EntreContos

Detox Literário.

O Conselho das Galáxias (Falcão)

Apesar das muitas brigas que tive com meus pais, sempre me achei um cara legal. Depois que saí da casa deles fui morar com um amigo numa casa alugada afastada do centro da cidade. Dividíamos o aluguel, trabalhávamos pelo dia meio período e, à noite, íamos à universidade; eu fazia o curso Ciência da Computação e meu amigo Adilson fazia o curso de Letras. Não entendi o porquê, já que esse negócio de aprender sobre Literatura, na minha modesta opinião, à época, nunca deu futuro a ninguém. Mas apesar de tudo, ele era um cara legal, amigo de infância. Hoje sinto sua falta e das aventuras e até de algumas desventuras que tivemos antes de ele ser aprovado num concurso para professor de Literatura Brasileira numa universidade de Londres depois que terminamos o mestrado. 

Se as palavras têm poder para mudar a vida de alguém, acho que aquela conversa, não muito amigável, que tive com o alienígena modificou algo em mim. Foi apenas um sonho, mas hoje depois de alguns anos tenho dúvidas disso. Nunca acreditei em discos voadores, todavia, lembro que acordei com algumas marcas no corpo que, hoje pensando mais friamente, não poderiam ter sido feitas por alguém que ficou a noite toda deitado, por mais irrequieto que eu fosse dormindo. 

Devia ser mais de meia-noite quando um barulho estranho no fundo da casa me fez despertar. Com os olhos meio fechados meio abertos, achando que havia alguém no outro quarto, chamei Adilson da cama mesmo: 

─ Adilson, Adilson, que barulho é esse, velho? Obtive apenas o silêncio como resposta.

─ Puta que pariu, velho! Veja que porra é essa aí, você que está mais perto da porta! E nada de Adilson responder. Fui rastejando para fora do lençol, como uma cobra sucuri que acabou de engolir um boi, desci da cama, calcei os pés lentamente e mesmo de calção e camiseta fui verificar o tal barulho. 

Dei uma olhada no outro quarto e nem sinal de Adilson pela casa. Ao segurar a maçaneta percebi que o barulho havia parado. Pensei imediatamente que seria Adilson querendo me pregar uma peça. Fiz bastante impulso para puxar a porta de uma vez, e já estava preparado para qualquer tipo de trollagem que pudesse estar me esperando. Ao abrir a porta vi lá fora algo que jamais havia imaginado. Imediatamente, meu sangue gelou, o coração disparou e senti que minha vida tinha chegado ao fim; não sei se por causa do medo ou de alguma outra força invisível não conseguia me mexer e fiquei ali estático observando, sob a luz da lua cheia, um tipo de criatura disforme que lembrava o Geléia, dos Caça-fantasmas, só que com quase o dobro do meu tamanho. Assisti atônito àquela criatura ir rapidamente mudando de forma, foi encolhendo até que ficou da mesma altura que eu. Logo desenvolveu braços, pernas e uma cabeça como um ser humano, porém, sem cabelos, olhos, boca. Parecendo um manequim a criatura aproximou-se e tocou em minha mão que ainda segurava a maçaneta da porta, afastando-se em seguida. No mesmo instante em que ele me tocou senti como se visse todas as minhas lembranças passando pela minha mente num rápido momento.

Diante dos meus olhos, aquele humanóide foi tomando uma aparência familiar; brotaram como num passe de mágica: cabelos, boca, olhos, braços e pernas iguaizinhos aos meus. Qual não foi minha surpresa ao ver aquele ser transformar-se em uma cópia exata de mim, inclusive com minha roupa. Pensei naquela hora que o novo eu iria me matar para assumir meu lugar e dominar o mundo. Num misto de medo e surpresa, busquei lá no fundo de mim força e disse:

─ Por favor, não me mate! 

O novo eu ficou olhando para mim de baixo para cima como a escanear-me por dentro; mexeu os braços e as pernas como se fizesse alongamento e olhando nos meus olhos disse: ─ Por favor, não me mate. 

Desse momento em diante, comecei a sentir meus movimentos de volta. Sob o olhar atento do outro “mim”, larguei a porta e me sentei ali mesmo no chão agora frio. Fiquei estarrecido ao ver aquela coisa falando igual a mim. Como se não estivesse acontecendo nada de mais ali, o alien estendeu-me sua mão. ─ Nem morto pego na mão desse cara, de repente ele quer me pulverizar ou solver meu corpo como Chang Tsung, de Mortal Combate. Pensei ainda aterrorizado. Ficamos por algum tempo assim, os dois parados, um olhando pra cara do outro. É incrível, mas nunca pensei que um dia iria ter medo de mim mesmo, analisar a si mesmo pode ser bem constrangedor. Vendo que eu não iria sair dali tão cedo, o alien disse então: 

─ Deixa de ser covarde e deixe eu te ajudar a levantar; você devia ver sua cara de mulherzinha. Eu não vou matar você não, fique tranquilo. Fui atingido por um meteorito e fui obrigado a fazer um pouso de emergência para reparos.

Segurei na mão dele e me pus de pé em sua frente, ainda com as pernas tremendo um pouco olhei nos olhos dele e perguntei pelo meu amigo Adilson. O “mim mesmo” respondeu que antes do pouso viu um carro saindo da frente da casa e precisava entrar no local. Só não contava com minha presença no local.

─ Minha nave está aqui perto, e pela leitura que fiz das redondezas, detectei aqui em sua casa um depósito com todas as peças e ferramentas que preciso para consertá-la antes que o gerador auxiliar pare de funcionar e a nave fique visível aos olhos de vocês terráqueos. Disse o outro eu. 

─ Como posso ajudar? Já recuperado do susto perguntei. 

O alien apertou o pulso da mão direita com a mão esquerda e atrás dele apareceu no chão um cubo preto mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapato. Sem cerimônia já foi entrando, pediu que eu pagasse o objeto e o levasse para dentro enquanto. Peguei o cubo com as duas mãos e fazendo grande esforço consegui carregá-lo até dentro de casa onde estava o outro “mim” que me olhava com um riso irônico enquanto eu suava para levar a caixa até ele. 

─ Você parece um viadinho! Se cagando pra carregar, por poucos metros, um mísero conversor de partículas quânticas. Disse ele, enquanto eu me continha para não xingar até os seus antepassados. 

─ Deixe o conversor aqui e vamos ao depósito, rápido. Precisamos terminar antes de amanhecer. Onde caralhos você colocou a porra do celular!?

Deixei o pesado objeto na mesa da cozinha e fui até o quarto pegar o celular. Enquanto procurava o aparelho no meu quarto ouvia o outro eu berrando lá da cozinha: ─ Puta que pariu, velho! Onde você guardou a porcaria da chave do depósito, que eu não acho? Bradou o “eu” ferozmente. Peguei o celular e fui correndo pegar a chave do depósito que eu havia esquecido no banheiro na manhã anterior e levei-os até ele que esperava em frente à porta. 

Enquanto eu abria a porta o outro eu colocou a mão nas minhas costas e falou baixinho perto do meu ouvido: ─ Agora que não preciso mais de você vou pulverizá-lo. 

Meu sangue gelou. Olhei para ele quase chorando e sem fala. Ele afastou-se de mim e disse: Brincadeira! Soltando uma risada em seguida. 

Entramos no depósito, o outro eu olhou em volta para aquele monte de tralha e falou em tom de ordem: 

─ Vá lá e pegue o conversor. 

Quando eu ia dizer que estava com a coluna doendo ele disse: ─ Eu sei que você vai reclamar do peso e blá, blá, blá, mas pode ir tranquilo porque eu já religuei o dispositivo antigravitacional. Falou novamente como se estivesse se divertindo.  

Entrei no depósito e já encontrei o eu separando teclados velhos, cabos USB e conectores de um lado e as chaves, ferros de solda e fios de outro. Deixei o conversor ao lado do meu celular e das chaves da casa que estavam na bancada onde ele iria trabalhar e fiquei sentado atrás dele pensando por quanto tempo ainda teria de aturar aquela criatura chata. ─ E esse dia que não amanhece! Acho que uma noite nunca demorou tanto quanto essa. Pensei.

Não se passaram cinco minutos de observação e o outro eu me chamou e mandou que eu pegasse a chave Philips que havia caído no meio das CPU. Rapidamente obedeci. Intrigado, perguntei para que ele queria meu celular, prontamente ele respondeu: 

─ Puta merda, cara! Você pergunta pra caralho viu. É pra enfiar no meu rabo! Se eu estou com ele aqui é porque vou usar pra alguma coisa. Eu sei que você quer enviar mensagens, ouvir músicas e tudo mais, mas há um bloqueador de sinal na minha nave, fique tranquilo que não há nenhum sinal num raio de 4 km. Calma, meu amigo. São poucas as pessoas que têm a chance de conversar com alguém igual a si. Já estou quase acabando.

Essa última frase me alegrou bastante. Mal acabei de pensar em me ver livre dele, lá veio outro pedido:

─ Hei, vá lá na cozinha e traga alguma coisa pra gente comer, estou verde de fome. Traga muita comida viu, o bastante pra vinte comer! Entendeu a piada? “pra vim te comer”! Falou pausadamente enquanto ria sozinho. 

Enquanto eu preparava um lanche rápido pra dois, fiquei pensando porque aquele cara se comportava assim. Não tive tempo de pensar muito. Sob os gritos do alienígena, voltei ao depósito com a comida e lá sentamos numa mesa improvisada.

Curioso, mas com medo da resposta tentei puxar conversa com ele enquanto comíamos: 

─ Você tem nome? 

─ Pra que eu preciso de nome? Nome, RG, CPF, tudo isso é uma maneira de marcar os humanos. Nomear, enumerar, classificar e dominar. Respondeu enquanto mastigava. 

─ Todos os que vêm do espaço se comportam assim como você? Arisquei mais essa.

─ É uma das desvantagens de se transformar em outra criatura, eu tenho sua inteligência, todos os seus defeitos, todas as suas lembranças, mas ainda bem que o meu intelecto se mantém cem vezes superior ao seu.

─ E a morte? Você não tem medo de sua nave cair ou explodir? Falei.

Ele sorrio com a comida entre os dentes e falou: ─ Morrer? Eu já vivi algumas centenas de anos contados no tempo terrestre, viajei por várias galáxias coletando e enviando informações para a Ordem Interplanetária. Não, não tenho. Faço o que tenho que fazer enquanto tenho tempo e condição para fazê-lo. E depois que a morte me alcançar não terei mais nada a temer. 

Antes que eu tivesse tempo de fazer outra pergunta, um brilho forte tomou conta do lugar. Ele largou o sanduíche, virou-se para a bancada onde estava o conversor e disse: 

─ Caralho! Consegui! 

E pulando feito um dançarino de frevo, correu todo desengonçado em direção ao conversor agora brilhante. Confesso que me deu vontade de rir, mas tive medo e fui pra perto dele. Ele olhava normalmente para o cubo que brilhava intensamente enquanto eu tapava os olhos com a mão para chegar mais perto. O outro eu retirou os cabos e falou: 

─ Abra as portas, veja se há alguém lá fora e volte. Rápido, tartaruga! 

Sem titubear fui abrindo as portas da casa. Ao chegar ao fundo do quintal dei uma olhada ao redor e voltei correndo para o depósito rezando paraque o “mim mesmo” não estivesse mais lá. Ao entrar no depósito o outro eu mandou-me encostar na parede, apertou o pulso direito com o polegar da mão esquerda e, como num passe de mágica, o objeto parou de brilhar, elevou-se no ar cerca de um metro e meio e saiu voando lentamente pela casa saindo pela porta dos fundos. E o alien disse: ─ Gostou? Ele vai retornar à nave e preparar tudo para a ignição. O amanhecer está próximo, minha missão aqui está quase concluída, vamos até lá fora. Vá na frente e certifique-se que a rua está deserta, já estou indo.

Assim fiz. Fui até o fundo do quintal e gritei alegremente lá para dentro: ─ Pode vir! 

Já estava contando os segundos para ver aquela criatura pelas costas e nunca mais voltar a vê-la. Estava olhando para o mato a minha frente imaginando que tecnologia seria aquela quando ouvi os passos do outro eu que se aproximava rápido. De repente levei um tapão no pescoço e caí de cara no chão. Ainda sentado, olhei meio atordoado pra o alien que olha de volta pra mim com um olhar de quem está analisando um fato a fim de tirar alguma conclusão.

─ Por que você fez isso? Perguntei. E ele com olhar sério continuou:

─ Porque eu posso! Sou mais forte que você. Lembra que você gostava de fazer isso nos garotos menores na sua escola? Vasculhando suas lembranças quis saber como era essa sensação. Confesso que não senti nenhum prazer. Tem também aquela vez em que você tomou a namorada do seu amigo Adilson; você leu a mensagem que a garota mandou pra se encontrar com ele e apagou. Depois foi ao local e disse que ele não queria nada com ela, e que você a amava. Tudo mentira. Você ficou com ela, transou e quando cansou descartou a garota como se fosse um objeto, deixando seu “amigo” esperando, achando que um dia ela iria aparecer ou mandar alguma mensagem. Nessa última atitude sua não vejo lógica alguma. 

Chorei copiosamente diante daquele estranho. Diante de mim.

O alien me estendeu a mão e ajudou-me gentilmente a levantar, olhou nos meus olhos e disse: ─ Vou mudar meu relatório sobre esse planeta, acho que você aprendeu a lição. Todo ser humano merece uma segunda chance. E outra: instalei um APP temporário no seu celular que, de acordo com os dados da sua memória cruzados com mídias sociais, através do reconhecimento facial, vai dar localização e número do celular daquela garota. Quanto a essa bagunça não se preocupe, quando você acordar tudo vai estar arrumado, limpo e organizado, inclusive você. Bem, meu amigo, preciso ir. Afastou-se um pouco, apertou o pulso direito e começou a voltar a sua forma original. Terminada a metamorfose, sumiu, de repente, assim como houvera aparecido. 

Mudança, eu acho que essa é a palavra de ordem aqui. Hoje, relembrando depois de quase duas décadas, posso dizer que sou um homem feliz comigo mesmo, bem-sucedido nos negócios e com uma família maravilhosa. E devo tudo àquele alien, ou àquele sonho. A verdade é que ao terminar de ler essas mal traçadas linhas você vai notar se mudou ou não algo em você também.

 Ah, e o Adilson foi atrás e encontrou a garota que ele perdeu contato por minha causa depois que eu mostrei meu celular a ele. Casou com ela e mudou-se para Londres. Hoje não passa um dia sem a gente se falar pela internet.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.