EntreContos

Detox Literário.

Demasiado Humano (Wilhelm)

 

Num canto do mundo onde sobrava sol e faltava todo o resto, duas meninas brincavam. O tijolo de construção riscava quadrados e números disformes na terra, os pulos de ginasta intercalados aos pulos de Saci buscavam o céu, faziam a hora passar mais rápido e davam à tristeza uma cara de alegria, gerando, vez ou outra, sorrisos e comemorações. E também, vez em sempre, protestos:

— Você pisou na linha, Janaína.

— Pisei nada!

— Pisou, sim. Olha a marca da sua sandália ali.

— Aquela marca já tava, nem vem, Natália.

— Ai, Janaína, como você gosta de roubar. Não dá pra brincar com você, não.

— Vai, Natália, joga logo e para de chorar. Ô menina que reclama, Deus me livre.

Em meio ao furor da discussão sobre respeito às regras e espírito esportivo, não perceberam a aproximação de um “inimigo” em comum. Felipe, o menino da rua de cima, aproximava-se como quem não queria nada, o umbigo saltado apontando o caminho dos pés descalços, o corpo mais osso do que carne e mais poeira do que pele. Ele perguntaria se podia brincar e as meninas, laços de amizade instantaneamente refeitos, responderiam “não”. Felipe, em retaliação, apagaria o quanto pudesse do desenho e sairia correndo. Mas nada disso aconteceu porque, nesse mesmo instante, um carro “de cinema” estacionou em frente à casa de Natália. Dele desceram dois homens de terno e gravata.

E isso ninguém deixaria de perceber.

— Natália, entra pra dentro – a mãe chamou, pouco depois de receber os homens de terno.

Natália imaginou que aquilo só poderia significar problemas que resultariam em cintadas e chineladas. Pensou em fugir e só voltar quando não houvesse sinal daquele carro nem daqueles homens num raio de pelo menos mil quilômetros (isso deve ser bem longe), mas concluiu, com bastante precisão, que, se assim fizesse, depois a surra acabaria sendo pior. Entrou em casa, olhos já cheios e o discurso “eu não fiz nada, mãe” preparado na ponta da língua. Porém, antes que pudesse se justificar pelas travessuras que havia cometido e pelas que não havia, um dos homens sacou do bolso uma trena e começou a medi-la. Após essa ação, ele disse algumas palavras estranhas para o outro que, com um sotaque carregado no “r”, dirigiu-se à família:

— Conforme nosso primeiro contato, sua filha é exatamente o que estamos procurando. Parabéns.

— Pra onde vocês vão levar ela, seu moço? – o pai de Natália perguntou.

— Estados Unidos ou Inglaterra, isso dependerá de um sorteio quando todos os selecionados estiverem juntos na mansão.

— E a gente vai poder ver ela? – foi a vez da mãe questionar.

— A qualquer momento, senhora – o homem respondeu, com convicção e um largo sorriso. – A qualquer momento.

— Sei não… – o pai da menina aprumou-se na cadeira e coçou o pescoço, desconfiado. – Parece bom demais pra ser verdade, seu moço. E quando acontece isso, geralmente é porque não é verdade.

— Essa é uma prova de nossa boa vontade – o homem falou, abrindo uma maleta onde reluziam maços e maços de notas verdes como a grama do vizinho. – Garanto que queremos o melhor para sua filha, assim como temos certeza que vocês querem. Mas entendemos sua preocupação, senhor. Se não concordar, podemos procurar outra criança da região…

— Vai ser bom pra ela, Ernesto – a mãe afirmou, segurando as mãos do marido, os olhos tomados por uma súbita felicidade.

— Estados Unidos, é? – o pai quis se certificar.

— Ou Inglaterra, senhor.

— É bom também. Dizem… – Ernesto tentava se convencer, mas o pescoço ainda coçava mais do que a mão. – O que você acha disso, filha? – perguntou à maior interessada naquela história, ignorando o olhar fulminante da esposa.

— Eu posso voltar quando quiser? – perguntou Natália.

— Quando quiser – o homem respondeu.

— Tem picolé? – a menina se recordou da vez em que provara a iguaria.

— De todos os sabores do mundo.

— Tá bom.

Os homens de terno sorriram, a menina sorriu, a mãe respirou aliviada e puxou a maleta para si, o pai, olhos transbordando esperança, abraçou a filha, desejando a ela a sorte que ele próprio nunca teve. Natália entrou no carro.

E nunca mais voltou.

 

***

 

John Rockshield despertou imerso num oceano de corpos nus, álcool, vômito e cocaína. Com as pernas formigando e a luz do dia ardendo nos olhos, percorreu os cinquenta e oito porcelanatos até a sacada, imaginando-se, nos arroubos infantis que vez ou outra nos irrompem à mente, num jogo de xadrez elaborado por monarcas antigos, ao esquivar-se das prostitutas inertes por sono e embriaguez (aquela ali talvez morta?), das algemas, chicotes, tigelas de bukkake, garrafas de whisky, seringas e toda sorte de acessórios utilizados nos excessos da noite anterior. A cabeça chumbada pedia cafeína, ou outra “ína” qualquer – nem todo dinheiro do mundo podia evitar uma ressaca, afinal.

— Chá – John Rockshield ordenou a um dos mordomos que, de tão imóveis, praticamente mimetizavam-se às estátuas da decoração.

Continuou o caminho até a sacada, onde, com a inconveniência dos convidados que não sabem a hora de ir embora, um velho fumava cachimbo. Rockshield pensou em evitá-lo, fingir que não viu, ir a outro aposento e por lá ficar até que não houvesse na casa ninguém com coragem o suficiente para dirigir-lhe a palavra sem extrema necessidade. No entanto, tomado por um ímpeto inexplicável, continuou o trajeto. Talvez o velho fique quieto, pensou.

Não ficou.

— John, meu garoto! – o velho animou-se. – Pensei que seu pai era mestre em dar uma boa festa, mas, olha – fez uma pausa, a cabeça meneando em concordância com as próprias palavras –, você realmente superou. De longe! Aquele velho cabeça-dura ficaria orgulhoso.

— Obrigado – John Rockshield deu um sorriso discreto e mais sincero do que gostaria de admitir. A vaidade era perigosa, disso ele bem sabia, mas um elogio era sempre um elogio e um elogio colocando-o acima do pai, ainda melhor.

— Senhor – o mordomo apareceu, trazendo uma bandeja com um bule fumegante, duas xícaras e folhas de coca preparadas para infusão.

— Chá? – Rockshield ofereceu ao velho.

— Não, não – o velho recostou-se na cadeira, dando mais uma baforada no cachimbo. – Prefiro ela num estado mais… refinado.

— A festa acabou – Rockshield disse ao mordomo, dispensando-o com a ordem implícita de “limpe a bagunça” e, também, dando uma indireta ao velho, que não deu o menor sinal de ter acusado o golpe.

John Rockshield se recostou ao parapeito e contemplou o abismo. Da extremidade da varanda, sustentada a trinta e cinco metros do chão por pilares que fariam inveja aos templos gregos, a vastidão de sua propriedade se estendia diante de seus olhos, mas ele não se atentava a nada. Em sua mente, engrenagens viciadas arquitetavam a próxima extravagância, o próximo risco, a próxima crueldade, o próximo comportamento limítrofe que pudesse lhe proporcionar algum sentimento genuíno, alguma novidade genuína, qualquer que fosse, medo, ódio, tesão, raiva, desespero, alegria, amor?

— É o vazio, não é? – o velho perguntou.

— O quê? – Rockshield imergiu dos devaneios.

— Aquela sensação de “já fiz de tudo, já provei de tudo, que porra eu faço agora pra sentir alguma coisa de novo?”. Não é isso?

— Acho que é…

— Uma vez seu pai debruçou aí no parapeito, do mesmo jeito e com o mesmo olhar perdido que você está agora. Quase um mês depois, chegou um convite pra uma festa. Todo mundo veio bem animado, mas no lugar das putas, ele tinha trazido um monte de crioulos. Daí foi aquela algazarra: “Que porra é essa, Rockshield?”, “não vim aqui comer cu preto, não” – o velho não conteve a gargalhada ao se lembrar. – Seu pai não falou nada, só deu um rifle pra cada um e mandou os mordomos colocarem a pretaiada pra correr lá embaixo. Ele foi o primeiro a atirar. Eu demorei pra apertar o gatilho a primeira vez, hesitações morais da juventude, talvez… mas acabei pegando gosto e, no final do dia, os mordomos tiveram bastante trabalho. Nunca mais vi aquele vazio nos olhos do seu pai.

— Uma história inspiradora – John Rockshield respondeu, olhos fixos no horizonte onde verde e azul se encontravam.

— Seu pai gostava de você, garoto. Do jeito dele, mas gostava. O que eu quero dizer é que às vezes a gente tem que buscar alternativas.

— E nada como uma boa caçada humana para preencher o vazio, é isso?

— Você tem pena deles? – o velho perguntou, sem disfarçar certa decepção. – Cuidado, garoto, isso é uma fraqueza. Se você caísse no meio da selva, eles não pensariam duas vezes pra te colocar num caldeirão. Eu não sei se é por sorte, por algum tipo de bênção divina ou maldição, mas o fato é que nós estamos acima do bem e do mal, garoto. A gente pode fazer qualquer coisa, com quase qualquer um. Sem consequências, sem culpas, sem remorsos.

— Eu já fiz – John Rockshield confessou, voz desprovida de emoção. – Já fiz “tiro ao alvo”, torturas, todo tipo de orgia, todo tipo de droga. Nada me surpreende mais. Nada me entretém por mais de dez minutos e uma gozada.

— Talvez você ainda não tenha tentado isso, garoto – disse o velho, entregando um cartão a John.

— O que é? – Rockshield arqueou a sobrancelha, intrigado.

— É o máximo de poder que você pode exercer diretamente sobre alguém – o velho respondeu, tomando o rumo da saída. Virando as costas, concluiu, valendo-se da sabedoria que só chega depois de longos anos: – Se isso não te der emoção, é porque fodeu de vez, garoto.

 

***

 

Em algum lugar entre a Rússia e o inferno, o doutor Wilhelm Zolak aguardava. Chovia forte quando finalmente entregaram sua encomenda – esguia, braços alongados, queixo protuberante, cabelos pretos, a beleza dos trópicos e as desilusões de uma vida sofrida estampadas no rosto. Tão pura, tão bonita, tão… perfeita. Com cuidado paternal, cobriu a menina com uma capa e a protegeu com um guarda-chuva enquanto a conduzia para dentro do consultório.

Tu nome, querida? – Wilhelm perguntou, num portunhol sofrível.

— Natália – ela respondeu. – Aqui é Inglaterra ou Estados Unidos?

— Hum… Inglaterra…

Essa casa é do tamanho da minha rua, Natália pensou ao entrar na propriedade. Tudo era escuro e um pouco assustador (os trovões lá fora não ajudavam muito), mas o doutor tinha cara de bonzinho, o sofá era macio e tinha sorvete de massa que, ela logo se convenceria, era bem melhor do que picolé. Natália jogou videogame até tarde, encantada com aquele baixinho bigodudo que crescia ao pegar os cogumelos. O doutor era muito bom naquele jogo, conseguiu vencer até a tartaruga dinossauro! Adormeceu envolta por risos, plumas e esperanças.

E despertou amarrada numa maca.

— Natália, Natália… que sorte você teve, minha doce Natália – o doutor Wilhelm agora falava em seu próprio idioma. – Quietinha, Natália, quietinha… – ele disse, cobrindo os lábios da menina com o dedo quando ela começou a gritar. – Agora, você vai dormir mais um pouco, querida. E vai acordar num mundo sem dor nem sofrimento, eu prometo.

A primeira incisão foi nas cordas vocais – num mundo sem dor, não há serventia para gritos. Os braços, amputados entre os cotovelos e os ombros, deram um pouco de trabalho. As pernas, serradas pouco acima dos joelhos, ainda mais, fizeram disparar os batimentos e exigiram dose extra de anestesia. Mas o doutor Wilhelm Zolak era um artista dedicado e continuou o trabalho sem esmorecer diante das adversidades. Havia ainda muito a ser feito – a incisão na segunda vértebra (sempre a mais arriscada) e o acabamento. Ah, o acabamento! O mais trabalhoso e mais recompensador. Pléc, pléc, faziam os dentinhos caindo na travessa de alumínio. “Essa boquinha precisa ficar bem macia, querida…”, disse o doutor, enquanto revestia as gengivas da menina com uma prótese de silicone. A maquiagem permanente, os tímpanos perfurados, os cílios, as lentes de vidro cobrindo córneas irremediavelmente danificadas por exposição à luz do laser. Os olhos, ah, os olhos… – sempre a melhor parte.

Quando acordou, Natália não via, nem ouvia, nem sentia mais nada. Sabia que estava viva apenas porque respirava. “Um mundo sem dor, querida Natália”, disse Wilhelm Zolak, orgulhoso com sua nova criação. Ele, um Gepetto reverso, que transformava menina em boneca. Ela, um Pinóquio que desejava apenas morrer.

— Está feito – Wilhelm falou ao telefone. – Pode vir buscar depois de depositar o restante do pagamento.

 

***

 

John Rockshield sentiu o coração disparar ao escutar as hélices. Da sacada, acompanhou o pouso do helicóptero e o desembarque da caixa. A ansiedade aumentava a cada passo que os mordomos davam lá embaixo, trazendo, cada vez mais para perto, sua nova aquisição. Será que o velho estava certo, afinal? Seria aquele brinquedo capaz de lhe despertar alguma emoção? A inesperada taquicardia dizia que sim, mas o sentimento de estranheza que revirava o estômago e ameaçava incursões ao esôfago, dizia que não. Logo descobriria qual sentimento haveria de prevalecer, porque, com a ajuda de rampas improvisadas, a encomenda chegava ao salão. Rockshield dispensou os lacaios com um aceno e parou em frente à caixa. “Este lado para cima”, fixou os olhos nas letras vermelhas carimbadas na madeira e ali permaneceu por algum tempo, girando pedras de gelo no whisky. Queria aproveitar a sensação de incerteza o máximo que pudesse (o que durou pouco mais de um minuto).

Após um belo trago, abriu a caixa.

Primeiro, veio a decepção. A boneca, imóvel, acomodada com esmero em palha e algodão, parecia tão inanimada que John Rockshield chegou a pensar que havia sido enganado. Em sua mente, as engrenagens giraram, ávidas por infringir torturas indizíveis ao dollmaker. Entretanto, logo veio o estranhamento. A boneca respirava. Suave como um filhote de gato adormecido, mas respirava. As mãos foram direto ao peito, onde um coração batia e dois seios brotavam. Então, veio a excitação. Estava viva. Estava indefesa, completamente à disposição para todas as barbáries que se pudesse imaginar, sem gritos, sem reclamações, sem dor, sem lágrimas, apenas submissão em seu estado mais puro e diabólico. Depois de muito tempo, John voltava a se sentir empolgado com algo, a mão direita perdendo-se entre as coxas da menina, a esquerda acariciando a bochecha que mal se podia dizer se era de carne ou porcelana. Deslizou os dedos pela boca de seu novo brinquedo preferido, sentiu o silicone macio revestindo a gengiva e não pode deixar de ter uma ideia para começar a usá-la ali, naquele momento.

Foi quando os olhos da boneca se voltaram para ele.

As lentes traziam aspecto vítreo, o verde quase cintilante emanava artificialidade, mas ali, atrás de toda aquela aberração, John Rockshield viu algo humano. Demasiado humano. O abismo contemplou-o de volta e todas as iniquidades de uma vida desregrada pesaram em seus ombros de uma só vez. E a boneca continuava a encará-lo. Afastou-se dali, num amálgama de pavor, vergonha e arrependimento. Foi até a sacada, onde uma garoa fina começava a cair, e observou o horizonte preenchido por um cinza monótono. Lembrou-se do vazio e desejou voltar para lá, mas sabia que jamais conseguiria. Não depois de ver aqueles olhos. Sentiu uma gota de remorso escorrer quente pelo rosto e, de um jeito tétrico, se alegrou ao perceber que ainda possuía resquícios de humanidade.

Lembrou-se dos olhos uma última vez.

E se despedaçou no chão lá embaixo.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.