EntreContos

Detox Literário.

Salvaguardia (Bel Lissa)

Quase perdi a hora procurando o braço esquerdo nessa manhã. Desde a última exposição eu me lembro de tê-lo deixado debaixo das rendas do vestido de princesa e não o  encontrei a tempo. O jeito foi me unir à fila dos desmembrados e esperar uma família para a qual a missão de ter um filho significasse mais do que só ter um filho. Como sempre até agora, não fui escolhida. Apenas um casal passou em revista na nossa seção e acabou por adquirir um garoto numa cadeira de rodas e que movia apenas os olhos e alguns dedos da mão direita no controle remoto da braçadeira. “Sortudo aquele” comentaram todos. Tetraplégicos dificilmente são devolvidos já que a imobilidade leva a menores preocupações em eventos sociais e ainda confere aos detentores da guarda um duradouro status de abdicação e altruísmo.

A ExpoChild acontece a cada 15 dias.  A gerência da fábrica nos deixa uma tabela  com as opções de fenótipo disponíveis e de acordo com as intenções dos possíveis compradores. Altivo, tímido, asiático, serelepe, negro africano, branco latino, inteligente, branco nórdico, asperger mas que seja calado, surdo-mudo… O dia em que estive mais próxima de ser escolhida foi quando consegui pegar o feno pele preta de alta pigmentação  com cabelos naturais. Esse é um dos mais disputados e concorre pário com as chatíssimas anti-heroínas da Disney. O que aconteceu foi que o homem gostou do que viu, mas a sua senhora, uma branca de cabelos crespos exasperou-se ao me ver. Disse em alto e péssimo tom que o pedido aos fabricantes tinha sido claro – “Quero uma pele preta mas com cabelo escorrido” – porque de trabalheira com cabelo já bastava o dela. 

Nós fomos criados com uma enorme capacidade de transmutação corpórea. Nos primeiros 6 meses de fabricação é possível migrar a cor da pele, o cabelo, o tom da voz, a cor dos olhos, os gostos… Nas semanas iniciais conseguimos passar de uma estridente criança atrapalhada a uma instrospectiva e exímia tocadora de piano clássico aos 12 anos. Conforme o tempo passa, nossas opções de diversidade físico-intelecto-emocionais vão perdendo “vidas” e resta-nos apenas as características elementares das crianças de fora do perímetro da Salvaguardia. Quanto mais tempo na fila de espera, mais normais e desinteressantes nós ficamos.

O maior medo desse nosso lote é o da não escolha. Isso porque a política da empresa mudou, e após 2 anos os rejeitados e devolvidos vão para os trituradores que foram instalados bem aqui atrás do galpão onde dormimos. Não nos permitem envelhecer como acontecia com os modelos anteriores. Fizeram as contas e descobriram que fabricar novos elementos em cada fase da infância e da adolescência custa menos do que nos manter em franca capacidade de mutação. O barulho do descarte é de fazer arrepios. Ouvimos gritos, mas nos informaram que acontecem quando a parte do pescoço passa pela máquina e as cordas vocais são esmagadas. Nos dizem que apesar do som muito real, não há dor, porque antes de iniciar o processo eles desconectam as terminações sensitivas. 

O intervalo dos 15 em 15 são sempre monótonos e cheios de angústia. Por vezes nos reunimos na área comum entre os blocos e acabamos por trocar alguns devaneios. Sim, nos permitem imaginar. Dizem que a maioria dos pais apreciam essa capacidade humana nas suas crias originais e por isso nos planejam o mais próximo da realidade. Conversamos sobre como deve ser a existência dos que já foram salvaguardados. Nos perguntamos se desejariam voltar ou permanecer com seus pais. Alguns vão além do limite esperado e juram saber como é a vida lá fora. Encontrei noutro dia um adolescente que dizia ter na memória cenas de um quarto fechado em que outras crianças o empurravam e atiravam-lhe coisas. Outro disse saber que isso acontece porque em tempos de baixa vendagem, partes preservadas de modelos devolvidos podem ser reaproveitadas, e com isso algumas configurações de memória podem manter-se intactas.

Amanhã é domingo, dia 26 de outubro de 2098. Dia do meu quadragésimo ciclo quinzenal. Esse é um ciclo muito importante pra quem permanece por aqui. A partir dele as nossas opções de fenótipos são reduzidas drasticamente e com isso as chances de sermos salvaguardados tornam-se remotíssimas. A decisão de hoje pode ser de vida ou descarte. Não ganhei no sorteio e terei que esperar a fila da escolha dos caracteres. Como os mais jovens escolhem primeiro, restou-me apenas 3: a asiática magérrima, uma desmembrada sem pernas e uma outra com cabelo desfiado, pintado em cores róseas, olhos com rímel puro e roupas curtíssimas com barriga e pernas à mostra. Essa! Essa mesmo. Um tipo que nem de longe nunca tentei.

Fui escolhida de cara. E para nossa maior surpresa, inclusive dos vendedores, por um casal que foge muito ao padrão dos prováveis aquisidores desse feno. Ela alta magra, de salto fino, elegantíssima, nem um fio de cabelo fora de lugar, com andar e jeito impafioso. Ele sem nenhuma intenção de interferir nas escolhas dela. Imaginei que pudessem ser do tipo que apreciam a pluralidade e que por essa razão escolheram a mais riponga e desleixada entre todas as opções. 

Descobri na correspondência que ela se chama Verônica. O nome do pai, provavelmente não saberei. Ele deixou a casa no dia seguinte com a promessa de nunca mais voltar. Parece que a combinação era que ele permanecesse somente até ela ter uma outra companhia. 

No terceiro dia Verônica mostrou-me uma lista curta de nomes e eu escolhi chamar-me Lisa. Levou-me a lojas e a centros de beleza. Pediu que eu escolhesse o que queria vestir, o corte do cabelo, a cor das unhas, qual tatuagem e em qual lugar do corpo fazer. Eu tenho a idade programada de 8 anos. Não importa. As leis não incidem sobre as crianças geradas por Salvaguardia. E as nossas escolhas, quando nos é concedido pelos pais, obedecem às tendências do fenótipo básico, a não ser que os detentores da guarda solicitem à fábrica uma reprogramação. Custa caro, porém muitos fazem isso quando se cansam da cara, das caretas, da má criação ou até mesmo do comportamento sempre cortês e obediente de seus filhos adquiridos. No meu caso, parece que eu serei uma típica geração Z com saudades do Woodstock. Estou sempre com um fone de ouvido em uma batida de rap escapando pelas abas. Não dou atenção a nada do que me dizem, considero a todos como imperfeitos imbecis e muito provavelmente começarei a fumar escondido aos 10.

Eu fico a maior parte do tempo em casa. Não preciso frequentar a escola porque Verônica fez a opção pelo pacote com atualizações anuais de conteúdo educacional. Fomos algumas vezes ao parque público e ao centro de compras em saídas rápidas e repletas de chateação. Minha mãe sempre se irritava com as outras mães de filhos naturais que, mal descobriam a nova aquisidora e já vinham lamentar-se por não ter record financeiro suficiente para tornarem-se clientes também. Entretanto, os tipos que mais estressavam Verônica eram as outras mães salvaguardianas que insistiam em trocar figurinhas sobre suas pseudocrias. Me lembro de ela ter ficado especialmente enojada quando uma mulher que se apresentou como Terapeuta Social veio lhe aconselhar a pedir a reprogramação fenotípica a cada ano, pois assim, segundo a tal, a variação de experiências com os filhos acabaria por tornar a sociedade mais tolerante. Nessas poucas vezes não consegui encontrar nenhum dos meus companherios de lote. Tive a impressão de que o mundo além-Salvaguardia é mesmo muito maior do que imaginávamos. Quanto às outras crianças, é impossível saber quem veio da fábrica ou dos úteros maternos, a não ser pelo fato de uma mãe aparecer no parque com uma cria de 90 centímetros que ela não tinha até ontem.

O único compromisso social que Verônica mantém, além das 60 horas no escritório, são as reuniões quinzenais na sede do clube Victoriano. Algumas dezenas de mulheres que tem em comum uma vida inteira dedicada ao trabalho e a opção por não ter filhos naturais. Muitas recorreram à Salvaguardia após os 50 como é o caso de Verônica, outras optaram por continuar sozinhas ou com os maridos que restaram. Enquanto elas conversam, bebem, fumam e choram, nós ficamos do lado de fora numa espera que às vezes dura uma noite inteira. Algumas crianças brincam, outras falam, outras desligam-se. Eu só fico num canto escutando aquela música interminável e sentindo gelar o vento nas pernas de quem se negou por teimosia originária a colocar um agasalho. 

Tenho hoje 14 anos e 12 centímetros a mais. Verônica acabou de chegar da sua vigésima aplicação de enzimas anti-tumorais. Ela já está muito emagrecida por causa da  multiplicação celular descontrolada que começou no intestino há mais ou menos 7 anos. Nas várias conversas que agora já temos como mãe e filha, ela me contou que resolveu me ter (não fala mais “adquirir” por achar que isso pode me magoar de alguma forma) na época em que descobriu a doença e por conselho das membras do Clube. Pois, segundo a visão delas, a morte solitária feriria profundamente o legado das mulheres que corajosamente optaram por viver para si. – Foi o melhor conselho que recebi em toda a minha vida – confessou numa noite, no meu colo frio de quem não foi programada pra saber dar colo.

Minha mãe foi cremada alguns dias após minha fabricação completar 15 anos. Como consta no contrato de cessão de direitos, Salvaguardia veio me recolher. Se aquele garoto de anos atrás, que naquela ocasião nos explicou a origem das memórias, não for um dos criados com fenótipo de super-fantasioso, quem sabe Verônica ainda possa continuar a existir em algum lugar.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.