EntreContos

Detox Literário.

Apaga a Luz (King, Burger King)

Sinto um gosto amargo na boca. Abro os olhos devagar e os esfrego com as pontas dos dedos. Pisco algumas vezes até me acostumar à luz, fraca, porém suficiente para revelar que não estou no meu quarto. Estou deitada no chão, um chão imundo e pegajoso de algum lugar que eu não reconheço. Sento-me com dificuldade, e uma fisgada nas costas me arranca um gemido de dor. E eu gemo de novo, de medo. Meus olhos varrem repetidamente o cômodo, identificando uma pequena cama, um abajur aceso e uma bacia de alumínio. “Meu Deus do Céu, que lugar é esse?”, sussurro, levando as mãos à cabeça.

Um sentimento de inquietação toma conta do meu corpo e eu fico em pé. Dou alguns passos cambaleantes até uma das paredes e passo as mãos sobre ela, tateando, como se não a enxergasse. Faço o mesmo com as outras três paredes, um a uma, em uma busca frenética por aquilo que meus olhos não conseguem encontrar e que, logo, minhas mãos também confirmam não existir: portas e janelas.

Minha respiração falha. Puxo todo o ar que consigo, mas ele não chega aos meus pulmões. Cada tentativa em vão forma um oco em meu tórax e exige um inspirar ainda mais intenso. Inútil. Sinto as mãos frias, minha visão fica turva e eu caio no chão, desacordada.

Desperto assustada e fico de pé em um pulo, ignorando as dores pelo corpo. Vou até uma das paredes e bato nela com as mãos espalmadas, chuto, grito, com os punhos fechados, dou murros. “Socorro.” Percebo dois pequenos dutos de ventilação próximos ao teto e grito na direção deles: “Alguém me tira daqui”. Choro desesperadamente. Sem forças, meu corpo desliza, e eu me agacho no chão. Então, começo a rezar baixinho.

— Ei.

Ergo a cabeça, enxugo o rosto e aguço meus ouvidos.

— Aqui. Aqui.

Fico em pé, caminho até a parede de onde acredito que venha o som e encosto o meu ouvido. “Quem tá aí?”

— Lucius, ao seu dispor.

A suavidade em sua voz me dá uma estranha sensação de segurança, e eu fico, de certa forma, contente por ter alguém ali do lado. Percebo meu pensamento egoísta e me repreendo.

“Você também está preso ai?”

— Prisão e liberdade são apenas ilusão. Estou velho demais para isso.

Fico confusa com a resposta, o que não me impede de formular outras perguntas: “O senhor sabe como entrei aqui? Não tem porta. Aí tem porta?” Lucius fica em silêncio e eu imagino ouvir risadas. Coisa da minha cabeça, penso. “O senhor sabe quem me colocou aqui?”

— Quem te colocou ai não importa.

Franzo a testa, surpresa com sua aparente indiferença. Antes que eu pergunte mais alguma coisa, ele continua, com a voz mais grave.

— O que importa é quem vai chegar.

Um arrepio eriça os pelos do meu braço como se Lucius tivesse sussurrado dentro do meu ouvido. Afasto a cabeça da parede e sinto meu coração acelerar. “Vai chegar?”, pergunto enquanto olho para todos os lados, procurando novamente por uma porta inexistente. “Vai entrar por onde?”, sussurro com as mãos sobre a boca.

— Já está ai dentro — diz o velho, substituindo o tom sério pelo jocoso.

Meu corpo amolece e a minha visão fica turva por alguns instantes. Ouço as batidas apressadas do meu coração, e as pontas dos meus dedos começam a formigar. “Cadê?” Lucius fica calado e eu ouço a sua respiração pesada que, de repente, parece chegar até os meus ouvidos. Salto apressada sobre a cama e procuro algum lençol para me cobrir, numa ridícula tentativa de me proteger, mas não tem nada além do colchão. Imagino alguém me encarando na ponta da cama e chego a sentir seus olhos sobre mim e a deduzir o seu sorriso zombeteiro. Estremeço de pavor e encolho meu corpo, abraçando as pernas. O coração parece que pulsa dentro da minha cabeça. “Meu Deus do Céu, onde ele está? É um fantasma? Eu não consigo ver”, resmungo, apavorada.

— Você só vai vê-lo na escuridão.

A voz de Lucius agora é grave e assustadora e seu timbre me dá arrepios.

— Apaga a luz — sussurra o velho.

A ideia do escuro me parece absurda. Olho para o abajur e tenho medo de que aquela luz fraca por algum motivo se apague. Então, sinto como se alguém enfiasse a mão em punho dentro da minha garganta e não consigo respirar. Antes que eu perca novamente os sentidos, a sensação de sufocamento passa e eu sinto como se algo me abraçasse com força, envolvendo todo o meu corpo, paralisando meus movimentos. Começo a rezar. Rezo para que aquela sensação acabe logo e para que a luz nunca se apague. Enfim, desmaio.

Quando abro os olhos novamente, logo reconheço meu cárcere abafado, úmido, fétido e mal iluminado. Com sede, vou até a bacia com água que foi deixada ao lado do abajur mas não tenho coragem de levá-la à boca. Parece suja.

— Tem um jeito de você sair daí.

Desisto da bacia e me aproximo da parede. “Você sabe como?”

— Debaixo da cama.

“Debaixo da cama?”

— Um túnel.

“Túnel? Tem certeza?” Ele não responde, e eu decido ver com meus próprios olhos. Vou até a cama e a empurro. “Vai dar onde?”, pergunto, já me agachando. Logo identifico um recorte no chão de madeira e consigo retirar a portinhola com certa facilidade. Deparo com um buraco escuro. Meu corpo estremece e eu recuo. Não posso entrar aí, penso.

— Se você entrar, vai sair lá no outro quarto.

Imediatamente volto meus olhos para onde deve estar o outro quarto. “Mas dá para fugir por lá?”

— Depende — ouço as unhas de Lucius raspando a superfície da parede. — Lá tem janela, lençol e água limpa.

Fico encarando o vão escuro recém-descoberto. “Impossível”, resmungo. Pego o abajur e o aproximo do buraco. Escuro, apertado, assustador. “Não posso”, falo lentamente, como se advertisse a mim mesma sobre o meu medo do escuro e o meu pavor de lugares apertados. Quando recoloco o abajur no chão, a luz pisca, deixando o ambiente totalmente escuro por um átimo de segundo. Meu corpo estremece. A luz reacende instantaneamente, mas mantenho os olhos espremidos, imobilizada pelo medo de que a escuridão realmente revele que eu tenho companhia. Sinto um calor na nuca, um frio na barriga e cogito a opção de entrar no túnel. Lucius me incentiva, empolgado.

— Entra. Entra.

Coloco parte do corpo no buraco, mas, quando sinto as paredes apertarem minhas cochas, eu desisto. Apavorada, recoloco a tábua no lugar e pulo sobre a cama. Ouço Lucius rir debochado do outro lado da parede. Velho esquisito. Ele já não me parece amigável.

Deitada, fico encarando a portinhola e decido manter a cama encostada na parede, pois só a ideia de dormir sobre aquela passagem me apavora. Em alguns minutos eu pego no sono, vencida pelo cansaço.

Algumas horas depois, o quarto parece ainda mais abafado, e eu sinto calor, sede, fome e dores pelo corpo. A sede é tanta que a água da bacia já não me parece má ideia. Desço da cama e a bebo com ansiedade. Enxugo a boca com as costas da mão e ouço Lucius cantarolar uma música que eu não conheço e que, por algum motivo, me dá calafrios. Puxo conversa para ele parar com a cantoria. “Há quanto tempo você está ai? Por que estamos aqui e que história é aquela do escuro?” Lucius ignora todos os meus questionamentos e não para de cantar. Velho imbecil.

Minha barriga ronca e eu reclamo de fome.

— Seu banquete já vai chegar — grita o velho. E eu percebo seu sarcasmo. Bebo mais um pouco da água da bacia e procuro um canto para as minhas necessidades fisiológicas. Já não consigo mais segurar. A situação é deprimente, e o velho resolve começar a conversar.  

— Talvez um dia eu apareça aí. Para te fazer uma visita.

Sinto um arrepio percorrer todo meu corpo enquanto deixo uma massa de bosta no canto do quarto imundo.

— Você gostaria? — pergunta, insistindo no assunto.

Não respondo. Imaginar que ele pode vir me dá repulsa. Será que ele pode chegar aqui? Será que existe outro túnel?, penso, mas não ouso perguntar. Volto para a cama e fico esticada, encarando o teto, pensando na possibilidade de cruzar aquele túnel, nas chances de escapar pelo outro quarto, na probabilidade de Lucius realmente me fazer uma visita e na assustadora hipótese de já estar na companhia do monstro que só pode ser visto na escuridão. Inspiro com força, mas falta-me o ar e eu sou tomada novamente pelo abraço apertado que paralisa meu corpo. É Ele, penso, aterrorizada. Tento gritar, quero me encolher na cama, mas não consigo. Meu coração acelera. Tenho medo de que a lâmpada se apague, eu não quero ver. Sinto a mão em punho na minha garganta e logo perco os sentidos.

Desperto com os gritos animados de Lucius, seguidos por palminhas apressadas:

—Visita. Visita.  

Tento ignorar seu estardalhaço, mas a palavra visita me faz imaginá-lo surgindo a qualquer momento. O velho para de bater palmas e eu ouço um choro vindo do quarto onde termina o túnel. Caminho até a parede e encosto o meu ouvido. “Tem alguém aí?” O choro se intensifica e eu grito: “Fala comigo.”

— Eu tô com medo— responde a voz de uma criança.

Fico imóvel, surpresa, pensando no que dizer. “Calma. Vai ficar tudo bem.” Sei que é mentira. Ela chama pela mãe e eu tento manter uma conversa. “Qual é o seu nome?”

— Maia. Eu quero ir pra casa — responde, entre um soluço e outro.

“Você precisa ser corajosa. Vai ficar tudo bem.” Minto de novo. Sei que não vai ficar tudo bem. “Quantos anos você tem, Maia?”

— Oito.

“Ah, então você é uma mocinha.” Tento ser amigável, soa falso. Ela chora e grita que quer a mãe.

“Tem porta ai?”

— Tem. Mas tá trancada.

Merda. “Tem certeza?” Percebo que a pergunta é ridícula, ela é criança, mas não é estúpida, já deve ter forçado a fechadura.

“E janela? Tem uma janela ai, não tem?”

— Tem.

Sinto inveja.

— Tá quase escuro. Posso dormir de luz acessa?

Grito: “Não apague a luz. Nunca. Ouviu? Deixe a luz acesa. Sempre acesa.”

— Tá.

“O que mais tem no quarto? Olhe com atenção e me diga tudo o que tem.”

— Tem a cama.

“Tem lençol?”

— Tem. Travesseiro também.

Sinto inveja. “O que mais?”

— Pia.

Sinto inveja. “O que mais? Comida?”

— Mais nada.

“Comida?”, repito, talvez ela não tenha ouvido.

— Não. Só isso.

Maia retoma o chororô.

— O túnel — fala o velho lá da outra parede.

Sei muito bem o que ele está sugerindo, mas eu sou covarde. Penso em pedir que Maia venha até mim, mas logo desisto. Não quero dividir o que resta da minha água suja, nem que ela cague e mije no meu cubículo e nem que durma na minha cama.

— Vai lá — volta a sugerir o velho, com uma voz mansa.

Metido. Ergo o dedo médio e o aponto para parede. Lucius gargalha. Velho demente.

Maia volta a chamar pela mãe insistentemente. Minha cabeça dói, estou cansada, mas sei que ela é apenas uma criança assustada. Cantarolo uma música e Maia para de chorar. Dormimos, cada uma de um lado da parede.

Acordo no chão, fraca demais, definhando. Sinto a umidade do quarto penetrar meus ossos. Resmungo, e Maia percebe que estou acordada.

— Tia, conta uma história pra mim? Tô com medo.

Bufo. Escolho os Três Porquinhos, mas desisto no Era uma vez. Olho para a tábua que cobre a entrada do túnel e meço mentalmente a distância dela até onde estou, uns 2 metros. Suponho que seja a mesma distância dentro do quarto de Maia, penso em perguntar, mas nem ouso revelar a existência do túnel. Deve dar uns 4 metros. Impossível. Fico o dia inteiro calada, imaginando a passagem por debaixo das ripas de madeira, ignorando os apelos insistentes de Maia para que eu conte alguma história e as cantorias de Lucius e as suas risadas infames. Estou muito cansada.

Desperto de um pesadelo horrível com a agonizante sensação de sufocamento. Tento me levantar, gritar, mas não consigo. Imagino que é Ele em cima de mim e a minha respiração fica apressada. Maia chama pela mãe do outro quarto e eu penso em chamar por ela, pedir ajuda. Ideia ridícula, ela nunca poderia me ajudar. Viro meus olhos para a parede que dá no quarto do velho e tenho a sensação de que ela se debruça sobre mim, como se fosse despencar sobre a minha cama. Aperto os olhos e tento gritar. Ouço um estampido forte vindo da parede de Lucius e consigo mover minha cabeça na sua direção. Então, recobro minha respiração e meus movimentos. Sento-me na cama, zonza, com dores pelo corpo todo. Choro, mais de raiva do que de tristeza.

A fome me consome e já quase não tem água. Preciso sair daqui. Não sei quantos dias se passaram. Dou murros na parede e grito para o alto. Vou até um dos tubos de ventilação e grito sem parar. Devo estar louca igual a esse velho desgraçado. Maia só chora e grita, e eu maldigo o dia em que essa menina chegou para piorar ainda mais as coisas. Ridícula. Volto para a cama e fico ali jogada até dormir.

Quando abro os olhos mais uma vez, estou mais irritada do que cansada. Fico de pé num pulo, feito bicho. Grito: “Maia! Maia!”

Lucius bate palmas e grita entusiasmado:

— Chegou! Chegou!

Fico ainda mais irritada. Velho filho de uma da puta. “Maia, entra nesse túnel de merda e vem pra cá. E traga água limpa. E traga o que tiver ai” Ouço os choros desesperados da menina. Estou furiosa. A fúria me dá as forças que eu já não tenho mais. Tiro a tábua do chão e arremesso contra o abajur com violência. A lâmpada se quebra. Escuridão total. “Cadê você? Já pode aparecer!”, grito enfurecida. Penso no túnel. Maia grita, desesperada. Raiva, Fome. Ódio. Fome. Silêncio.

Abro os olhos e bocejo alto. Olho para o lado e vejo uma boa porção de carne. Crua, sangrenta, tenra. Arranco o lençol e me sento na ponta da cama. Estico o braço, pego um pedaço generoso de carne e o levo à boca. Quase quente. “Carne fresca”, comemoro. Meus dentes rasgam o bife de forma quase selvagem. O sangue lambuza minha boca, meu queixo, meu rosto, minhas mãos, e eu o espalho também pelos braços. Recosto no travesseiro. “Velho, você tem carne ai? Hoje recebi um banquete”. Limpo a boca com as costas da mão. Uma luz invade o quarto e eu fico encarando a janela. “Oh, velho demente, finalmente apareceu o sol.”

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.