EntreContos

Detox Literário.

O Touro Mecânico (Paul Nash Ottah)

 

Vocês não me conhecem; provavelmente… Mas eu sou essa moça da foto aí de cima.

Por favor, não façam nenhum pré-julgamento. Fotografias mostram apenas instantes, e esta imagem aí em cima retrata só UM momento da minha vida; não refletindo, em absoluto, a essência de quem eu sou.

Ou de quem eu fui…

Eu me chamo Ana Júlia. Estava prestes a completar 27 anos de idade e… Sim, estou completamente bêbada nesse registro; feito às 22:47 de uma sexta-feira, véspera do meu aniversário. 

A fotografia foi tirada em uma festa temática, no interior do meu estado; em uma rave eletrônica sertaneja. Sim, isso existe… A música era horrível, de fato, mas os drinks eram grátis para as mulheres, até às 22h. 

E tudo da melhor qualidade! 

Hi-fi com vodka importada, tequila ouro, gin inglês, energético com whisky doze anos, cuba libre com rum de verdade, e… Cervejas mexicanas! De-li-ci-o-sas! É claro que, às 22:47, eu não poderia estar diferente…

Uma noitada de comemoração bem regada e alegre, que ocorria às mil maravilhas até o exato instante desta foto aí de cima. Minha última fotografia. O registro do meu derradeiro momento de inocência.

Sim. Por mais incrível que possa lhes parecer agora — e olha que eu pedi, encarecidamente, para vocês não me julgarem! —, até o momento desta foto eu sequer imaginava o quão pura eu ainda era. 

Não estou falando de virgindade, pois himens nunca funcionaram como termômetros de inocência. Quando digo pureza eu quero dizer de alma. Brandura de pensamentos e de espírito.

No entanto, para conseguir explicar o que isso realmente significa, eu preciso lhes apresentar outro personagem dessa história. O verdadeiro protagonista… E que também figura na fotografia que ilustra este torto relato.

Se vocês olharem outra vez para a foto, e pararem de focar na minha calcinha, de certo irão percebê-lo. Até mesmo porque… 

Eu estou montada nele. 

Pagando o maior mico da minha vida, é vero… Mas reparem bem na expressão do meu rosto. E o meu rosto fica ali, um pouco acima do decote do meu vestido… Viram o tamanho do — pedi para olharem mais para cima, por favor… — meu sorriso? Notaram como a minha feição parece não conseguir conter tamanha felicidade?

E as minhas mãos? Vocês conseguem perceber o que elas estão prestes a fazer? Olhem de novo para a foto; eu espero…

(…)

Sabem o que é isso? Vou dar uma dica. Começa com a letra “O” e termina com “RGASMO”. O mais longo e intenso de toda minha vida. E aconteceu ali, bem diante de centenas de pessoas. 

Ainda se fossem apenas desconhecidos… Mas aquela era a celebração do meu aniversário. Havia dezenas de amigos, colegas da pós, do trabalho… Até minha chefa estava lá! 

Meu crush, também.

Foi um horror! Um horror… Todos ali em volta de mim, presenciando com assombro — alguns nem tanto — aquele show de espasmos incontroláveis. E eu sentia tanto prazer, mas tanto… Que nada mais importava! Meu corpo tremia por inteiro e cada virada, cada tranco, cada sacolejada experimentada em cima daquele touro mecânico, me deixavam ainda mais descontrolada.

E molhada.

Se a foto tivesse sido tirada dois segundos depois, já mostraria o meu seio esquerdo; pois eu simplesmente rasguei meu vestido e, com a mesma mão autora de tal ato infame, comecei a acariciá-lo, já livre das incômodas barreiras do tecido e… do pudor.

Com minha outra mão, responsável não penas por segurar na alça do dorso daquele animal dos infernos, eu fiz ainda pior… Pois, se a fotografia tardasse um pouco mais para ser batida, revelaria também o desaparecimento da própria alça.

E acho que vocês já são capazes de imaginar onde ela… digamos… “se” meteu.

O fato é que, diante de escandalosa cena, que só piorava, as coitadas das minhas amigas mais próximas não tiveram alternativa — visto o incontestável deleite dos rapazes com minha performance —  a não ser tentarem me tirar dali de cima. 

Na marra.

Parte delas invadiu o espaço de segurança em volta do brinquedo, enquanto as outras correram em direção ao sádico controlador daquela fera de Sodoma e Gomorra, pedindo para que ele desativasse o animal mecânico que, a essa altura, já se tornara a alma da festa.

 Mesmo com o perigo iminente, as meninas fizeram de tudo para me arrancar de lá, mas minhas pernas se acoplaram àquele bicho-papão de inocência de tal maneira que, nem com os heroicos esforços empreendidos, elas obtiveram êxito.

Só quando aquela besta cessou por completo seus movimentos foi que me dei conta do que havia feito. E do estado em que me encontrava. Cabelo todo desgrenhado; vestido rasgado; peito de fora; calcinha e coxas encharcadas…  

O mais entranho de tudo, no entanto, não era nem os olhares de total espanto das minhas amigas; nem o brilho de cobiça expelido pelos olhos da desejosa e crescente massa masculina que tinha se aglomerado bem diante de mim, repleta de babacas babantes…

O bizarro, mesmo, foi o que aconteceu na sequência.

Lembram-se do crush que eu falei que também estava por lá? Pois é… Ele nunca tinha me dado a menor condição. E eu já tinha deixado BEM clara a minha atração por ele. Trabalhávamos em setores distintos, porém próximos; mas todas as minhas indiretas — e até mesmo as diretas — eram sumariamente ignoradas por ele. 

E então, como num passe de mágica, me surge o bonitinho, lá do meio daquela massa de tarados, correndo em minha direção enquanto tirava sua camisa — juro que tudo ficou em câmera lenta nessa hora! —, deixando minha noite ainda mais prazerosa diante daquele abdômen todo cheio de gominhos e um peitoral de dar inveja em qualquer adolescentezinha magrela.

Até minhas amigas aproveitaram a cena — digna de figurar na capa de algum romance de banca de jornal — apreciando a bela ‘paisagem’ a se aproximar, nitidamente preocupada comigo. Ele cobriu meu corpo seminu com a vestimenta recém-tirada e, abraçando-me com cuidadosa firmeza, puxou-me de cima daquela máquina devassa, destruidora das mais puritanas reputações.

Abriu-se um curioso clarão na plateia, formando um corredor por onde Lucas, meu crush salvador, levou-me em segurança até uma área reservada, cerca de cem metros adiante. Longe dos olhares lascivos de toda aquela gente que testemunhara meu obsceno devaneio etílico, montada no dorso de um touro mecânico responsável pela hedonista e transcendental sequência de múltiplos orgasmos — tântricos — que acabara de experimentar. E que me fizera descobrir uma parte de mim mesma que, talvez, nunca deveria ter sido descoberta, exposta… 

Trazida à tona.

Lucas abriu a porta de acesso e me ajudou a entrar na pequena sala de estar, onde havia apenas uma mesinha de madeira, no centro, e um sofá de dois lugares, forrado com um tapete de couro de boi cuja textura era semelhante à pele do monstro que eu acabara de, em vão, tentar domar.

Após me colocar sentada ali, sem ter falado sequer uma única palavra até então, virou-se e, pondo fim às minhas mais perversas expectativas, afastou-se ligeiramente de onde me deixara — como se eu fosse radioativa —, caminhando de volta em direção à porta daquela saleta.

Chamei seu nome e, sentindo em meus músculos das pernas o mesmo que um explorador amazônico desavisado sentiria ao tentar atravessar um rio repleto de piranhas assassinas, coloquei-me de pé. Lucas, ainda de costas, parou diante da porta. Parecia mesmo hesitante. Quando enfim terminou de girar seu aprazível corpo de novo em minha direção, eu já estava segurando em uma das mãos a vestimenta que ele, gentilmente, havia me cedido lá fora.

Com o braço esticado, falei:

— Sua camisa, gatinho…

E os afamados peixes carnívoros de minha metáfora amazônica começaram a beliscar músculos mais altos, fervendo as águas de um rio transbordante que voltou a jorrar com força, escorrendo outra vez pelas minhas coxas de modo a me fazer agir exclusivamente por instinto. Instinto animal…

Uma fera no cio.

Mal tinha acabado de arrancar os trapos que restaram de meu vestido e, então, percebi o movimento contrário que era executado por Lucas, terminando de vestir a camisa por mim devolvida; já abotoando os últimos botões.

Por cerca de cinco segundos fiquei em pé ali parada, só de calcinha — e uma calcinha encharcada —, olhando com uma mistura de espanto e desejo para aquele rapazinho atrevidamente bem comportado, que demonstrava tamanha imunidade diante do indubitável nível de estrógeno presente no ar, refletido na total transparência da minha última peça de roupa. 

Impassível.

Nem a visualização detalhada do elaborado desenho de meus pelos pubianos, nem os contornos curvilíneos de meus seios, de róseos mamilos intumescidos, e nem mesmo a involuntária pressão que eu sensualmente desferia com os dentes dianteiros sobre meu lábio inferior, o fizeram dar o próximo passo.

Ou, melhor dizendo, fizeram sim. Fizeram-no dar vários passos. Porém, para meu completo desespero, Lucas caminhou para trás, distanciando-se ainda mais de mim, até bater com as costas na porta de entrada — e saída! — daquele libidinoso ambiente.

A trágica e indesejável cena de meu crush correndo em disparada em meio à multidão de transeuntes lá de fora, fugindo de mim como o Super-Homem da criptonita — ou, quem sabe, o He-Man da She-Ra — só não foi mais impactante do que outra cena que acontecia, no mesmo instante, mais adiante.

Como se houvesse sido colocada estrategicamente de fundo naquela dramática e já clássica encenação, catalogada para sempre como “A Fuga do Crush” em minha lastimosa biografia, percebi lá atrás que o touro mecânico estava outra vez em funcionamento.

O recorte do batente da porta da saleta onde eu tinha sido abandonada pelo péla-saco do Lucas — ainda em evasão — formava uma moldura perfeita para um espantoso quadro em movimento. 

Assustador, mesmo! 

Pois… Montada naquele brinquedo bestial, que primava em trazer à tona o lado mais selvagem de quem, ingenuamente, se arriscasse sobre ele, estava agora ninguém mais, ninguém menos, do que minha pobre chefinha. 

Ela mesma… Inclusive, já sem a parte de cima da roupa, sacolejando os seios para toda uma legião de voyeurs, lá do alto do bichão devorador de honras.

E o pior é que ela era casada… E todo mundo do trabalho sabia disso. Muitos, como eu, até conheciam o esposo dela. Um cara muito gente-boa e por quem ela era completamente apaixonada. Um homem que — jamais! — ela trairia ou magoaria; como de certo ele se sentirá ao saber o que ela estava fazendo ali, diante de todo mundo, com direito até a vários registros, perpetrados pelos diversos celulares apontados para ela enquanto dava continuidade ao indecente strip-tease

E… Adivinhem só quem foi o ‘cavalheiro’ surgido daquela massa nojenta de lixo humano, retirando sua clássica camisa de flanela e oferecendo-a como capa protetora para a desgraçada mulher, já por inteiro exposta?

Pois é…

Lucas retornou — pelo mesmo corredor fantasticamente formado outra vez em meio à multidão — para onde há pouco havia me deixado. Minha chefa vinha ao seu lado, enrolada em flanela, com um brilho sedento nos olhos e um concupiscente sorriso no rosto, sendo amparada por ele.

Ainda assim, mesmo em meio a tão inverossímil situação, quando Lucas virou aquela delicinha de corpo para deixar de novo o recinto, eu confesso que um impulso incontrolável me fez saltar na direção dele. 

Do pescoço dele.

Primeiramente, foram minhas mãos a envolver sua glote. Quando ele dobrou os joelhos, tombando no chão, iniciei uma chave de pernas que, devido à quantidade absurda de hormônios que circulavam em minha corrente sanguínea, se eu quisesse, poderia sufocá-lo até a morte entre as minhas coxas.

No entanto, tais hormônios não queriam isso. Eles clamavam, desejosos, por prazer. Satisfação sexual. Plena e absoluta. A mesma sensação que invadira meu corpo sedento quando estava sentada, com gosto, no dorso daquele animal controlado por circuitos eletrônicos que o faziam movimentar-se perversamente.

Utilizando-me de uma força que não sabia possuir, domei aquela cabeça relutante da mesma forma que cavalgara a fera lá de fora. Igual destino desferido outrora à alça de couro do dorso da besta foi dado então para o nariz de Lucas; a mais impudica das protuberâncias disponíveis no rosto do rapaz que, agora, jazia imobilizado entre minhas coxas, chafurdado em mim.

— …Mmnnnããão, Ana! Mmmnnnããão faz isso! Ele mmmmnnnnão vai permitir!

Meu tímido crush demonstrava tanto temor frente à situação exploratória na qual minha volúpia incontida o obrigava a enfrentar que eu…

— Do que é que você falando, Lucas? Ele quem?

… o questionei enquanto rebolava, com afinco, sobre seu rosto apavorado.

— Você… Vocês… agora sãoummmnnn… Sãoumnnm… Dele! Sóumnn… Dele!

O relaxamento dos músculos das minhas coxas, para permitir que ele falasse, custou-me o controle daquela situação. Num movimento desesperado, Lucas conseguiu livrar-se da chave de pernas e partiu em disparada, mais uma vez, para fora da sala.

Ao recobrar o equilíbrio e colocar-me de pé diante da porta — deixada escancarada pelo rapaz em recorrente fuga —, observei através do vão a mesma cena se repetindo. A única diferença era que, agora, quem estava montada no dorso do touro, lá no fundo, eram duas colegas minhas da faculdade.

Débora e Fernanda não apenas cavalgavam juntas, mas se beijavam e acariciavam seus corpos nus de maneira tão erótica e provocativa que nem mesmo a fera mecânica pôde suportar…

Em uma mutação arrebatadora, o dorso animalesco daquela máquina bacante expandiu-se. Chifres enormes surgiram em uma ponta, seguidos por uma cabeça de touro colossal, sobre a qual os cornos se arraigavam. Os corpos exímios das minhas amigas foram amparados por um par de braços humanos, repletos de músculos. 

O tronco daquele ser metamorfo também se assemelhava ao tronco humano; mas era ali que terminavam tais congruências. Da cintura para baixo, o monstro voltava a apresentar traços animalescos; formando um todo que ficava mais próximo da figura mitológica de um minotauro.

Um minotauro absurdamente bem-dotado e que, com ‘aquilo’ em riste, partiu em disparada sobre a multidão, pisoteando-a sem misericórdia e traçando — ainda a segurar minhas despidas colegas de classe nos braços — uma decidida reta em direção à saleta onde eu, com crescente avidez, o aguardava.

 (…)

— Ana? Ana!?

— Mmnn…

— Você bem, amiga?

— E-ummnnn…

— Você caiu do touro… Bateu forte com a cabeça na queda… Nós ficamos preocupadas! se sentindo bem, amiga?

— Eu…

Estava na mesma sala. Trajando meu lindo vestido branco; inteirinho. Fernanda e Débora tinham trazido água. Para mim e para minha chefa, afundada no sofá, ao meu lado; praticamente em coma alcoólico.

Minha cabeça doía um pouco, talvez mais pela quantidade de bebidas ingeridas do que pela pancada recebida no tombo que minhas amigas, gêmeas e sempre igualmente vestidas, disseram que eu havia sofrido.

— Como eu vim parar aqui, meninas? — não me lembrava de nada além do sonho inusitado que tivera.

As irmãs olharam então para um canto da sala, fora do alcance do foco da única lâmpada que existia ali, posicionada bem sobre aquele peculiar sofá, forrado por uma espécie de tapete de couro bovino.

— Eu te trouxe pra cá, Aninha.

Era a voz do Lucas, que emanou da escuridão juntamente do vulto de um corpo nu a trancar por dentro a porta daquela saleta.

— Eu que trouxe todas vocês pra cá…

 

* * *

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.