EntreContos

Detox Literário.

Prisão de Carne (Breno)

I

Não há prisão mais cruel do que o corpo.

Aprendeu isso por experiência própria. Na maior parte do tempo, sentia apenas a escuridão fria preenchendo sua existência e observava da penumbra do consciente quem guiava as mãos, os pés, a boca. Quem cortava a carne de ingênuos, arrancava seus dedos e se divertia com os gritos. Não era ela. Nada disso era.

Às vezes se libertava tempo o bastante para ver o mundo. Nesses raros momentos, abria mão dos prazeres hedônicos que poderia ter para gritar por socorro. O chamado, contudo, era sempre em vão, frustrado por professores que falavam sobre tourette e por um pai amoroso. E fraco.

Um dia, libertou-se de novo.

Por quanto tempo ficou naquela condição não sabia. Quase uma década, certamente, porque os cabelos cresceram muito além do que um dia conhecera. Ao seu lado, o pai. Tentou gritar, mas logo descobriu que não tomara controle da voz. Não reconheceu o lugar em que estava. Mas não importava, porque a alguns metros de distância, viu uma igreja.

Imaginou todas as dores que poderia sentir se o plano funcionasse. Sabia o que estava acontecendo. Mas antes que a mente tomasse juízo, disparou como um relâmpago para longe do homem, em direção à casa de Cristo. Cruzou os portões e quando a pele ficou vermelha e quente como brasa, gritou sem emitir som. Suas cordas vocais rasgaram e o sangue dentro da garganta fez com que engasgasse. Queria a morte.

Do alto da Igreja, um homem crucificado lhe encarava e ela sentiu toda desaprovação de Deus diante dos pecados cometido por aquele corpo.

“Não fui eu!”, gritou em pensamento. O sangue agora escapando pelo nariz, pelos ouvidos e pelos buracos que se abriam. A cabeça parecia explodir. A carne queria se transformar em pele. E a pele queria se transformar em carne.

Convulsionou e o homem que estava com ela a retirou do chão. A dor que ela sentia, o sangue que corria por seus orifícios, as chagas que pingavam. Que testemunha falará de tourette agora? Então, vislumbrou a Igreja mais uma vez, enquanto o homem que não entendia o que é ser um pai ( como aprendeu a odiá-lo tão rapidamente?) a carregava e sentiu uma inimaginável tristeza dentro de seu ser, enquanto perdia o controle sobre o corpo, amaldiçoando o estúpido sacrifício que fizera.

Enquanto retornava à penumbra maldita, teve certeza ao fitar os portões abertos do templo: a igreja estava vazia.

 

II

Vapor escapava da boca de Carlos enquanto ele ruía as unhas. Havia prometido que jamais tocaria no alicate novamente. No alto do umbral, o relógio batia.         

Sobre a tábua da mesa, os restos de rivotril. No quarto, a filha dormia o sono químico. Na cozinha, ele ampliava sua consciência sobre os horrores da vida: não sabia o que fazer. Deu todo o amor, permitindo que a filha fizesse tudo. Mas não sabia protege-la. E ele tentava, por Deus, como tentava.

Abdicou de toda sua vida. Olhou para o relógio-gato. Não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. No Sul de Porto Verde, foram vizinhos da dona Márcia, que dedicava a vida aos seus quatro gatos. Quando ele buscava Mariana da escola e estavam prestes a entrar em casa, os quatro bichos se reuniam próximos à janela da vizinha para silvar. Era estranho.

Depois de algum tempo, ele via apenas três gatos na janela e escutava com verdadeira dó os choros da vizinha. Então sobraram dois gatos. Então nenhum. Um dia, no quarto da filha, encontrou quatro patas desmembradas sob o travesseiro. Mariana chorou e disse que não sabia como foram parar lá.

Os soluços da vizinha corriam por toda a vizinhança. Até que um dia não incomodaram mais ninguém. E ele descobriu com horror um novo membro debaixo do travesseiro da filha. Mas a amava. Ainda não entendia bem o que acontecera, mas protegeria a filha de qualquer coisa. 

Isabela lidava melhor com a situação, mas o câncer a roubou cedo demais. Fora ela quem sugeriu que levassem a filha para o templo budista que frequentava. Meditação para ignorar os pensamentos ruins. Riu nervoso se lembrando da fase que a esposa vivia, quando todos os problemas do mundo poderiam ser resolvidos com meditação e sonhos lúcidos, quando consumia vorazmente os livros de projeção astral do extravagante professor Borges. Foi a primeira vez que levaram a menina a um templo. E a última.

Ainda podia sentir o cheiro da carne queimando.

De lá pra cá o que não tentou? Por Deus, ninguém poderia acusa-lo de não proteger a filha.

Batidas.

Era a porta, soube com ansiedade. Teria sumido outro animal? Pelo olho mágico reconheceu o padre Thomás e a irmã Clotilde. Pensou na Igreja. Eles sabem? Por Deus, eles sabem?

O padre levantou a mão para golpear a porta mais uma vez, mas a irmã Clotilde o segurou. Aproximou-se da madeira, e com um sussurro gentil alertou:

-Nós podemos ajudar.

 

III

Ela aceitou o café. O padre, não.

-Como souberam? –Estivemos hoje na Igreja. Ela correu para lá, mas não vi ninguém.

Os dois se entreolharam, assustados com a ideia de alguém naquela condição entrar numa igreja.

-Deus… Deus quer que todos os seus filhos façam o bem, sabe? Ele deu ferramentas diferentes para seus filhos, buscando isso. A mim, concedeu muita paciência para estudar. À Clotilde, deu um dom diferente, sabe? Deu um terceiro olho, ou um terceiro ouvido, que percebe coisas que a maior parte de nós não consegue.

-Você… é uma médium?

-Algo assim. Quando alguma coisa que não pertence ao nosso mundo está aqui, eu sinto. E às vezes sonho. Sonhei com você recentemente.

-Comigo?

-Sim. Ando sonhando com alguém pedindo socorro, mas não consigo ver quem é. Há um homem ao seu lado, que a acompanha enquanto ela grita e se arrasta. Diz que aprendeu sua lição e quer ser livre. Que será boa. Ontem, justamente quando sua filha entrou na igreja, o pesadelo ficou mais nítido. Não pude ver o rosto dela, mas reconheci o homem que a acompanhava. Você. Sabíamos que tinha uma filha, apesar de frequentar a igreja sozinho. Ligamos os pontos.

-Algo controla sua filha. Algo a habita. Você sabe disso, não é?

-Não há o que fazer. –Carlos disse com pesar.

O padre balançou a cabeça.

-No mundo em que vivemos, você já ouviu falar em exorcismo, tenho certeza.

Carlos olhou pela janela, esperando alguma coisa que não estava lá.

-Vocês não entendem… –disse inconformado.

-Podemos ajuda-la, de verdade –disse irmã Clotilde.

Carlos olhou dentro dos olhos dela. O inconformismo diluindo, dando espaço para a vontade do pai protetor que ele sabia que era.

-É uma cidade pequena. O que falarão sobre ela quando ouvirem sobre exorcismo?

O padre balançou a cabeça.

-Em toda a minha vida, realizei mais de uma purificação, sabe? Certa vez, nesta cidade. Ninguém soube de nada. Somos discretos. Viemos em segredo, ninguém nos viu sair ou chegar. Nossa preocupação é com Mariana. Só.

Carlos alcançou a xícara de café. Queria que fosse uísque. Sabia o que viria a seguir, por isso, chorou.

-Ela foi exorcizada em Tiradentes. Quando os problemas recomeçaram, levei-a a um centro Candomblé, onde novamente retiraram algo de seu corpo. Dois anos depois, levei-a para um monge budista em São Paulo. Ele explicou que há tantos demônios quanto relâmpagos no mundo. E que algumas pessoas são para-raios. Como Mariana.

Irmã Clotilde levou a mão até o crucifixo que pendia do pescoço. O padre suspirou.

-Eu disse, Carlos. Deus deu ferramentas diferentes para cada pessoa. Meu primeiro exorcismo… o garoto… ele era um poço sem fundo para demônios. Fiz a primeira purificação quando ele tinha dez anos. A última quando tinha trinta. Precisei de vinte anos de livros. Ascendi às pesquisas do Vaticano. Estudei o budismo, o juju, o xintoísmo e religiões obscuras que cultuavam um deus sádico que vivia em um abismo depois do infinito. Mas encontrei a resposta. Eu lacrei o corpo daquele menino para que nenhum outro ser o possuísse. Farei o mesmo com a sua filha.

Os olhos de Carlos se encheram d’água. Ele concordou, embora acreditasse no fundo de sua alma que nada se resolveria.

 

IV

Thomás esperava. Aproveitou que a criança dormia e pediu para que o pai a amarrasse. O porão era isolado e nenhum vizinho escutaria os gritos. Retirou da maleta que trazia uma garrafa coberta por símbolos sincretistas. Não havia preconceitos nela: o olho de Hórus observava a cruz de Jesus, enquanto pequenas figuras de deuses mesopotâmicos deitavam admirando Buda. Na boca da garrafa, os kanjis soletravam Mafuuken, em sua base, lia-se apenas a palavra “selo”.

Então a menina abriu os olhos e ele começou.

 

VI

Na cozinha, Carlos e irmã Clotilde esperavam.

Ela esteve presente quando Thomás selou o demônio que habitava o pequeno Breno e também estava lá quando o último demônio do grande Breno fora aprisionado. Sabia de sua missão. Era, talvez, mais difícil do que a que o padre carregava. Ele expulsava demônios, mas ela cuidava dos espíritos quebrados.

-Mariana tem sorte em ter você.

Ele colocou um sachê no bule e aumentou o fogo.

-As coisas que ela já fez… eu sempre a protejo. Sempre. –disse, a voz tremendo.

Ela não se virou. Aprendeu há muito tempo que homens são criaturas orgulhosas e que encará-los em momentos de fraqueza não trazia bem, apenas vergonha.

-Eu sei o que vocês esperam –ele continuou –um exorcismo, sangue e vômito da minha filha pelo chão. Um selo no corpo e tudo resolvido. Mas não é assim que vai acontecer. Deus não vai permitir –disse, a voz tremendo ainda mais.

-A culpa não é dela. Nem sua. Deus não julgará…

Mas antes que terminasse a frase, Clotilde ouviu o ríspido som do bule deslizando rapidamente no fogão. E então, por muito tempo, não ouviu mais nada.

 

VII

A diabrete estava na garrafa. Era púrpura, com longas asas mamíferas e quatro seios no busto. Retirá-la foi o serviço mais fácil que executara. Nunca vira espécie como aquela, mas sabia que derreteria como todos os outros quando a levasse para a igreja. Thomás sentiu uma leve ereção, seguida de grave vergonha pela excitação perante o sadismo. Mesmo que fosse contra um dos inimigos de Deus.

-Por tudo que fez a esta menina, você sofrerá o castigo de Deus.

Retirou a tampa da garrafa, cobrindo-a rapidamente com o polegar. Deixou apenas uma pequena brecha para que a voz da criatura emanasse.

-Diga, criatura! Por que atormentastes a alma desta criança?

A diabrete se contorceu.

-Alma? –disse em desespero –que alma?! –gritou, enquanto a porta do quarto se abria bruscamente.

O padre virou, mas viu apenas a sombra de Carlos movendo o que parecia ser uma panela em direção a sua cabeça. O golpe arrancou-o da cadeira. Dormindo, Mariana não ouviu a porta, o golpe, nem o vidro se espatifando.

 

VIII

Acordou desorientado, com um pano na boca. Viu Carlos no canto do porão, mordendo os dedos. Confuso, olhou em volta e encontrou irmã Clotilde amordaçada e amarrada em uma cadeira, enquanto a menina a beliscava com um alicate de unhas.

Só então percebeu que também estava amarrado.

Sua respiração acelerou enquanto ouvia a irmã Clotilde se debater. O alicate furava o rosto, puxava a pele da axila e pacientemente arrancava o nariz da irmã.

O homem, no canto do sótão, olhava envergonhado.

-Com os demônios ou sem eles… ela sempre foi assim. Eu ajudo. Vão pegar ela se eu não ajudar. De vez em quando… quando ela fica muito agitada eu preciso trazer alguém… ou ela quem vai…

O padre tentou gritar, em vão.

-Porra, você acha que eu gosto disso? De ter uma filha assim?

A criança parou por um segundo, apenas para olhar o pai com cara de ofendida. Então retornou ao seu trabalho.

-Darei um enterro cristão a vocês. Eu juro.

As lágrimas escapavam do rosto do padre. Sentiu alívio quando Clotilde parou de gritar. Pelo sangue que escapava por baixo de seu braço, a menina atingira uma artéria e sua companheira pôde deixar este mundo. Mas o alívio logo se transformou em horror quando a criança se afastou do corpo da irmã, em busca de entretenimento mais interessante.

Ela montou em seu colo, mostrando a ponta afiada do alicate, ameaçando golpeá-lo com um vai e vem constante. Então, seus olhos fitaram o brilho de metal. Foi a última coisa que viram.

 

IX

-É óbvio que temos nossos problemas. Mas o tempo está contra nós –ela disse.

O homem, contudo, nada falou. Não poderia, de toda forma, já que a língua era um retalho do que um dia fora.

-Eles vão embora. Vão fazer isso de novo. Mas eu posso impedir. Com a sua ajuda.

Embora não falasse, ela podia sentir sua consciência e sabia que ele não a tinha autorizado. Em eras antigas, não precisaria da permissão dele, homem santo ou não. Ela teve sua cota de bispos no século XIV, jovens, velhos. Ninguém resistia à luxúria. Mas tanto tempo sem se alimentar a tornou uma lembrança do que já fora. Jamais perdoaria aquele homem por isso.

-Vamos, quem você acha que estava gritando por ajuda? Que correu para o seu templo buscando o último sacrifício? Por que seu Deus permitiria isso, se não fosse para terminar com essa loucura?! –ela questionou.

E o homem assentiu.

 

X

Carlos preparava as malas entre lágrimas quando ouviu a filha bater na porta do quarto. Ele se levantou, secando o rosto na camisa. Enquanto abria a porta, perguntou:

-Você já preparou as suas…

Mas não havia ninguém, só o vazio. Então, por intuição, olhou para cima e se deparou com o padre, pendurado como uma aranha no teto. O rosto abandonara a feição humana. Sem lábios, sem olhos, apenas metade das orelhas. Ele caiu violento em cima de Carlos, arrastando-o com força absurda. Carlos ensaiou um grito, mas lembrou-se do que a polícia encontraria ali. Por isso, tentou lutar com o que restara do padre.

Por cinco minutos.

Mas em cinco minutos ele já estava no sótão, amarrado na cadeira em que antes Clotilde estava.

-Não foi culpa minha! Não foi culpa minha! –ele dizia. E ela o detestava cada vez mais.

-Prometi ao sacerdote que não te mataria com as mãos dele –o padre disse, com voz de mulher. –E não preciso. Tanto tempo presa nela. Eu conheço sua maior fantasia.

Só então Carlos viu a filha sentada, esperando com paciência no degrau da escada.

O padre pegou o alicate de unhas no chão, entregando-o para a menina. Ela sorriu. No rosto, a expressão de levada que apenas as crianças sabem fazer. A diabrete carregou o corpo de Clotilde para fora do porão. Enquanto subia as escadas, disse para a criança não se apressar. Carlos não sabia, mas a criatura decidira enterrar a mulher e o homem que ocupava, já que em breve ele morreria. Talvez a igreja tivesse lhe ensinado algo sobre compaixão.

O que Carlos descobriu, no momento em que o alicate lhe apertava cruelmente o mindinho, é que amor não era permissividade.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.