EntreContos

Detox Literário.

O Dia em que Faltei da Escola (Francis R. Burnett)

Eu amo a mamãe e o papai. Tô doente, e eles cuidam de mim. Meu corpo tá bem pesado, sinto frio. Isso faz eu me encolher e ficar tremendo na cama. Puxo o cobertor pra cima de mim, mas não adianta nada. Só sei que vai dar tudo certo, porque mamãe tá sempre me dando comida e papai sempre sai correndo quando ela pede alguma coisa. São os melhores!

Queria virar um super-herói bem forte, pra doença passar e poder ajudar mamãe e papai. Eu faria todas as coisas pra eles, e eles não precisariam me ajudar tanto. Mas ninguém vira super-herói na vida real, né? São só coisas de faz-de-conta. Não existe uma fórmula mágica ou um jeito rápido pra virar alguém super forte e corajoso. Ou existe?

Hoje eles disseram que não vou pra escola. Não consigo sair da cama. Não quero nem tentar me mexer. Mamãe vai ficar cuidando de mim, me dando comida e me ajudando a ir no banheiro. A escola é um saco, mas ficar na cama também. Ficar parado é CHATO, não importa onde!

Mamãe disse que eu podia ir pra sala assistir tv, se quisesse. Mas agora tô com muito sono. E a cama é melhor pra dormir que o sofá. Meu corpo tá bem pesado. Os olhos se fecham sozinhos. É como se meu corpo dissesse “deixa que eu resolvo, não faz nada”. Igual papai e mamãe falam pra mim. Bom, eles não falam isso. Mas é como se fosse.

Estaria tudo escuro agora, se não fosse pelas luzes estranhas que aparecem quando fecho os olhos. Será que elas aparecem pra todo mundo, ou só pra mim? Será que pras outros pessoas é só escuridão, mesmo?

Minhas pernas começam a ficar mais leves, como se tivessem ido dormir também. Não estão precisando ir trabalhar hoje (Queria que papai não precisasse, também). A leveza começa a espalhar pelo meu corpo inteiro. Parece que posso voar, até! Não me sinto mais tão doente assim. Na verdade, me sinto muito bem.

Decido sair da cama e falar pra mamãe que já tô melhor. É bem fácil fazer isso. Meu corpo tá bem levinho. Saio correndo do quarto, ainda de pijama. Ela deve estar na cozinha, lá embaixo. Desço as escadas quase flutuando.

Mas, quando chego, não é mais a cozinha. É um escritório, e papai ainda tá aqui! Ele está sentado num banquinho, mexendo numa papelada, anotando coisas, enquanto um homem baixinho estala um chicote nas suas costas! A camisa do meu pai está rasgada na parte de trás, revelando feridas abertas, que recebem mais e mais estaladas. Cada uma faz um som altíssimo, que força meu corpo a tremer de susto, mesmo que eu saiba que vai acontecer.

O sangue dele se liberta do corpo, pronto para se espalhar pelo piso. O cheiro é tão forte que começa a arder atrás do meu nariz. Seus gritos parecem também fazer parte do trabalho, porque não mostram surpresa ou desespero. Ele continua a mexer nos papéis como se tudo estivesse no combinado. Apenas pisca bem forte com alguns dos ataques, aguentando firme.

Desejo ir lá ajudar, tirar o chicote das mãos do homenzinho e botá-lo pra correr! Mas não sinto meu corpo leve mais, e sim petrificado. Meus pés estão completamente fincados ao chão. Cada vez mais nervoso, tento tirá-los do lugar, mas se recusam. A leveza me abandonou completamente. Sinto algo mudando dentro de mim. Algo se movendo, como mobília sendo trocada de lugar. Principalmente na minha cabeça.

Mamãe lava um único prato numa pia ao canto da sala. Seus olhos estão focados totalmente na tarefa, como os de um zumbi. Ao terminar, deixa o prato de lado por alguns segundos. Ele começa a se sujar de novo, do nada, e ela recomeça a tarefa, suspirando. Ignora os gritos como se fossem cantos de pássaros no jardim. Tento gritar para ela, pedir ajuda por mim e por meu pai, mas minha boca me trai, permanecendo calada. O resto do corpo treme, enquanto brigo por controle, mas finalmente desisto, exausto.

De repente, as chicotadas param. Meu pai vira-se e pega o homenzinho pelo pescoço, jogando-o sobre a mesa. Arregalo os olhos, surpreso com a ousadia. No entanto, quando o corpo atinge a superfície, vejo que não é mais do homenzinho, e sim de uma mulher! Meu pai se atira sobre ela, rasgando suas roupas. Sinto minhas mãos geladas e suadas. Tenho medo do que vai acontecer. Quero sair correndo, mas não consigo.

Agora é meu pai quem aplica o castigo. Ele se joga sobre a moça como um animal, soltando tapas e mordidas, grunhindo. Me sinto aliviado por não conseguir ver seu rosto. Olho para minha mãe, sentada num canto, encarando um televisor desligado, seus olhos tão vazios e escurecidos quanto a tela do aparelho. Não entendo essas pessoas, por que fazem o que fazem. São criaturas que vestem a pele de meus pais.

Minha respiração sobe e desce violentamente, exigindo que os pulmões abram espaço, enquanto meu coração bate muito forte, como se bombeasse com ódio. Parece preparado para implodir de raiva num último ato suicida de protesto. Logo, sinto todo o meu ser prestes a explodir.

A realidade pesa sobre mim e o mundo me é hostil. Subitamente, uma força me puxa para trás, como se fosse deus dizendo “você já viu o suficiente”. Exausto, sou jogado de volta à minha cama. Novamente encolhido e tremendo, fecho os olhos pedindo à escuridão que apague todas aquelas cenas da minha memória.

***

Meus pais me acordam já de noite, para jantar. Parece que dormi a tarde inteira!

Abocanho o macarrão ainda com calafrios ocasionais pelo corpo. Meu pai castiga seu bife com cortes violentos. Apoiado sobre o prato, mastiga vorazmente enquanto fala do trabalho. Ele sempre comeu dessa maneira, mas só agora reparo como é estranho!

Enquanto isso, minha mãe apenas escuta, mexendo a comida com o garfo. Seus olhos apontam para o prato, mas ela parece estar em outro lugar, assistindo algo dentro de sua mente. De vez em quando, solta alguns “ah”s e “hmm-mm”s.

Com a força de um corte desajeitado, uma almôndega desliza pela mesa e cai no chão. Minha mãe se apressa a pegá-la, mas intervenho, dizendo “não precisa!”. Pego o alimento e deixo-o no guardanapo. Guardo para jogar fora depois, quando for lavar a louça.

Logo após a limpeza do prato, anuncio que irei dormir. Meus pais, como prega o ritual, me acompanham até a cama, beijam meu rosto e desejam melhoras. Fecho os olhos, ainda fisicamente cansado.

A escuridão absoluta se intensifica aos poucos, pronta para me revelar mais segredos. Gostaria que a doença passasse logo.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C2.