EntreContos

Detox Literário.

O Segredo é Simples (Irmã)

O convite.

— Bom dia, está …?  

— Acordada? Sim — retorqui, ainda meio a dormir, ninada pela garoa matinal. Depois, dei uma olhadela ao relógio e exclamei com uma careta: — Oh, é tãaao cedo!

As ligações do tio nem sempre eram recebidas com muito entusiasmo, pois ele mantinha uma frequência, persistente em conquistar a afeição da família. Sempre que seu código de área aparecia no registro de chamadas, ficávamos jogando o aparelho uma para a outra, como uma batata quente. “Atende você!” “Atendi na última vez!”, “Agora é com você!” Não é que não gostássemos do irmão de papai, mas ele não parava de falar. Era atender o telefone e o tempo se dissipava tal e qual gotas da chuva no rio.

— Alô, tio Didi. Como vai? — Era início de janeiro. Sabia que era uma época arriscada de atender, porque inevitavelmente ele insistiria na desconfortável viagem para ir pescar com ele. Mas, depois de sete anos dizendo educadamente “Estamos ocupadas em todas essas férias“, minhas desculpas estavam se acabando. Ainda assim, ao atendê-lo eu calculava uma estratégia de fuga. Mamãe, também, sempre colocava empecilhos; parecia ter ciúmes ou preocupação.

— Sinto muito ter de lhes dizer…  começou ele. Havia um esforço incomum em seu jeito de falar, como se tivesse um nó na garganta. – Balofo acabou de morrer inesperadamente.

— Oh, uau… Sinto muito! — sem entendê-lo e curiosa: “Quem seria Balofo?”

— Meu gato fazia jus ao nome: confiante, corajoso, volumoso e… gordo. Agora está num lugar de paz — leu-me o pensamento.

— É claro.

— E quando é que vocês vêm ao meu recanto? Vou lhe dizer, a represa está mais cheia do que nunca, o torneio de pesca, é no próximo final-de-semana. Que tal vocês virem para assistir? E, se treinarmos um pouquinho, podemos participar. Uma equipe de primeira.

— Parece ótimo – disse eu, a boca falando sem meu consentimento.

— É mesmo? Que maravilha! — respondeu ele. – Espero vocês na quarta, por volta das cinco da tarde — desligou antes que eu pudesse mudar de ideia, antes que pudesse consultar ninguém. Foi o telefonema mais curto da vida do tio Didi.

 

A viagem.

Quando eu e minha irmã mais nova entramos no carro para ir à fazenda do tio, virei-me para ela no banco do passageiro: o desprezo emanava dos olhos lacrimosos; eu a arrastara para essa visita. Mesmo de manhãzinha, o ar já estava denso e meloso como uma melancia passando do ponto.  E nossa mãe, mais quente ainda:

— Não tem cabimento, não me consultaram! Vai dirigir até lá? Acabou de tirar carta. Cuidado!

— Vou levá-las. É só tomar um café lá e volto — papai foi cortando as lamúrias.

Horas e muitas conversas de WhatsApp depois, o tio nos recebeu na varanda. O aposentado, corpulento, cerca de 1,90 m de altura e nove dedos e meio, usava bermudas e uma camisa justa com bandeira do Brasil, óculos de sol, botinas e sorriso no rosto. Ah! e chapéu panamá. Carregava três varas de bambu com mais de três metros cada. Eu não saberia dizer se ele já estava pronto para a competição ou para as aulas que prometera nos dar; a diferença era mínima. Depois que nos abraçamos, ele nos mostrou o quintal, metade jardim encantado, metade depósito de lixo.

— Este era o arranhador que Balofo preferia. Mas ele também gostava daquele — disse, apontando algumas instalações ao ar livre. — E era aqui que ele costumava tirar seus cochilos — continuou, enquanto nos guiava até um ponto comum no chão. — Esta é uma pedra especial que dediquei a Balofo. Ele também gostava muito dela. E é aqui que venho rezar por Balofo… e por nossa família — ele parou, e notei que inclinara a cabeça para trás, como se esperasse que o olho reabsorvesse a lágrima que escorreu pelo rosto.

— Sabe, é muito bom que vocês tenham vindo — foi a única frase que o ouvi dizer sem aquela voz de tio-pateta. E naquele momento percebi: ali não estava apenas nosso parente, mas um sujeito simples que morava longe e sentia uma saudade danada da única família que tinha… e do gato.

— Também estou contente por termos vindo, tio — no momento em que as palavras me saíram dos lábios, percebi que eram verdadeiras.

— Eu também – concordou Nicole. E, quando a olhei, vi que ela também se amaciara; que era toda sorrisos. E, pensar que viera sob protesto… Também, avistar tão de pertinho aquele mar de água doce dobrava qualquer mau-humor. Contemplava as águas como se as acariciasse; seus olhos pareciam fazer uma pergunta secreta: “Haverá tesouros ali?”.

 

Então o momento passou.

Retornamos aos planos. Tio Didi tinha mapeado um cronograma para o festival: atividades de esporte, jogos de mesa, exposição de trabalhos temáticos ambientais, apresentação dos grupos, montagem do material, shows com artistas locais, muita cantoria e danças.

— Todos os peixes capturados são medidos, pontuados e devolvidos, com vida, ao habitat. Tem troféu para o pescador do maior peixe, do menor e para aquele que pescar mais — animado ele completou as explicações. Naquele final do dia, rimos, cantamos e comemos coxas de frango caipira. Fazia muito tempo que eu e Ni não nos sentíamos tão bobas e tão livres.

Sentada na cama, estiquei-me até a caneca de café fumegante que a mão do tio segurava. Bebi pequenos goles, aspirando o aroma quente.

— Por que está nos levantado a esta hora? — Pousei a caneca e perguntei-lhe, enquanto minha irmã começava já a se mexer debaixo da manta. Ela esticou-se e deu-me um pequeno empurrão a me provocar.

— Anda daí — ele gesticulou, com um largo sorriso e um olhar de terapeuta em sessão inaugural. — Temos que vencer! Vocês conseguem lançar um anzol em cotovelo, usando uma cana de pesca de carreto fechado? Não vamos perder oportunidades: muito treino e não quero ninguém se aventurando a descer sozinho até ao lago.

 

Horas de prática.

Ir à pesca significava ir até, onde o grande Lago abundava em peixes. Minutos depois, dirigimo-nos ao estrado de madeira, envergando roupas de pesca e botas de cano alto. Um barco ficava amarrado a um embarcadouro flutuante no fundo do quintal das traseiras, o ano todo. Tio Didi, nessa altura, examinou-o como técnico que verifica um produto para ser consertado, procurando o defeito.

— Lá vamos nós atrás de pacus, tambaquis, dourados e… — aclamava o pescador. — Aposto que apanho mais peixe do que vocês duas juntas. Mais do que qualquer um!

Foram horas de prática naquele dia e no seguinte. O sol, mesmo, às vezes, encoberto por nuvens, estava escaldante; o mormaço subia nos fazendo sentir como em uma estufa.

— A inundação para formar o Lago permitiu o surgimento desses cânions, das cachoeiras e das piscinas. Águas super limpas e transparentes — o tio não parava de gesticular e falar, como nos telefonemas, ansioso em agradar. — Aqui tem uma cidade submersa. Quando as águas baixam é possível ver a torre da antiga igreja — intrigadas olhamos para o fundo.

— Um fazendeiro pedia que ninguém pescasse aqui, que um dos peixes era sua filha, que não a tirassem da doce imersão, banhada em prata. Um caboclo, que era apaixonado por ela, veio resgatá-la. A cada fisgada, a cada puxão, seus olhos se perdiam em desespero. Sua angústia durou a tarde toda, fazia sombra quando alçou o anzol pela última vez. Veio puxando devagar, era o peso de uma menina-peixe. Retirou-o das águas: era ela. Não sabia o que fazer daquele peixe-mulher. Inútil, agora; havia, para sempre mergulhado na escuridão. Medo das águas recobertas de angústia. — o tio deu uma gostosa gargalhada observando nossas expressões — Gostaram da nossa lenda?

Ah! E descobrimos os peixes! Eles se concentravam num poço, como se estivessem à espera dos anzóis. Minha irmã apanhou e depois soltou uns três ou quatro. Tio Didi e eu, nenhum.

— Fisgar um peixe assim é tirar a sobrecarga de mistério das águas — o falante pescador justificava o seu fracasso.

 

No grande dia.

O sol queimando as nucas, Tio Didi e eu, continuávamos empatados: zero vezes zero, nenhuma pesca. Nicole já havia conseguido algumas unidades. Era pura intuição e não apenas capacidade. Ela aprendera rápido onde estavam os peixes, do que se alimentavam e a melhor maneira de se aproximar sem os assustar. Um dom especial. Nunca vi minha irmã tão feliz.

Depois de uns minutos, atracamos e abrimos caminho através do pequeno resguardo de vegetação que acompanhava o lago. Todos posicionados e atentos, quando fomos subitamente interrompidos pelo som da carretilha. Só que não era o som típico de alguém a fazer um lançamento. Era o som familiar do rápido recolher do fio na bobine.

— Não acredito! — disse o tio, num tom que deixava perceber que apenas metade dele estava feliz pela sobrinha.

— Vamos ver — sugeri. Seguimos a linha de pesca laranja fluorescente, que zumbia, cortando e recortando em múltiplas figuras a água de aço. Um peixe enorme a debater-se. À medida que o dourado abrandava, Nicole, de pé, no meio da água, junto de uma rocha lisa, baixava a ponta da cana para amortecer o choque do salto do peixe. A luta era, pois, com o animal, como se as águas estivessem segurando o pedaço vivo, que retinham por um fio.

A garota foi só surpreendendo.  Parecia ter nascido para aquilo. Estava a caminhar corrente abaixo, puxando lentamente a linha, enquanto se deslocava por cima das rochas viscosas das algas, sem uma única vez parecer que ia escorregar e cair.

— É incrível! — exclamei. — Olhem só o tamanho do bicho! — O peixe ensaiou mais uma tímida tentativa de fuga, mas a batalha já terminara. Nicole ajoelhou-se. Segurou as barbatanas do peixe delicadamente nas mãos, retirou o anzol já sem picos e começou a ajudá-lo a recuperar alguma força, apontando-lhe o nariz para a corrente e passando-lhe água fria pelas guelras, num rápido e ritmado movimento. Com os olhos fixos, buscava se assegurar de que o dourado recebia o oxigênio necessário.

Foi então que um desconhecido, que aparentemente tinha estado a observar tudo por detrás de uma curva, aproximou-se.

— Belo peixe, menina — ouvimos o idoso comentar, amistoso, enquanto nos acercávamos.  Nicole não se voltou para olhar.

— Eu disse “Belo peixe, menina”!

— Desculpa, filha — insistiu o homem, agora já com uma certa irritabilidade na voz. — Apenas queria cumprimentá-la pela forma como lidou com esse peixe. Nunca tinha visto uma jovenzinha dominar uma situação como essa. Dona das águas…

Mas Nicole continuou a ignorá-lo. Enquanto nos aproximávamos dos dois, o barulho causado pela fricção das botas denunciou a nossa presença. O desconhecido voltou-se em nossa direção.

— Ela é surda — disse eu, inexpressivamente, aproveitando a deixa para as explicações habituais.

— E não somos todos, nessa idade? — retorquiu logo o velhote, magoado. — Adolescentes sem respeito pelos mais velhos!

— O senhor não entendeu. O que eu quero dizer é que ela é surda mesmo. Não consegue ouvi-lo, nem nada — o corpo do velhote como que estremeceu com a revelação.

— Tenho muita pena — balbuciou. — Desculpem, não sabia.

Nesse momento, entramos no campo de visão de Ni, que tirando uma mão do dourado, sinalizou: “gigante”. O tempo foi suficiente apenas para tirar umas fotos e ela abanou a mesma mão, num movimento familiar, soltando o peixe. Depois, saiu da água para se juntar a nós na margem. Apontou para o homem: “Quem é …?”

— Vim para o torneio. Meu nome é Joaquim. — disse o desconhecido. — Isso é que foi uma pescaria, garota. Eu…

— Ela é surda — interrompi. — Não consegue ouvi-lo. Nem sequer ler os lábios. Hereditário e sem recursos.

— Oh, claro, que burro!

Repeti, em libras, tudo que fora dito. Nicole compreendeu e ainda se desculpou com o estranho.

— O que é que ela disse? — perguntou o velho, confuso. —  Como pode? — insistiu, realmente aflito. — Como é que pesca tão bem? Lançou a linha suavemente e soube colocar aquele anzol numa superfície de águas tranquilas, cercadas de correntes cruzadas, sem um único sinal de arrastamento, pelo que pude observar. Fisgou o peixe na perfeição.

— Estou espantado também. Pelo que sei é a primeira vez que ela faz algo assim. Não é, Nelma? — interviu o tio tirando o chapéu e coçando a cabeça — E, também, não é preciso ouvir para pescar. A surdez, na verdade, é uma bênção em termos de pesca, principalmente se estou por perto…

— Sabe, Ni? Todos estão boquiabertos. Você fez uma proeza. Falaram que a maior parte dos pescadores não teriam parado no local onde você colocou o anzol. Como é que sabia? — falei e usei os sinais ao mesmo tempo para evitar uma chata repetição.

Nicole riu. Depois, virou-se para nós com uma expressão tão solene quanto lhe era possível: “O segredo é simples, muito simples. Se escutar, consegue ouvi-los.”

— Tio, em que está pensando? — perguntei, já no barco, voltando para a fazenda. Ele pilotava, completamente absorto.  

— Em nada de importante — respondeu. Mas, como sabia que uma resposta daquelas não iria satisfazer uma jovem de dezessete anos tão perspicaz (Modéstia à parte!), prosseguiu devagar, não querendo reavivar feridas.

— Estava só a pensar sobre o dom de sua irmã… — rindo — E ainda sabe ser irônica.

 

Resultantes.

Na viagem para casa, quando nossa quase insolação se transformou em exaustão, fiquei pensando: por que, de todas as vezes que tio Didi nos implorou uma visita, dessa vez eu concordei? Talvez fazer parte de uma família seja perceber, mesmo que de maneira subliminar, quando um parente precisa de atenção ou quando uma irmã precisa se descobrir. O torneio? Nem um prêmio de consolação. Ni soltou o graúdo antes que viessem para a medição e só não ficamos em último lugar graças a ela, que ouvia o nado dos peixes.

Reencontramos tio Didi nas festas juninas. Ele trouxe um molinete brilhante para cada uma de nós. Minha mãe deu uma olhada nos presentes e murmurou:

— O que é que vocês vão fazer com isso?

— Ora, ora para o tio varas e molinetes são um acessório fundamental para o torneio do ano que vem — falei e gesticulei. Nicole riu gostoso. Ela era quase como um peixe dentro da água, uma árvore crescendo na terra úmida ou um pássaro voando, em serena liberdade.

— Este ano vocês molharam os pezinhos; ano que vem, terão de ir com tudo — foi a última fala do tio. Sorrimos, sabendo que era o seu jeito de dizer: “Obrigado por me deixarem participar da vida de vocês.”

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.