EntreContos

Detox Literário.

O Parque (Drico Clorí)

É o papai que me acorda todo dia, desde que a mamãe trocou de emprego de novo.

Ele me leva todas as manhãs pra passear no parque, logo depois que a gente prepara junto os sanduíches. O papai coloca o nosso café da manhã dentro dos saquinhos plásticos e guarda tudo na merendeira que a mamãe me deu, quando eu entrei na nova escola. O suco vai lá dentro também, mas fica separado, em uma garrafinha com tampa de rosca, pra não derramar durante o caminho. E, antes de fechar, o papai coloca as maças da Turma da Mônica, que ele sabe que eu e a mamãe adoramos.

É lá no parque que a mamãe agora trabalha, desde que foi mandada embora do hospital.

Eu não gostava de quando ela trabalhava no hospital, e sei que o papai também não. Mas foi o papai quem me explicou, quando nos mudamos, que o hospital era um lugar muito importante, onde ficavam muitas pessoas que precisavam de ajuda e que por isso que a mamãe tinha que passar tanto tempo lá, trabalhando bastante.

Longe de casa… E de mim.

Foi o papai também quem me falou que a gente ia ter que se acostumar a fazer coisas que, antes, era a mamãe quem fazia. Tipo: preparar lanche, lavar a louça que a gente sujasse, arrumar a nossa cama, colocar as roupas usadas dentro do cesto… Essas coisas todas.

Eu até que me acostumei bem com tudo isso. O difícil, mesmo, era não ter mais a mamãe por perto todos os dias, brincando comigo, rindo das minhas piadas bobas, fazendo cafuné gostoso e contando histórias para eu dormir…

Não importava se era dia de aula ou fim de semana, eu não encontrava mais com a mamãe, porque ela trabalhava todos os dias até bem tarde. Eu não conseguia ficar acordado até a hora que a mamãe chegava em casa e, quando eu acordava na manhã seguinte, ela já tinha saído pra trabalhar de novo! O papai falava que ela vinha aqui no meu quarto e me dava um beijo toda noite, mas como eu estava dormindo, eu nunca me lembrava.

Eu só conseguia ver a mamãe uma vez por semana, quando o papai me levava lá no trabalho dela na época, no hospital.

E como era bom! Mesmo muito cansada, ela me abraçava tão forte, mas tão forte, que até esmagava as minhas costelas! Então eu contava tudo que tinha acontecido desde a última vez que a gente tinha conversado, pois a mamãe gostava de me ouvir falar sobre tudo que eu tinha feito aqui em casa, junto com o papai, enquanto ela estava trabalhando no hospital. E, às vezes, ela chegava até a chorar lá, de tanto orgulho de mim!

O papai também chorava de vez em quando, mas não no trabalho da mamãe; e não era de alegria, como quando a mamãe ouvia as minhas histórias. Ele tentava disfarçar, mas eu via a água escorrendo pelos cantos dos olhos do papai quando ele ficava sentado sozinho aqui em casa, no escuro da sala.

O papai nunca, nunca mesmo, chorava na minha frente. Ele dizia que era alergia, ou que tinha entrado alguma coisa nos olhos dele… Mas eu sabia que era mentira, pois tinha vez que, antes de eu dormir, eu escutava o papai chorando baixinho no quarto dele, esperando a mamãe chegar.

Ele também sentia saudades dela.

Foi quando a mamãe começou a trabalhar direto no hospital que o papai passou a ficar mais triste. Eu nem sabia que ela tinha parado de vir dormir aqui em casa. Só numa madrugada, quando eu tive um pesadelo horrível e acordei com muito medo e fui correndo para o quarto deles, foi que eu vi que a mamãe não estava lá. Então o papai me explicou que a mamãe tinha passado a dormir lá no trabalho dela também.

Era o papai que me levava e buscava na escola nova, e tinha dia que ele não falava nada durante o caminho. Às vezes, o papai nem me levava lá, porque ele tinha que ajudar a mamãe no trabalho dela também. O papai ficava bem chateado com isso, pois a mamãe tinha cada vez mais trabalho pra fazer lá no hospital.

E ela não estava mais dando conta sozinha.

Mas, mesmo fazendo também tantas coisas, o papai ficava bem menos cansado do que a mamãe. Na verdade, como a mamãe passava o tempo todo no trabalho dela, lá dentro do hospital, ela não passeava mais na rua e não pegava mais sol, então também foi ficando cada vez mais branquinha.

A mamãe sabia que não estava mais tão bonita como ela era antes de ir trabalhar no hospital.

Foi a mamãe mesmo que me explicou, na época, que teve que fazer um regime pra conseguir passar por algumas portas lá de onde ela trabalhava, porque eram muito finas, e então a mamãe teve que ficar fininha também.

Bem magrinha, mesmo.

Mas, o pior foi quando o andar do prédio onde ficava a sala da mamãe teve uma infestação de piolho e, por causa disso, algumas pessoas lá tiveram que cortar o cabelo todo. A mamãe disse que foi uma infestação pior do que a que teve na minha escola antiga, quando eu era pequeno e ela raspou a minha cabeça…

Eu fiquei muito triste quando vi a mamãe carequinha.

Eu gostava muito do cabelo dela e o papai também. Mas a mamãe não gostava quando eu ficava triste. Por isso ela pediu para o papai não me levar mais lá no trabalho dela.

Pouco tempo depois, a mamãe foi mandada embora do hospital.

Hoje eu acho que a mamãe gostava mesmo de trabalhar lá. Mais até do que quando ela trabalhava no restaurante do meu tio, antes da gente se mudar pra cá… Porque agora, no novo emprego, a mamãe também tem que ficar direto lá, só que ela não parece estar nem um pouco feliz.

Pelo contrário… A mamãe agora está é com raiva; muita raiva. Mesmo! E o papai nem sabe disso, porque a mamãe, desde que saiu do hospital, não fala mais com ele. Só comigo. Mas não me abraça, não faz mais cafuné, não brinca, não ri… Só quer saber de ficar me mandando fazer coisas e, se eu não faço o que ela me pede, ela fica com mais raiva ainda!

Todo dia, quando a gente chega lá no novo trabalho da mamãe, o papai costuma me colocar nos ombros dele. Aí, ele sai correndo pelo parque, comigo montado nas costas, e a gente fica brincando de avião e piloto o maior tempão. Às vezes, o papai amarra a toalha do piquenique no meu pescoço e me levanta láááá no alto. Ele faz eu me sentir como se eu fosse um super-herói, voando de verdade pelo gramado.

Quando a gente vai chegando mais perto do lugar onde a mamãe fica, a gente para de brincar. O papai me põe no chão, dá um oi pra mamãe e pega a toalha do meu pescoço, pra estender na grama.

Mas, a mamãe nem responde pra ele.

Aí, a gente passa a preparar as coisas do piquenique. O papai abre a minha merendeira e é nessa hora que a mamãe começa a cochichar no meu ouvido. Às vezes o papai fala comigo ao mesmo tempo que ela; e a voz da mamãe ficou tão rouca que, baixinho do jeito que ela fala, eu não posso me distrair com mais nada.

Se eu respondo pro papai, ou me desconcentro com a arrumação das comidas, ou me afasto um pouquinho mais do lugar onde a mamãe fica sentada, ela me dá uma bronca daquelas! E repete tudo no meu ouvido, de novo.

A mamãe fica com muita raiva se eu não presto atenção no que ela cochicha pra mim, sempre bem baixinho, pro papai não escutar nada. E faz aquele olhar estranho, que dá medo…

Ela fica bem brava comigo; mesmo!

E se eu me esquecer de algo, ou não fizer alguma coisa que a mamãe me mandou, do jeitinho exato que ela me ensinou, ela aperta a minha barriga com força no dia seguinte e faz doer tudo que tem dentro.

Ultimamente eu devo estar fazendo mais coisas erradas, porque a minha barriga tem doído bastante.

Ontem de manhã, quando o papai estava fechando a merendeira, depois que a gente terminou de tomar o café lá no parque, eu vi que ele botou a mão na barriga dele também, e fez uma cara de dor igual a minha. Mas eu não perguntei nada pra mamãe, porque ela não gosta de conversar sobre isso comigo.

Depois que a gente come e bebe, é a hora que a mamãe costuma me passar a próxima receita dela. E, de tempos em tempos, ela muda os ingredientes secretos.  O papai não sabe de nada disso. Ele fica lá só sentado no chão, na grama, olhando para o nome da mamãe escrito ali em cima dela, sem ouvir o que a mamãe cochicha pra mim e sem falar nada também. Quando o papai fala alguma coisa, é sempre um elogio. Pra mim, ou pra mamãe.

Mesmo sem ela nunca responder pra ele…

A mamãe diz pra mim que o mais importante é eu não deixar o papai perceber nada. Nada do que ela me manda fazer. E só quando ela termina de me explicar tudo, tudo que eu tenho que fazer no outro dia antes de voltar pra lá, é que a mamãe desaperta a minha barriga.

É o único momento em que todo mundo fica em silêncio. Eu e o papai já comemos os nossos sanduíches, já dividimos o suco da garrafinha de rosca, já comemos as maçãs de sobremesa, já guardamos os plásticos vazios de volta dentro da merendeira… E a mamãe também já me ensinou a receita e como fazer para colocar os ingredientes secretos no nosso café da manhã do dia seguinte.

Então ela fica lá só olhando pra gente, daquele jeito estranho dela de agora.

E aí, na manhã seguinte, depois que o papai me acorda, eu vou com ele pra cozinha e espero ele terminar de colocar tudo que a gente preparou junto na merendeira. Quando ele vai tomar banho, eu espero um tempo, abro a tampa com cuidado, sem fazer barulho, e coloco dentro dos sanduíches o tempero secreto da mamãe, do jeito que ela me ensinou, prestando bastante atenção pra não fazer nada errado.

Tem que ser bem pouquinho, e espalhar direito pra não ficar muito de um lado e pouco do outro. Tem que girar a tampa de rosca da garrafinha com cuidado também, colocar o que sobrou lá dentro, girar a rosca ao contrário até não mexer mais, depois sacudir bastante a garrafa, colocar tudo de volta lá dentro da merendeira, igualzinho como estava, fechar a tampa e voltar para a sala.

Tudo isso no tempo em que o papai está tomando banho lá em cima.

A parte final que a mamãe me ensinou é a mais importante, porque eu não posso me esquecer da posição de nada que eu tiver mexido. Eu tenho que prestar muita atenção.

Sempre que eu pego um tempero secreto dentro do armário do quartinho, do lado do cesto das roupas sujas, eu preciso me lembrar de fechar bem as embalagens e de colocar tudo no mesmo lugar, igualzinho como o papai tinha guardado lá.

Eu faço tudo direitinho…

Porque eu não quero que a mamãe fique com mais raiva ainda e aperte a minha barriga.  E nem a barriga do papai, também! Mas a dor é muito forte. E hoje a mamãe deve estar muito brava com a gente…

Porque a gente não foi lá no trabalho dela. A minha barriga está doendo demais… E a minha cabeça está muito pesada. Eu não estou conseguindo nem me levantar da cama…

E hoje o papai não veio me acordar.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.