EntreContos

Detox Literário.

Capitão Ventania (Pedrinho)

Levou um pouco de tempo, mas um dia eu finalmente entendi porque meu pai insistia tanto para que eu e o Marquinhos ouvíssemos as aventuras do Capitão Ventania no rádio. Ele vivia dizendo que era a coisa mais legal do mundo, que era super emocionante, que a gente só precisava soltar a imaginação… Mas nós, claro, não dávamos a mínima bola, afinal, o que os pais sabem de heróis de quadrinhos?

Tínhamos muitos gibis do Capitão Ventania, o Homem Mais Rápido do Mundo. Desde que eu era pequeno, o Marquinhos lia tudo para mim. Era impossível que as histórias do rádio fossem tão boas quanto aquelas que meu irmão me contava. Mas então, num fim de tarde qualquer, aconteceu. Acho que estávamos cansados, não sei… Só sei que meu pai chegou com aquele jeito manso dele, como quem não quer nada, e quando percebemos estávamos ouvindo “As Aventuras do Capitão Ventania, com oferecimento da Rede de Docerias Osmar Melo“. E foi mesmo emocionante. O jeito que o homem narrava, a música por trás mexendo com os nossos nervos, a empolgação, os perigos, dava para imaginar tudinho. E no fim, vinha a famosa frase dita pelo nosso herói: “Podem contar sempre comigo, pessoal!

Um dia, de tão empolgado, o Marquinhos fez para nós uns raios igual ao do uniforme do Capitão Ventania. Disse que iria colocar nas nossas camisas, assim, secretamente, e que em breve iria arranjar uns foguetes portáteis, desses que a gente pode colocar nos patins. Inspirados pelo nosso herói, seríamos uma nova dupla de combatentes do crime, prontos a ajudar a população e a prender os bandidos.

Talvez nosso pai não aprovasse. Sempre preocupado comigo e com o meu irmão, podia ficar assustado vendo dois meninos saindo pela janela com foguetes nos pés. Mas acho que no fundo ele ficaria orgulhoso. A gente estaria em todos os jornais, heróis de verdade ajudando a população e fazendo justiça. Se tivéssemos sorte, disse o Marquinhos, talvez ele mesmo se juntasse a nós. Numa dessas valia a pena fazer um raio para ele também.

***

Outra coisa que preciso confessar é que nunca gostei de sopa. E quando foi a minha vez de vir para o hospital, parecia que só tinha isso. Todo dia, toda noite. Quer dizer, na hora do almoço às vezes aparecia arroz com batata e uma carninha, mas na janta, sinto informar, era só aquela coisa aguada com dois ou três pedaços de cenoura perdidos no prato. A moça que trazia a tigela até que parecia simpática, mas depois de tantos dias já não dava mais para ficar feliz quando ela chegava.

Meu pai, à noite, até que tentava me animar, mas era muito difícil. A comida não tinha gosto de nada. Ele dizia para eu tomar porque precisava ficar forte. Eu até que tentava, mas depois de três ou quatro colheradas, ficava impossível. Teve uma vez que eu quase vomitei. Foi horrível.

Eu tinha pena do meu pai. Ele trabalhava o dia todo e à noite vinha ficar comigo. Era muito cansativo para ele. Às vezes eu penso que era bom ele não ter mais que se preocupar com o Marquinhos. Só que depois eu me arrependia desse pensamento. Não era uma coisa legal.

Não sei direito o que meu pai fazia para ganhar dinheiro. Se não me engano era alguma coisa que tinha a ver com ônibus. Não, ele não era motorista de ônibus e nem cobrador. Acho que ajudava os cobradores a chegar nos ônibus, ou organizava os horários. Mas o certo é  que ele vivia cansado. Apesar de tentar disfarçar, dava para perceber pela voz dele. Na verdade, ficou pior depois que o Marquinhos foi embora. Mas ainda assim ele conseguia brincar comigo no hospital depois que vinha do trabalho.

Ele arrumava a cama ao lado da minha — na verdade era um sofá que ele tirava o encosto para fazer de cama — ajeitava a mesinha na minha frente e a gente começava. Ah, sim, esqueci de dizer que eram carrinhos. Tinha caminhão, trenzinho e ônibus também. A gente brincava de cidadezinha. Volta e meia um carro ou um ônibus ficava preso no trilho do trem. As pessoas ficavam desesperadas. A gente fazia as vozes de todo mundo! E também os barulhos. Mas então, como eu ia dizendo, o carro ficava preso nos trilhos e um acidente era inevitável. Mas claro, no fim, ele aparecia à toda velocidade. Sim, o Capitão Ventania. Ele vinha e salvava todo mundo bem na hora! O maior herói de todos os tempos! Podem contar sempre comigo, pessoal!

***

O problema começou com uma tosse que não parava mais. O pobre do Marquinhos não conseguia nem respirar direito. Então nosso pai levou ele para o hospital. Disseram que era um problema no sangue, que era muito difícil de resolver. O Marquinhos tinha doze anos. Na época eu fiquei na casa do Seu Lourenço e a da mulher dele, a dona Dalva. Ela me levava pela mão para a escola, todos os dias, e fazia sanduíche de presunto. Todos os dias. Mas até que era gostoso.

Acho que durou uns três meses ou mais. Meu pai vinha me ver e ia trabalhar, depois ficava no hospital à noite com o meu irmão. Até que um dia aconteceu, né? O Marquinhos não aguentou mais de tanto tossir. Meu pai disse que tentou dar um pouco do sangue dele para o Marquinhos, mas que não funcionou. Mas no fim, ele falou que era melhor desse jeito, que o Marquinhos ia ficar com a mamãe lá no céu, esperando a gente.

***

Eu tinha oito anos. Quer dizer, sete, mas era quase oito, quando tudo isso aconteceu com o meu irmão. Isso foi há uns dois anos.

Sabe quando a gente meio que espera que algumas coisas aconteçam na nossa vida? Então, depois que o Marquinhos foi embora eu só fiquei esperando a minha vez. Eu sabia, tinha certeza de que ia chegar. Por isso eu não me espantei muito quando meu pai me levou para o hospital. Não que eu tivesse começado a tossir sem parar também, nada disso. Era outra coisa, diferente. Ninguém quis me dizer nada, mas só de ir para o hospital já fiquei alerta. Tava na cara que não era algo simples.

Até me falaram, depois de muita insistência, que eram exames de rotina, que não era para eu me preocupar, mas claro que era mentira. Só podia ser aquilo, a mesma coisa que pegou o meu irmão. O negócio do sangue. Ninguém tinha coragem de me dizer, claro, né, porque ninguém gosta de dar notícia ruim. Claro que eu tentei falar com o meu pai sobre toda a situação, mas ele também disse que não era nada. E porque ele ficava triste quando falava no Marquinhos eu acabei desistindo de saber, torcendo, secretamente, pelo melhor.

***

Um dia, sem o menor aviso, as enfermeiras entraram no quarto, conversando alto, entre elas, parecendo que eu nem estava ali. Foi tudo muito rápido. Elas mexeram nos aparelhos, como que para ter certeza de que tudo estava funcionando direitinho e começaram a empurrar a cama. Provavelmente ajustaram o soro ou usaram algum remédio diferente, porque eu comecei a sentir uma dormência subindo pelas pernas, chegando até a cabeça, como que me sugando para um sono irresistível.

Ouvi o médico chegando de longe, meio esbaforido. Ele perguntava se eu estava pronto, se era a hora. Eu quis perguntar onde estava o meu pai, mas as palavras simplesmente se recusaram a sair da minha boca. Senti a mão quente de alguém da minha testa, alisando meus cabelos e dizendo para eu dormir.

Não sei quanto tempo passou, mas em minha cabeça surgiam imagens coloridas, clarões. De repente tudo ficava branco e voltava a se apagar. Ouvi sons de conversas, ruídos que lembravam talheres se batendo, bipes contínuos. Um cheiro de ferrugem apareceu do nada. Eu estava sonhando, pensei. Uma cena se formou na minha imaginação. Médicos, todos vestidos com avental, touca na cabeça, luvas e máscaras no rosto. Eles seguravam instrumentos compridos e pontudos e aquilo me deu um calafrio na espinha.

Em meio ao sonho, fiquei pensando se era assim que acontecia, se era por isso que o Marquinhos tinha passado antes de ir embora. Tentei acordar, erguer o pescoço, me mexer, mas parecia que tinham me engessado todo.

Então, aquela sensação de sono gigantesco veio de novo, que nem uma onda, e eu me senti afundar. A última imagem de que me lembro era de outra cama, do lado da minha, na sala de cirurgia. Nela tinha uma pessoa deitada. Era meu pai, eu tinha certeza. Cheio de tubos e fios, os olhos fechados. Como eu.

***

É estranho perceber a luz na escuridão. Assim, quando tudo está imensamente escuro e de repente surge uma luzinha, bem pequena lá longe. Aí ela vai ficando maior e maior, até que então tudo fica iluminado. Eu nunca tinha experimentado isso, essa sensação de ter os olhos inundados de vida.

Na hora em que o médico retirou o tampão, ele disse que era para eu me acostumar aos poucos, ir devagar, já que podia ficar tonto. Claro que o meu coração estava a mil por hora, parecendo que ia sair pela boca, mas de alguma forma eu consegui ficar calmo.

Meu pai estava ali. Com aquela voz serena, a que eu tinha me acostumado há tanto tempo, me incentivando, mal disfarçando a própria ansiedade. “Vai, Pedrinho”, ele dizia. “Um mundo novo te espera, meu filho.”

No início estava tudo embaçado, eu não consegui focar imagem nenhuma. Mas logo as pessoas, o ambiente, as coisas, tudo foi ganhando forma. As cores, o que eram as cores? Não disfarcei o sorriso. Eu estava vendo tudo aquilo. De verdade, não na minha imaginação, não de uma maneira que eu tinha inventado na minha cabeça, com os meus dedos ou com os ouvidos, mas como realmente eram. Sim, tinha dado tudo certo.

Olhei minhas mãos, minhas pernas, a roupa que estava vestindo, a cama em que estava sentado. A cor dos lençóis, os quadros na parede, o médico ao meu lado. Era incrível.

À minha frente, um homem em pé me olhava com a expressão firme e um sorriso indisfarçável. Tinha os braços cruzados. No rosto trazia um tampão no olho direito.

Meu pai.

Abriu os braços e veio na minha direção.

Foi quando vi que ele usava uma camisa com um raio de papel colado no peito.

Meu herói. O Capitão Ventania.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.