EntreContos

Detox Literário.

Lobo Mau, A Garota da Capa Vermelha e os 3 Malvados (Montenegro)

O LOBO MAU

A primeira foi a madrasta. Mulher insensível e má. Implicante, batia nele por qualquer motivo. O pai não se importava, parecia que não era filho dele. Quando o pai morreu de cirrose, a convivência com a madrasta se tornou insuportável. Um dia voltava do colégio quando começou a chover. As roupas molhadas foram motivo para ela dar uns tapas na cabeça dele. Movido pela mágoa, pelo ódio, ele a empurrou. Aproveitou a oportunidade, a ocasião de estarem no topo da escada, uma escada com 12 degraus. Ela rolou como um boneco de pano. Ficou lá embaixo imóvel, com o pescoço retorcido. Contou para os vizinhos que chegou em casa do colégio e a encontrou assim. As circunstancias da morte da madrasta foi considerada um acidente doméstico. Ninguém desconfiou daquele menino de 11 anos. A vida no orfanato também não foi fácil, saiu de lá com algumas escoriações tanto no corpo quanto no espírito.

A segunda foi a primeira namorada. Jandira riu quando ele não conseguiu transar com ela. Como era a primeira vez, ficou nervoso e teve uma ejaculação precoce antes mesmo de penetra-la. Jandira foi incompreensível, insensível. O deboche, o riso dela foi o gatilho para disparar a fúria dele. Atirou-se sobre a garota, colocou as mãos ao redor do pescoço e apertou. Continuou apertando até que ela permaneceu inerte, de olhos opacos, sem vida. Naquele instante teve uma ereção e dessa vez conseguiu possui-la.

Não teve remorso pela morte da garota, pois achava que foi um ato justo. A partir dali, passou a matar, não só por que sentia raiva de toda mulher, mas também era algo que lhe dava satisfação, prazer. No fundo, acreditava que todas as mulheres eram iguais a Jandira.

Não escolhia suas vítimas.  Não seguia nenhum padrão. Era meticuloso, cuidadoso. A polícia estava atônita com a trilha de cadáveres que ele deixava pelas ruas e estradas. Sem pistas, não tinham a mínima ideia de quem era o serial Kíller.

Ele era um predador, um lobo solitário. Sem amigos, sem parentes. Não tinha hora, não tinha dia para matar. Às vezes passava dias ou meses, mas sempre chegava aquela vontade irresistível. Com seu caminhão, Ford Cargo, fazia fretes entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Dava carona apenas para mulheres, somente para as que andavam sozinhas. Rodava alguns quilômetros e depois as matava.

******

A GAROTA DA CAPA VERMELHA

Um dia qualquer do ano de 1990…

Estava voltando do Rio, depois de entregar uma carga, quando viu um vulto vermelho se destacar entre a névoa cinzenta da manhã. Uma mulher, usando capa vermelha sobre um conjunto de saia e blusa cor-de-vinho, fazia sinais com o polegar direito. Aparentava ter entre 25 e 30 anos de idade. Ele parou o veículo e ela perguntou;

– Vai passar em Celestina Muriel?

– Vou – respondeu, sem mesmo saber onde ficava tal lugar. Ela abriu a porta, entrou, e sentando-se, empurrou o capuz para trás.

– Um desgraçado me deixou na beira da estrada. Não cumpriu com o combinado. Você é legal, não é? Tem cara de ser uma boa pessoa.

– Não se preocupe, sou um cara legal, sim. Como se chama?

– Simone Grim.

– O meu é Osvaldo Wolf, mas todo mundo me chama de Valdo.  

Simone ficou calada, voltando a atenção para a estrada, imersa em pensamentos. Ele imaginou que ela era garota de programa. Mesmo que fosse uma freira, iria matá-la. Só precisava encontrar um lugar apropriado, deserto, e fora das vistas de quem passasse na rodovia.      

Mas o Destino atrapalhou seus planos.

Estava descendo um declive quando um dos pneus dianteiros estourou. Ele não conseguiu controlar o veículo. O carro deu uma guinada para o lado, saiu da estrada e mesmo com os freios acionados, desceu por um barranco andou alguns metros, bateu numa pedra e acabou capotando no meio do mato.

******

Quando recuperou os sentidos, Valdo sentiu dor nos olhos, no ombro e na perna direita, na altura do joelho. Percebeu que estava com uma faixa de pano tapando os olhos. Tirou a venda, mas os olhos ardiam, não conseguiu mantê-los abertos.  A voz de Simone soou ao lado dele.

– Coloque a bandagem.

– O que aconteceu?

– Não se lembra? O caminhão capotou. Caiu gasolina no teu rosto. Tivemos muita sorte, o caminhão poderia ter pegado fogo. Ainda bem que não quebramos nenhum osso. Eu pelo menos me sinto inteira. E você? Alguma dor?

– Nos olhos é pior. Mas acho que não quebrou nada, não.

– Tem um córrego aqui perto. Peguei um pouco de água para lavar teu rosto.  Vai arder por algum tempo, mas vai passar.

– Como você sabe? É enfermeira? Vou ficar cego?

– Vai nada! Você estava inconsciente, com os olhos fechados. Não deve ter afetado muito.

– Onde estamos?

– Na mata.

– E o meu caminhão?

– Quebrado.

– Que merda! Peça ajuda, faz alguma coisa!

Simone respondeu num tom irritado.

– Puta que pariu! Não sei para que lado está a estrada! Estou tentando me orientar. Tem muito mato.

Ele ficou calado. Não se sentia confortável dependendo de uma mulher. Ainda há pouco estava com intensão de acabar com a vida dela e agora a situação mudou. Resolveu relaxar.

– Você é casada? Tem filhos?

Gostava de fingir simpatia pela vítima. Imaginou que alguém poderia estar esperando por ela em casa, não que se importasse com isso. Por ter tido uma infância e adolescência perturbada, um pai insuportável, o conceito de lar e família, era desconhecido.

– Sou desquitada.

– Você é garota de programa, não é?

– Não te interessa. Vamos deixar de conversa mole e sair daqui. Coloque a mão no meu ombro

Ele não insistiu na conversa, fez o que ela mandou e deixou-se levar. Caminhou lentamente, quase arrastando os pés no chão. Simone o guiava através da mata. Estava dependendo dela e para sua surpresa, isso não o incomodava mais.

Simone tentou encontrar a estrada, mas depois de algum tempo, chegando a um bosque de coníferas, considerou que estava perdida. Estava perdida e isso a incomodava. Sentia-se impotente, frustrada por não conseguir resolver aquela situação.

– Vamos descansar um pouco.

Ele sentou no chão. Cabeça inclinada, ouvidos atentos. O silêncio incomodou.

– Ei! Você está aí?

Ouviu passos se aproximando.

– Tem uma cabana lá adiante. Pode ser que tenha um telefone pra gente chamar um taxi. – Simone o ajudou a levantar-se.

Retornaram à marcha. Ela seguiu por uma antiga trilha entre as arvores. Um caminho margeado por musgo e raízes retorcidas. O cheiro do humo impregnava o ar.

Valdo a seguiu, com a mão apoiada em seu ombro. De repente sentiu que a mulher tinha se afastado. Ouvindo o grito dela, num gesto brusco, arrancou a venda e abriu os olhos. Embora ardendo e com a vista embaçada, viu um homem troncudo, robusto. Não conseguia enxergar com perfeição as feições dele, mas percebeu que ele segurava Simone por um braço.

– O que está acontecendo aí?

Viu a mulher cair e logo em seguida, algo veio de encontro à sua cabeça. Não conseguiu distinguir se era um tijolo, ou o punho do sujeito. Tudo escureceu.

******

OS 3 MALVADOS

Ao acordar, esfregou os olhos e piscou diversas vezes até clarear a visão. A visão estava melhor. Surpreendeu-se ao descobrir que estava num buraco. Um poço, felizmente seco, de uns 5 metros de profundidade. Havia um cheiro nauseabundo naquele lugar. O mau cheiro vinha dos restos mortais de alguém que havia sido jogado ali, já fazia algum tempo. Pelos cabelos compridos, ainda grudados no crâneo descarnado, o cadáver seria o de uma mulher. Sobre os ossos só restavam cartilagens e pele seca. Imaginou que ficaria daquele jeito se não saísse dali. Mas como escalar uma parede de terra de cinco metros de altura?

Ficou sentado na lama, imaginando que o homem estupraria Simone, a mataria e jogaria o corpo dela ali dentro. Ficou recostado na parede. Olhando para cima, viu o céu cinzento, a claridade do dia diminuía rapidamente, logo seria noite. Aquele sentimento de derrota deu lugar à raiva. Com um impulso selvagem, característico de sua personalidade, arrancou uma costela do esqueleto. Com o osso, começou a cavar buracos na parede do poço, onde pudesse se apoiar para subir. Caiu uma vez, mas ao encontrar algumas raízes, conseguiu segurar-se com mais firmeza.

Quando saiu do fosso, ficou sentado no chão, respirando com alivio o ar puro. Esperou normalizar a respiração e recuperar as forças. Anoitecia e na cabana luzes foram acesas. O silêncio era interrompido apenas pelo cricrilar dos grilos na mata. Sentindo-se melhor, Valdo ergueu-se. Viu duas motos estacionadas no pátio. Decidiu fugir numa delas, mas, antes, resolveu olhar por uma fresta o interior da cabana. A janela não estava trancada, bastou empurrar alguns centímetros para poder olhar para dentro. Com uma bola de pano enfiado na boca, Simone jazia nua sobre uma cama de ferro, com as pernas e braços amarrados à cabeceira e pés da cama.

Valdo imaginou que ela devia estar acostumada àquilo, quando consentia em satisfazer as fantasias sexuais de seus clientes. Porém, a situação era diferente. Era real, grave e imprevisível. Ela o viu na janela e sem poder falar, apenas arregalou os olhos e olhou para a porta do quarto. Ele não conseguiu interpretar a mensagem. De qualquer forma, pensou em ir embora. Não tinha nenhum vínculo afetivo com aquela mulher. Porém, ficou curioso para ver o que aconteceria com ela. O homem surgiu no quarto. Era um brutamontes, com os braços tatuados e barba grisalha. Segurando uma vela acesa, se inclinou sobre a cama, derramando a cera líquida sobre o umbigo de Simone. Ela se contorceu de dor. O sujeito não gostava dos gritos de sua vítima, por isso o pano na boca dela. Preferia observar as expressões de dor, o pavor e a impotência da mulher. O homem sádico continuou pingando cera sobre a pele alva.

Valdo estava distraído, olhando a cena pela fresta da janela, quando sentiu algo duro e frio se encostar na nuca.

– Vamos para dentro, seu bisbilhoteiro – disse uma voz roufenha. O sujeito de jaqueta e calça de couro, gesticulou com a pistola, forçando-o a entrar na cabana.

– Túlio! Encontrei esse cara olhando pela janela. Mato ele?

O outro largou a vela e observou Valdo.

– Não. Vamos deixar o cara vivo para ele ver o que vamos fazer com a namorada dele. – o homem terminou a frase com um riso sarcástico. Saiu e voltou com uma corda. Enquanto ele amarrava Valdo numa cadeira, sons guturais soaram em algum lugar da cabana.

– Otto, traz o pai. Parece que ele também quer participar da brincadeira.

Otto seguiu as ordens do irmão. Saiu do quarto e voltou em seguida com um idoso sentado numa cadeira de rodas. O velho vestia apenas uma fralda geriátrica. A cabeça caída para um lado, um fio de baba pendia pelo canto da boca torta. Tortas também eram as mãos, pousadas sobre as coxas finas. Apesar do corpo disforme causado por um derrame cerebral, os olhos emitiam um brilho arguto, de capacidade de compreensão.

– Vamos deixar o velho se divertir um pouco – disse Túlio.

Os dois irmãos ergueram o idoso e o colocaram entre as pernas de Simone. Ela resmungou de nojo, mas não pôde fugir do contato asqueroso, repugnante. O velho soltou arquejos de contentamento. Tentou passar a língua nos seios dela. Os dois homens se divertiam, assistindo a performance do pai. E enquanto eles estavam distraídos, Valdo se livrou das cordas. Ele havia aprendido um truque no exército, retesou os músculos enquanto era amarrado. Ao relaxar, as cordas ficaram frouxas. Não foi difícil se desfazer das amarras.

Otto voltou a colocar o pai na cadeira, apesar dos protestos dele. Ele e o irmão jogaram par ou ímpar para escolher quem seria o primeiro a desfrutar o corpo da mulher. Otto ganhou o sorteio. Rindo e gracejando, ele tirou a pistola e o punhal da cintura e colocou sobre a cômoda. Depois aproximou-se da cama e arriou as calças. Conseguindo se desfazer das cordas, Valdo pensou em fugir. A porta estava logo atrás dele. Porém, achou injusto deixar Simone nas mãos daqueles trogloditas. Ela era sua propriedade. Com dois passos silenciosos, chegou no móvel e pegou a pistola. Ele tinha sido soldado, sabia muito bem manusear uma arma. O velho paralítico observava seus movimentos, tentou avisar os filhos, mas apenas um resmungo saiu de sua garganta seca.

Os dois irmãos estavam distraídos. Valdo atirou primeiro em Túlio, que caiu mortalmente ferido. Otto se assustou com o estampido, tentou dar um passo, mas as calças caídas sobre os tornozelos atrapalharam seus movimentos e ele tombou de lado. Valdo aproximou-se e deu-lhe dois tiros. Em seguida desamarrou Simone. Inclinou-se, pegou as roupas dela que estavam jogadas no chão ao lado da cama, e deu para ela.

– Vista-se. Vamos sair logo daqui.

Súbito, soou um disparo. Túlio não estava morto. Mesmo ferido com gravidade, ele conseguiu sacar a arma e disparar. Valdo caiu sobre a cômoda e escorregou para o chão. O homem tentou disparar novamente, mas a arma falhou. Simone saltou da cama, pegou o punhal de sobre a cômoda, atirou-se sobre Túlio e enterrou a lâmina no peito dele. Tomada pela fúria, a garota se aproximou do velho sentado na cadeira e golpeou a testa dele. A ponta da lâmina resvalou no osso, mergulhou no olho e atingiu o cérebro. O velho morreu de boca aberta.

Valdo ergueu-se. Olhou e apalpou o corpo, sentindo apenas um desconforto no flanco direito. Embora tendo perfurado a camisa, a bala apenas roçou a pele. Enquanto se erguia, assistiu espantado, o ataque de Simone aos dois homens. Ficou admirado de vê-la agir daquela forma, espontânea e violenta. Naturalmente ela não fez aquilo por ele, mas por ela mesma.

– Vista-se e vamos sair logo deste lugar- disse ele e saiu para a varanda.

Saindo, dirigiu-se para onde estavam as motocicletas. Escolheu a Harley Davidson, verificando que a chave estava no lugar de partida. Simone surgiu logo depois. Estava despenteada, o rosto brilhando de suor. Apesar do perigo que haviam passado, aparentava estar tranquila. Aldo sentia agora, algo estranho. Talvez simpatia, amizade. Amor? Impossível! Que futuro teria tal coisa?

– Você teve oportunidade de fugir. Por que não fugiu e me deixou lá?

Ele segurou-a pela cintura, olhando-a nos olhos. Devia dar a si mesmo, uma chance de sentir algo diferente.

– Confesso que pensei nisso, mas você, com tua simplicidade, com tua coragem e beleza, me fez mudar de ideia.

Simone sorriu, um sorriso irônico, falso. – Ah! É mesmo? – disse ela e enterrou o punhal na barriga dele. Valdo ficou espantado. Não esperava aquilo. Sempre imaginou o contrário. A dor foi intensa. Depois ele perdeu as forças e desabou no chão. Morreu ainda tentando entender o que estava acontecendo. Simone colocou o capacete, montou na moto, ligou o motor e partiu.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.