EntreContos

Detox Literário.

Love in the Afternoon (Falópio)

“No topo do galho mais alto,
perdida pelos coletores,
a maçã amadurece;
não por ter sido esquecida,
mas por não terem
conseguido alcançá-la.”

Σαπφώ ( VII a.C.)

 

Suspensas no raio de luz que invade o quarto pela fresta da janela, centenas de partículas dançam um balé aleatório sobre a velha cômoda de madeira escura que fica bem em frente à cama. Enrolada no lençol, Júlia acompanha a trajetória daqueles grãos de poeira e seu reflexo imperfeito no espelho oval do móvel, repetindo-se infinitamente, como numa dimensão alternativa.

Do banheiro, vapor e o ruído da água do chuveiro escapam pelo vão da porta entreaberta. 

Júlia senta-se na beira do colchão, bem em frente ao espelho, com o sol do fim da tarde tocando o lado esquerdo do seu rosto. Ao redor dos olhos, pequenos sulcos surgem como erosões. No canto dos lábios, finas marcas de expressão – com ela, é sempre tudo à flor da pele. Pode ser hereditário, pensa.

Percebe o chuveiro sendo desligado e volta ao seu lugar, marcado entre os travesseiros.

Com uma lufada de ar, Sabrina invade o quarto, toalha enrolada na cabeça e outra ao redor do corpo ainda molhado. Em frente à cômoda, solta os cabelos longos, encaracolados, e seca-os, enquanto se admira no espelho; ao balançar as madeixas com força, propositalmente, deixa a toalha do corpo escapar; e, ao cair aos seus pés, exibe sua exuberante nudez, que Júlia admira, em todas as dimensões possíveis, pelo reflexo do seu espelho mágico.

***

– A carteira de cigarros está aí por cima? – Júlia pede.

– Nope – Sabrina responde, depois de bagunçar os cremes e maquiagens.

– Dá uma olhadinha na gaveta, então.

Sabrina tenta a gaveta da direita, na cômoda, mas está trancada.

– A outra – avisa Júlia.

Sabrina abre a gaveta da esquerda, onde encontra uma carteira de Marlboro escondida entre sutiãs, quase todos da cor creme.

Sabrina retira um cigarro de filtro amarelo e guarda a carteira de volta, no mesmo lugar. Pega um cinzeiro de vidro e o isqueiro de cima do móvel. E se joga de bruços na cama, ao lado de Júlia, entregando tudo em suas mãos.

– Você devia parar, sabia?

Júlia acende o cigarro e solta uma baforada em direção ao teto. Olha, pensativa, para Sabrina, mas não responde.

– Eu até gosto, na hora que acende – Sabrina tenta se explicar –, mas não desse cheiro que fica na roupa da gente.

Júlia graceja: 

– Não tem problema, a roupa está lá, no chão da sala…

– Ah, mas a fumaça fica no cabelo, nos dedos… – Sabrina reclama. – Assim vou ter que tomar outro banho depois…

 – Eu ia te dar um banho, de qualquer jeito – Júlia dá uma piscadela, marota.

Sabrina resolve pedir: 

– Segura pra mim fumar?

– Pra eu fumar – corrige Júlia.

Sabrina faz beicinho, fingindo contrariedade.

– Tem certeza? – Júlia, séria.

– Pra experimentar, ué.

Júlia aproxima o cigarro entre os dedos dos lábios úmidos de Sabrina. Que traga, sem saber como, e começa a tossir.

– Viu só? Melhor nem começar… – diz Júlia.

– Mas e você? – Sabrina insiste. – Como foi que começou?

– A fumar?

– É.

– Por causa de uma pessoa bem parecida com você – Júlia faz mistério. 

As duas, deitadas de costas, olham para o teto. Sabrina enrola o cabelo com os dedos, enquanto Júlia solta anéis de fumaça em direção à lâmpada, segurando o cigarro com força.

– Me diz: quando foi que você me escolheu? – Sabrina questiona Júlia, enquanto ajeita a franja caída na testa dela.

Júlia a encara com ternura.

–Você estava lá o tempo todo, me olhando daquele jeito…

– Achei que você não ia reparar em mim– diz Sabrina.

– E como não?

Júlia dá uma última tragada no cigarro e apaga o que restou no cinzeiro; num impulso, Sabrina rouba um beijo sôfrego dela, com volúpia, compartilhando a fumaça e o desejo.

***

Sentada na cama, Sabrina ajeita o sutiã com cuidado.

– Você acha que meus seios são muito pequenos?

Júlia, cansada, responde ofegante:

– Claro que não. Têm o tamanho certo.

– Os seus são tão bonitos… só acho que você podia comprar uns sutiãs mais ousados – Sabrina diz e se arrepende. – Desculpe, eu fiquei reparando na sua gaveta…

Júlia, meio contrariada com a invasão:

– Eu gosto desses, tradicionais. Me sinto mais segura com eles.

Empina os seios, colocando os dedos por baixo.

–Você acha que já estão meio caídos? – Júlia pergunta.

Sabrina fica sem jeito de responder diretamente.

–Já disse, eu gosto deles assim…

Júlia se afasta, ao perceber a intenção de Sabrina de tocá-los.

– Agora não, meu bem, estão sensíveis – Júlia cruza os braços, quase se protegendo.  –Queria que fossem como os seus, firmes, bem redondinhos…

Sabrina dá uma risada e muda de assunto:

– Que será que está passando hoje na Sessão da Tarde? – pergunta Sabrina.

– Filme, você quer dizer? Não sei, nem tenho televisão em casa. Você queria assistir?

– Não, só perguntei por curiosidade. – Sabrina tira o cigarro aceso da mão da outra e tenta dar mais uma tragada, ainda sem sucesso. Tosse. – Sempre tem umas histórias bem água com açúcar, aqueles filmes antigos que nem sei quem assiste, ainda mais dublados…

– Tem gente que gosta – responde Júlia. – Os românticos, né?

Sabrina vê a chance:

– Você acredita em romance? 

Júlia vacila.

– Com homens, quero dizer.

Júlia diz, sem pensar muito:

–Eles é que não acreditam em mim…

– Ué, por quê? – Sabrina fica surpresa.

– É difícil explicar. Acho que… – Júlia se arrepende por ter falado demais. –Talvez porque eu assusto um pouco…

–Só no começo – Sabrina interrompe, percebendo o desconforto. 

Muda o rumo da conversa. 

– Me conta outro segredo seu.

Júlia pensa um pouco. Decide:

– OK. Vou mostrar uma coisa. Mas você não pode contar para ninguém, tudo bem?

– Prometo – Sabrina faz figa.

– Vem cá que eu mostro.

***

Júlia pega uma pequena chave, pendurada por uma correntinha no abajur ao lado da cama, e destranca a gaveta da direita na cômoda. Faz sinal para que Sabrina olhe ali dentro.

Ao se inclinar sobre a gaveta, Sabrina estranha o aroma – adocicado, intenso, meio enjoativo.

– O que é isso? –Sabrina estranha.

– Uma maçã. –explica Júlia, com simplicidade.

– E por que você guarda uma maçã na gaveta? – Sabrina pergunta, assombrada.

– Ué, tem gente que guarda flores em livros, até secarem. – Júlia, levemente sarcástica – Eu prefiro as maçãs. 

Sabrina realmente não consegue entender.

– E esses papéis, aí embaixo?

Júlia percebe a tempo o que estava prestes a fazer.

–Sabia que as maçãs apodrecem de dentro para fora? – explica Júlia, sem explicar. E tranca de novo a gaveta, impulsivamente.

Algo fica no ar. Arrependimento.

– E servem para disfarçar o cheiro de cigarro no quarto.

***

Cinco e quarenta. Quase escuro lá fora. Pelo olho mágico da porta, Júlia tenta descobrir se há algum sinal de movimento no corredor. Naquele andar, um apartamento está desocupado e o outro vizinho passa o dia inteiro fora; só a mulher do 801 oferece perigo, ela que gosta tanto de deixar a porta aberta para vigiar a vida dos outros. Aparentemente, não naquele momento.

De toda forma, Júlia solta devagar a corrente pega-ladrão e gira a chave com todo o cuidado, para não fazer barulho; ao abrir a porta, deixa só o espaço necessário para que a outra possa passar por ela; mas Sabrina a puxa com força para fora do apartamento, de surpresa, com uma risada marota. Júlia ainda tenta esconder sua nudez no corredor, ao menos o que cabe em suas mãos, e implora para a outra não fazer escândalo com os vizinhos. Sabrina se diverte, ao vê-la nua, ali, exposta ao perigo. A aventura excita; e elas trocam mais um beijo na boca, agora decididamente nervoso.

O elevador chega. 

Vazio.

Despedem-se.

Desce.

Sabrina passa pelo porteiro na recepção e o cumprimenta, educadamente. Parece flutuar. Ele retribui, não sem malícia, mas não se atreve a nada mais ousado do que olhar para as pernas lisas dela. Libera o portão eletrônico. Sabrina sabe que continua a ser vigiada por ele, na calçada, pela câmera de segurança. Confere o celular – tem mensagem nova. Vai ter que acelerar o passo e chegar, antes das seis, na farmácia em frente à escola de inglês. Ali, o estacionamento é mais fácil. E, principalmente, há movimento e segurança. Porque a mãe não gosta que ela fique sozinha, na rua, esperando. Ainda mais a essa hora.

***

De outro lado, sozinha, no quarto já escuro, Júlia apaga mais um cigarro no beiral da janela e joga a guimba no terreno baldio ao lado do prédio. Pensa em como vai se despedir de Sabrina. Antes de abotoar a camisa, apalpa por um instante o caroço que cresce no seio. Depois da confirmação nos exames, encara isso como se fosse mais uma gestação indesejada, um aborto que precisa ser feito o quanto antes. É hora de preparar um café bem forte e as seis questões que faltam da prova de Química Orgânica. A última, antes da cirurgia. E a última, do último bimestre, antes da formatura da turma de oitava série de Sabrina.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.