EntreContos

Detox Literário.

Corrente Maldita (Srta. Sombria)

O vento soprou pela fresta da janela no quarto da mãe. Ítalo arrepiou-se com o som e se encolheu sob a coberta azul. Em um movimento automático, o rapaz tapou o rosto com ela e aspirou o perfume de Ângelo. Fora um excelente presente pelos quatro meses de namoro. Voltou a atenção para o tablet e continuou assistindo a série sobre uma bruxa adolescente. Já estava terminando a segunda temporada e seu estômago roncou.

Havia passado as últimas seis horas assistindo. Se sua mãe ou Ângelo soubessem, iam reclamar o dia seguinte inteiro, seria um domingo muito longo. O celular vibrou duas vezes, o jovem pegou o aparelho ao lado do travesseiro e esticou o braço deslizando o dedo sobre a tela do tablet para pausar o episódio. Xingou baixinho por conta da interrupção.

A primeira mensagem era da mãe explicando que voltaria apenas na terça e não no dia seguinte como havia prometido. Mais reuniões no início da semana fariam ela ficar presa na outra cidade. Ítalo não respondeu, pois não queria ser grosseiro com a mãe. O trabalho dela o chateava muito.

A segunda mensagem era de Luana, ele leu o texto que terminava com uma promessa, caso ele enviasse o mesmo pra dez amigos. Era melhor não arriscar ter o azar que citava na mensagem, e ele tratou de marcar as pessoas e enviá-lo depressa.

Sem o som do tablet, ele podia ouvir melhor o assobio do vento na janela do quarto ao lado. No silêncio cada barulhinho ficava tão alto. O desconforto aumentava e ele se sobressaltou quando o celular vibrou de repente, avisando que havia mais mensagens. Tentando respirar mais devagar, ele repetia a si mesmo que estava tudo bem. Leu as palavras de Ângelo dizendo que ia à missa com os pais e passaria na casa dele rapidinho na volta. O garoto desejou que o namorado não fosse tão teimoso. Se ele alugasse o quartinho dos fundos poderiam ficar juntos mais tempo, principalmente quando a mãe de Ítalo estivesse fora. Mas tudo dependia da reação dos pais de Ângelo quando ele revelasse que era gay.

Jogou o celular para o lado e voltou a olhar o tablet. Não querendo continuar a assistir por enquanto, ele deslizou os dedos sobre a tela para ler os comentários das pessoas.

O primeiro era um elogio para um dos atores coadjuvantes. Ele não concordou, Ângelo era muito mais gato que muita celebridade. Ítalo se perguntou se Não seria o amor falando mais alto.

Ainda pensando no namorado ele leu o segundo comentário. A garota dizia que não achava legal usarem palavras de feitiços de verdade. Quem garantia que não estavam amaldiçoando os telespectadores? Ítalo concordou e se sentiu enjoado. Continuou olhando os comentários, mas não havia mais nada de interessante.

Estava quase voltando ao início da página e clicando para reproduzir, quando viu um comentário com todas as letras maiúsculas: “NAO PARE DE LER! EU SOU JEYSA. MORRI EM UM ACIDENTE DE CARRO.

VOU SEGUIR ASSOMBRANDO VOCES QUE ESTAO VIVOS. MANDE ESSA MSG PARA VINTE PESSOAS ATE A MEIA NOITE, OU VOU TE ATORMENTAR ATE VIRAR UM ESPIRITO COMO EU.”.

Ele ignorou o desejo de enviar a mensagem. Conseguiu assistir mais dez minutos de série, porém os pensamentos se desviavam para o comentário da página. Ele não queria ser assombrado por nada. Clicou no tablet em enviar para o whahtsap e começou a clicar nos nomes na lista. Aproveitou os dez contatos de poucos minutos atrás, marcou a própria Luana e mais alguns amigos do curso. Fez as contas e enviou. Respirou aliviado por um momento. Lembrou da teoria de Tiago sobre o motivo de coisas estranhas acontecerem quando estamos com medo. Ele dizia que pesquisar textos ou vídeos assustadores dava espaço para que forças do mal se manifestassem. Como se facilitasse o território para elas. Ítalo sentia o coração acelerado. Detestava o silêncio. O episódio foi reproduzido só para não ficar ouvindo o estúpido assobio do vento. Sem prestar mais atenção no tablet, ele pegou o celular e procurou o vídeo que Ângelo tinha feito para ele no dia dos namorados. Tratava-se da música favorita de ambos tocando enquanto passava várias fotos do casal. Ele gostava mais da última foto. Estavam andando de bicicleta no parque e Ângelo estava sorrindo de lado, o sol iluminando o cenário ao redor. Ítalo não cansava de admirar aquele rosto, Ângelo era mais forte do que se dava conta. Não pela primeira vez, imaginou como seria bom vê-lo toda tarde, não só algumas vezes na semana. Ele tinha que conversar logo com os pais, se desse tudo errado, algo legal sairia da situação. Teria Ângelo só para si.

Sentiu nesse momento uma dor forte na barriga. Desesperado levantou-se da cama, jogou o cobertor para o lado e correu descalço para o banheiro no final do corredor. Após usar o vaso e dar descarga, levantou-se para lavar as mãos. Ficou olhando para o espelho tentando ignorar a sensação de perigo. Imaginou que havia alguém atrás dele. Era bobagem. Olhou para o espelho com o canto do olho e viu um rosto diferente. Não eram os olhos azuis que o fitavam de volta, não viu as bochechas que Ângelo adorava apertar e o nariz de batata que detestava. Viu um rosto de garota, a pele branca, olhos castanhos, cortes por toda parte e muito sangue. Ele piscou e olhou para baixo, ainda estava tirando o sabão das mãos. Tentou dizer a si mesmo que só estava assustado. Não havia nada no espelho. Ergueu os olhos outra vez para dar uma segunda olhada. O rosto ainda estava lá. Gritou de medo e saiu correndo do banheiro. Passou perto da porta da cozinha para chegar no quarto e ouviu algo caindo no fundo da pia. Era um prato ou copo. Entrou no quarto e bateu a porta, o barulho o deixou um pouco mais calmo. Lembrou que lavou a louça pela manhã e colocou tudo de qualquer jeito pra secar. Respirou fundo, pegou a toalha e secou as mãos o melhor possível. Apalpou os bolsos e notou que o celular tinha ficado no banheiro. Por que tinha a mania estúpida de mexer nele enquanto estava lá? Precisava voltar para pegá-lo, mas não tinha coragem.

O computador que estava ligado apagou-se de súbito. Ele sentiu um frio no estômago. Veio à mente uma cena de um seriado de fantasmas que assistia, onde os espíritos interferiam com aparelhos eletrônicos. O coração batia depressa e ele se sentiu enjoado mais uma vez. A parte racional do cérebro dizia que ele estava exagerando. Forçou-se a abrir a porta e deu um passo no corredor. A porta da frente bateu com força e ele ficou paralisado.

Não queria se mexer. Sentia que a casa inteira era uma zona de perigo. Imaginou um ser maléfico atrás dele, ou nas sombras do corredor, ou no canto da parede do banheiro. Tinha de pegar o celular e ligar para Ângelo. Ia sair de casa e esperar ele em algum lugar para comerem algo juntos.

Caminhou a passos rápidos para o banheiro sem pensar muito no que fazia. Era como se fugisse de alguém, embora estivesse sozinho. Entrou no banheiro, agarrou o celular e saiu correndo na direção do quarto. A um metro de distância da porta, sentiu uma onda de frio ao redor. Um nó na garganta e um grito sufocado. Diante dele, pairando no ar havia uma garota com as roupas esfarrapadas cheias de sangue. Ele podia ver as ferragens de algo que devia ser um carro atravessando o peito da menina. Os grandes olhos castanhos fitavam Ítalo com ódio. Ele respirou fundo e sentiu cheiro de sangue, tapou a boca com a mão ainda observando a garota. Ela gritou. O som dava agonia, gelou o sangue de Ítalo e ele se afastou depressa. Bateu as costas na parede do corredor e piscou. Como se tivesse acordado de um transe. As mãos tremiam sem parar e o garoto disparou para o quarto batendo a porta pela segunda vez.

Jogou-se na cama enrolando o cobertor ao redor do corpo. Tentava se acalmar dizendo a si mesmo que tinha imaginado a garota. Sentia a cabeça latejar e os sentidos não estavam normais. Fechou os olhos sentindo tontura e lembrou que não tinha comido nada a muito tempo. Se contorcendo um pouco ele alcançou o celular no bolso e o trouxe para a frente dos olhos. Clicou para desbloquear e na tela apareceu o comentário que tinha enviado para as vinte pessoas. Tentou ver a hora, mas o celular estava travado nas palavras amaldiçoadas. Sentiu então uma pressão nas costas, uma força como se uma rocha pesada fosse colocada ali. Tentou se mover e o ar não era suficiente. Se debateu o mais que pôde.

“Que conveniente. Vou morrer de bruços.”, pensou desesperado. De repente conseguiu rolar para o lado e na ânsia de afastar-se acabou caindo pela lateral da cama.

“Preciso sair daqui.”, pensou ele com urgência.

Uma onda de frio inundou o quarto. Trazia consigo uma aura maligna que deixou os extintos de Ítalo em alerta. Ele foi se arrastando na direção da porta. Dizia a si mesmo que era o mais seguro a se fazer. Porém não seria o caminho mais rápido. Portanto, perto da porta do quarto ele se ergueu e descobriu porque andar seria tão mais perigoso. O espírito varreu o ambiente com um vento forte e ele correu sentindo objetos contra as costas e ombros. O pior foi algo arremessado atrás do joelho. Ele quase se desequilibrou. Não queria olhar para trás e ver o que o espírito havia feito em seu quarto. Não compreendia porque o fantasma o perseguia. Tinha enviado a mensagem para todas as vinte pessoas.

“A menos que eu tenha contado errado.”, disse a si mesmo chegando à cozinha. Queria verificar o celular, porém ao atravessar metade da distância até a porta para o quintal, Ítalo ouviu o barulho de vidro quebrando. Olhou em volta congelando no mesmo lugar. Como se ganhassem vida, os copos e pratos se lançavam na direção dele. Ítalo se abaixou no último segundo quando a travessa de salada passou por cima da cabeça dele e se espatifou às costas do rapaz. Alguns cacos de vidro o atingiram mesmo assim. Se sentiu dentro de um filme de ação, onde projéteis, bombas e mísseis eram atirados para cima dele.

– Deus me proteja, por favor! Sai coisa ruim! – pediu assustado. Ângelo explicou sobre a fé, sobre seres que não tinham uma natureza boa e Ítalo aprendeu a orar. Não que a frase que gritou fosse uma oração. Mas Ângelo disse que não havia regras pra isso.

Percebeu que o efeito foi contrário. De algum modo a força maléfica se enfureceu com as palavras proferidas e jogou nele uma das gavetas do armário. Na hora em que Ítalo passava na frente, a gaveta voou, bateu em cheio no peito do garoto e caiu em cima do pé dele. Dessa vez ele caiu sentado com o impacto. Como se não bastasse, a segunda gaveta veio pra cima dele também. O frio, o cheiro de sangue e a presença malvada deixavam Ítalo impotente.

Ele só se deu conta do acontecido quando sentiu os cortes. A gaveta estava cheia de talheres. As facas se cravavam na pele dele por toda parte, outros talheres furando a pele. E Ítalo pensou em se entregar. Estava fraco e machucado, não ia aguentar muito.

Porém, dentro dele o extinto de sobrevivência gritava para que se levantasse, arrastasse, qualquer coisa para sair da casa.

Ítalo tentou. As mãos se apoiando nos cacos de vidro. O sangue manchando as roupas e o tapete em frente ao fogão. O frio penetrando na pele e a dor sendo a única coisa que o deixava alerta.

Ítalo chegou até a porta. Apoiou-se nela com dificuldade e se ergueu. Quando olhou para a cozinha, o espírito apareceu com olhos repletos de uma loucura satisfeita.

– Não! – ele pensou que tinha gritado, mas era só um murmúrio.

O mundo balançou de um jeito incontrolável quando ele abriu a porta e  caiu pelos degraus pequenos.

Resgatou o celular finalmente, respirando fundo. Não foi fácil ler os nomes na tela. Ele foi contando todas as pessoas pra quem tinha enviado a mensagem. Faltava um nome.

– Que burro – repreendeu-se. Sabia para quem ia mandar a mensagem. A única pessoa que poderia lidar com aquilo do jeito certo.

“Desculpe amor.”, pensou procurando o contato de Ângelo.

Sentiu mãos ao redor do pescoço apertando a garganta. O celular escorregou e caiu no chão e Ítalo perdeu a consciência, o ar e as esperanças de viver.

Mais tarde naquela noite, Ângelo entrava no quarto onde Ítalo jazia sob o efeito de medicamentos. Dormia profundamente. A médica responsável ligou para a mãe do rapaz comunicando que o adolescente estava no hospital.

Ângelo tinha vindo com a ambulância. O garoto entrou na casa de Ítalo trazendo uma caixa com salgados, quando deu com o namorado caído no chão todo machucado. Pensou tratar-se de um assalto, porém a causa real foi revelada pouco depois. Ao recolher o celular de Ítalo, ele encontrou a estranha mensagem ameaçadora.

Ângelo estava parado no pé da cama do pobre Ítalo e segurava com firmeza o terço que carregava na corrente do colar. Rezou baixinho e sentiu a presença maligna furiosa com o desafio e petulância dele.

As palavras da oração eram ditas com certa hesitação. Ele se esforçava para que o medo não tomasse o controle. Respirava fundo e não permitiu que nenhum pensamento duvidoso o distraísse. Os dedos apertando o pequeno objeto preso no colar, os olhos castanhos fechados com força e uma sensação de calor e paz emanando de seu corpo. Ângelo finalizou a oração com convicção e sentou-se ao lado da cama.

Ter fé e sabedoria para mandar embora um espírito não era para qualquer um. Claro que também cobrava seu preço.

O jovem sentiu-se cansado, inquieto por Ítalo não acordar e assustado também. Não esperava que algo assim fosse acontecer bem depois de sair da missa, poucos dias após aprender a oração em latim.

Enquanto verificava a hora no celular, este começou a tocar.

– Oi mãe. Não, eu estou ocupado.

Fez-se uma pausa.

– Estou no hospital e vou ficar aqui algumas horas… – ele ouviu a pergunta e disse: – Meu namorado foi assaltado. A mãe dele vai chegar de manhã. Sim, eu disse namorado.

Ângelo afastou o celular da orelha ouvindo os gritos histéricos, suspirou e disse calmamente:

– Conversamos de manhã. Não queria te contar desse jeito. Tchau mãe.

Desligou e fitou os olhos azuis de Ítalo que o encaravam.

– Espírito… – era tudo que ele conseguia murmurar.

– Está tudo bem. Aquilo foi embora. – tranquilizou-o Ângelo grato por saber que Ítalo ficaria bem.

– Sabe… eu aceito aquele convite para o grupo de jovens da sua igreja.

Ângelo sorriu e segurou a mão do namorado agradecendo aos Céus por ele estar vivo.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.