EntreContos

Detox Literário.

Diabinho na Garrafa (George Armado)

O casal de idosos mimaram os netos até enjoar. Depois do dengo, Bebeto e Guto se atiçaram ao terreiro igual uma bala. Bebeto era genioso e tinha muita coragem. Guto era esperto, mas temia a repreensão dos pais. Os dois eram uma boa dupla.

Na selva de concreto e aço, os garotos de 12 e 10 anos, respectivamente, não passavam de prisioneiros em apartamentos. As grades dos condomínios traziam proteção, mas sufocavam a imaginação das crianças. As aventuras da infância ocorriam em minúsculas telas de smartphone.

Não podiam mais brincar nas ruas. Os pais mantinham uma vigilância restrita.

Na roça, os meninos até mesmo esqueceram das tranqueiras tecnológicas e se portavam como o que eram: crianças.

Naquela tarde, os meninos brincavam de exploradores. Se imaginavam astronautas num planeta distante. Pés de mangas-rosas se tornavam bases espaciais, uma jaqueira virava um monstro e uma pedra enorme uma nave espacial. De repente, Guto gritou:

— Olha Bebeto!

— O quê?

— Ali, não está vendo? — teimava o garoto.

— Não estou vendo, não dá pra enxergar nada com esses asteroides aí na frente.

— Ali oh — apontou o menino.

— Espere aí meu copiloto, deixa eu aterrissar primeiro — disse Bebeto fazendo onomatopeias com a boca fingindo pousar a nave.

Ambos saltaram e correram desembestados pelo terreno. Debaixo de uma touceira de capim revirado, a luz do sol era refletida com intensidade por um objeto. Guto sentou-se de cócoras cutucando o objeto com um graveto.

— Deve ser uma estrela cadente — disse Guto.

— Ou um tesouro espacial deixado por piratas — retrucou seu primo dando de ombros. — Mas a gente não vai saber o que é até desenterrar.

— E se o vovô brigar com a gente? — falou o menino erguendo-se.

— Se tivesse valor ele não teria jogado fora né Guto, dã!

— Ele pode ter perdido, né? — perguntou o outro.

— Mais um motivo pra gente desenterrar, ele pode estar precisando — argumentou o garoto.

Por um momento os dois se olharam, a curiosidade era tanta que sentiam comichões. Bebeto começou a escavar com as mãos e quando retirou o conteúdo, notou que era uma garrafa de vidro. Bebeto ficou decepcionado.

— Tudo isso pra uma garrafa velha! — gritou o explorador.

— Você nem sabe o que tem dentro… — disse Guto —, abre ela, um mapa pode estar aí dentro, ou uma pista, sei lá.

— Você anda assistindo muito filme no streaming viu.

— Oxe! Num quer me dê — disse ele.

— Eu vou é jogar esse troço fora.

Bebeto olhou pra garrafa. Uma camada de areia cobria ela na parte de baixo. Quando o menino fez um movimento para jogar ela longe, alguém gritou:

— Não rapaz!

— Eita! Quem disse isso?

— Será que foi o vovô Beraio?

— Oxente! Eu achei que foi tu.

Mas o barulho não tinha vindo de nenhum lugar e sim da garrafa. A voz vinda lá de dentro agradeceu. Bebeto limpou a garrafa com a camisa. Ambos os jovens não sabiam o que dizer. Lá dentro, um pequeno ser se escorava nas paredes de vidro. Guto ficou vários minutos com a boca aberta.

O garoto balançou a cabeça, aquela história de garrafa não era estranha para ele.

— Bebeto, você se lembra do que meu pai falou sobre vovô ter guardado um diabinho na garrafa? — disse o menino se benzendo, seus pais eram católicos fervorosos. — Todo mundo aqui diz que o vovô é um feiticeiro.

— Eu estou começando a acreditar.

A criatura dentro da garrafa sorriu. Os garotos ainda continuavam admirados com aquele milagre, como uma criatura tão pequena existia? E quem o aprisionou? Bebeto não se conteve:

— O Pequeno Polegar!

— Já fui muita coisa nessa vida, cramunhão, cão-preto, agora, Pequeno Polegar, essa foi longe viu! Já não se fazem crianças como antigamente, hahahaha.

— E o que você é então? — indagou o menino mais novo.

— Eu sou um saci! — disse a criatura toda orgulhosa.

— Um saci! E o que diacho é um saci? Eu sei o que é um dragão, orc, elfo… aquela coisa Guto, daquele desenho japonês… — dizia Bebeto estalando os dedos.

— Youkai? — respondeu o outro.

— Sim… mas o que é um saci?

A criatura fantástica esbravejou. Ele se apresentou como a figura central do folclore brasileiro. Era uma criatura de pele negra como carvão, tinha uma carapuça e short vermelho. Orelhas pontudas e olhos amarelados. Fumava cachimbo igual gente velha.

— Como vocês não me conhecem? Eu estou até no Sítio do Pica-Pau Amarelo do Monteiro Lobato!

— Monteiro Lobato? — pensou Guto. — Eu já li Harry Poter da J.K Rowling, os sete livros todinhos.

O saci passou a mão no rosto, nunca teve uma conversa tão difícil.

— Mas como você entrou nessa garrafa? — disse Guto.

O malandrinho quase se denunciou, mas conteve a língua. Então deu um sorriso malicioso e disse aos meninos em tom de mercador:

— Eu digo como vim parar na garrafa, mas pra isso vocês têm que me tirar daqui e trazer minha carapuça — ofertou o saci.

— Se você foi preso aí dentro é porque não prestava — argumentou Bebeto.

O saci começou uma lamúria daquelas. Estava preso há muitos anos. Precisava sair, visitar a família. Ele apelou tanto que os garotos cederam. Então, Guto puxou a rolha da garrafa e o saci saiu de um pinote só.

Os garotos acharam divertido como ele se movia. O saci girando no próprio eixo, levantou uma cortina de poeira, e quando o vento cessou, ele estava no seu tamanho normal. Guto fechou a cara, o saci soltou fumo no ar e perguntou:

— O que foi, nunca viu um saci de perto?

— Você fuma? Mas que mal exemplo — disse o rapazinho num tom moralista.

— Ele é tipo um duende meu irmão! — falou Bebeto revirando os olhos. — Ele só tem o nosso tamanho, ele deve ter pisado na lama do dilúvio.

O saci impaciente, perguntou se eles estavam interessados na sua história e que corressem logo a procurar sua carapuça. A pressa do saci tinha um bom motivo, se fosse pego por seu Beraio, teria que voltar a garrafa. Durante anos, ele havia preparado aquela fuga, esperando algum desavisado o tirar de lá.

Os meninos se entreolharam e fizeram que sim com a cabeça. O ser disse que se embrenharia no mato, pois queria fazer uma surpresa ao avô deles. Mas quando eles retornassem, ele daria um assovio e viria até eles.

Os garotos concordaram e correram para a casa do avô. Enquanto eles partiam, o saci quebrou a garrafa. Nunca mais ele voltaria para lá.

 

***

Bebeto e Guto chegaram correndo dentro de casa, andando de um lado para o outro, num fuzuê daqueles. Os pais deles se divertiam. Beraio veio perguntar o que tanto procuravam, mas eles evadiram. Os dois jovens procuraram a carapuça em todos os lugares da casa. Então eles resolveram pedir aquela santa ajuda. Na cozinha, os meninos tanto insistiram que dona Flora disse onde o gorro estava:

— Seu avô guarda aquele troço lá no baú. Num sei pra que ele quer esse negócio — disse a velha dando um largo sorriso.

Como o vento, os dois foram até a arca.

 

***

Seu Beraio, já desconfiado, foi a porta da cozinha e perguntou a dona Flora:

— Que tanto caçam que não acham?

— Eles estão atrás daquele gorro velho que tu guarda lá no baú. Esses meninos são iguaizinhos a você quando era mais novo.

Seu Beraio tomou o rumo da casinha de ferramentas. Enquanto ele se dirigia para lá, os meninos voltavam com a carapuça até o saci.

 

***

Quando ele percebeu que era os garotos, o saci deu um assovio agudo. Pulando numa perna só, ele veio até eles e pediu a carapuça. Bebeto jogou com esperteza:

— Não, só lhe dou quando você contar como foi preso.

O saci implorou, rogou e fez de tudo para que os meninos lhe entregassem o objeto. Os meninos se mantiveram duros na queda. Quando viu que não cederiam, apelou:

— Tudo bem, vocês querem mesmo saber? — indagou ele, os meninos balançaram a cabeça confirmando. — Então eu falarei. Eu vivia pinotando por aí, era um defensor das florestas e das matas, protegia os animais dos caçadores…

— Como um ranger ou um guardião elemental? — perguntou Guto.

— Sim, sim que seja. Então a fama de meus poderes correu mundo. Quando eu menos esperava, fui atacado por um terrível feiticeiro…

— Não me diga que é o vô Beraio! — berrou o menino mais velho.

— Eu não queria que soubessem, mas sim, foi o avô de vocês…

— E com ele te derrotou e te aprisionou? — indagou Guto.

— Ele arrancou uma das minhas pernas — lamentou o saci cinicamente.

— O vô é malvadão! — falou Bebeto espantado.

O saci, garantindo ter cumprido o acordo, pediu mais uma vez que lhe entregassem sua carapuça. Assim ele poderia regenerar sua perna e ir embora. Guto tentou pegá-la das mãos de Bebeto, mas ele esquivou-se.

— Que foi? O bichinho já sofreu demais e o vovô é mal. Papai sempre disse que ele era um feiticeiro — disse Guto comovido.

— Sabe de nada inocente! — retrucou Guto. — Não comi nada desse agá quebrado. O vô pode ser muita coisa, agora mal? Ele não é com certeza.

— Se vocês não me derem essa carapuça, eu os transformo em saci também!

— Com quais poderes você vai fazer isso mesmo seu capiroto das catinfas?

Os garotos se voltaram para trás, era seu Beraio. Nas mãos, uma rolha de cortiça e uma garrafa de vidro novinha. O velho tomou a frente da dupla, pegou a carapuça e ordenou ao saci que voltasse a garrafa.

— Seu Beraio, como é bom revê-lo. Estava brincando… — redimiu-se a criatura.

— Brincadeira né? Brincadeira! É graças as suas brincadeiras que você tava numa garrafa sua pestinha — disse seu Beraio furioso. — Você azedava o leite, queimava o feijão, fazia trança nas crinas e nos rabos dos cavalos, levantava pé de vento pra acabar com minha horta… Sua farra só acabou quando lhe peguei numa peneira de cruzeta.

— Deixe disso seu Beraio, águas passadas — disse o saci.

— Infelizmente eu tenho um problema de memória seu saci… eu num esqueço de nada, entre logo senão queimo sua carapuça!

O saci, se vendo ameaçado daquela forma, girou sobre si e entrou na garrafa, cabendo na palma de uma mão novamente. O velho botou a rolha de cortiça e fez uma cruz com um canivete. Depois olhou para os netos e disse:

— Ainda bem que não cheguei tarde demais.

Os meninos o abraçaram. Guto pediu desculpas por ter sido enganado tão facilmente. Ele desculpou os netos, afinal, haviam sido criados longe de toda aquela magia da roça. Então ele lhes contou como havia pego o danado do saci com detalhes, e desfez o mal intendido da perna, todo saci nasci com uma perna só.

Os garotos perguntaram o que seria feito da garrafa. O velho determinou que jamais a enterraria ali de novo. Então eles foram até um rio que ficava no fundo do sítio. Beraio lançou a garrafa e viu o saci descer nas correntezas do rio. Depois, avô e netos voltaram para casa, as crianças tinham mais uma incrível história para contar.

Beraio se contentou em jogar a carapuça no fogo de lenha e vê-la queimar até não sobrar nada, com um sorriso de prazer tão grande no rosto que até assustou dona Flora.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.