EntreContos

Detox Literário.

Apatia (Néfesh)

 

O cabo áspero da pá machucava suas mãos enquanto cavava em frenesi, o sangue manchando toda a extremidade, o suor encharcando suas roupas. Cantarolava uma canção há muito esquecida, não lembrava a letra, mas conformava-se com o que aqueles breves lapsos de memória a faziam sentir. Chorava feito criança, cavando cada vez mais fundo, convencida que todos os sentimentos que transbordavam de si naquele momento eram apenas ilusões.  

Com dificuldades saiu da cova recém feita. Caminhou até a casa, um velho casarão que fora sua moradia desde sempre. Os pés sujos e descalços deixaram um rastro pelo gasto piso de madeira, subiu as escadas que rangiam sob seu peso. A porta do quarto estava fechada.  Sempre estava. Bateu.  

– Janine, está na hora. – Disse num sussurro cúmplice.  

Dentro do quarto, duas crianças encolhiam-se no canto mais escuro. Janine com apenas dez anos embalava a irmã, Maria. As batidas na porta foram ficando mais insistentes e impacientes.  

– Venha, meu amor… Estou tão cansada…

– Vá embora, mamãe! – Chorou Janine.

A mulher encostou a cabeça na porta e voltou a cantarolar. As unhas arranhavam a madeira em agonia. Não queria perder o controle novamente.  Foi até o corpo caído do marido no corredor e tirou o molho de chave de seu bolso.

Janine fechou os olhos com força quando ouviu a porta se abrir, os passos arrastados em sua direção. Fazia meses que não a via, apenas escutava seus gritos no porão, seus sussurros, suas histórias… Impossíveis histórias. Abraçou mais forte a irmã.

– Tudo bem, Maria… eu estou aqui, nunca vou te abandonar.

– Não tema a mim, meu amor. – Disse ela. – Eu disse que esse dia chegaria, e você prometeu que me ajudaria, lembra-se?

Ela prometera.

– Venha. – Estendeu a mão. – Eu seguro ela – falou puxando Maria para si.  

– Não toque nela! – Gritou Janine. – Nunca mais toque nela!

A mulher olhou com pesar para as duas criaturas tão frágeis a sua frente. Olhou mais atentamente para Maria, que nada dizia, estendeu a mão para tocar em seu rosto ferido, seu olhar desceu até a perna ausente. Seu coração bateu mais rápido.  Ela fizera aquilo.  

Levantou-se rapidamente, não queria ser ludibriada pelo impossível. Janine acompanhou-a segurando a mão de Maria, que mancava com a prótese improvisada.    

– Fiz esse favor a você, amor. Ele não fará falta – disse ela diante do olhar apavorado das crianças para o homem caído numa poça de sangue.  

Foram para os fundos, onde estava a cova. A mulher olhou para seu trabalho parecendo satisfeita.  

– É bom lugar, não acham?  

– Mamãe…

A mulher retirou uma pistola do cós da calça, um artefato raro nas mãos de civis. Encostou a arma nos lábios e beijou como se fosse a coisa mais bela. Colocou a arma nas mãos da filha mais velha.  

– Não… não consigo, por favor.  

A mulher segurou seu rosto com força, olhando-a intensamente.  

– Já estou morta, apenas liberte-me.  

Janine chorava imponente, em um rompante jogou a arma longe. Para fúria de sua mãe que lhe esbofeteou.

– Você prometeu!  – Gritou.  

Janine cambaleou para trás, tentou segurar a mão da irmã, que assistia tudo estática, para fugir, mas já era tarde. A mulher puxou Maria, arrastando-a até a cova e jogando-a dentro.  

– Por que me obriga a fazer isso? Por quê? – Disse, enraivecida, enquanto jogava terra sobre a criança com a pá, ignorando os protestos desesperados de Janine.

– Ela não vale a sua vida. Um dia irá fazer uma escolha, você ou ela. Não hesite em escolher você!

O impacto no seu peito a fez calar-se. A dor era real… intensa e bem vinda. Olhou para trás, Janine segurava a arma firmemente, embora seu corpo inteiro parecesse tremer, soltou a pá, seu corpo precipitou-se, caindo na cova.

Maria arrastou-se para longe, aterrorizada, com a ajuda de Janine saiu da cova. A mulher, que um dia chamou-se Júlia, olhou para a criança fruto de um amor antigo, real.  

– Amarelas…- disse, sangue saindo de sua boca. – Depositem flores amarelas. Virou-se deixando exposta sua nuca, onde havia uma terrível ferida de anos de agonia.   

Janine respirou fundo e então descarregou a arma.

 

***

 

Há cerca de 15 anos, eles chegaram  à pacata cidade de Barcelos, com promessas de prosperidade e paz. “Além dessas fronteiras”, disseram eles, “existe um mundo em guerra e sofrimento”. Estavam ali para protegê-los, ajudá-los. Juntos formariam um novo modelo de vida a ser expandido para todas as partes da nação.

E em troca de tudo isso, a única coisa que queriam era suas vidas.

 

***

 

A lua parecia especialmente iluminada aquela noite. Do alto da velha torre de vigia escondida entre as copas altas e esbeltas, ela podia ter um vislumbre da vila que ficava na parte mais baixa da planície, um lugar projetado para permanecer parado no tempo.  Àquela hora não havia ninguém nas ruas, as jovens dormiam o sono dos inocentes, os mais velhos espreitavam a noite em desconhecida agonia. Dali era possível ver o acampamento dos agentes. Um aglomerado de contêineres que produziam tecnologias desconhecidas àquele povo resiliente e ignorante. Um a um, lentamente, de dentro daqueles portões toda a vida da vila era sugada. Estavam mortos, mas não sabiam.

Um barulho despertou sua atenção, espreitou até a beira e o viu subindo. Um sorriso involuntário cruzou seus lábios. Ela não deveria estar ali, sabia dos riscos… mas não podia partir sem isso. Não disseram nada, apenas se entregaram à paixão.  

– Eu te amo, Janine. – Ele disse, enquanto estavam entrelaçados fitando a lua que parecia cada vez mais perto. Janine retraiu-se, aquelas palavras lhe trouxeram de volta à realidade. Afastou-se dele vestindo-se rapidamente.  

– Eu demorei demais pra dizer isso, não é?  

Ela olhou pra ele, lembrou-se do menino que sempre esteve ao seu lado, do cúmplice, do amor. Do dia em que ele fora levado para um daqueles contêineres. E do dia em que ele retornou de olhos vazios.

– Sim, Jacob. – Respondeu, sem conter as lágrimas. Era uma despedida. Tocou seu rosto bonito, tentando memorizar cada detalhe. Abraçou-o o mais forte que podia.  

– Eu sempre vou te amar. – Disse ela. – Mas você não é real.  

Em um movimento rápido, cravou uma faca no pescoço dele. O sangue jorrou. Os olhos de Jacob estavam em completa descrença. Balbuciou palavras desconexas. Janine avançou para terminar sua agonia, mas ele segurou sua mão e com a outra agarrou o seu pescoço pressionando-a para baixo. O instinto de sobrevivência era o traço mais forte da personalidade dos apáticos. Eles não podiam atentar contra si, ao mesmo tempo que defender-se da morte era a principal emoção.  Por um breve momento ela pensou em entregar-se, seria uma forma bonita de morrer, um alívio nessa batalha que lutava sozinha desde a morte da mãe, mas logo a pressão cedeu e então sentiu o corpo dele cair sobre o seu. Morto.

– Como prometi, amor.  Agora você está livre.  

Correu pra casa, o céu já começava a clarear, não tinha muito tempo. Do lado de fora, Maria brincava com um filhote de cachorro.  Assim que viu Janine seu rosto se iluminou.  

– Janine! Vamos ficar com ele, não foi o doutor que trouxe… – O tapa interrompeu sua fala. Caiu no chão, a mão cobrindo a face dolorida. Os olhos enchendo-se de lágrimas. Quando viu Janine avançar contra o cachorro soltou a corrente deixando o animal fugir assustado.   

O peso do ato entorpeceu Janine, mas não tinha tempo para sentimentalismo.  

– Não se apegue a eles. Quantas vezes tenho que dizer que não é um animal comum? Porque não está usando a prótese nova? . – Olhou com desgosto para a antiga que só deformava ainda mais a perna da irmã. – Não entende que tem que usá-la? Que precisa se movimentar melhor?

– Desculpa…

Janine entrou na casa, pegando todos os acessórios cuidadosamente guardados. Sem delicadeza retirou a prótese antiga e colocou a nova.  

– Ela dói, Janine… dói muito.  

– Ela te faz correr… precisa aguentar, Maria. Essa é a nossa única chance e eu posso ter estragado tudo. – Disse puxando-a para que ficasse em pé.

Maria tentava correr o mais rápido que conseguia, a sensação dolorosa da prótese a fazia querer gritar a cada passo em que sua carne era dolorosamente pressionada. Olhava para o lado, para a irmã, que segurava firmemente sua mão. Ela parecia invencível. Correram floresta adentro. Logo avistaram os outros, eram cinco no total. A descida íngreme do pequeno desfiladeiro era o maior desafio para ela e, naquele momento, era cada um por si. Precisavam chegar ao bote que desceria pela correnteza até a cachoeira que os levaria além dos limites daquele lugar. Os libertaria de uma forma ou de outra. Quando estavam próximos, o primeiro cão surgiu, e então, vários outros, silenciosos e mortais.  

Dois dos seus companheiros conseguiram chegar ao bote, os outros estavam sendo estraçalhados pelo caminho.  O bote já começava a seguir o fluxo da correnteza. Janine correu mais rápido e então um grito a fez parar.

– Janine!!

Virou para encarar Maria sendo arrastada por um dos cães. Por uns breves segundos esquecera-se dela de tal maneira que soltou-lhe a mão. Olhou para o bote, mais alguns segundos e seria impossível alcançá-lo.

Lembrou das palavras da mãe. “Não hesite”. Ela só precisava virar as costas, abafar os gritos e o seu nome sendo chamado em súplica. Do alto do espinheiro reconheceu a figura de Jorge.

Tomou a decisão.  

Com a arma atirou no primeiro cão que avançava com ferocidade contra Maria, agora coberta de sangue e novas feridas. Descarregou a arma nos outros. Um novo avançou sobre ela mordendo seu braço e logo avançando em seu pescoço. Mas parou antes de morder. Os agentes chegaram, Maria observou a cena como se passasse muito devagar, Janine rastejando até a arma, colocando-a na boca e sem ao menos hesitar apertar o gatilho. O som que veio não foi o seco do tiro, mas o choro da irmã diante de sua derrota.

Enquanto era arrastada pelos homens ela conseguiu segurar a sua mão.  

– Prometa. – Foi o que saiu dos seus lábios.  

– Eu não entendo, Janine…

– Prometa! – Ela gritou, e então Maria entendeu, os olhos verdes e alucinados de Janine lembraram aos de sua mãe.  

– Eu prometo. – Conseguiu dizer e então Janine foi levada para a colina e cruzou os portões.  

Os olhos demoraram a se acostumar com a claridade, tudo ao redor era branco e frio. Estava nua, o corpo submerso em um líquido gelatinoso. Uma máscara cobria seu rosto lhe dando oxigênio. Dois fios grossos estavam presos em sua cabeça, um na fronte e outro na nuca. Desesperou-se. As portas se abriram dando passagem a Jorge e mais duas outras pessoas.  

“Absorção de memórias concluída, arquivamento em andamento.” 

– Quando decidimos que você seria a última alma da vila, não imaginamos até onde você poderia chegar. O seu histórico… o dia em que matou sua mãe deixou todos aqui perplexos. Achamos que poderíamos encontrar a chave da resistência de Julia em seu DNA. Confesso que quando a conheci fascinei-me com a intensidade de suas emoções, nunca vi olhos tão transparentes, nunca vi tanta coragem… me apaixonei. – Ele sorriu. – Sabíamos dos seus passos, de todos eles. Faz tudo parte do projeto, amor. Mas confesso que não imaginava que você faria o que fez com Jacob.  

Janine batia no vidro, tentando em todos os cantos em busca de uma saída, embora soubesse que estava condenada.  

– Me deixei levar por esses sentimentos… sempre achei que seria um desperdício acabar com tantas emoções… mas agora, não me deixa outra alternativa, Janine.  

– Vamos sedá-la agora… – disse a mulher.

– Não. Acha que vou perder suas últimas emoções?  – Ele disse. Arrastou uma cadeira e sentou em frente à cápsula.

– Doutor… sabe que dessa forma há mais chances de defeitos. A mente tem que está totalmente passiva para a absorção.  

– Vai funcionar.  

Uma voz automática ecoou pela sala.  

“Iniciando processo de descarte”  

O ar foi tragado de seus pulmões. Debateu-se, sentindo suas energias se esvaindo. Fitou Jorge deleitando-se com sua agonia, então parou. Pensou na mãe, Jacob… Maria.  

Entregou-se, o corpo já nas últimas contrações. Uma velha canção preencheu suas últimas lembranças.

 

***

 

Maria entrou na velha igreja, estava vazia, tão diferente das histórias que sua mãe contava nas poucas vezes em que a embalou nos braços. Nunca época em que ainda pensava que era real. Sentou ao lado do padre, que olhava de forma vazia para a imagem de Cristo. Lágrimas silenciosas desciam por seu rosto.

– O que lhe aflige, padre?

– Eu… não sei… sinto que… – disse colocando a mão trêmula sobre o peito. – Sinto que está faltando algo… aqui. Será que… Perdi…

– Talvez tenha perdido a fé na sua missão. – Disse ela. – Talvez tenha afastado seu rebanho, por sua falta de fé.  O homem olhou-a aterrorizado.

– Olhe para as pessoas, padre… elas estão tristes, sem propósito. Traga-as de volta para a redenção. Liberte-as.

O homem respirou ofegante, parecendo encontrar uma solução.

Naquele mesmo dia, os sinos tocaram como nunca antes, convidando a todos para entrarem. Era uma noite de lua cheia e iluminada. Alguns agentes olhavam curiosos a movimentação. De todos os personagens daquele lugar, o padre com certeza era o mais divertido e irônico de se acompanhar.  Maria parou na porta olhando para cada rosto conhecido. Não estavam todos ali, mas era suficiente.  Uma criança que brincava no colo da mãe de olhos ausentes de amor. Ela reconhecia aquele olhar. Dando passos para trás começou a fechar as portas como de costume. O padre sorriu, agradecido. Segurou com força o artefato raro nas mãos. Janine lhe entregara tempos atrás.  Acendeu e jogou por uma fresta. O fogo tomou tudo, libertando todos os mortos. Contemplou tudo por um tempo. A cacofonia tomou conta, estava pronta para correr quando a viu.  

Janine, as roupas tingidas de sangue, parecendo sem fôlego. Estava tão diferente. Quis gritar quando viu a opacidade de seus olhos.

– Eu vi as chamas, lá do alto… é decididamente a coisa mais bela que já vi.

Maria queria abraçá-la, queria lhe dizer tanta coisa.  Mas não era mais ela. Virou as costas.

– Você prometeu, Maria.

Deixou as lágrimas caírem.

– Me perdoe, eu… vou voltar… por você.

Correu como nunca antes na vida, deixando o grito daquela que fora sua irmã guiá-la. Seguiu caminho familiar da floresta até o desfiladeiro. O sangue escorrendo por sua perna graças à prótese pequena demais para seu corpo crescido. Deixou-se cair no desfiladeiro ganhando novas feridas, arrastou-se como pôde até o bote improvisado. Colocou os equipamentos e então pulou.

Não sabia se para a vida ou para a morte.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C1.