EntreContos

Detox Literário.

Das Profundezas (Stefano Reis)

 

Maria corria na mata, carregando a filha em seus braços, arrastando a vegetação com seu corpo e rasgando sua pele nos espinhos. A pequena Glória mantinha sua cabeça aninhada no seio da mãe, já não chorava, nem demonstrava medo. Tratava-se de uma corrida desesperada pela vida. Maria sentia o seu coração arrebentando, faltava-lhe ar, os pulmões queimavam, as pernas pesavam e as lágrimas caiam involuntárias, banhando seu rosto. Quando se virava podia ver seu perseguidor mais próximo, ele tinha a loucura desenhada na pálida face, era de quem ouvia os gritos e as ameaças de morte. Seu perseguidor era Jaconias.

 

Jaconias nunca foi totalmente são. Sempre lutou contra forças singulares, enraizada em suas entranhas, no seu íntimo. Desejos incomuns e violentos, pensamentos bizarros, momentos de confusão mental e desordem. Jaconias ouvia vozes. Ordens do mal. Demônios habitavam em seu corpo. Buscou a religião. Encontrou Maria. Um anjo em forma de mulher. A única que conseguia trazer-lhe a paz. Sua voz paciente lhe acalmava. Casaram-se. No quarto ano do matrímônio tiveram uma filha; Glória, que agora contava cinco anos.

No início foram anos de uma história tranquila e feliz. Uma vida de muitas bençãos e realizações. Os demônios continuavam lá; ordenando maldades; oferecendo desvios sórdidos; coisas ilícitas; prazeres lascivos; tentações diárias que Jaconias enfrentava agarrado em seu amuleto e escudo: Maria e com sua espada sagrada: Glória. Mas, aí…

Aconteceu a derrocada. Primeiro, perdeu o emprego. O segundo golpe foi ainda mais sentido e inesperado; Maria lhe traiu com um amigo. Os demônios se alvoroçaram, fizeram festa, teve ganas de matar a esposa, matar a própria filha e depois se matar. Ser um mártir a ser lembrado em seu círculo social. No terceiro movimento se viu de novo entregue ao vício, perdido na escuridão e sem a proteção da fé.

Maria o resgatou, sua voz calma, seu toque anestesiador. As coisas iam melhorar. O convite para um trabalho no extremo norte do país, foi aceito como uma oportunidade conveniente. Mudar de endereço, estado, recomeçar. Jaconias seguiu sozinho para a pequena cidade no interior do Pará, deixando a promessa. “Assim que estiver seguro eu chamo vocês”.

Ao fim de três meses, Maria desembarcou de uma balsa no improvisado portinho, onde Jaconias a esperava. Maria estranhou de pronto que o esposo, não demonstrou nenhum sentimento de carinho – que seria o esperado! Foi frio. Sequer abraçou a filha e nela, nem um beijo. Nada. Apontou o carro da empresa e seguiram por cerca de duas horas mata adentro, até chegar onde havia uma pequena vila. naquele padrão americano; casinhas de madeira com um gramado na frente.

Maria chegou de manhã e a noite daquele dia, fez a anfitriã, recebendo os vizinhos que vieram encenar uma recepção de boas vindas. Estavam presentes: o senhor Tiago, moreno de olhos fundos, magro e comprido, as costas arcadas, os movimentos lentos. Rachel esposa de Tiago é miúda, gordinha, excitada e glutona – já chegou atacando, com voracidade, a mesa com os salgados e os frios que Jaconias providenciou aos convidades. Outro casal, os mais jovens; Paulo e Ana, chamavam atenção pela forma que não se apartavam, entraram abraçados, sentaram no sofá de dois lugares e lá permaneceram de mãos dadas, unidas com força, como se um temesse perder o outro na sala diminuta. A proximidade deles não se refletia em carinho, não pareciam apaixonados, pareciam sim, dois seres que se uniram um para a proteção do outro. Ana tinha olheiras horrorosas de quem há muito não dormia. Maria notou que faltava em Paulo o dedo anelar da mão direita.

O terceiro casal era formado pelo Senhor Roberto e Hedonê. Os mais maduros, não por acaso Roberto era o principal acionista da mineradora Braço Forte e o seu Diretor executivo. Tinha um rídiculo tapa olho e trazia um sorriso estampado no rosto o tempo todo, mas não parecia natural, antes, aparentava uma carranca ou espamos involuntários dos músculos da face. Sua esposa, Hedonê era uma mulher muito bonita e de formas bem delineadas, mas era impossível não notar que usava peruca. Hedonê não demonstrava outra preocupação que não fosse se admirar em qualquer coisa que a refletisse.

O silêncio imperou durante toda a reunião. Não pareciam pessoas que dividiam o trabalho diário, as mulheres passariam por perfeitas desconhecidas umas das outras. Ninguém entabulava uma conversa. Nenhum assunto era jogado a mesa. Maria tentou se comunicar, mas as respostas vinham vagas e curtas. Tiago fumava um cigarro artesanal – “Foi feito por mim, desde o cultivo até o enrolar da seda! – informou. “Utilizo ervas nativas da região e que têm um efeito restaurador”. Riu. “Pode relaxar senhora, nenhuma das ervas utilizadas possui caracteristicas alucinógena ou dependência”! Talvez, tenha sido este, o ponto alto da prosa entre os presentes aquela noite. Fosse o que fosse o cigarro emanava um perfume bem desagradável. Roberto exibia seu sorriso artificial e Paulo, com cara de profundo tédio, ainda estava sentado com Ana no sofá; as mãos rígidas, entrelaçadas como fios de arame. Mesmo Jaconias, não parecia muito entusiasmado. A melancolia era a única nota presente. Pareciam todos uns autômato desconectados com o momento, como se cada um estivesse em outra realidade. A convivência parecia uma pena infligida. Enquanto servia os refrescos e os salgados, Maria pode perceber algo comum a todos, os olhos! Os olhos eram sem brilho, sem vida! Estariam todos doentes, pensou. E foi quando coincidentemente todos os olhos se voltaram para ela. O último a se virar foi Jaconias, ele a observou por um instante, sem expressão alguma e depois se voltou ao grupo dos homens. Maria sentiu um arrepio lhe subir da espinha até a nuca. Aproveitou e avisou que iria até o quarto ver como estava a pequena Glória.

No quarto a menina dormia tranquilamente.

 

Naquela mesma noite quando as visitas se foram, Maria e Jaconias se preparavam para dormir, era natural que ela esperasse do esposo um gesto de carinho e mais do que isso, esperava sexo. Ela se banhou e ficou a espera. Durante o dia quase não se falaram, porque logo que ele a deixou na casa nova, foi trabalhar. Durante a recepção aos vizinhos, eles se dividiram entre “fazer sala” aos maridos e esposas e não tiveram tempo de se falarem. Mas agora seria oportuno que finalmente atualizassem a conversa, os planos, as fofocas, o “papo furado” e claro: o tesão. Jaconias veio e deitou-se ao lado dela. Imediatamente virou-se para a parede sem nem um mísero “Boa noite”. Ela não aguentou e interpelou o marido: “Mas o que foi?” “O que está acontecendo?”

“Tenho sono”. Ele disse.

“Aconteceu algo?” – Insistiu ela.

Aí, ele se voltou e pela primeira vez naquele dia pareceu que finalmente, a enxergava. Abraçou-se a mulher e chorou copiosamente. Assustada, a mulher o envolveu em seus braços e como sempre fazia, o acalmou.

Quando Maria despertou, e despertou cedo, não encontrou mais seu marido na cama. Preparou o café da manhã para a filha e depois, como estava um belo dia de sol, resolveu sair pela vila, para conhecer os arredores.

Sentaram-se numa praça aprazível e Maria ocupou-se de um livro enquanto a filha fazia descobertas de pequenos insetos, besouros, largatas, borboletas, besouros em diferentes flores do jardim. Uma mulher acercou-se de Maria, sentando-se no banco imediatamente a frente do seu. Maria não pode deixar de notar que a mulher, beirando a sua idade, uns trinta anos, a encarava firmemente. Maria sorriu amistosa e a mulher interpretando o riso como uma permissão, sentou-se ao lado e disse sem nenhum preâmbulo: “Pegue sua filha e saia daqui”! “Vocês correm perigo!” Mais, não disse, levantou-se olhando para os lados como quem procura se certificar que não foi vista e seguiu como alguém que fugisse do inferno.

Nesse mesmo dia, a tarde a pequena vila se alvoroçou com a notícia da morte de Ana. Suícidio clássico; pulsos cortados na banheira. Paulo, o marido, a encontrou sem vida, mergulhada numa piscina de sangue.

Na primeira oportunidade, Maria inquiriu Jaconias sobre o que estava acontecendo. Por que as pessoas agiam feito zumbis? Incluindo ele mesmo! “É a água que vocês bebem, aqui”? “Hoje, uma mulher me aconselhou, na verdade, quase ordenou que eu saísse daqui, junto com nossa filha”. “E agora essa outra comete suícidio”. “Pelo amor, Jacon, o que está se passando”?

“Quer ir embora”? “Vá”! Gritou Jaconias e depois completou baixinho, quase num soluço: “Vá antes que seja tarde”!

 

Na trilha em que corria, à medida que Maria se aprofundava mais na mata, de muito estreita e pouco definida, se tornava impossível o continuar da fuga. Estava bloqueada pela vegetação. Voltar não era uma opção. “Eu vou arrancar suas tripas”! Ameaçou uma vez mais, Jaconias.

 

A ignorância é o preço da felicidade e Maria quebrou a regra de ouro. Seguiu Jaconias quando este saiu de madrugada e viu que ele encontrou Roberto e os outros que estiveram presentes na reunião de recepção: Hedonê; Tiago, Rachel e Paulo. Usando dois carros eles se dirigiram em direção ao morro. Maria, movida por um sentimento estúpido, acordou a criança, pegou o carro na garagem e os seguiu. O grupo desembarcou num local descampado e se reuniram frente a uma pequena caverna. Glória rendida ao sono, dormia no banco de trás, Maria parou o carro a uma distância segura e foi a pé, ver de perto o que acontecia. Estavam todos nus, e o bizarro… O corpo de Ana estava estendido no chão a frente do grupo. Ela era o conteúdo do pacote que Maria avistou retirarem do carro. Horrorizada, pensou em voltar ao carro, pegar a filha e correr a toda velocidade, para longe daquela gente louca. A curiosidade vibrou mais forte e a fez se aproximar escondida.

Tiago conduzia o ritual.

“Aqui, diante desta cruz invertida nos te chamamos! Com as lágrimas colhidas de uma mãe! Com as escrituras dos demônios. Nós te chamamos com o nosso sangue” …

E se flagelam com punhais, deixando escorrer o sangue sobre as próprias cabeças.

“Nós te chamamos com o punhal ainda úmido das carnes de um animal peçonhento”. “Nós te oferecemos a nossa irmã”!

E incendeiam o corpo de Ana.

“Venha até nós Dibbuk”!

O interior da caverna libera uma fumaça volumosa, trazida por um sopro de vento forte. Uma repentina onda de frio faz Maria se arrepiar toda. Das profundezas da caverna uma língua de fogo se insinua sobre o bando. Eles levitam como se fossem erguidos por uma corda invisível. O sacerdote Tiago grita: “Te chamamos pela agonia dos mortais”! “Em nome dos velhos mestres”! “Das trevas te invocamos”! “Para as trevas nos conduza”!

Uma voz poderosa, brutal como o berro de um animal desconhecido ecoa, trazendo medo e aflição. No fogo se forma uma face monstruosa, diferente de tudo o que o olho humano já viu.

Completamente aterrorizada, Maria não consegue evitar e solta um grito de proteção. E então, foi como se o tempo parasse, escorresse lento e o grão de areia da ampulheta demorasse mais a cair. Maria não conseguia se mover, presa àquele pesadelo, com medo, com frio, a bexiga afrouxando e deixando a urina fluir.

A língua de fogo encontra o esconderijo e o demônio personificado em chamas, abre sua bocarra sobre a mulher e a cobre inteira. Impulsivamente, Maria aperta o crucifixo que trazia numa corrente. O fogo sobrenatural não lhe queimou, mas a dor que provocou foi como se abrissem todas as feridas da alma e apresentassem de uma só vez, as angústias de uma vida inteira.

Nesse intervalo, os outros se recuperaram da surpresa inicial e se lançaram à intrusa. Maria, também se levanta e começa a correr. A Fumaça e o fogo regressam a caverna, num espamo, num átimo.

Maria entra no carro, está descontrolada e não consegue ligar o veículo. Os bruxos batem no carro com violência, estão transformados, os olhos injetados, vermelhos, flamejantes, as bocas retorcidas deixando escapar uma baba viscosa, os narizes escorrendo sangue. Agem de forma irracional; Rachel chega a bater com a cabeça no vidro lateral do carro; Paulo sobe no capô e chuta o vidros da frente. A criança acorda e começa chorar e gritar. Finalmente o carro é ligado e Maria arranca, derrubando alguns, quase atropelando outros, ela dispara. Logo percebe que atrás dela, os outros carros vêm se aproximando. Dirige a mais de cem, a menina ainda grita desarvoradamente e Maria se volta para tentar acalmá-la. “Mamãe está aqui, meu amor!” “Mamãe está aqui”! Essa breve virada de cabeça é suficiente para que não visse a curva se aproximando. Tenta reduzir a velocidade e aí, se perde; bate numa mureta à esquerda e em seguida bate a direita, o carro dá um salto e escapa capotando numa pequena ribanceira. Maria perde os sentidos.

 

O ritual foi uma iniciativa de Tiago, um estudioso das ciências ocultas. Fariam um acordo com Dibbuk; almas em troca de prosperidade para o grupo.

Os negócios estavam ruins, a mina esgotada. Roberto convocou Tiago, para anunciar que todos seriam demitidos. “Você é o primeiro saber por uma questão de consideração” “É o meu funcionário mais graduado, o pioneiro, o primeiro a chegar nesse caos de mundo”! “O cara que construiu toda essa estrutura”. “Lhe devo muito”! Roberto avisou: “A situação está tão precária que nem posso garantir o pagamento das indenizações”. Foi quando, Tiago o convenceu a tentar um acordo com Dibbuk. Os nativos contavam em suas lendas a história de um demônio, trazido pelos franceses, invocado pelos portugueses no século XVIII, nas Gerais e depois, perseguido até o norte, pelos Jesuítas que o capturaram e o encerraram numa caverna, bem ali, próxima das minas.

Arregimentaram tropas, tramaram e libertaram Dibbuk. O prêmio veio com a descoberta de uma grande reserva de ouro, a contrapartida inaugural foi o olho de Roberto; o cabelo de Henodê; o dedo anelar de Paulo; a sanidade de Ana; Rachel foi amaldiçoada com uma fome insaciável e Tiago teve seu pênis arrancado. Depois Dibbuk pediu sacrifícios maiores, almas que eram levadas à caverna para serem devoradas; doze vítimas entre nativos e funcionários sem vínculo familiar. Jaconias foi um dos que foram entregues, mas, surpreendentemente, voltou, segurando o próprio coração, pendente do peito aberto.

Para se libertar, Jaconias prometeu em sacrifício a vida da própria filha. “Você gozará de uma alma inocente, um anjo, diferente de todas que teve”!

Jaconias foi integrado ao bando e planejaram o próximo encontro, quando ofereceriam Glória, mas Ana suicidou-se e atrasou o plano deles.

 

Maria corria na mata. Carregava a filha em seus braços. Quanto mais se aprofundava mais parecia impossível continuar a fuga.

Maria se deixou cair, acariciava o cabelo da menina à espera do pior. Jaconias a encurralou, trazia um facão e suas roupas estavam muito ensanguentadas. Ele se aproximou lentamente. Maria fechou os olhos e apertou sua filha contra o peito, enquanto fazia uma oração.

Jaconias, então disse: “Eu os matei”! “Matei todos eles”! “Estamos livres, meu amor”! “Vamos embora”.

Colheu a criança do abraço apertado da mãe e a confortou em seus braços, Maria abriu os olhos e depois o seguiu.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.