EntreContos

Detox Literário.

A Pira (Papel Celofane)

Adentrei no casebre que se localizava no fundo da paróquia. Estava muito escuro, era impossível evitar os barulhos do assoalho de madeira que fazia parte desta construção antiga. Eu simplesmente detestava receber a missão de chamar a Madá. Entretanto, eu não discutia, acatava com coragem qualquer mandado dos patrões. Isso fez com que eu, embora sendo um menino pobre, ganhasse boas considerações dos donos da terra.

O meu pai era um velho amigo do Reverendo. Quando vivo, ele trabalhava nas terras paroquiais e eu o acompanhava sempre que podia. Com a sua morte, o Reverendo se compadeceu de mim, oferecendo-me alguns trabalhos para eu poder ajudar a minha família. Minha mãe e o Reverendo um dia me disseram que a morte do meu pai foi como uma praga, uma maldição. Afirmaram-me que isso acontece com frequência. Mas eu lembro do meu pai me falar o contrário, adoecido em seu leito: “Não acredite nessas coisas de maldição. O que eu tenho é apenas uma doença, coisa normal que acontece na vida”.

Enquanto eu atravessava os curtos cômodos, comecei a escutar, de longe, uma voz rouca que só poderia ser de Madá. Quanto mais me aproximava da varanda que ficava atrás do casebre, mais eu conseguia compreender o que ela dizia. O som dos sapos e dos grilos que sempre faziam barulhos à noite, os quais moravam no brejo e no mato próximo a varanda, estava bem alto, mas nada se misturava a voz da velha. Era impossível não compreender o que ela dizia, sua voz era separada de qualquer som do mundo. Ela nem precisava gritar para ser escutada. Eu me arrepiava quando Madá me chamava pelo nome.

Só cadelas sardentas vivem no mato!

Era difícil perceber a reprovação nos olhos quase fechados pelo peso das pálpebras enrugadas, mas a voz grave e áspera deixava claro que era com desgosto e impaciência que, com suas mãos compridas e dedos esguios, a anciã retirava as folhagens do cabelo de uma menina.

Eu me lembro da primeira vez que vi Madá. Eu levei um susto dos grandes, fazendo-a se divertir com o meu medo. O tempo passou e eu nunca me acostumei com a presença de Madá: uma senhora de costas severamente encurvadas para frente, pele pálida e amarelada, cheia de rugas dos dedos dos pés até a testa que permanecia sempre franzida. Em seu rosto havia uma constante expressão de aborrecimento e seus comportamentos ranzinzas compunham a imagem de uma velha amargurada e ríspida. Era difícil acreditar que uma pessoa poderia se aparentar mais velha do que ela, ainda sim sua voz era forte e firme e a anciã não tinha nenhuma dificuldade de locomoção ou falta de força nos braços, nas mãos ou pernas. Carmela me contou que quando conheceu Madá logo pensou se tratar de uma pobre velhinha e se compadeceu profundamente dela. Mas depois de a conhecer de verdade, a única admiração que permaneceu foi na força da velha, nada mais. Carmela a apelidou de velha megera. Desde então não sente mais nenhuma piedade por Madá.

Era uma cena cheia de contraste com a qual eu me deparei: a velha Madá arrancava com rudeza as folhas e flores do arranjo que a pobre moça tinha organizado na cabeça para enfeitar seus cabelos rebeldes e muito negros. Já Madá mantinha seu penteado firmemente amarrado com seus cabelos completamente brancos. Seus olhos eram esbranquiçados e opacos pela velhice, em oposição à menina que tinha os olhos escuros e brilhantes, tristes e lacrimejados. A velha puxava com força, em alguns momentos, os cabelos da moça provocando alguns gritos de dor, que logo eram abafados pela própria menina que aparentava já estar habituada a situações parecidas.

Já levou um belo e merecido murro do Reverendo, mas talvez não foi o suficiente e esteja querendo outro. enquanto a velha falava, a moça permanecia em silêncio, colocando as pontas dos dedos delicados sobre o inchaço no olho esquerdo.

Os braços da menina estavam cobertos por marcas e machucados. Alguns recentes, outros nem tanto. Poderiam ser classificados como consequência de descuidos em brincadeiras arriscadas, bem comum em nossa infância no campo. Mas também poderia ser fruto da terrível condição de maus tratos, também comum. Suas mãos finas e magras tinham as palmas secas e calejadas que sinalizava um contínuo e árduo trabalho. Visivelmente era uma menina tirada das misérias do abandono e colocada em uma situação ainda pior. Só de olhar para a imagem, tão desgastante, já entendi perfeitamente do que se tratava: mais uma menina, mais uma bruxa.

No inverno passado o reverendo realizou doze fogueiras de bruxas. A nossa comunidade em sua maioria deu a este fato a responsabilidade por diminuir o tempo do inverno e trazer uma próspera colheita para todos. Criou-se este hábito em todos os invernos. Mas neste já estava tardio encontrar alguma bruxa. A quantidade de meninas no vilarejo tinha diminuído bastante, sobrando apenas as conhecidas, de famílias respeitadas e que era de conhecimento geral a sua pureza e santidade. Vez ou outra, conseguiam encontrar essas bruxas que agora moravam mais afastadas da comunidade pelos os arredores do vilarejo ou dentro das florestas próximas. Muito provavelmente foi o caso desta menina magra com as barras do vestido de trapos enlameadas, descabelada pelas as mãos velhas de Madá, e que agora se encontrava encolhida em um canto do chão de pedra da varanda. Seu vestido velho, mais parecido com uma camisola não era grosso o bastante para protegê-la do frio.

Carmela não concordava com os sacrifícios das bruxas. Dizia que não acreditava nessas coisas e que eram apenas meninas abandonadas no mundo em condições pobres: “Se as bruxas fossem assim tão perigosas, elas não deixariam ser queimadas”, disse-me uma vez. Eu via muito sentido em suas palavras.

Carmela é uma recente moradora do vilarejo. Apareceu vendendo e preparando especiarias para temperos. Ela dizia que era uma viajante experiente e que já conheceu muitos lugares. Carmela sempre tinha boas histórias. Ela poderia se casar e ficar na comunidade, não lhe faltava pretendentes. Eu mesmo, se tivesse idade, me casaria com ela. Mas Carmela preferia o celibato. Riu muito quando lhe propus casamento. Minha mãe e o restantes das mulheres da comunidade diziam que Carmela só podia ser uma bruxa astuta e que teria enfeitiçado fortemente o reverendo. Elas detestavam Carmela, o reverendo não.

Estava olhando para as pernas finas da menina. Uma delas estava acorrentada na parede, ensanguentada. Provavelmente a menina tentara se desvencilhar das correntes com muita força até abrir ferimentos. Meu corpo estava se esgueirando para ver discretamente o que acontecia. Os olhos da menina me encontraram, mas ela nenhuma palavra pronunciou. Devia ser muda também, algumas bruxas tinham defeitos estranhos. Decidi entrar definitivamente na varanda. Madá que estava sentada em uma cadeira de balanço, me olhou com o canto dos os olhos.

O Reverendo disse que a fogueira já está pronta para acender e que tem muitos senhores esperando… respirei fundo e continuei, fui diretamente ao ponto. O Reverendo quer que você leve a Bruxa agora, Madá.

Ela se levantou calmamente apoiando o corpo em sua antiga bengala. Sua boca enrugada tinha um dos cantos curvados em um sorriso estranho que só ela conseguia externar. Madá se aproximou do corpo encolhido e acertou com força a bengala na cabeça da menina, que se encolheu ainda mais. A velha desprendeu as correntes da parede e puxou a menina com força abrupta e descuidada pela a perna machucada. A menina se levantou o mais rápido possível com muito esforço, visivelmente tentando não demonstrar dor ou sofrimento.

Madá foi arrastando a menina pelos cômodos do casebre, gotas de sangue marcavam o piso da casa da velha. Arrastou-a pelo interior da Paróquia até chegar na parte da entrada. Eu fui acompanhando e assistindo de perto aquela cena mais uma vez. Os barulhos da corrente, os sons das passadas descompassadas da menina machucada, o assoalho de madeira rangendo e sujo de marcas de sangue, os puxões das correntes e as risadinhas de satisfação da velha com a situação. Não importa quantas vezes eu tivesse que presenciar essas coisas, não importava ser um menino, não importava eu ser um homem, eu sabia que nunca me acostumaria com aquilo.

Quando estávamos nos aproximando da saída da Paróquia, consegui ver as luzes avermelhadas das tochas que adentrava pela porta. Tinha uma grande pira de madeira do lado de fora, cuja base estava rodeada de palha e galhos secos. Em seu centro estava uma coluna, também de madeira, com alguns metros de corda.

Em média quinze pessoas estavam esperando por nós, em sua maioria eram homens, alguns foram acompanhados de suas esposas, outros eram solteiros ou viúvos. A maior parte da plateia parecia estar se divertindo com a visão da chegada da bruxa, poucos sustentavam da menina algo próximo de medo. Talvez Carmela tivesse razão, eu sentia pena da criatura.

O reverendo se aproximou de mim, em seu rosto tinha a marca de uma mordida que pegava parte do seu lábio inferior. Ele era um senhor não muito velho, era magro, alto, barba feita. Tinha uma boa postura e sempre vestia roupas escuras muito bem cuidadas.

Mais uma vez cumprindo com as minhas expectativas, garoto! disse ele, sorrindo, fazendo um sinal de agradecimento com a cabeça. Sua voz era tão firme como a da velha Madá, o Reverendo tinha uma boa desenvoltura para falar, boa oratória, muito carismático e isso nos rendia calorosas pregações.

Ele pegou as correntes das mãos da anciã, puxou com força a menina para perto do seu corpo alto, inclinou o seu olhar para baixo e a fitou, apontando para a marca fresca que carregava no rosto. A menina olhava friamente para ele.

— Tudo tem seu preço. — Disse ele, apenas para que ela pudesse ouvir.

Mas a menina sequer respondeu. Apenas desviou o olhar do reverendo e levantou o rosto com altivez.

O Reverendo soltou uma risada cruel diante a tranquilidade dela e a levou para ser amarrada na coluna da pira, onde foi presa com rapidez. Ele falou algumas palavras em tom alto, palavras que, as quais, contagiaram os ânimos do público, que agora gritavam juntos e batiam palmas. O Reverendo foi o primeiro a colocar fogo na base da pira. Depois dele, foi a vez de Madá. Aos poucos o restante do grupo foi acelerando o caminho do fogo que já se alastrava com velocidade. Eu sentia o calor aumentar e se aproximar de mim, mesmo não estando muito perto.

Todos ficaram em silencio quando a menina começou a gritar de dor. Seus gritos eram muito altos e quanto mais o fogo lhe alcançava, mais os gritos se assemelhavam a uivos de uma matilha inteira. Alguns presentes pareciam se divertir com a força que a menina encontrava para gritar, outros ficaram apenas estupefatos. O fogo consumia e ninguém nada fazia a não ser assistir. A essa altura as labaredas já tinham alcançado os pés e subiam rapidamente pelo o vestido fino até alcançarem as mãos e os seios.

O rosto da menina que antes se contorcia voltou a mostrar tranquilidade subitamente, seus olhos se fecharam e seu rosto se abaixou, alguns dos convidados do Reverendo perguntava se ela já teria morrido, uns achavam que sim e outros achavam que ela só estava inconsciente.

Parece que ela está se movendo! Ainda está viva? gritou uma mulher gorda, próxima a mim, apontando para o fogo.

Parece que estou escutando alguma coisa! respondeu um homem que se encontrava mais próximo do fogo.

Eu me virei para Reverendo para ver se ele comentaria alguma coisa. Seus olhos estavam assustados, atônitos, sua boca estava aberta, mas não saía som algum. Algumas mulheres gritaram desesperadas. Um senhor se aproximou dele rapidamente e perguntou se ele estava sofrendo um engasgo, começou a dar tapinhas em suas costas. O Reverendo se limitou a levantar o braço, erguer o dedo e apontar para o fogo que vestia o corpo da menina como se fosse uma manta.

Voltei meu olhar rapidamente para a pira, tentando entender o que o Reverendo estava querendo dizer. O calor do fogo em alguns momentos distorcia a imagem. Fiquei olhando, observando e pensando se o que eu estava vendo era real ou a minha imaginação estava me pregando uma péssima peça. Eu estava enxergando a menina levantar seu rosto e começar a fitar fixamente Madá. Todos que estavam ali pareciam estar vendo o mesmo que eu. Algumas pessoas começaram a gritar de medo, as que estavam próximas do fogo se encaminhavam para um lugar mais distante, mas antes mesmo de conseguirem, o fogo se expandiu em uma pequena explosão de força e a fogueira os engoliu. A mulher próxima de mim desmaiou. Os que ainda permaneciam em pé pareciam estar com as pernas petrificadas.

Pela primeira vez a voz de Madá estava fraca, da sua boca saíam barulhos esquisitos como se fossem sons de bichos, parecia estar saindo de sua garganta o choro de cachorros e gatos e até relinchados de cavalos. Os olhos da velha, antes escondidos, agora estavam quase soltando do rosto. Começou a escorrer urina da sua perna, encharcando o chão a sua volta, despois começou a descer fezes, depois sangue escuro e grosso, até que algumas coisas sólidas parecidas com tripas eram expelidas por ela.

Ela está ficando oca!

Quando olhei para quem estava falando, era a mulher que havia desmaiado do meu lado, ainda no chão. Seus olhos começaram a virar repentinamente e ela começou a gritar como uma mulher prenha em trabalho de parto, começou a sair de dentro dela seus órgãos também.

Comecei a escutar risadas que pareciam vir do inferno, essas risadas vinham da fogueira que agora não me permitia ver mais nada.

De repente, um ser saiu dela, vestido de brasa, vestido de fogo, o véu vermelho lhe prendia a cabeça. A menina não me parecia mais pequena, magra e frágil. Ela tinha se tornado uma mulher, uma mulher vestida de escarlate.

Ela caminhou reto, atravessou de forma objetiva o terreno, passou do meu lado e com uma postura firme, parou em frente ao Reverendo que estava prostrado no chão de terra. Ela inclinou o seu olhar para fita-lo, ele a olhava mortificado.

Eu venho cobrar o meu preço.

Antes mesmo de terminar o que dizia, uma das mãos da mulher tocou a cabeça do Reverendo, o corpo dele se ergueu do chão todo contorcido e se estourou em pedaços. O sangue dele banhou a mulher e o fogo que estava vestindo seu corpo foi apagado por ele.

Toda camuflada no escarlate, ela olhou para o céu e ele a respondeu com uma queda de chuva rápida e forte. As gotas da chuva começaram a limpar o sangue de seu rosto. Seu rosto era muito belo e familiar, seu corpo era de uma mulher delicada e forte. Carmela olhou e sorriu para mim.

 

FIM

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C1.