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Detox Literário.

A Lenda do Urso Polar (Presidente da Ursal)

O que você sabe sobre os ursos? Antes de começar essa história quero saber. Eu vou fazer três perguntas e você vai pensar aí na sua cabecinha e tentar me responder. Pode ser?

Aqui vai a primeira pergunta: O urso é um animal que vive solitário ou em grupos?

Lá vai outra: Será verdade que o urso come muito, muito, muito, pra depois dormir o inverno inteirinho?

Última pergunta: Se você fosse um Urso Pardo, Marrom, e se eu fosse um Urso Polar, Branco. Se eu te abraçar, você me amaria?

Se na primeira pergunta, você respondeu que os ursos são animais que vivem solitários, você está correto. Esses animais tem o hábito de viver sozinhos, mas também podem muito bem conviver pacificamente com outros ursos por perto. Agora se você respondeu que eles vivem em grupos, juntos com seus familiares, você também está correto. Como as duas respostas estão corretas? Simples, essa história se passa há muito, muito tempo. Um tempo na qual havia comida em abundância e todos os ursos viviam em bando.

Esta história é sobre a Tribo do Norte. Eles eram um grupo de trinta e um Ursos Pardos. Todos muito grandes e fortes. Entre tios, avós e irmãos, Anak era a ursa que menos se encaixava naquele grupo. Suas ideias eram as mais improváveis e as suas conversas eram as menos tradicionais. Anak não só era conhecida como a esquisitona, como também não se via como parte daquele grupo. Tão deslocada se sentia, que se apaixonou por Turek, um Urso Pardo das Terras do Sul.

Ninguém sabia como os dois se conheceram, Urso Pardo nenhum invade território de outra família urso. Alguns diziam que Anak não batia muito bem da cabeça, ela mesma é quem devia ter se aventurado pelas Terras do Sul. Outros olhavam para Turek com certa desconfiança. Achavam que ele estava invadindo a Tribo do Norte para levar informações para uma possível invasão dos Ursos das Terras do Sul. Anak e Turek não queriam saber de nada dessas discussões, só queriam saber de seu amor e do seu filhote que estava porvir.

Alvoroço foi a descoberta do bando, quando soube. Anak está grávida. O burburinho se espalhou rapidamente. Uns diziam que Anak era uma irresponsável por ter trazido para o bando um forasteiro e muito mais desajuizada ainda esperar um filhote dele. Já outros diziam que Turek estava enganando Anak, tudo o que ele queria era ter um filho com os genes superiores do Norte para depois que ele nascer, agarrá-lo e levá-lo para viver nas Terras do Sul. Enquanto todos falavam, Anak e Turek se amavam. E assim foi a tranquilidade do casal, até o dia do nascimento de Ansã, a primeira Ursa Branca.

A segunda pergunta, como você respondeu? Você acha que os ursos dormem o inverno inteirinho? Quem respondeu que sim, está correto. Eles enchem suas enormes barrigas durante o verão, para na primavera, se preparar para dormir. Eles podem dormir mais da metade do ano. Muito, né?! Eles não acordam nem para comer, nem para fazer xixi. Acredita? E olha que nenhum deles faz xixi na cama. Muito esperto estes ursos, hein?! Agora se você respondeu que não é verdade, que os ursos não dormem o inverno inteiro, você também respondeu corretamente, porque na época de Anak e Turek, a comida era muito farta durante o verão e também durante o inverno. Ansã era uma menina muito comilona e comia de tudo o que encontrava, desde frutas, mel e até carne, e assim ela cresceu rapidinho, ficando muito grande e forte.

Ansã era ligeiramente maior que todos os outros Ursos Pardos da Tribo do Norte. Além de Anak e Turek, nenhum outro urso gostava dela. Todas a achavam esquisita e pensavam que ela poderia ter alguma doença que fosse perigosa e deixaria toda a Tribo do Norte igual a ela, branca e esquisitona.

Ansã só brincava sozinha. Triste, ela observava de longe os outros filhotes. Às vezes até tentava se aproximar, mas rapidamente era repelida pelos Ursos Marrons do bando. Ansã nunca desistia, sempre tentava ser amiga de todos. Uma vez, os filhotes brincavam de esconde-esconde quando Ansã se aproximou e ficou olhando a brincadeira mais de perto. Todos os filhotes viram ela querendo brincar, eles se juntaram e decidiram, finalmente, deixar Ansã brincar, mas com uma condição, avisou Cael, o filhote mais velho, para entrar na brincadeira, Ansã teria que começar contando. Feliz da vida ela nem parou para pensar, pôs-se logo a contar. Um, dois, três… e ouviu a correria dos filhotes para se esconder. Noventa e oito, noventa e nove, cem. Lá foi Ansã começar a procura. Procurou e procurou, mas estava muito difícil achar algum. Quando ela só observava de longe, parecia ser tão mais fácil, mas ela não era uma ursa que desistia fácil, não! Ela procurou por muito tempo, estava exausta quando ouviu bem longe do local do esconde-esconde, risadas e brincadeiras na água. Ansã foi até o barulho e viu todos os outros filhotes ursos brincando no rio, tomando banho.

Aí estão vocês. Ansã corria de encontro a eles. Eu nunca iria imaginar. Sorria ela. Quase chegando na água foi parada por Cael dizendo que ela não podia entrar no rio, ia acabar sujando toda a água. Ele a empurrou mandando ela embora. Aberração. Depois ainda quando Ansã já ia caminhando furiosa ele disse que ela só podia ser mesmo, filha daquele casal de esquisitões. Ansã, furiosa por ouvir todos os filhotes rindo dos seus pais, voltou seu corpo em direção a Cael, levantou a pata e bateu com toda sua força nele. Cael caiu no chão e ficou ali, desacordado.

Em pânico, todos os outros filhotes começaram a chamar seus pais, depois que todos viram e ouviram dos filhotes que Ansã havia batido em Cael porque era muito feroz, os Ursos Anciões decidiram expulsá-la da Tribo do Norte. Daquele dia em diante, ela não era mais considerada uma ursa. Ansã ficou conhecida como, a Branca.

Turek ficou enfurecido com a decisão do grupo e disse que os Ursos das Terras do Sul, jamais fariam isso com um de seus filhotes. A Tribo do Norte em coro bravejou que toda a culpa era dele. Turek foi quem trouxe o sangue ruim para a família perfeita do Norte. Anak pediu que Turek ficasse calmo, puxou seu marido para fora da tribo e decidiu viver apenas os três. Longe do grande grupo. Agora a Tribo do Norte estava dividida em dois grupos: A Tribo dos Trinta e a Tribo dos Três.

O tempo passou, Ansã cresceu. Agora ela era uma Ursa Branca adulta enorme, maior que seus pais, possivelmente maior de todos os Ursos Pardos que já existiram um dia na terra. Anak e Turek tinham muito orgulho de como sua filha cresceu tão forte e saudável.

A Tribo dos Trinta, escondidos, constantemente vigiava a Branca. Ansã era esperta e sempre percebeu que tinham dois Ursos da Tribo dos Trinta a observando, mas ela não se importava, na verdade até gostava, pois assim, não se sentia tão sozinha quando saia para passear e comer nos campos verdes. Verdes e frios. Estranhamente cada vez mais frios.

Um dia, Ansã acordou, olhou para o seu nariz e achou uma coisa estranha e engraçada. Seu nariz que era preto estava todo branquinho. Na hora pensou que o resto do seu corpo estava ficando igual ao seu pelo, mas logo percebeu que além de estar branco, sentia também um gelado estranho no nariz. Quando ela colocou a pata no focinho sentiu molhar seu pelo e o branco do seu nariz desapareceu. Ela olhou seus pais ainda adormecidos e percebeu que eles tinham as pontas dos seus pelos começando a ficar brancos também. Ansã desesperada lembrou de quando era filhote e toda a Tribo do Norte dizia que ela iria deixar todos doentes. O dia chegou. Ansã tinha deixado seus pais doentes. Desesperada ela começou a urrar e chorar. Anak foi a primeira a acordar e correr até Ansã. Fugindo, disse para sua mãe não chegar mais perto, enquanto vê seu pai levantar e se balançar. Quando ele se balançou, Ansã percebeu que as manchinhas brancas voaram para longe do pelo de Turek. Depois, Ansã olha ao seu redor e começa a perceber todo o chão com pequenas manchas brancas. Pela primeira vez na história dos Ursos, surgiu aquele fenômeno. E esse foi o primeiro dia que nevou nas terras da Tribo do Norte.

No início a neve era bem fraquinha, levou alguns dias para cobrir todo o chão de branco. A Tribo dos Trinta começou a passar dificuldades pra conseguir achar comida, não tinha mais mel das abelhas, nem frutas nas árvores, os rios estavam muito gelados e eles mal conseguiam entrar na água para pegar os peixes. A Tribo dos Três também sentia dificuldades. Anak era a principal pescadora, mas suas patas pareciam quebrar de dor ao encostar na água extremamente fria. Turek e Ansã também não conseguiam achar frutas, nem mel, a terra inteira estava branca e gelada, parecia que não havia mais vida.

Turek avisou que iria caçar, outros animais grandes como ele também estavam lutando por suas vidas nessas terras geladas e Turek sempre foi um bom caçador, ele se escondia atrás dos arbustos e pegava com suas fortes garras os animais desprevenidos. Turek tentou uma vez, duas vezes, três vezes. Nunca foi tão difícil para Turek conseguir caçar. Seu corpo grande e marrom ficava muito evidente na paisagem branca e os outros animais o viam de longe. Estavam acabados, agora a Tribo dos Três não tinha mais o que comer e a Tribo dos Trinta passava pela mesma dificuldade.

Escondidos do lado do rio, os dois Ursos Pardos que vigiavam Ansã, olhavam seu último pedaço de carne da caça que conseguiram pegar no último dia sem neve. Eles estavam discutindo de qual dos dois seria aquele pedaço. Nenhum deles querendo perder. Começarem a lutar pela carne até caírem na água e começarem ser arrastados correnteza abaixo. Ansã que estava ali perto ouviu os dois e correu para descobrir o que estava acontecendo. Quando viu os dois vindo no rio, em sua direção, ela não titubeou, se jogou no rio e se agarrou firme numa pedra grande que ficava no meio da correnteza. Quando eles estavam passando perto dela, Ansã esticou suas fortes patas e conseguiu segurar os dois ursos. Depois de muita força ela conseguiu tirar eles da água. Anak e Turek logo chegaram e desesperados abraçaram sua filha dizendo para ela se esquentar, mas Ansã achou estranho tanta preocupação, pois ela não estava sentindo tanto frio. Já os dois outros ursos, todos molhados, tremiam e se debatiam no chão tentando se esquentar. Anak depois de ver essa cena, percebeu que os pelos da sua filha eram impermeáveis, o que fazia ela ter muito mais resistência com a água fria.

Na terra, Anak começou a dar dicas de pesca para Ansã. Esperta como era, aprendeu rapidinho e conseguiu pegar muitos peixes, o suficiente para ela, os pais e os dois ursos que estavam se recuperando do susto e do frio que tiveram no rio. Ansã começou a imaginar que toda a Tribo dos Trinta devia estar passando por dificuldades, então resolveu passar o dia inteiro pescando e enviou junto com os dois ursos, duas cestas bem grandes cheinhas de peixe.

Ao receber as cestas, os Anciões da Tribo dos Trinta decidiram agradecer Ansã por salvar toda a Tribo do Norte. Assim, a Tribo dos Trinta vestiu suas roupas mais bonitas, coloridas e alegres e foram todos num desfile cantando até onde viviam a Tribo dos Três. Quando avistaram Ansã e seus pais, a tribo dos Trinta formou um grande círculo, os ursos jovens com seus fortes pulmões cantavam lindas canções que aprenderam com os mais velhos. Canções passadas através de muitas gerações. Os ursos adultos, com suas fortes patas, batiam no chão e no peito, criando um divertido ritmo, enquanto os anciões faziam belas danças com seus corpos e também com galhos secos que pegaram nas floretas geladas. Por fim, um dos anciões pegou alguns galhos e os trançou num círculo. Caminhou até Ansã e colocou sobre sua. Alguns ursos adultos e jovens se aproximaram dela também e a levantaram, dançando com Ansã, que pela primeira vez era tocada por algum Urso Pardo que não fosse para ser empurrada. Enquanto sorria e chorava ao mesmo tempo, Ansã ouvia as palavras do Ancião Líder. Ouvia também todos os pedidos de desculpas de toda a tribo e ainda ouvia o Ancião Líder falando, Ansã, a Grande Ursa Branca.

No final daquele dia todos os Ursos Pardos abraçaram Ansã e um a um foram pedindo desculpas. Pediam também que Ansã e seus pais voltassem para viver junto com toda a Tribo do Norte, mas Ansã recusou, não porque não queria estar junto deles, mas porque amava estar com seus pais, juntos, em família. Ela prometeu visitá-los e sempre voltaria na Tribo do Norte para contar as novidades.

O que nenhum Urso sabia, é que depois daquela neve ir embora, o alimento não seria mais o mesmo, assim a tribo precisou se separar. Cada urso precisou ir viver num lugar diferente para que todos pudessem ter comida suficiente. Como eles eram muitos, de vez em quando um a um ainda se encontrava. Eles sentavam e contavam muitas histórias de seu passado quando viviam juntos. E assim é até hoje, os ursos vivem sozinhos, mas se encontram algum amigo urso, se sentam e começam a contar as histórias de seus antepassados. As histórias dos dias frios, por isso eles sabem que tem que comer bastante, pois as histórias os ensinavam que nos dias frios não tem comida e apenas um urso no mundo conseguia encontrar comida no frio. Ansã, a Grande Ursa Branca. Todos os Ursos Pardos conhecem esse nome, alguns dizem que ela teve três filhos, outros dizem que foram quatro ou cinco. Isso ninguém sabe direito. Já faz tanto tempo. O que todos sabem é que os filhotes de Ansã nasceram todos branquinhos e foram morar ainda mais ao norte, mas Urso Pardo algum ouviu falar de um Urso Branco de novo.

Você já ouviu falar em abraço de urso? As pessoas dizem isso, pois ursos são muito amigos e depois dessas longas conversas e histórias se despedem com um longo abraço apertado e carinhoso. O que todo Urso Pardo sonha mesmo, seria um dia poder abraçar Ansã, a Grande Ursa Branca. E você, abraçaria?

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C1.