de intercalar o narrador, não sei se eu gostei do resultado. Eram vozes muito distantes uma da outra, com recortes muito diferentes do que estava acontecendo.

    Título
    Achei o título muito forte, adorei.

  7. Catarina Cunha
    14 de setembro de 2019

    O que entendi: Um homem do próximo milênio enfrenta a miséria do sertão para levar os ossos de Cícero à uma igreja. Missão essa executada com a ajuda de um anão cego, um travesti e um jegue, todos com nomes de deuses e que morrem, digamos, pela causa.

    Técnica: A alternância entre a linguagem culta do narrador (com pegada poética) e os pensamentos do sertanejo causou um efeito devastador na consciência do leitor atento.

    Criatividade: FC totalmente fora da caixinha. A ideia do Jesus de olhos azuis em cruz de nióbio em contraste com os ossos de Cícero foi genial.

    Impacto: O conto todo é impactante, mas o mais perturbador é o significado geral: nada muda para os miseráveis, privados da evolução dos séculos.

    Destaque: “Adonis gemeu feito herói grego, e voz ecoou no sertão.” – Toda a cena é inesquecível. Muito bom. “ Esta também está um espetáculo: ” Um resto de gente com um resto de esperança lutando por um resto de felicidade no tempo que lhes resta.” Enfim, eu destacaria o conto todo.

    Sugestão: Nenhuma. Qualquer coisa que eu palpite estragaria este conto perfeito.

  8. rsollberg
    13 de setembro de 2019

    O prólogo do conto é praticamente um roteiro audiovisual, marcando o cenário para o leitor entender o que deve ser visualizado.

    Há propositalmente uma abstração dos artigos, criando um desconforto no leitor e, ao mesmo tempo, uma conexão com a linguagem peculiar, exigindo muito e entregando mais ainda. É intrinsecamente lacônico, com referências de sincretismo e cultura popular. Uma odisseia com personagens caricatos e idiossincráticos. Uma linguagem sem rodeios, mas com imensa força reflexiva. Inundada de simbologia, onde nada é gratuito.

    Em determinado momento, lembrou-me da obra do italiano Valerio Evangelist, Black Flag, onde o autor mistura essa estética punk com o velho oeste americano. Aqui temos um sertão-punk misturando os gêneros com a maestria de alguém que inegavelmente entende do riscado. Recomendo a leitura escutando “maracatu atômico”.

    Parabéns e boa sorte no desafio

  9. Priscila Pereira
    13 de setembro de 2019

    Resumo: Um homem é convocado por um padre a levar os ossos de Padre Cícero até outra cidade e narra as dificuldades que enfrentou até conseguir chegar ao seu objetivo.

    Olá Santos, então, eu não consegui gostar do seu conto, sorry! As partes em negrito estão muito bem escritas e o conto todo tem uma ambientação espetacular, mas a parte que é narrada pelo personagem foi muito incômoda de ler, nossa, as palavras faltando e o jeito estranho me incomodou muito, e antes que vc venha se defender, eu sei que foi proposital e que tem um motivo e tal, mas eu não consegui curtir. A história em si também não me agradou, mas admito que o clima pós apocalíptico foi muito bem criado e se enquadrou bem no tema. Certeza quem muitos vão admirar seu conto então não me sinto tão mal de não ter curtido, desejo boa sorte!

  10. Luis Guilherme Banzi Florido
    10 de setembro de 2019

    Boa tarde, amigo. Tudo bem?

    Conto número 50 (estou lendo em ordem de postagem)
    Pra começar, devo dizer que não sei ainda quais contos devo ler, mas como quer ler todos, dessa vez, vou comentar todos do mesmo modo, como se fossem do meu grupo de leitura.

    Vamos lá:

    Resumo: triste história que se passa no sertão, no terceiro milênio, mas que poderia ser hoje, não fossem as máquinas. Menino é incumbido de levar ossos de padre morte até catedral, e no caminho testemunha as tristezas e injustiças do sertão, e acaba perdendo seus 3 amigos na viagem.

    Comentário:

    Caramba, que conto triste – e real! Muito, muito bom!

    COmo falei no resumo, apesar de ambientado nos anos 3 mil, esse conto é totalmente contemporâneo e real. Você conseguiu transmitir de forma clara e muito visual o sofrimento da vida no sertão. Acredito que o fato de o conto ser em primeira pessoa tenho ajudado isso. Na verdade, tem algo a mais.Além de estar em primeira pessoa, você usou muito bem o artifício da linguagem do garoto pra causar empatia no leitor. Eu consegui realmente me sentir na pele dele, o que demonstra uma grande capacidade de narrativa do autor.

    A ambientação é incrível, e me senti no sertão, acompanhando de perto a jornada dos 4.

    Tudo é relatado de forma tão crua e direta que é difícil acreditar que não era um relato real.

    Os personagens também são carismáticos, até mesmo o jegue.

    Enfim, com certeza é um dos meus contos preferidos de todo o desafio (contando as 3 séries). Parabéns e boa sorte! Nota máxima.

  11. Fil Felix
    8 de setembro de 2019

    A viagem de um homem pra levar os ossos sagrados de Cícero até uma catedral, em meio ao deserto, acompanhado de uma travesti e um anao.

    Seu conto me lembrou da música Revolta Olodum, que traz lampiões, Canudos e a seca do Nordeste. É um conto futurista, trazendo toda a alta tecnologia para o deserto, para a seca. Mas apesar da mudança de tempo e ambiente, o contexto continua sempre o mesmo. É um conto que traz várias críticas nas entrelinhas, da igreja que ostenta em meio à miséria, ao padre safado, à cruz de niobio e ao sexo, as vezes a única coisa que nos resta. Um conto interessante, trazendo algo fora do comum, mas ainda numa ambientação fácil de reconhecer por nós. Há algo na escrita que soa diferente, as vezes sinto que faltaram algumas palavras e principalmente os “da” e “do” que foram substituídos por “de” na maioria dos casos, ou não tem. Nao sei se é estilo do autor, mas tive esse estranhamento. Muito legal.

  12. Cirineu Pereira
    7 de setembro de 2019

    RESUMO: Conto de ficção que tem como cenário o sertão nordestino projetado mil anos no futuro. O narrador-protagonista, não nominado, é incumbido pela igreja da época a transportar os ossos do Padre Cícero, de Juazeiro, à então denominada Nova Canudos.

    TÍTULO E INTRODUÇÃO: Título grandioso digno de uma odisseia que, de fato, se apresenta demasiado discreta. O paragrafo introdutório é muito bom, contextualizador, descritivo e imbuído de críticas bastante atuais. Nota: 8

    PERSONAGENS: Personagens secundários figurativos e funcionais, apesar de excessivamente caricatos. O protagonista, ainda que delineado por sua linguagem peculiar, não é identificado, tão pouco individualizado, tornando-se praticamente um coadjuvante em sua própria história. Nota: 7

    TEMPO E ESPAÇO: Muito bem marcado, descrito e inseridos. O conto é otimamente caracterizado. O autor conseguiu projetar para um cenário futuro elementos históricos e culturais, bem como traços da realidade atual, presenteando o leitor com uma atmosfera palpável e verossímil. Nota: 9

    TEMPO E ESPAÇO: Muito bem marcado, descrito e inseridos. O conto é otimamente caracterizado. O autor conseguiu projetar para um cenário futuro elementos históricos e culturais, bem como traços da realidade atual, presenteando o leitor com uma atmosfera tangível e verossímil. Nota: 9

    TÉCNICA E APLICAÇÃO DO IDIOMA: O primeiro narrador faz a introdução do conto para, a partir do segundo parágrafo, dar vez a um segundo narrador, também protagonista, com linguagem coloquial e regionalizada. A questão é que, ao meu ver, essa linguagem tipificada não convence e, ao invés de enriquecer a narrativa, como habilmente fazia Guimarães Rosa, o empobrece. Ademais, como se disse inicialmente, o que poderia ser uma odisseia, revela-se uma aventura pobre em emoções, apesar da riqueza descritiva e capacidade de imersão da narrativa. É um conto linear, de dimensão restrita. Uma opção seria revelar mais sobre o protagonista, seu passado e suas motivações. Nota: 7

    VALOR AGREGADO: O conto tem valor enquanto peça literária, ou seja, enquanto arte, porém seu maior mérito é incitar a crítica social, de costumes, ética, humana, da realidade brasileira. Nota: 8

    ADEQUAÇÃO À TEMÁTICA: Totalmente adequado à temática FC e mais, notavelmente contextualizado. Nota: 10

  13. Evelyn Postali
    1 de setembro de 2019

    Caro(a) escritor(a)…
    Resumo: Sacristão ou ajudante do pároco atravessa o sertão levando os ossos de Padre Cícero a Nova Canudos acompanhado de um travesti e um anão.
    Técnica: A primeira parte, narrativa do sacristão em primeira pessoa, começa com uma linguagem e termina com outra. Ela não tem uniformidade. É um conto linear e considero acertado diante do tamanho. A linguagem em itálico é perfeita e serve ao propósito de descrever um futuro distópico, portanto considero um conto de ficção científica.
    Avaliação: Vou apontar a narrativa do sacristão, outra vez, porque ela me incomodou, não parecendo real. Pareceu-me forçada. Mas enalteço a história pela crítica embutida e pelas camadas de história que temos a partir dos personagens. Gostei demais dos personagens.
    Boa sorte no desafio.

  14. Fheluany Nogueira
    29 de agosto de 2019

    Padre Matias convocou o protagonista para levar osso de Padre Cícero para Nova Canudos. É ano 3019. A viagem acontece em cenário de miséria, com dois companheiros que morrem no trajeto.
    Na catedral, ele monta uma cruz com os ossos de Cícero e pede misericórdia diante da pobreza do sertão.
    O ritmo do texto é bem interessante, apresentando cenas bizarras, de sexo e até de terror (a morte dos companheiros, que tornam a leitura quase uma atividade de acompanhar uma alucinação.

    A escrita me parece experimental, com ausência de artigos definidos e indefinidos em todo o texto (“Lua já ia alta, iluminando a imensidão de sertão.”), posição e uso dos pronomes (“Lhe encontrei bebendo vinho”) e ortografia (“Colocamo osso de Cícero em contêiner, enfiamo em carroça e partimo”) que contrariam a gramática tradicional. Será que é assim que será daqui a mil anos? Interessante que Padre Cícero ainda será cultuado e o sertão permanece o mesmo. Um conto apocalíptico ou pós-apocalíptico que narra como o Nordeste permaneceu após o fim do mundo que se conhece hoje?

    Parabéns pelo trabalho! Sucesso! Abraço.

  15. Regina Ruth Rincon Caires
    26 de agosto de 2019

    Sertão de Aço e de Fome (Santos Barros)

    Resumo:

    A narrativa de Santos Barros em dois tempos distintos. É a história de Santos Barros, Padre Matias, Vênus, Adonis e o burro Mercúrio. Nos parágrafos digitados em itálico, há uma narrativa futurista (FC), e, nos parágrafos imediatamente posteriores, há a narrativa em tempo “real”, ambas no mesmo contexto, no mesmo cenário. Apenas com perspectivas diferentes. Fala da travessia por um sertão miserável para pagamento de promessa (?), para reverenciar Nosso Senhor, Virgem Maria e Padre Cícero.

    Comentário:

    Um conto FC regionalista, muito bem arquitetado. Traz o “lamento de nordestino”, a “súplica cearense”, a cruzada de “vidas secas”, o misticismo de Lampião, a batalha de um ”Conselheiro”, a veneração por Padre Cícero Romão Batista e, no desfecho, a mensagem do “pagador de promessa”. Há duas leituras distintas e abraçadas. Em itálico, uma ação futura (FC). Em letra normal, uma ação em tempo “real”. Um mesmo contexto, um mesmo cenário. Interessante a forma da escrita sem o uso de artigos definidos e indefinidos (alguns escaparam). Ficou sensacional! Lindo o recurso do aparo (corte) das palavras, a “escrita do falado”, um costume do sertanejo. Deixa a narrativa próxima do leitor que imerge no enredo. Achei fabulosa a escrita, um presente. Na parte futurista, encontrei um parágrafo que, no contexto, me emocionou:

    “ protegendo nada de ninguém. Um resto de gente com um resto de esperança lutando por um resto de felicidade no tempo que lhes resta.”.

    O autor (ou autora) mostrou competência para semear nacos de erotismo, tudo na quantidade exata. Este é um texto que, salvaguardadas as limitações, eu gostaria de ter escrito. Não é apenas uma narrativa, traz poesia.

    Parabéns, Santos Barros!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  16. Gustavo Araujo
    25 de agosto de 2019

    Resumo: num futuro distópico, no sertão cearense, um homem tem uma missão – levar o osso de Padre Cícero para Nova Canudos. Tem consigo dois amigos – o anão cego Adonis e o travesti Vênus. No meio do caminho os dois são oferecidos a um cavalo, que acaba com eles no sentido bíblico da coisa. O homem prossegue em sua viagem, chega a Nova Canudos, onde a estátua do Conselheiro o espera. Com o osso faz uma cruz. Lembra-se dos amigos que pereceram no caminho e olha para céu inclemente do sertão, que jamais responde às preces.

    Impressões: deve haver um gênero literário para este tipo de narrativa, que trata do homem do sertão que parte numa missão normalmente de cunho religioso. Narrada em primeira pessoa, incluindo os erros de gramática propositais, o conto nos passa a história de muitos homens calejados pela atmosfera impiedosa e esturricada das planícies secas e sem esperança, cujos moradores não têm outra opção que não se apegar à religião. De fato é uma trama que já vimos mil vezes, mas que mesmo assim, mesmo aqui, consegue dar seu recado contundente. Permeada por idiossincrasias próprias da natureza humana, a trama, curta e pungente, perpassa realidade crua, revelando por trás um(a) autor(a) que sabe o que faz, que tem total controle da situação. O final, como é próprio desse tipo de história, não deixa muita esperança de melhora. É assim hoje; será assim daqui a mil anos.

    Só fico aqui pensando que essa história poderia ser um pouquinho mais desenvolvida. Isso porque ao tratar dos personagens, o Padre Matias, além de Adonis e Vênus, o(a) autor(a) demonstra especial talento para criar gente interessante, cujas características são por si sós uma atração invejável. Fiquei aqui imaginando os diálogos, os desencontros, os embates… Ficou aquele gostinho de quero mais. Quem sabe no futuro?

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  17. Elisa Ribeiro
    24 de agosto de 2019

    No ano de 3014, um homem recebe de um padre a incumbência de transportar os ossos de Padre Cícero para a cidade de Nova Canudos. Durante o trajeto, seus companheiros morrem, mas o homem consegue chegar ao seu destino.

    Um conto interessante. Em um futuro muito distante, mostra-nos que, a despeito dos avanços tecnológicos, as misérias sociais persistem no sertão do Brasil. Na voz do personagem que narra, as deficiências no domínio da língua indicam que a educação não evoluiu com o passar do tempo. Em meia a dicção do personagem narrador, os comentários do narrador em 3ª. pessoa contribuem para deixar clara a intenção do autor. Ao final do conto, a vida no sertão persiste a mesma.

    Um ótimo conto, em que se percebe claramente a maestria do autor em produzir um texto ao mesmo tempo de fácil leitura e carregado de intenções, efeitos e significados.

    Parabéns pelo excelente trabalho! Um abraço.

  18. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de agosto de 2019

    Resumo
    O conto mostra a cidade de Juazeiro, terra do Padre Cícero, no sertão do Ceará, no ano de 3019. O deserto, a pobreza, a fome, a destruição, coexistindo com uma sociedade moderna, mergulhada nos avanços tecnológicos. O narrador e dois amigos recebem do Padre Matias a missão de levar os ossos de Padre Cícero a Nova Canudos. Quando chega na catedral, o protagonista monta os ossos do Padre Cícero em forma de cruz, mas, apesar de cumprir com missão, não se mostra firme em sua própria fé.

    Comentário
    O texto é muito bom, bem escrito, fluido, com bons personagens. O autor tem um jeito próprio de conduzir a trama, com uma escrita bastante agradável. Parabéns.
    Não sei se o conto se enquadra em um dos temas propostos. Acredito que você, autor, deve ter feito a sua pesquisa para apresentá-lo desta maneira e, certamente, tem as suas justificativas para considerá-lo dentro do tema, mas eu realmente não o identifiquei aqui. Pensei que talvez o itálico fosse o futuro e o não itálico o presente, mas mesmo assim, não sei se chegaria a ser um FC.

  19. Angelo Rodrigues
    5 de agosto de 2019

    Sertão de Aço e de Fome

    Resumo:
    Nordestino é encarregado de carregar os ossos de Cicero e montar com ele uma cruz na porta da Nova Canudos. Ele começa a sua jornada do herói acompanhado de dois estrupícios, um negão drag e um anão gordinho zaroio, um chupando o outro, o outro chupando o um – ou não, seja lá como for era de noite e nada se via, até porque o negão era negão e o anão era muito pequeno. O bicho pega e o sujeito sai montando um burro. Chega até lá e monta a cruz no meio de um tremendo miserê.

    Comentários:
    Caro Santos Barros,
    Acredito que, tirando a chupada do anão, o conto pretende uma pegada de ficção científica.
    Bem, não acho que colocar eventos no futuro – 3019 – transforme o conto em ficção científica, nem mesmo havendo as figuras de metal que aparecem espalhadas pelo conto. Não há ciência, mas apenas ficção.
    Vi seu conto como uma daquelas emboladas nordestinas, onde cabe tudo, o tempo é irrelevante, como se tudo tivesse sido tomado por um vortex espaço-temporal, onde é possível misturar todos os personagens desconsiderando a existência temporal de cada um. Isso não é mal, e acredito que o autor pretendeu passar a ideia de que depois de mil anos as coisas continuariam as mesmas, com as mesmas cabeças mandando nas coitadas das cabeças dos nordestinos pobres.
    Tenho dúvidas quanto à funcionalidade desse tipo de discurso narrativo e libertário. Particularmente se pelos próximos mil anos os nordestinos continuarem se deixando encabrestar pelos seus coronéis – e entenda, somos todos nordestinos nesse discurso. A correlação entre algoz e vítima é íntima demais para que haja apenas um culpado pelas desgraças daqueles que se acreditam como vítimas, dado que as vítimas quando se sentem dessa maneira, reagem com a veemência cabível.
    Creio que o pseudônimo Santos Barros tenha um referencial que se aproxima de Santos de Barro. Bem, mas todos os santos, ao final e ao cabo, não são mesmo de barro?
    Boa sorte no desafio.

  20. angst447
    4 de agosto de 2019

    RESUMO:
    Alguém é convocado pelo Padre Matias a levar osso de Padre Cícero para Nova. Canudos. Parte com dois companheiros – Vênus, travesti alta e negra, e Adonis, anão cego e gordo. Os dois transam de madrugada. O jegue Mercúrio sucumbe e morre. Encontram soldado e cavalo robótico que mata Vênus e Adonis. Chama por Matias e o soldado deixa que vá e lhe dá um jegue para montar. Ele segue viagem sozinho e chega ao destino. Junta os pedaços de osso de Padre Cícero e forma uma cruz que deposita no altar da catedral. Padre e fiéis rezam pedindo chuva e alimento. Ele reza também, lembrando-se de Adonis e Vênus, e pensa “que destino de sertanejo é ver terra secar em seu redor, enquanto ele mesmo passa fome e sede”.

    AVALIAÇÃO:
    Tive de reler o conto para tentar assimilar a proposta do autor. Lembrou-me de Grande Sertão Veredas. Primeiro achei que eram falhas de revisão, tais como o pronome oblíquo começando a oração e os verbos sem as devidas terminações, mas logo vi que era a forma do narrador se expressar.
    O conto segue o tema FC (distopia) e não creio que a passagem Adonis e Venus tenha sido algo sabrinesco, muito menos a chupada de dedo logo no início.
    Narrativa árida, sem volteios que dispersem a atenção. Leitura rápida já que o conto não é longo. Ritmo impreciso, mas que não atrapalha em nada a apreciação do texto. O final achei poético, com a reflexão do narrador sobre o destino do sertanejo.
    Parabéns pela ousadia da proposta e por participar do desafio. Boa sorte!

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Informação

Publicado às 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B e marcado .