EntreContos

Detox Literário.

O Espírito da Cuidadora (Aron Ribeiro)

Costumeiramente eu me deito antes da meia-noite e, como tenho o sono pesado, só acordo quando o relógio desperta, no dia seguinte, às dez para às 7h da manhã. Quando eu era casado, minha mulher costumava me acordar de madrugada para transar. Ela adorava transar meio grogue de sono, e eu não nego que também gostava. Aquela sensação de torpor misturada ao tesão me deixava bastante excitado. Mas, depois que nos separamos, passo a noite inteira dormindo, um sono pesado feito um saco de chumbo. Exceto naquela madrugada.

O relógio sobre o criado mudo marcava 2:10h da madrugada, e acordei com uma sensação estranha, como se uma pessoa pesada estivesse sentada na beira da minha cama. Não apenas o colchão estava inclinado para baixo, mas também meu edredom parecia estar preso sob alguma coisa e, como se não bastasse, também sentia minha bochecha dormente e gelada. Talvez a dormência fosse causada pela má circulação ou por conta do problema que tenho na ATM, mas o que dizer da sensação de haver alguém sentando na beirada da cama? Isso parecia fugir de uma explicação lógica e me causou certo desconforto. Desconforto que evoluiu ao ponto de deixar minha respiração ofegante, e precisei tomar cuidado para não fazer barulho com o ar entrando e saindo das narinas. Não queria despertar a atenção de quem lá estivesse, se é que realmente houvesse alguém ali. Procurei manter a calma e persisti no exercício de respiração profunda por uns instantes, e meu cérebro foi se oxigenando melhor, permitindo maior clareza nos pensamentos.

Não havia como alguém ter entrado no meu apartamento. Além da fechadura normal da porta de entrada, eu havia mandado colocar uma fechadura tetra e um trinco com corrente igual ao que vemos nos filmes americanos. Posso parecer neurótico, mas morando nas proximidades da Ricardo Jafet, não poderia dar oportunidade ao azar. Com os três tipos de travas protegendo a entrada do apartamento, seria impossível alguém arrombar a porta e eu não acordar. Além disso, como alguém arrombaria a porta do meu apartamento sem que os vizinhos escutassem? Não fazia o menor sentido.

Criei coragem e apanhei o celular sobre o criado-mudo a fim de iluminar o quarto com a lanterna do aparelho. Como esperava, não havia ninguém no quarto além de mim. Suspirei fundo, aliviado. Mas a sensação de haver outra pessoa no quarto continuava e eu não sabia explicar o motivo. Talvez tivesse tido algum sonho do qual não me recordava mais, não tinha como saber. Estiquei o braço e apertei o botão do interruptor com o indicador da mão esquerda. Agora, com o quarto plenamente iluminado tive uma visão mais clara e os resquícios de temores que teimavam em permanecer, se dissiparam. Levantei da cama pelo lado direito e fui até o banheiro a fim de esvaziar a bexiga. Por via das dúvidas, fechei a porta atrás de mim e mijei demorado. Devo ter mijado mais de meio litro. Um líquido amarelado e com cheiro forte. Passei o papel higiênico na borda do vaso, e antes de me deitar fui verificar se a porta do quarto estava trancada. Estava. Quando me virei na direção da cama senti como se o chão tremesse sob mim. A parte do edredom na beirada esquerda da cama estava amassada no o formato de uma bunda grande e pesada. Mesmo sabendo que não havia espaço para caber uma pessoa ali, olhei para baixo da cama. Depois respirei fundo e fui até o guarda-roupa. Abri porta por porta, empurrei as roupas para o lado, mas só havia calças, camisas e os casacos pendurados nos cabides. Era um medo irracional, eu sabia, pois já havia olhado a porta do quarto e ela estava trancada. A explicação mais provável era que eu mesmo havia me mexido e feito a marca no edredom. De qualquer forma, eu sabia que teria uma noite longa pela frente. Eu estava agitado, sentia meu coração mais acelerado que de costume, e o sono parecia ter fugido de mim. Apanhei a cartela de Rivotril na gaveta da cômoda, engoli o comprimido com um pouco d’água e esperei o sono voltar.

O comprimido era de 2mg e o efeito chegou logo. Não sei precisar quanto tempo, mas caí em sono profundo. E acordei novamente, sentindo como se alguém estivesse mexendo nas minhas pernas. Eu estava deitado de barriga pra cima, com as pernas esticadas e as mãos cruzadas sobre o peito, quase em posição de defunto. Meu coração saltava, ultrapassando os 100 batimentos por minuto, e minha respiração estava ofegante outra vez. Tentei me mover, mas não consegui, meu corpo parecia estar preso à cama. Procurei gemer, gritar por socorro, mas também foi em vão. Estava paralisado, sem conseguir emitir um mero gemido. Nesse instante me veio à mente a explicação sobre um fenômeno semelhante, conhecido como paralisia do sono. Ocorre quando o hemisfério do cérebro responsável pela sensação desperta, mas o hemisfério responsável pelos movimentos continua inerte. Tecnicamente falando, não havia motivo para pânico, mas diante do que já havia ocorrido minutos antes, o medo tomou conta de mim outra vez. Procurei mover o dedo mínimo, devagarinho, devagarinho, e aos poucos consegui mover os demais dedos, estendendo os movimentos para os outros órgãos do corpo. Respirei fundo e desci a mão pra coçar o saco. Foi aí que percebi o laço na cordinha do meu pijama. Eu só compro pijama sem elástico justamente porque não gosto da sensação do pijama apertando minha barriga e sempre deixo o short do pijama aberto, nunca dou nó. Cocei a cabeça e me virei para olhar as horas no relógio sobre o criado-mudo. Agora o relógio marcava 4:15h. Já havia se passado duas horas desde a última vez que havia acordado, e novamente uma sensação estranha de haver mais pessoa no quarto além de mim. Não estava com vontade de ir ao banheiro e permaneci deitado, com a luz apagada. De repente o barulho de metal caindo nos pés da cama fez meu coração saltar pela boca. Um frio percorreu desde as plantas dos meus pés até a minha nuca. Tremi como vara verde, mas permaneci imóvel. Fosse lá quem estivesse no meu quarto, não estava me vendo no escuro e eu não queria despertar a atenção dele e levá-lo a agir de forma impulsiva contra mim. O invasor também não queria ser ouvido e apenas minha respiração se fazia audível naquele instante. O silêncio era absoluto agora. Fiquei imóvel por mais de dez minutos, quando, finalmente, tomei coragem de dobrar o meu braço e apanhar o revólver enfiado na cabeceira da cama. Vagarosamente apontei a arma para os pés da cama e, com a mão esquerda, acendi a luz.

“Parado, seu filho da puta!” Gritei.

Imaginei que daria de cara com um bandido empunhando, no mínimo, uma faca na minha direção, mas não vi ninguém. Só podia estar ficando louco, não havia outra explicação. Era a segunda vez naquela madrugada que eu era acordado por alguém, ou por alguma coisa, mas o quarto continuava vazio. Fiquei desorientado, sem saber o que pensar. Poderia se tratar de fruto da minha imaginação? Poderia, mas quando o objeto de metal caiu no chão eu já estava acordado há algum tempo e por mais fértil que fosse a minha mente, o barulho que ouvi não foi um barulho seco, sem eco. Após o metal se chocar contra o chão, o barulho metálico persistiu até a peça se acomodar ao chão, como ocorre quando uma tampa cai e fica girando por algum tempo.

Com a arma em punho, me levantei da cama a fim de verificar novamente o local. Abri novamente cada porta do guarda-roupa, empurrei as roupas para o lado, mas não havia ninguém escondido lá dentro. A porta do banheiro também estava fechada, mas segui até, empurrei a porta devagarinho e acendi a luz. Meu banheiro é pequeno e não havia onde alguém pudesse se esconder. O único lugar possível seria atrás da porta. Também não havia ninguém. Voltei para o quarto e quando olhei nos pés da cama, um arrepio gelado subiu por minha coluna e minhas pernas bambearam. Havia um pires prateado caído ao chão e sobre a cama uma toalhinha branca amassada. Meu Deus! Só podia estar delirando! Se não havia ninguém no quarto além de mim, como aqueles objetos foram parar ali? Suspirei fundo e procurei me lembrar de algum sonho. Talvez eu tivesse levantado enquanto dormia e manuseado os objetos. Foi a única explicação razoável que encontrei.

Esperei uns instantes até recobrar as forças nas pernas e, ainda com a arma em punho, abri a porta do quarto e fui até a sala. Minha sala era bastante clean e não havia lugar onde uma pessoa pudesse se esconder, ainda assim olhei atrás do sofá e retirei as almofadas do lugar. Nada indicava a presença de algum intruso. Antes de verificar a porta de entrada, fui até a cozinha. No quarto e na sala não havia ninguém, e se houvesse alguém no meu apartamento, a cozinha seria o único local onde o intruso poderia ter se escondido. Instintivamente olhei na direção da janela, que estava travada, tal qual eu costumava deixar. Sob a mesa apenas as cadeiras e um guardanapo caído. Havia uma concentração de formigas sobre o guardanapo, possivelmente fazendo banquete em algum resto de alimento. Mesmo sendo um lugar improvável, abri as portas do armário da pia e espiei lá dentro, depois foi a vez da geladeira. Não encontrei evidência da presença de nenhum ser vivo, exceto a barata que subia rápido parede acima e se escondeu no exaustor. Cogitei a possibilidade de pegar o veneno e espirrar na direção do exaustor, mas deixei essa ideia de lado. A pobre barata era a menor das minhas inquietações naquele instante. Agora só faltava verificar a porta de entrada. Com o braço esticado, apontando a arma para a frente, me dirigi vagaroso até lá. Todas as fechaduras estavam trancadas, inclusive o trinco com corrente, não havendo o menor indício de que a porta havia sido aberta. Suspirei aliviado e me sentei na poltrona de leitura, observando ao redor apenas com o canto dos olhos. Depois cruzei as mãos sobre a parte de trás do pescoço e puxei a cabeça na direção do umbigo, a fim de aliviar a tensão que eu sentia sobre os ombros. Não conseguia entender o porquê de um sono tão conturbado. Meu dia havia sido excelente, sem nenhum contratempo e, além do mais, ao me deitar não estava ansioso ou preocupado.

Mal havia começado conjecturar de forma racional acerca dos fatos, quando fui desperto dos meus pensamentos por barulhos de passos vindo do quarto. Me arrepiei dos pés à cabeça nesse instante. O barulho começou suave, distante, mas foi aumentando como se alguém se aproximasse de mim. Rapidamente levantei os olhos na direção do quarto e nesse momento o barulho cessou. Segundos depois o som veio da cozinha. Era o som de água enchendo alguma vasilha. Comecei a tremer e senti cada pelo do meu corpo se arrepiando. Eu tinha acabado de verificar a cozinha e não havia ninguém lá dentro, como a torneira poderia ter sido aberta? Por mais que eu procurasse uma explicação racional, o que vinha ocorrendo fugia da razão. Alguns segundos depois o barulho de água cessou e ouvi novamente passos. Desta vez se afastando. Nisso, um enxame de moscas, dezenas delas, seguiu voando na direção do quarto, pareciam acompanhar os passos. O zumbido que elas faziam era ensurdecedor, mas não consegui levar as mãos aos ouvidos a fim de tapá-los. O medo havia impedido meus movimentos e só podia observar, sem me mover. Nunca fui de acreditar nessas crendices de espíritos, anjos ou demônios, mas desta vez havia algo estranho ocorrendo ali e a única explicação plausível estaria na esfera espiritual. Diante da situação que eu estava presenciando, negar tal realidade não ajudaria em nada.

Quando consegui recuperar meus movimentos, levantei devagarinho, abri as travas da porta sem fazer barulho e corri até o apartamento do vizinho, onde terminei de passar a noite. Mas não consegui pregar os olhos naquela madrugada. De manhã meu vizinho se levantou cedo, e antes de preparar o café fomos conversar sobre o ocorrido. Ele me contou que antes de eu me mudar para aquele apartamento havia acontecido algo brutal no local. A antiga moradora era uma senhora de noventa e poucos anos, portadora de Parkinson já em estado bastante avançado e que carecia de cuidados da enfermeira durante 24 horas por dia. Sua cuidadora era dedicada e cuidava da senhora como se fosse sua mãe. Assim foi durante um ano e alguns meses, quando um assassino conseguiu entrar no local, matou a senhora e a cuidadora. Antes de cometer os assassinatos, abusou da cuidadora de forma brutal, provavelmente diante dos olhares da senhora doente. Segundo meu vizinho, ele havia entrado no prédio segurando o braço da cuidadora, mas não se sabe se ele era namorado da moça ou se ele a havia abordado antes de entrar no prédio. Ainda, segundo relatado pelo meu vizinho, após a brutalidade, o bandido conseguiu sair do prédio como se nada houvesse acontecido, passou pela portaria e saiu a pé. Se foi preso ou se continuou solto também não sabia informar.

Meu vizinho é espírita e, segundo explicou, agora a moça se sentia culpada pelo assassinato da senhora que vivia sob seus cuidados e por conta disso seu espírito inquieto ainda vagava pelo local, sentindo a necessidade cuidar de quem estivesse dormindo naquele quarto, a fim de amenizar a sua culpa.

Naquele mesmo dia eu deixei o apartamento e voltei para a casa dos meus pais. Tempos depois entrei em contato com meu antigo vizinho e fiquei sabendo que um casal havia se mudado para o apartamento onde eu havia morado. Mas não chegaram a ocupar o apartamento por muito tempo. Poucas semanas depois o marido jogou a mulher janela abaixo e depois se matou com um tiro na boca.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C2.