EntreContos

Detox Literário.

O Frasco de Biscate (Tito Nofir)

Não havia passado muito da meia-noite quando Marieta acordou. Os lençóis estavam ensopados e no local onde antes o marido adormecera ao seu lado havia uma poça. Marieta acendeu seu abajur e a poça era um impregnado negro contrastando com o alvo de sua roupa de cama levemente estampado de flores miúdas. Ela abafou um grito com as mãos. As crianças dormiam no cômodo adjacente e um alvoroço agora não resolveria. Restava recapitular os ocorridos recentes antes de tomar qualquer atitude precoce. 

Naquela noite, tudo ocorrera como no costume de Madureira. O marido saíra do trabalho, desembarcara do trem as seis e vinte e sete, caminhara até em casa e antes que o âncora anunciasse o jornal ele já estava com as pernas para em frente a tevê. As crianças brincavam na sala aos pés do pai e só levantariam quando ela anunciasse o jantar, ao que todos correriam para lavar as mãos. 

Já na mesa, Pedro reclamou das batatas, Joca raspou o prato e Mariana recusou a sobremesa, mas ajudaria com a louça. O marido a agradeceu de primeiro com um aceno de cabeça, depois com um beijo, antes de sair com seu copo de bebida na mão. Marieta estava deixando escapar algo, mas não lembrava o quê. 

Levantou da cama, abriu a porta devagar e caminhou pelo corredor até a sala de jantar. Durante a refeição falaram sobre as notas escolares, discutiram o custo da passagem e o marido reclamou da rotina do trabalho e do chefe, Ernesto, que como sempre, o atarefava demais em comparação com os demais empregados. Ergueu os punhos em riste, como na semana passada e esbravejou:

– Um dia, Marieta… um dia, eu…

Ele ameaçava, mas nunca concluía. E ela ria, pois coração mais mole nunca vira. Mesmo, na madrugada, esforçando-se para lembrar, encostada a soleira ela riu dele. A gosma negra estava presa entre seus dedos. Mas aquilo não lhe causava asco. Estranhamente, ela parecia se familiarizar com aquilo, precisava saber o que acontecera em tão pouco tempo. Ela então teve um estalo. Algo tão óbvio como uma charada infantil. Voltou pelo corredor buscando velocidade sem ranger a madeira do piso antigo. 

O marido fora mais cedo para o trabalho aquele dia. As contas eram muitas, seu Ernesto pagava pouco e como subterfúgio o marido arranjara um biscate, com um amigo de infância da Baixada, apelidado de Carniça, como testador de novas substâncias para um grupo farmacêutico que pagava bem. No dia, ele combinara de passar no tal laboratório para recolher o material de amostra ao qual ele serviria de cobaia.

– Você num confia em mim, Marieta?

O sorriso amarelo do Carniça era de arrepiar a espinha. Ele viu o bico que ela fez, assim que fez a proposta para o marido:

– Não vou metê o João em roubada, não.

“Diabos! Se isso não era uma roubada, era o que então?”, pensava ela, enquanto caminhava em direção ao final do corredor em busca do frasco, que o marido segurava na mão quando ela entrou na sala com a louça seca para colocar na cristaleira no fim da noite.

– É esse o tal material?

– É, dissera ele enfiando o frasco novamente no bolso e tomando outro gole do Gim puro. Tempo suficiente para ela gravar alguns detalhes, como a cor do rótulo, da tampa e o tamanho do pequeno frasco âmbar.

Após arrumar a cozinha, Marieta tomava uma ducha morna e se arrumava para deitar, mas sabia que João fazia a barba a noite, depois de terminar seu drinque, deixar seu copo na pia e tomar um banho quente. Então faria sentido procurar pelo frasco no banheiro, onde provavelmente ele teria ministrado a tal solução, fosse o que fosse, sem ser perturbado, indagado ou inibido. Quando Marieta chegou ao banheiro o copo sobre a pia ainda estava pela metade com água. Abriu o espelho, mas o frasco não estava lá. Correu os olhos pelo cômodo. Talvez não fosse via oral, e a água estivesse ali por coincidência, o que de fato era verdade.

Perto da área do box, entre os xampus e os cremes, lá estava o frasco de João. Ela o apanhou rapidamente e pôs-se a ler o conteúdo. Para seu espanto maior, o rótulo estava escrito a mão e havia uma simples palavra: Emplasto. Rodou a tampa e o conteúdo exalava um odor comum e o resíduo no fundo branco da tampa a fez se lembrar do lençol em sua cama, todo manchado. Tudo bem, pensou ela. Isso explica a mancha, mas onde, diabos, estaria João? Sofrera alguma reação e estava caído no quintal? Que nada! Ela o ouviria abrir qualquer uma das portas, inclusive a do quarto, pois sutileza, não era uma qualidade de João. Não havia rastro dele e isso deixava Marieta em pandarecos. Então ela encarou o frasco mais uma vez, numa esperança débil de responder aos seus próprios medos e encontrou, não uma resposta, mas um caminho. Uma sequência numérica precedida de outros números entre parênteses revelou-se um contato telefônico. Ela ligaria, pois precisava de respostas, assim como as temia. 

Ouviu o barulho do trinco do quarto dos meninos e com o frasco em mãos ela voltou para o quarto, onde a cama ainda estava levemente iluminada pelo abajur. Marieta temia encontrar um dos filhos no corredor e ter de dar uma explicação. Ouviu um deles avançar pelo banheiro. Urinar. Na certa, um dos meninos, dada a força do jato sobre a porcelana. Joca tomara três copos cheios de refresco, no jantar. Percebeu então um papel, no chão, ao lado de onde ates estivera seu marido e antes que a poça, que agora transpassava o colchão e começava a molhar o piso, chegasse a tocar a superfície do papel ela o apanhou. Nele havia uma mensagem simples em letras garrafais e vermelhas: PARA EMERGÊNCIAS., seguido pelo mesmo número de telefone. Não havia escapatória. Discou uma vez e esperou a linha chamar e foi apenas um toque antes de uma voz feminina responder do outro lado:

– Identificação, por favor?

Marieta congelou. A mulher repetiu. Pausadamente, numa voz fria demais para ser algum tipo de amante a espera de uma ligação e assim Marieta sentiu as esperanças esvaírem por entre suas pernas em forma de incontinência.

– … onde…, respirou fundo, … onde está meu marido?, mas a voz saiu quase como um sussurro.

– Desculpe Senhora. Poderia repetir, por favor?

– Onde está o meu João?!

E repetiu a pergunta mais umas duas vezes em desespero, procurando não falar alto demais. Joca poderia ainda estar no corredor.

– Acalme-se, Senhora. É a esposa de João Silva? A senhora, pode, por favor explicar o que aconteceu? 

– É justamente o que eu esperava que você me fizesse.

A moça esperou um pouco então continuou:

– Houve alguma reação inesperada ao medicamento? – a voz do outro lado começava a se alterar e ficar aflita. – Sudorese? Tremor?

Marieta ficou em silêncio e por um momento entre as duas houve apenas a respiração pesada de uma, que segurava o choro desesperado, sem saber como responder para a voz feminina que o marido desaparecera e a da outra que não sabia como confortar o desespero pelo telefone. Até que o silêncio foi cortado por uma voz masculina carregada em um sotaque meramente estrangeiro: 

– Escute, ‘Señora’! Houve, algum tipo de evanescimento na parte aplicada?

– Total!  – respondeu Marieta e pôs-se a chorar.

 

– Santo Deus! – disse a mulher do outro lado largando o telefone. Marieta ouvia tudo e já começava a supor que não haveria solução.

– Acalme-se, Verônica. Diga a ela que estamos a caminho. Que ela não chame a polícia de forma alguma.

Nesse momento, a moça tentava em vão chamar Marieta de volta para a linha, mas ela já estava fora do ar. Não havia solução. O telefone caiu no chão e lá ficou com a esperança. Marieta se arrastou pelo quarto, para o lado onde o marido deitara pela última vez ao seu lado. O pijama dele ainda estava sobre o colchão, sujo pelo emplasto e ela se sentou junto a poça. Sobre ao que ela imaginava ser o resto de seu marido. Amaldiçoando Carniça pelo fim de seus dias. Desejando ter sido ele o evanescido.

Os homens de branco destrancaram a porta da sala e encontraram-na em estado de choque perto do chão, com o rosto e os braços apoiados sobre o colchão. Eles usavam mascaras, luvas e macacões anti-infecciosos. Tomaram-na nos braços e ela não se recorda de uma única palavra ministrada pelos homens sobre o que de fato acontecera com o marido, nem sobre o que iria ser feito dela, ou como seria sua vida dali para frente. Ao ser levada para o carro, pode pensar num momento nos filhos, mas apenas pode ver a casa em chamas se afastar de sua retina paralisada, enquanto o carro se avançava pela rua. Sua alma não tinha força para bater contra o vidro. Madureira foi ficando pequena aos olhos de Marieta, até virar pó.

Marieta ficou seis meses no hospital até recuperar a consciência e se dar conta de que metade da face havia desaparecido, assim como parte dos braços, dos dedos, dos seios e por totalidade a voz. Para quem pergunta, a irmã, com quem ela vive hoje, explica que João sempre ameaçava, mas que ninguém imaginava que seria capaz de colocar fogo na casa com os filhos e a esposa dentro, e que ela teve sorte de sobreviver. Quando ela gesticula em desaprovação dos fatos relatados pela irmã, esta a acalma entregando-lhe um pequeno frasco âmbar do emplasto antissinais  vazio e explica os olhos marejados de Marieta:

– Pobre Marieta. É a única coisa que a acalma. Não estranha, não, mas é que ainda é forte pra ela.

Os olhos sem as marcas do tempo concordam em unanimidade: coitada da Marieta.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.