EntreContos

Detox Literário.

O Cão Que Queria Voar (Neves de Souza Abrantes)

O meu cão chamava-se Kazukuta.

Um dia, eu, brincando de fazer bonecos de lodo, olhei para os pés dele. Kazukuta olhou de volta para mim, respirava com a boca aberta como sempre fazia nas tardes de muito sol. Olhei depois para os meus próprios pés, tentando encontrar a diferença entre os pés de um homem e de um animal. “É isso! O meu cão não usa chinelo”, falei baixinho. Fui até à janela da cozinha onde estava a avó Maria e perguntei:

− Avó… Por que é que os cães não usam chinelo?

Ela sorriu um bocado, e a seguir disse:

− Você faz perguntas muito difíceis rapaz, a cabecinha da tua avó já não sabe respostas para te dar.

− Mas dizem que quanto mais uma pessoa cresce mais ela sabe das coisas.

− Sim, é mesmo isso. Mas uma pessoa nunca sabe das coisas para sempre. O conhecimento é como uma borboleta. Ela vem, demora na nossa cabeça e depois vai embora.   

− Não tem como encontrar de novo essa borboleta, avó?

− Claro que tem! Quando eu conto estórias ela volta para mim.

− Então conta, avó… Conta uma estória.

− Quando ficar de noite, rapaz. É de noite que as estórias gostam de ser contadas.

Meus olhos choraram de pedir uma estória à avó. Aqueles minutos que vivíamos, ao sentar de pernas cruzadas e o queixo apoiado sobre as mãos, vendo ela a ser todas as avós do mundo enquanto contava estórias nas vozes do antigamente, aqueles minutos, repito, não aconteceriam para sempre. Ela sempre nos disse que mais tarde ou mais cedo iria embora do mundo; que uma pessoa nasce e pode até viver muito, mas alguém virá buscá-la, um alguém que nunca nos soube explicar quem era de verdade.

Já de noite, sobre o luando estendido, eu, Ricardo e Maria nos sentamos todos em fila, em frente da nossa avó Maria. Antes de abrir a boca para falar, olhou primeiro para mim e disse: “Os cães, filho, só não usam chinelo porque não querem”. Um silêncio demorou um pouco entre nós, como se ela estivesse à espera da borboleta do conhecimento, e depois continuou: “Vou vos contar agora a estória do cão que queria voar”.

− Conta, avó… Conta-nos essa estória – pedi uma vez mais, na vontade de entrar dentro da estória para experimentar ser o cão que queria voar.

“Num lugar muito distante do mundo, um cão, admirado pela forma como os pássaros brincavam de viajar pelo céu, queria também voar. Mas ficou muito triste quando lembrou-se de que, mesmo que pudesse correr muito e muito rápido, deixando todos os pássaros do mundo para traz, um pulo seu não lhe faria nunca tocar uma nuvem que fosse, mesmo as mais baixinhas, aquelas que imaginamos estarem muito perto de nós.  «Um dia vou conseguir voar igual a uma ave.» – O cão sempre repetia essa frase”.

− Avó, ainda espera. Por que é que o lugar onde o cão vivia era muito distante do mundo? – perguntou Ricardo.

− Porque os cães que falam são de um mundo que não é nosso, os cães da terra são mudos.

Passaram-se alguns segundos e ela continuou:

“O cão, triste, não queria aceitar que não tinha nascido com asas, e que por isso não podia largar a terra para ver o brilho do sol um pouco mais perto. Um dia foi conversar com o cão Soba, o rei de todos os cães. Como cabia ao rei aceitar toda coisa estranha que se quisesse inventar dentro da pequena aldeia, foi até ele e pediu: «Querido rei, deixa-me, por favor, construir um instrumento de voar, para sentirmos a alegria de chegar numa estrela». O cão Soba, já de muita idade, e por isso também sabedor de muitas coisas, disse-lhe que não construísse, porque se voar já era uma coisa perigosa para qualquer um que não tem asas, mais perigoso ainda seria para eles, simples cães”.

− Mas, avó. Se o céu é perigoso para os que não nasceram para voar, por que então os homens continuam a fazê-lo? – perguntou Maria.

− Um homem, filha, possui braços que o ajudariam a se salvar caso acontecesse alguma coisa, mas os cães não. Por isso, voar sozinho é muito mais perigoso para os cães do que para o próprio homem.

“O nosso cão não escutou o conselho do rei, ou mesmo teria escutado, mas não obedeceu. Fechou-se dentro de sua casa durante um mês para construir o tão sonhado instrumento de voar, fugindo dos olhares fofoqueiros de outros cães que a seguir correriam contar ao cão Soba o que ele estava fazendo. Quando saiu de casa pela primeira vez, depois de ter passado um bom tempo, viu finalmente o céu limpo e azul de uma manhã que o esperava para mil e uma aventuras. A máquina de voar era feita de simples chinelos”.

− Chinelo, avó? Um chinelo já faz uma pessoa voar? – perguntamos todos, admirados. Ela não respondeu, parecia estava tirando as palavras de dentro do coração.

“O cão colocou os dois pares de chinelo nas quatro patas, esperou um pouco e depois foi atirado para o céu numa velocidade alta, até que desapareceu para sempre naquele azul. Os chinelos caíram por causa do vento. O rei, vendo a desobediência do outro, disse que ninguém jamais deveria voltar a fazer a mesma coisa. O instrumento de voar foi guardado e então foi a partir daí que os cães passaram a não gostar de chinelos.”

Segundos depois de a avó ter terminado de contar a estória, já estávamos dentro do comboio do sono, mas felizes de termos conseguido escutar o final. Lá fora o dia começava para os pirilampos e as cigarras, que acendiam e cantavam enquanto a escuridão demorava.

No dia seguinte vi algo diferente nos olhos de Kazukuta, parecia tinha saudades de voar.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C2.