EntreContos

Detox Literário.

Aquilo (Edward Prendick)

 

Bethlem, South London.

1937, Winter.

Silêncio… depois, tudo é loucura.

 

Que todos os livros sejam levados ao fogo, e mais precisamente o maldito volume Lugares Esquecidos, de Cayetano de Languedoc, França, 1826, que se fazendo semelhante a uma tola fraude, levou muitas vidas à ruína, pois havia em suas páginas um desejo malicioso de nos conduzir aos mais terríveis horrores do Inferno.

Exultei-me ao vê-lo na vitrine de um Antiquário em Londres. Era uma obra belíssima, impressa na remanescente tipografia de Aldus Manutius, em antigos tipos móveis. Acautelado pela oferta de baixo preço, procurei por Cayetano de Languedoc no Livro dos Editores e nada encontrei. Na Seção III do Almanach de Gotha, 1863 — condes do Sacro Império Romano-Germânico —, encontrei apenas um tal Gaytano Langdoque, conde de Castelul Grabduisi, que falava de linhagens e títulos, embora nada houvesse acerca de livros ou arqueologia. Essa busca infértil insinuava que a obra de Languedoc seria de fato um livro malicioso, mas, ainda assim, curioso, comprei-o como fonte de estudos acerca de lugares esquecidos.

Depois de algum enfado com a leitura das páginas iniciais, fixei-me no que era revelado acerca da cidade mítica de Vinland: os textos de Cayetano de Languedoc traziam com eles um fragmento de mapa que localizava aquela cidade a Nordeste do Canadá, num frágil posicionamento geográfico, indicando que Vinland estaria entre dois braços de mar, como fiordes a invadirem o litoral.

Levado à universidade em que eu tinha as Cátedras de Antropologia e Arqueologia, ficamos surpresos quando descobrimos que o livro confirmava antigas pesquisas acerca de Vinland, e, não obstante haver a possibilidade de o livro ser realmente uma fraude, aquele pequeno mapa apresentava ainda mais detalhes do que dispúnhamos, fazendo-nos acreditar que a Vinland de Languedoc estaria na península Cumberland nas Ilhas Baffin, território de Nunavut, no Canadá (1).

Seguiram-se estudos mais detalhados que tornaram aceitável despender tempo e dinheiro naquela linha de pesquisa, sendo autorizada pela Universidade uma expedição até a Vinland indicada no livro. Após um ano de preparativos, tomamos um navio em Liverpool e seguimos até Boughton Island, no Canadá. De lá, fomos até Fox Island, depois a Pangnirtung, onde desembarcamos e seguimos a pé até o sítio indicado pelo mapa. Em poucas semanas já dominávamos aquele local, que era inóspito ao extremo, tal como gostariam os nórdicos para ali construírem uma cidade, talvez Vinland, não fosse tudo um grande engano.

Estabelecemo-nos sobre uma planície entre duas montanhas por onde passava um rio em lento degelo de início de Primavera, límpido, espelhando um céu imaculado. Passamos seis meses percorrendo locais pedregosos, vivendo sob um clima hostil, com longas estradas brancas criadas pela neve que descia lentamente das montanhas. A umidade extrema dava ao ambiente um tom azulado, vestindo os olhos de um pó diáfano de névoa.

Próximo ao final do sétimo mês acreditei haver encontrado Vinland, embora tudo se confundisse com um amontoado de pedras e madeiras em ruínas, parecendo um repositório do Oceano Ártico para todo lixo que flutuasse na região, levado até ali pelas correntes marítimas. Se aquilo fora um dia uma cidade, agora estava reduzida a destroços, sujeira e restos de naufrágios que o mar devolvera à terra. Muitas pedras, algumas imensas, desenhavam contornos sutis de antigas edificações em ruas surpreendentemente estreitas.

Distante dos meus companheiros, caminhei entre os contornos imprecisos daquilo que parecia revelar uma cidade destruída pelos Elementos. A organização e o corte das pedras, sua arte, permitiram-me associar o lugar a sítios arqueológicos que encontrei no Peru, na Bolívia e no México, embora ali fosse tímida a escala e extrema a desordem que o movimento das águas do oceano, o degelo e os ventos constantes causaram às edificações. Aquela cidade parecia haver emergido do esquecimento, arruinada pelo Tempo, não me permitindo saber de algo capaz de assombrar um arqueólogo com a minha experiência.

A contínua exploração me levou a encontrar, mais adiante, outro sítio cuja preservação vencera os anos e a franja destruidora do mar. Foi onde encontrei estátuas sobreviventes da permanente erosão, e todas me fizeram intuir que aquele povo infeliz adorava deuses horrendos, disformes, torturados, inimagináveis; e vê-los ali, lavrados em pedra, era a prova absoluta da loucura a que todos haviam chegado naquele lugar.

Estátuas disformes e enlouquecidas dividiam espaços com cândidas e belas criaturas. Todas finamente esculpidas com arte, perfiladas como se a lucidez e a loucura se alternassem numa tensa dualidade de suas almas. Eles amavam deuses perfeitos e demônios assombrosos. Aquelas estátuas, todas, separadas por distâncias quase exatas, expressavam felicidade e dor; desespero e fé; espíritos em perpétuo combate.

Vinland revelava ter a alma dividida: o horror abominável e a beleza extrema. Fiz o sinal da cruz ao concluir que tudo ali merecera a justa destruição, onde o mar, como um Anjo Vingador do Senhor, fez descer sobre a cidade a Sua oitava praga trazida pela fúria das águas geladas, pondo fim à loucura daquela gente.

Procurei por toda parte a Cruz do Senhor que lhes serenasse a alma e não a encontrei. Não eram cristãos, concluí: estavam, portanto, fadados a infinitos tormentos. Eram monstros infernais e belezas pagãs, e, desse modo, todos monstros, alguns mascarados de anjos vivendo sob o céu azul de Deus.

Comuniquei minhas descobertas aos companheiros de expedição e logo nos mudamos para uma área mais próxima. Trabalhamos dias e noites na elaboração de uma cartografia que nos orientasse, nosso fotógrafo iniciou uma minuciosa documentação e cada uma daquelas estátuas foi catalogada. Permanecemos por ainda mais alguns meses e completamos toda documentação possível, com mapas, maquetes, fotografias.

Tudo naquele lugar nos consumia por sabermos do horror vivido por aquela gente, fazendo-nos acreditar que aquela cidade, dotada de vontade própria, se havia construído e destruído ao longo dos séculos, e nada ali deixava lembrar algo de humano, o mais puro humano, nem mesmo a benevolência indelével de Deus.

Assim, pusemos em perspectiva retornar a Londres sem qualquer observação antropológica a revelar ao mundo, apenas o grande mistério dos monólitos esculpidos como legado que entregaríamos à Universidade.

Contrariado e ainda esperançoso de novas descobertas, incursionei de forma errática por aquela grande região. Por dias caminhei solitário na vastidão branca das planícies, sujeito aos ventos e ao frio sem qualquer sucesso. Iniciado um mês de rigor invernal, afastei-me ainda mais, percorrendo caminhos além da nossa conhecida cartografia, e na base de uma enorme montanha de granito sanguíneo, divisei uma passagem larga que me permitiu entrar. Essa entrada se dividiu em outras; muitas. Atravessei bolsões de vazio de pedra que formavam abóbadas gigantescas, assemelhadas a cavernas, permitindo-me imaginar que ali houvesse finalmente o engenho da mão humana ou a suprema magnificência de Deus. Quando toquei as paredes percebi que eram mornas, fazendo desaparecer o frio absoluto da região. Concluí que estava sobre uma formação vulcânica que fazia chegar calor às paredes.

Meu corpo estava aquecido e o ar era limpo e fresco. Caminhar se tornou agradável, e, descendo perpetuamente por túneis que se conectavam, notei que eles se tornavam mais regulares, e pude ver canaletas lavradas na pedra por onde a água ressudada das paredes era recolhida a um veio d’água subterrâneo. Em locais mais perigosos havia corrimãos talhados na pedra, e por todo o caminho era nítido que haviam perfurado janelas tubulares que atravessavam longamente a rocha trazendo luz do exterior.

Ainda descendo por aqueles túneis intermináveis, encontrei um imenso salão assemelhado a uma primitiva embora magnífica catedral, e nele evidenciou-se a presença humana — quase humana —, e ali eu era um Jonas no ventre de uma baleia, e para meu desespero, fiquei diante de um ser que parecia ter abandonado a forma de uma daquelas estátuas de pedra para corporificar-se em carne, pelos e asas.

Vindo num voo silencioso da parte mais assombrosa e escura, Aquilo se colocou diante de mim, sobre um pedestal, bem no centro do lugar. Todo meu corpo tremia. Seu tamanho era surpreendente — mais de duas vezes a minha altura —, de corpo assemelhado ao de um homem, embora simiesco, suas asas feitas de ossos e pele eram imensas, e se camuflaram em suas costas em sucessivas dobras, e, ao fazê-lo, transformou-se num animal imenso — um monstro! —, e de enorme corcunda, como uma gárgula nascida no alto das catedrais em anos góticos. Era uma imagem titânica, imoral, trágica e sórdida.

Com o coração aos pulos, senti que a morte se aproximava: Aquilo era uma aberração e eu era a sua presa. Eu havia descido ao fundo do Inferno e rezava com todas as minhas forças para que o bom Deus viesse em meu auxílio; que permitisse a morte do meu corpo, mas que salvasse a minha pobre alma.

Então Aquilo revelou-me que vivera por anos sobre as grandes catedrais do mundo sob a forma de um enorme homem corcunda, mas que finalmente retornara à sua gente. Queria estar com seu povo, com aqueles que, como ele, tinham a mesma condição, ou ainda piores, condenados ao confinamento naquela montanha.

Ainda em pânico, perguntei-lhe sobre a tal condição, e foi quando Aquilo fez um sinal com a mão e luzes vindas dos orifícios das paredes iluminaram feericamente o lugar. Petrificado, vi que nos rodeavam milhares de outros seres, alguns como ele, outros que não se assemelhavam a nada conhecido neste mundo. Eram seres belíssimos, figuras monstruosas, agônicas, informes, desformes. À rigor, muitos deles me eram indescritíveis, imponderáveis: eram entes alados, rastejantes, purpúreos, transparentes ou de muitas cores, ígneos, gélidos, névoas, sopros, alguns como sons e outros como silêncios vivos, todos ali como se nascidos da mente de um deus poderoso e delirante, alucinado pelo poder que tinha de criar a vida, alheio a qualquer regra sob a harmoniosa benevolência do Senhor: nada neles espelhava a imagem do nosso Deus. Meus sentidos torturados me levaram ao desmaio, e um daqueles seres, uma brisa espessa, me invadiu as narinas e me fez retornar à lucidez.

Todos eram as imagens que eu havia encontrado naquele sítio próximo, eram os deuses e os demônios esculpidos naquelas pedras, agora despertos por suas insanas e inapeláveis vontades. Tive o impulso louco de correr e fui detido instantaneamente por um volume, uma massa, que se deslocou de um ponto distante e me atingiu como um raio, engolfando-me, imobilizando-me. E aquilo era apenas carne sem forma. Não o fez com fúria, mas expressando o desejo de que eu continuasse onde estava.

Reduziram-se as luzes e eu afundei em meus medos. Então, o monstro simiesco disse-me que todos ali eram o povo de Vinland. Quis saber dele sobre as imagens que vira em outro sítio e soube que haviam construído um lugar de lembrança aos seus. Não era uma cidade, pois Vinland era aquela montanha, cavada por aqueles que excretavam uma resina capaz de dissolver a pedra e moldá-la como se ela fosse apenas areia. Disse-me que eram Seres Antecedentes, que estavam ali antes da Terra que conhecemos, e que viver infinitos milênios os degenerou, que todos que ali eu podia ver, eram filhos dessas heranças, fadados a gerações que se destruíam:

Por incontáveis milênios estivemos sós neste mundo. Num ponto da nossa história começamos a perceber que entre nós começaram a surgir irmãos elevados e irmãos estranhos. Mesmo assim nos mantivemos fieis ao que éramos, pois os primeiros elevados eram superiores, e suas habilidades nos tornavam superiores a tudo. Em algum tempo descobrimos que os elevados eram intratáveis, estéreis, às vezes loucos, e os estranhos, esses, peculiares e prolíficos”.

Nesse ponto imaginei-os como as mais terríveis aberrações do Inferno mais profundo; sua gênese. Após uma pausa, continuou:

“Não nos transtornamos, pois tínhamos os elevados entre nós, mas logo descobrimos que a Natureza — mesmo essa nossa Natureza — sabe que o esperado é específico e o inesperado traz consigo o imponderável, às vezes o bizarro; então se avolumaram os estranhos, aqueles que não se reconhecem, híbridos como eu, e os elevados, esses, desapareceram”.

Em luta com meu pavor diante de tantas aberrações, imaginei dar a eles uma visão clarificada do mundo, do meu bom Deus — que tolice a minha! —, mas, o que eu saberia daqueles Demônios? Seus olhos me diziam que eu seria um desafortunado miserável se acerca deles pronunciasse algo. Ele continuou:

Nossas fêmeas cruzaram com elfos, grifos, sílfides, minotauros, anjos, gárgulas, djinns, e até com o Demônio, mas nada adiantou. Nossos machos fertilizaram ninfas, lâmias, valquírias, sereias, parcas, salamandras, e até com a Empusa, mas nada nos fez retornar ao que fomos em essência e forma, o que éramos há milhões de anos, o verdadeiro povo de Vinland.

“Há muitos séculos demos início ao cruzamento com aqueles da tua espécie e veja o que sou, ou o que pareço: meu pai foi um homem assemelhado a ti, e minha mãe, ela mesma, não reconhecia a sua origem, pois descendia de uma linhagem perdida em infinitas transformações.

“Entre nós se avolumam seres de todas as formas. Somos ígneos, transparentes, voláteis… monstros… beldades… tantos… ou apenas alguém como eu, indecifrável a mim mesmo; todos estranhos. Nossa raça beira ao colapso”, completou.

Nossa conversa se estendeu por horas que não pude saber, mas não serei mais específico do que já fui, pois escrevo aqui apenas o que me foi dado conhecer.

Quando a mínima luz daquele lugar se apagou, tomaram-me sopros e cores indizíveis que se corporificaram diante de mim, e levantado por centenas de mãos pegajosas, ásperas, lisas, úmidas, e asas de pele, pelos e ossos, me ascenderam ao cume daquela magnífica montanha para que lá eu morresse solitário na imensidão gelada.

 

Tempos depois, fraco e muito doente, retornei ao acampamento, e todos haviam sido mortos — Sigmund, Spitta, Radestock, Maury, Tissé… — por aqueles demônios; seus corpos dilacerados e espalhados, habitações destruídas. Todos os registros que fizemos, mapas, fotografias e maquetes foram consumidos pelo fogo, pela água, e pelo ácido corrosivo expelido por alguns daqueles seres. Desesperado, imaginei o horror que meus companheiros puderam sentir quando uma horda odiosa e insana chegou para exterminá-los, sem chance para suas vidas.

Abriguei-me sob uma daquelas imensas estátuas e adormeci imaginando que o vento cortante  e o frio inclemente logo me dariam o benefício da morte na inconsciência, mas fui desperto por um ruflar de asas e seguro por garras, quando iniciei um voo sobre o oceano de volta à Europa. Prendia-me em seus pés aquele líder, e em torno dele voavam outros infelizes. Havia mais, havia aqueles que flutuavam como nuvens, borrões sem forma, os que se assemelhavam a sons, a cores, ao movimento furtivo da luz.

Quis gritar para insultá-los pela morte de tantos companheiros, mas percebi que não havia em mim uma voz que jorrasse da minha boca, nunca mais, pois com pavor e pânico, descobri que em meu corpo agora habitava um daqueles monstros na forma de um silêncio vivo.

Fui deixado na borda do mar, sobre uma imensa falésia próxima a Silver Strand, na Irlanda, álgido pela inóspita manhã. Pude vê-los, todos, de retorno à Vinland, mas o que via realmente eram apenas nuvens, borrões, asas, sons e cores sobre o mar infinito tomando a direção do Oeste.


(1) 1976: Parque Nacional Auyuittuq (N.E.)

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.