EntreContos

Detox Literário.

O Rasante (Vladmir Campos Leão)

O beijo de sua esposa e o abraço de seu filho pequeno foram os únicos presentes que Altair teve tempo de receber naquele seu aniversário. 

Antes que o calor de tais gestos fosse levado pelo vento frio da guerra, ele montou em Pinta e chamou Nina num assobio breve, mas de longo alcance.

O mais rápido que podiam os três correram para fora dos limites da cidade na tentativa de conseguir se aproximar o suficiente para confundir o computador dentro do perigo que vinha veloz e brilhante no céu anil.

***

Um mês atrás um pulso eletromagnético havia inutilizado praticamente todos os componentes eletrônicos presente no Planeta e também os que orbitavam ao seu redor. 

Todas as agências de inteligência perceberam logo que seria estupidez fingir que o que estava acontecendo não era uma invasão. De modo que os governos investiram tudo o que tinham na recuperação de equipamentos bélicos analógicos ou nos que possuíssem proteção contra um novo pulso. 

Nações uniram forças e bilhões de soldados morreram usando o pouco equipamento disponível que mal fazia frente ao maquinário avançado dos invasores.

Nesse ínterim, as poucas e pequenas naves capturadas puderam fornecer informações precisas sobre seus pontos fortes e fracos. A melhor delas era a de que haveria um modo de desorienta-las e então voltar umas contra as outras; isso se, fossem aproximados o bastante destas máquinas dispositivos que perturbariam seu comando remoto. Dessa forma, não haveria sequer a necessidade de atirar nelas, já que as próprias poderiam fazer este favor.

E dada a ausência de veículos motorizados, o uso de cavalos era a alternativa mais que viável. Logo, jóqueis, guardas montados, vaqueiros ou qualquer um que pudesse guiar bem um equino veloz era recrutado para este novo tipo de combate. 

Ao se apresentarem, cada um deles fora informado de que os equipamentos que levariam nas costas emitiriam ondas fortes o bastante para lhes matarem de câncer em poucos meses. …Mas que meses eles teriam para adoecer se a humanidade perdesse aquela guerra?

Assim, cavalarias em todo mundo saiam às centenas para desorientar e derrubar as naves inimigas que iam batendo umas nas outras como moscas que tivessem bebido uma forte água ardente. E justamente por este plano ter algum sucesso, os invasores se viram inclinados a diminuir o envio de naves pequenas. 

Bombardeios massivos passaram então, a destruir todas as cidades que eles consideravam como sendo relevantes focos de resistência. Até que sobrou apenas uma.

Dela saiu o último voluntário, encarregado de um plano desesperado e tendo como companhia não outro cavaleiro ou amazona, mas sim a cadela que ele havia criado em seu sítio desde filhote.

***

Com cinco minutos de cavalgada frenética em direção ao míssil o display no pulso de Altair já indicava que o sistema de busca do artefato principiava sinais de confusão e não conseguia mais reconhecer com exatidão o alvo. 

Nina ia à frente, com o então mais avançado amplificador de sinal já feito, preso em suas costas; enquanto Altair levava na mochila seu embaralhador com uma antena tão longa que se não fossem aqueles dias infernais de guerra, quem o visse correndo daquele jeito poderia jurar que se tratava de um pescador saudoso pelo hobby.

O display piscava sem parar mostrando leituras muito otimistas para Altair, mas o rastro de fumaça deixado pelo míssil lá em cima indicava que este ainda se dirigia à cidade. Era preciso adentrar ainda mais as terras tomadas pelo inimigo para que o plano desse certo. 

Drones dos extraterrestres rasgavam o céu e crivavam a terra poeirenta ao redor dos três velocistas. Nada que os últimos helicópteros tirados do museu (e devidamente reformados) não dessem conta de abater com um samaritano voo de auto sacrifício. 

Asas derretendo e pedaços de pilotos de grande coração choviam atrás daqueles três; que a seu modo também voavam. Juntos numa corrida sem medo eles abriam um corte profundo na cara arrogante da morte enquanto voavam baixo, num rasante que ascendia a terra por onde passavam; ganhando terreno ao aproveitar cada pedra, cada árvore no caminho, como escudo. 

Se obtivessem êxito, (ainda que morressem na tentativa) lhe fora garantida pelo presidente que receberiam como homenagem uma bela estátua no meio da cidade. Nada mais pueril para se ouvir naquele momento. Já que se falhassem, não sobraria nem aquela cidade, nem a próxima, nem a seguinte, nem nada num raio de 200 quilômetros para erguer qualquer coisa.  

A máquina mortal tinha entrado no meio das nuvens, porém, mesmo sem qualquer equipamento ainda dava para saber que ela estava lá. Cada vez mais perto. O ronco de sua passagem em mach 3 podia ser ouvido até mesmo de dento dos bunkers na cidade. O que levava Altair a forçar Pinta a ir mais rápido do que a melhor volta que ela tivesse dado em seus tempos de glória no hipódromo.

De súbito, adiante na estrada, Nina cai arrastando o peito, atingida por um tiro que lhe arrancara uma das patas dianteiras na altura do cotovelo.

Altair então gira em 90º sobre a cela e estende o braço para pegar a amiga pela coleira. Se errasse e a border collie ficasse para trás, ganindo em campo aberto, a potência do sinal seria perdida, e junto com ela três milhões de vidas. Mas como sua fiel cabecinha canina bem tinha aprendido, um assovio de seu mestre era para ser levado a sério e mesmo que tivessem lhe tirado mais a outra perna ela continuaria como pudesse, a toda velocidade. 

Ela tinha sido a melhor nos treinos. Então andar só nas patas traseiras não era nenhum problema para aquele serzinho determinado. Deixando para trás a perna arrancada a cadelinha prosseguiu. Com a língua para fora e pingando sangue ela foi adiante com uma expressão satisfeita de quem tinha certeza de ser uma boa menina.  

Tamanha determinação lhe fez levantar a cabeça o suficiente para que Altair pudesse pegá-la e com um abraço prendê-la para que agora realmente juntos os três pudessem atravessar o campo com obstáculos que nem o mais robusto tanque daria conta de transpor. As três corajosas figuras agora seguiam invisíveis dentro das trincheiras, frustrando a artilharia automática projetada e colocada naquele terreno tomado apenas para abater inimigos no céu. Estas mesmas armas, guardadas por soldados robôs haviam até ontem derrubado o último jato que ainda fumegava espatifado na mata.

Mas, num tranco repentino, Altair pende para trás. O tiro de um sniper no alto de um pinheiro à frente lhe havia acertado o rosto e removido todo o crânio do alto do pescoço; deixando-o com os braços soltos a balançar e também cobrindo todo o restante do pelo branco de Nina com seu sangue.  

Pinta, entretanto, continuava correndo. Mesmo sem ter quem a compelisse. E assim continuou por metros e metros, insistindo, ofegando, mesmo depois do primeiro e do segundo tiro no peito. Só foi cair depois que o terceiro projétil lhe arrancou a cabeça e a fez tombar para frente, lançando Nina vários metros à adiante. O suficiente para que dispositivo em suas costas ainda fosse capaz de realizar o objetivo principal de redirecionar em velocidade dobrada o míssil para a nave que o havia lançado.

E para lá ele se voltou. Rumo àquela descomunal máquina de outro mundo, sobrevoando a cadeia de montanhas nevadas; cheia de tripulantes seguros de que dali, assistiriam num lugar privilegiado a derrota daqueles seres tão pequenos e primitivos que ainda precisavam da ajuda de animais para travarem suas guerras. 

Sem ter tempo de reverter os motores ou de reabrir a fenda dimensional por onde veio, a nave recebeu em cheio a mesma bomba que 20 minutos atrás havia lançado. 

Seus enormes destroços penderam do céu esmagando e deformando para sempre aquela parede milenar de rochas magmáticas cobertas por neve. 

Cem anos depois, nem os nomes de João ou de José somados faziam frente à enorme quantidade de bebês que batizados com o nome de Altair. E não só o nome dele tinha ganho destaque: ao redor do globo, praças, ruas, avenidas e centros de proteção aos animais orgulhosamente mudavam seus nomes, em versões traduzidas ou não, para o das heroínas de quatro patas.

Outra centena de anos se passara e a humanidade já tinha aprendido a usar a tecnologia do povo invasor para se defender de possíveis novas investidas contra o planeta e; inclusive, sempre que lhe fosse conveniente, levar “democracia e liberdade” às outras raças pela galáxia. Sendo as naves mais velozes da frota as: Bravo Altair, a Perseverante Pinta, e a Fiel Nina.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.