EntreContos

Detox Literário.

Toda Professora Já Sonhou em Ser o Michael Douglas (Mariana Carolo)

7h45min (Faltam doze horas para o incidente)

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Brasil do Futuro implantara uma rígida política de contenção de gastos. Nesse sentido, duas das cadeiras da sala dos professores, quebradas no começo do ano, ainda não haviam sido repostas. “Precisamos dar o exemplo, nós somos os maestros do amanhã” era a invariável resposta da direção, sempre que um guerreiro tentava a sorte em nome da cervical coletiva. Assim, quando Adelaide chegou, gemeu baixinho: a sala já estava lotada.

Sem opções, encostou-se na parede, na vã tentativa de evitar as estridentes conversas dos colegas sobre fezes de bebês, novenas e acontecimentos da política. Respirou fundo ao sentir vontade de voltar para casa. Precisava do salário. E compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta, não importava o emprego que se arranjasse.

O sinal para a entrada tocou quando ela resolveu conferir o seu saldo bancário. O alarme arranhou os seus ouvidos, estremeceu desavisados e condicionou os adolescentes a rumarem para os territórios marcados com tinta amarela (6A, 6B, 7A, 7B…), nos quais fingiram enfileirarem-se. Adelaide avistou aqueles rostos espinhosamente jovens e lembrou que daria os oito períodos de aula. Sorriu, sem saber se de forma abnegada ou homicida.

 

8-A, aula de Geografia. Dois períodos

– Pessoal, é necessário que prestem atenção na explicação e que entendam a matéria. Nossa recuperação é na semana que vêm e a turma foi mal no último trimestre. Vou perguntar de novo: dúvidas? Algum ponto sobre as fronteiras não ficou claro? Por favor, depois não adianta chorar no fim do ano. Vamos aproveitar a revisão da matéria!

Adelaide arfou com o esforço em ser o mais didática e animada possível. Ganhou um estrondoso silêncio em resposta. Olhou para as caras impassíveis e agitou os braços, ansiosa por manifestações. Milene, a menina obcecada por desenhos animados japoneses, ergueu o dedo:

– Profe, o que tá escrito ali?

– Ali onde, Milene?

– Ali.

– Aqui, Milene?

– É, profe.

– Estratégia, Milene, estratégia.

– Brigada, profe.

Até a galera do fundão escutou o ranger de dentes da sora, que implorou por intervenção divina nos resultados da prova. Os alunos respeitaram o momento, trocando bilhetinhos e riscando formas geométricas nos cadernos.

9h50 min (Faltam 10 horas para o incidente)

Saiu para o intervalo e deparou-se com um menino do primeiro ano seminu. O conhecido Feijãozinho passou por Adelaide como um raio em direção ao pátio. Camiseta do uniforme, meias e cueca estampada eram o seu figurino. Nem sinal dos tênis. A calça voava nas mãos gordinhas, flâmula da selvageria infantil. Estupefata, não teve tempo de fazer nada. Seguiu, na torcida para que alguém desse conta do fugitivo mirim.

Uma trilha sonora berrava que é para gingar e rebolar que o verão pede mais. Levando em conta que eram poucas as músicas permitidas pela equipe diretiva, Adelaide adivinhou que a próxima seria o lamento da amante na boate. Enquanto isso, meninas assistiam ao Estevan do 9-A ensaiando jogadas com a cesta móvel de basquete dos pequenos. Fingiu repreender o rapaz, mais com riso do que com rigor. Tinha carinho por aquela mistura de ídolo Disney com algum intelectual beatnik e, não, ele não estragaria o brinquedo. Segundos depois, a supervisora, carregando um par de miúdas pernas relutantes no colo, atravessou a sua frente. A briga de Feijãozinho contra as normas do vestuário permanecia intensa.

Sentou, mas foi só respirar para que Fabiana, a contratada de Ciências, se materializasse ao seu lado com um sorriso devoto e a peculiar saia florida:

– Adê, sonhei contigo. Foi lindo! Grávida, um barrigão, a criança era um espírito de luz. Quando os pombinhos vão dar jeito, hein? Queremos um bochechudinho para apertar e visitar.

– Nossa, Fabi, que legal. Nem sei o que dizer.

– Conta quando vai trazer esse anjinho para a Terra.

– É complicado, não me vejo mãe. Muita responsabilidade, quem sabe no futuro…

– Que absurdo, não quer ser mãe? Ser mãe é tão lindo.

– Eu não me sinto preparada.

– E o anjinho?

– Um dia nasce, hehe.

– Ai menina, que horror. Vou ali conversar com a Liane.

A saia varreu os pés de Adelaide, que finalmente pode checar o celular. Porém, a paz acabou junto com o café da sala. Os sedentos pela bebida começaram a reclamar que assim não teriam condições de encarar um quadro-negro, que era inadiável a vaquinha para uma cafeteira maior, que desaforo tinha limite, etc.

 

7-A, aula de História. Um período

Buscou os questionários e, como sempre, pegou as provas de Matemática para a Cátia Beatriz. As outras professoras evitavam o secretário e, frequentemente, Adelaide era intermediária nos pedidos de cópias e afins.

Não compartilhava do pavor, simpatizou com Juliano desde que ele ocupara a vaga da aposentada Orfila. Um garoto competente e tranquilo, qualidades imprescindíveis para quem lida com o setor administrativo de uma escola. Bem, a pintura facial e os crucifixos invertidos que ele insistia em usar eram detalhes, extravagâncias de moço.

Os papéis estavam prontos, organizados por disciplinas e grampeados. Agradeceu com o gesto do chifrinho, pois o volume da música na sala impossibilitava qualquer comunicação verbal.

 

6-A, aula de Ensino religioso. Último horário da manhã

Ata n° 574

Registra-se que no dia 07 de outubro de 2018, o discente Tobias Pinheiro Leite (turma 6-A), na aula de Ensino religioso, pegou uma garrafa de água e despejou o conteúdo da mesma na cabeça de Rafaela Pinheiro Leite (turma 6-A), sua irmã. A docente Adelaide Zabatini Rocha encaminhou os dois para a direção. Ambos foram advertidos e os responsáveis acionados. Nada mais a constar, aqui encerra-se a ata assinada por mim e pelos demais.

Ata n° 575

Registra-se que no dia 07 de outubro de 2018, logo após a feitura da ata sobre o incidente que ocorrera na turma 6-A, a discente Rafaela P. Leite principiou a gritar que todos deveriam ir para o inferno e a proferir palavras de baixo calão. Saiu em disparada, tendo, neste momento, chutado a porta da orientação e amassado a mesma.

Ela foi contida pelo assistente Juliano Favre Leal, sem prejuízo para a sua integridade física. Retornará ao cotidiano escolar somente acompanhada dos responsáveis, que deverão arcar com os custos de reparo da porta. Nada mais a constar, encerra-se aqui a ata assinada por mim e pelos demais.

 

12h30min (Faltam sete horas para o incidente)

A barriga de Adelaide roncou. Contudo, cozinhar, engolir e mastigar demanda tempo e ela necessitava ir ao banco tentar, pela quarta vez, renegociar os seus empréstimos. Nem imagina que é famosa na agência 72 do Banco do Estado, os atendentes de lá a apelidaram de Chorona. E olha que a instituição se orgulha do tratamento que oferece para os funcionários públicos: assentos e água premium são reservados para os mesmos.

O desfecho da empreitada foi que o gerente, com a sua larga corrente de ouro e cabelos esculpidos com gel, agradeceu os serviços patrióticos da professorinha, perguntou para quando seria o casamento e riu cordialmente, só não liberou as cobiçadas taxas mínimas. A Chorona saiu mais pobre do que quando entrou. Para completar, as filas dos caixas eletrônicos terminaram de atrasá-la e o salgado de presunto, mastigado no ritmo dos solavancos do ônibus, bombardeou o seu estômago como uma granada.

 

9-B, aula de História. Dois períodos

Com um prejuízo de trinta e sete minutos, Adelaide chegou esbaforida e, ao mesmo tempo em que arrumava o material didático sobre a mesa, rompeu a passar uma avaliação para o 9-B. Se solicitasse o dever na semana que vêm, perderia o prazo de entrega dos cadernos de classe e, aí sim, ela iria se incomodar:

– Pessoal, vou pedir um trabalho sobre a cultura dos Estados Unidos e….

– Ahhh…

– Letra do alfabeto nenhuma, meus queridos. Desenvolver a habilidade da pesquisa é fundamental e atualmente existe a internet. Ou seja, sem desculpas para não fazerem o trabalho!

– Dá para copiar dos sites? Tipo, imprimir.

– Formandos já são grandinhos o suficiente para filtrarem as informações e escreverem um texto com as próprias palavras.

– Puxa sora, complicado.

– Atenção. A atividade é escolher uma música estadunidense e traduzi-la. Depois, produzir um artigo que explique quando a canção foi composta, qual é a mensagem da letra e os outros dados relevantes que coletarem ao longo das leituras.

– Sora, me explica essa parte de canção composta.

Um urro acusou Joel de burro, o que irritou Adelaide:

– Parou o deboche, melhor perguntar do que achar que sabe e fazer errado. A pessoa terá que explicar quando e como a música foi criada, Joel. Compreendeu? Excelente. Vale qualquer uma. Até do Marilyn Manson, se quiserem.

Jurou que tinha despertado interesse com o nome polêmico e orgulhou-se do quanto era descolada, mas os trinta pares de sobrancelhas arqueadas indicaram que ali acabara de ocorrer um conflito de gerações:

– Tá, nono B, matem a minha curiosidade. Quem escuta Marilyn Manson?

Fernanda, sempre educada, pediu a palavra:

– Professora Adelaide, o meu pai gosta dele. Acho barulhento e chato, mas ele é fã.

Derrotada, a não tão jovem regente aceitou que o rock pauleira fosse ignorado. Entretanto, sublinhou que não admitiria descuidos com as referências da tarefa. Os estudantes, aos risos, bradaram que pesquisa sem bibliografia não tem serventia. A troça carinhosa com o seu velho ditado lhe arrancou o único sorriso da tarde abafada.

 

15h05min (Faltam quatro horas para o incidente)

Para aproveitar um naco de solidão, fingiu que corrigia provas durante o intervalo. Logo, cada desavisado que tentou atrapalhar o momento sagrado, pegando merendas ou esquecimentos do tipo, foi fulminado com os olhos por cima dos óculos de Adê. Ninguém insistiu na missão. Gostavam dela, mas não era por acaso que os cartunistas do colégio teimavam em desenhá-la com o capacete do Darth Vader.

 

7-B, aula de História. Dois períodos, até o encerramento da tarde

Sussurros de “saca a camiseta do Juliano” precederam o recado de que Lola, a diretora, queria Adelaide no seu escritório imediatamente. Torcendo por um engano, selecionou atividades do livro para a turma e atendeu a convocação que cheirava a transtorno. O ponto é que o seu olfato era infalível. Silas e a esposa, pais do Jonas do 6-A, aguardavam-na para conversarem.

Na tentativa de semear a paz no ambiente, sorriu e estendeu a mão para cumprimentá-los. O casal recusou a proposta com duros acenos de cabeça. Lola, mais agitada que o normal, ordenou que a subalterna escutasse o que a família tinha a dizer:

— Professora Adelaide, sou um homem que respeita o magistério. Função complicada, lidar com quarenta crianças numa sala. Também esclareço que não sou um ignorante. Permito que os meninos passeiem, me informo sobre política, aceito bastante coisa. Só não tolero que mexam com a minha família! Eu é que decido o que é certo ou errado para eles.

Adelaide notou que a mulher, que balbuciava animadas concordâncias ao monólogo do marido, não fora apresentada e que ninguém estava preocupado com isso:

— Vacina é mentira, governo inventou pra enfiar moléstias nas pessoas. Não tomei, meus filhos não foram picados e, ó, tão tudo firme e forte. Continuaremos assim. Ontem, o Jonas veio me perguntar se era vacinado. Cismado na tal injeção, que a senhora teria dito que previne doenças. Não tive escolha, dei umas palmadas e coloquei de castigo. Daí exijo esclarecimentos, qual a razão de falar disso na aula de Geografia?

— Pai, o debate era sobre as descobertas da ciência e como elas mudaram as sociedades. Mencionei a penicilina e…

— Peraí, eu estudei e sei que geografia são os rios, os mapas, não essa penicilina ai. É um absurdo não falar de geografia na aula de Geografia.

O primeiro impulso foi o de discursar sobre o conhecimento como motor do progresso, a importância da liberdade de pensamento e outras questões epistemológicas profundas. Todavia, se deu conta de quem estava ao seu redor. Um homem que, por ser afilhado do prefeito, acreditava poder tudo: desde matricular os filhos sem a documentação exigida até cobrar propina em postos de gasolina. Uma diretora que, para subir de cargo, rolaria no chão e latiria. E uma mãe que abdicou do próprio nome. Não havia possibilidade de diálogo, não sem ser massacrada. Por isso calou, lembrando-se de que mártires invisíveis não são muito úteis. Como cantava o velho Seixas, seria horrível morrer dependurada numa cruz.

Listou mentalmente as compras que faria no mercado e quase resolveu a indecisão entre pagar a internet ou a academia, quando a voz masculina a puxou de volta para a escola:

— Meus cumprimentos, professora. Espero que tenhas entendido que não é pessoal, mas que preservo os meus filhos acima de tudo. Gostei da conversa, da abertura para as minhas ideias. É por isso que manterei o Jonas aqui, até a sua formatura. Vamos, querida!

Enquanto a diretora mostrava toda a arcada dentária para aquele que, quem sabe, poderia ser a sua ponte para a Secretária de Educação, Adelaide balançava a cabeça maquinalmente.

 

5h25min (Faltam duas horas para o incidente)

O apito que anunciou o fim do expediente, mesmo exagerado, soou como música para os seus ouvidos. Adelaide correu até a parada, alcançou o ônibus e passou os vinte e cinco minutos do trajeto de pé, sentindo pulsar cada veia de suas pernas. E, se antes desconfiava, também passou a ter certeza de que a empresa municipal de transportes era a fachada de um laboratório de subversão as leis da física.

 

7h25min (Faltam vinte minutos para o incidente)

Carregada de sacolas, topou com Maurílio, o seu noivo, esparramado no sofá. Ao vê-la, ele abriu o clássico sorriso de pedinte e, sem nem lhe dar um beijo antes, disparou a miar favores:

— Mozão, eu tô exausto. Lava a louça e faz aquela macarronada para nós?

— Maurílio, meu dia foi péssimo.

— Ai, Dedê, tá sempre reclamando.

— Eu tô sempre reclamando porque eu nunca consigo descansar!

Maurílio, num muxoxo, retrucou que quem mandou ela querer ser professora e que escolas nem são tão cansativas assim. Foi o que bastou.

Decidiu terminar, expulsaria aquele traste do apartamento. Para garantir que ele levasse somente o que comprou, marchou para o quarto e começou ela mesmo a fazer as malas. Porém, o tremor de terra, que Adelaide nunca descobriu a causa, impediu que o relacionamento acabasse. Terror! Mothra surgiu nos céus. Batendo as gigantescas asas, levou caos e destruição para aquela cidade que, por estar tão longe do Japão, nunca havia se preocupado com um plano de prevenção para kaijus.

Anúncios

20 comentários em “Toda Professora Já Sonhou em Ser o Michael Douglas (Mariana Carolo)

  1. Cirineu Pereira
    8 de abril de 2019

    Resumo:
    A difícil rotina de uma professora de escola pública, cujo noivo mora consigo, até o trágico dia em que, justamente quando decide romper e expulsar o noivo de sua casa, um monstro alado invade a cidade.

    Aplicação do idioma
    Vocabulário simples, porém prejudicado por algumas frases mal construídas e outras tentativas frustradas quando de algumas tentativas de destacar estilo.

    Técnica
    Técnica deficiente, repleta de circunlóquios, porém efetiva no que tange à construção do perfil da protagonista.

    Título
    Título sensacionalista e instigante, porém sem a devida pertinência para com o enredo, levando o leitor a sentir-se ligeiramente ludibriado ao final da leitura.

    Introdução
    Introdução obtusa, cheia de rodeios.

    Enredo
    O enredo se quebra demasiadamente e a maioria das cenas não possuem convergência, nem tão pouco grande importância para a trama, servindo tão somente para delinear personagens e contexto.

    Conflito
    Inicialmente o conflito parece girar em torno da insatisfação da professora para com o próprio emprego, então subitamente, como que para apenas adequar o conto ao gênero requerido, o autor insere uma criatura monstruosa na trama.

    Ritmo
    A narrativa é relativamente fluída e a divisão em episódios subtitulados com alusão a um “incidente” futuro incita o leitor a continuar a leitura, no entanto, todo esse prelúdio segmentado possui enlevos tímidos.

    Clímax
    O clímax é mal narrado, apresentado e descrito com a mesma ênfase e naturalidade dos eventos que o precedem

    Personagens
    O perfil psicológico da protagonista é bem construído. Demais personagens recebem tão somente o destaque necessário, o que por si só não compromete. No entanto, também aqui, o autor peca pela ausência de descrições ou alusões físicas que ajudariam o leitor a “projetar” os personagens.

    Tempo
    Apesar da linearidade e regularidade cronológica da narrativa, o tempo é muito bem marcado através dos subtítulos que remetem ao clímax.

    Espaço
    Os cenários são relativamente bem construídos, o conto todo bem contextualizado.

    Valor agregado
    Há uma crítica acentuada, válida e bem apresentada em relação à situação do ensino público

    Adequação ao Tema
    A adequação ao tema fantasia soou um tanto forçada, com o elemento fantasioso sendo inerido tão somente ao final, sem quaisquer indícios anteriores e em total discordância com o “espírito” até então criado.

  2. Wender Lemes
    30 de março de 2019

    Resumo: Adelaide é uma professora do ensino fundamental – portanto, uma guerreira incansável. Temos a contagem regressiva para um evento misterioso, enquanto acompanhamos outros eventos nada misteriosos no cotidiano da protagonista. O suspense para o incidente aumenta gradativamente conforme percebemos o acúmulo de desaforos que nossa professora precisa aguentar durante o dia. Curiosamente, o tão esperado incidente não tem nada a ver com as desventuras de Adelaide, é apenas um kaiju invadindo os céus da cidade.

    Técnica: a gramática me parece impecável aqui. Entre os contos dessa série, é provavelmente o que menos explora os temas propostos, mas nem por isso fica de fora da brincadeira. A inserção do elemento fantástico ao final faz bem seu trabalho e, dado que era anunciada durante todo o conto, não deixa sensação de um Deus Ex Machina.

    Conjunto da obra: a personagem Adelaide é excelente. Imagino que a maioria de nós teve uma professora como ela em algum momento dos estudos: dedicada, resiliente, pacata. Imagino também que, pelos mesmos motivos, nunca paramos para pensar como era a vida dessa professora, se tinha família, ou como era seu lado humano fora de sala. Meu ponto é que simpatizamos com o conto porque aborda um pedacinho de presença quase unânime em nossas vidas, e o faz com maestria.

    Parabéns, bom trabalho!

  3. Catarina Cunha
    29 de março de 2019

    O que entendi: Uma professora encara mais um dia de dedicada e extenuante rotina na escola. O dia vai crescendo e acumulando chatices e frustrações, até que chega o seu momento de fúria.

    Técnica: Apuradíssima. Tem um humor rascante e cria a tensão necessária para gerar ansiedade no leitor quanto ao desfecho.

    Criatividade: Até o último parágrafo me senti inserida em uma crônica do cotidiano, até que vem a grande virada de mesa. Vale ressaltar o título de humor refinado.

    Impacto: Vou passar um bom tempo pensando nesse final. Você poderia ter feito o esperado: Uma grande cena de fúria estilo Michael Douglas, mas foi inteligente o suficiente para nos surpreender com o inimaginável. Muito bom.

    Destaque: “ Adelaide avistou aqueles rostos espinhosamente jovens e lembrou que daria os oito períodos de aula. Sorriu, sem saber se de forma abnegada ou homicida.” –

    Sugestão: Acertar a cronologia das horas. O evento começa às 7:45 e terminaria às 19:45, doze horas depois, e não às 7:45. “9h50 min (Faltam 10 horas para o incidente)” então faltam 9 horas e 55 min, pois o incidente ocorreu às 19:45. É o que chamo de erro de continuísmo. Bobagem fácil de acertar, mas que incomoda o leitor, já que o (a) autor(a) escolheu especificar o horário dos eventos.

  4. rsollberg
    28 de março de 2019

    Fala, Joelle.
    Resumo: O conto narra um dia comum da vida de Adelaide, uma professora que faz das “tripas coração” para seguir adiante. Partido em pequenos capítulos, o texto passeia pelas aulas e os percalços da personagem na escola. Tudo isso tendo em vista a expectativa (alardeada desde o principio) de um incidente relevante.

    Então, vou começar pelo título.
    A sacada com o Michael Douglas é muito boa, pois instiga o leitor a buscar uma conexão com a história. De inicio achei que tivesse a ver com a famigerada droga “MD”, depois veio a mente o Wall Street e todo o glamour da profissão contrastando com o caos e sucateamento do magistério. E, embora tenha pensado em a “guerra dos roses” no final, não me restou dúvidas que a menção ao autor se deu por causa do personagem “William Foster” em um dia de fúria.

    Apesar da pequena pitada de fantasia, o conto é majoritariamente de comédia, no caso, uma ótima comédia. Usando de um humor refinado e boas referências, o autor soube trazer para o texto leveza com um tema tão delicado. Especialmente agora, num País onde a Educação vem sofrendo sistematicamente ataques hodiernos do próprio governo, de um Estado que se orgulha da ignorância.

    Voltando, a história é muito divertida e tem um dinamismo próprio do humor. a força do gancho e do arremate, do absurdo que se confunde com o usual. Essa pegada dos grandes mestres Artur Azevedo, Lima Barreto e João do Rio, com pequenas quebras de realidade. Bem escrito, destaquei alguns trechos que chamaram muito minha atenção pela imagem, vigor ou zombaria reflexiva:

    “E compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta, não importava o emprego que se arranjasse”

    “Tinha carinho por aquela mistura de ídolo Disney com algum intelectual beatnik” – Vi uma mistura de Zack Efron e Jack Kerouac, ou melhor Troy Bolton e Sal Paradise.

    “Por isso calou, lembrando-se de que mártires invisíveis não são muito úteis.”

    “E, se antes desconfiava, também passou a ter certeza de que a empresa municipal de transportes era a fachada de um laboratório de subversão as leis da física.” Curti especialmente esse trecho, pois fiz algumas brincadeiras com o tema no meu conto para esse desafio.”

    O fim traz um absurdo para uma história mundana, quebrando sobremaneira o esperado. Uma saída audaciosa e, no meu entendimento, acertada. Quantas vezes não vimos o Monty Phytom, o maior grupo de humor da história, adotar esse estilo, seja nos esquetes, seja nos longas como “A vida de Brian”, “Em busca do cálice sagrado” e “o sentido da vida”. Certamente vai ter gente que não vai gostar, mas cest la vie!
    Por fim, pra dizer que não falei de “kaijus”, não gostei muito do uso de “sora” , soou estranho pra mim. Estou familiarizado com o “Prof, Fêssora, e até o Sôra” mas nessa frase, por exemplo, me confundiu :”escutou o ranger de dentes da sora”
    De qualquer modo, parabéns e boa sorte.
    Ah, a imagem apesar de reveladora, é provacante e não quebra o clímax!

  5. Daniel Reis
    26 de março de 2019

    BREVE RESUMO: Título alternativo: Um dia de mestra. Um dia típico (mas nem tanto) na vida de uma professora, que dá aulas o dia inteiro, enfrenta a falta de recursos na escola, a falta de dinheiro no bolso, os alunos desatentos, os colegas desinteressados, a cobrança por ser mãe, as brigas em sala que tem que ser apartadas, o pedido de empréstimo no banco, as múltiplas matérias a lecionar, os pais irascíveis e ignorantes, e por aí vai. Ao voltar para casa, de ônibus, com as compras, encontra o marido que ainda quer que ela faça o jantar, e ela resolve sair de casa. Porém, a história que até aqui era comédia, vira uma fantasia, com o surgimento de Mothra, como uma besta do apocalipse, para destruir tudo.
    PREMISSA: a premissa – que era comédia, a meu ver, ainda que de humor negro – acaba se transformando, num final apressado, em uma fantasia. Não entendi o porquê.
    TÉCNICA: muito bem escrita, a meu ver poderia ter mantido a linha de comédia, que seria um dos melhores do desafio.
    EFEITO: no final, ficou um gosto de deus ex-machina, de não terminar a história no curso que ela tinha. Pena, seria um dos meus escolhidos. Mas, pela técnica, e principalmente da contagem regressiva, deve ter destaque.

  6. Jowilton Amaral da Costa
    26 de março de 2019

    O conto narra um dia na vida da professora Adelaide na escola em que ela trabalha, do começo da manhã até o fim da tarde, e suas relações com os alunos, professores e pais de alunos, até chegar em casa e encontrar com o noivo folgado.

    Achei um bom conto. Está bem escrito e tem umas boas sacadas com o cotidiano de um professor, não me fez rir alto ou gargalhar em nenhum momento, mas, apreciei certas cenas. O título dar a entender que Adelaide terá um dia de fúria, e quando pensamos que isso irá acontecer, por conta do término do noivado com o folgadão, aparece um monstro, Kaijus, e, imagino, destrói toda a cidade. Foi isso, mesmo? Sem dúvida é um fim bem inesperado, Que doideira, hahaha. Boa sorte no desafio.

  7. Fil Felix
    25 de março de 2019

    Resumo: o dia a dia de uma professora. Na verdade o último dia, seu cotidiano e os problemas enfrentados antes da cidade ser atacada por um monstro.

    Considerações: o texto está bem escrito e se desenvolve bem, vemos de perto a rotina da protagonista e seus problemas diários, como lidar com os alunos, com a agenda cheia, a burocracia do banco, as frustrações… Uma realidade que é de muitos. Dei aula durante alguns anos e sei bem como é. Mas se voltarmos ao tema, acho que o conto acaba perdendo um pouco. Apenas no último parágrafo acontece uma cena Deus Ex Machina em que surge o kaiju e acaba com tudo, dando um ar mais fantástico. Não há muitos indícios no decorrer do texto (além da contagem regressiva) que mostra que o mundo está lidando com esses monstros, pra contextualizar o leitor e até inserir uma professora tentando tocar sua vida em meio ao fim do mundo ou ataque do Godzilla, que teria enriquecido mais.

  8. Leo Jardim
    23 de março de 2019

    🗒 Resumo: acompanhamos um dia da vida cansativa e angustiante de uma professora do ensino fundamental de uma escola pública. Após diversas desventuras, chega em casa e discute com seu novo. No fim, o mundo (ou a cidade) é destruída por um monstro gigante.

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): o conto começa extremamente intrigante, com a contagem regressiva para o tal incidente. Enquanto isso, vamos acompanhando a vida da professora, com suas situações inusitadas e constrangedoras. O problema é que, quando o incidente realmente acontece, acaba sendo frustrante, pois o hype gerado estava muito alto. O kaiju no fim, apesar da dica na imagem, foi bastante anticlimático porque em nenhum momento da trama sentimos acontecer. Um terremoto era esperado, uma bomba ou mesmo um ataque de fúria da protagonista (sugerido no título). Mas o pior do final não foi acontecer algo totalmente fora do clima do conto. Até mesmo o ataque da mariposa gigante funcionaria bem se fosse melhor desenvolvida e menos corrida. Aconteceu em poucas frases no texto e ficou parecendo que foi preguiça do autor (ou falta de espaço no texto) para fazer uma conclusão à altura do resto do conto.

    Enfim, é um conto bom e divertido, mas que se perde no último parágrafo.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐▫▫): a técnica é bastante eficiente. Simples, mas que conduz a trama sem sobressaltos. Um trabalho bem feito.

    Só pra não perder a mania de ser chato, na contagem regressiva, o verbo não ficou bem no presente, já que o conto está todo no passado. Algo como: “doze horas para o incidente”, sem verbo, ficaria melhor.

    🎯 Tema (⭐⭐): comédia [✔]

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): não há um elemento ultracriativo, mas a trama tem personalidade.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): a comédia é boa. Não cheguei a gargalhar em nenhum ponto, mas sorri das situações inusitadas e cotidianas da professora. O pai imbecil antivacina foi o ponto alto. O fim, como já disse, não encerrou o conto na mesma toada.

  9. Ricardo Gnecco Falco
    21 de março de 2019

    Olá Joelle; tudo bem? 😉

    O seu conto é o penúltimo trabalho que eu estou lendo e avaliando.

    COMENTÁRIOS GERAIS: O conto está bem escrito. Percebe-se um bom domínio da Língua e um enredo que tenta criar uma crescente tensão para a protagonista, conforme o próprio título do trabalho sugere (uma clara alusão ao clássico “Um dia de fúria”). No entanto, mesmo sendo válida e bem conduzida, a história não conseguiu impactar de maneira satisfatória (este leitor aqui; sempre lembrando que os gostos são variados e o trabalho tem grandes e eficientes atrativos, que podem ser perfeitamente bem recebidos por outros leitores).
    A questão temática foi o que mais me desagradou, pois — até o parágrafo final — não consegui identificar o tom de comédia que, em uma história realística (praticamente testemunhal), far-se-ia necessário.
    Contudo, ao deparar-me com o referido último parágrafo da obra, pareceu-me que um balde (gigante) de fantasia havia sido derramado ali, às pressas (quase que em um efeito “Deus-ex-machina”), somente para fechar a história e coloca-la dentro do tema do Certame.
    Se a intenção fosse realmente, e desde o início, escrever (criar) uma obra fantasiosa, muito mais válido seria inserir alunos ‘fantásticos’, ou funcionários semelhantes à criaturas fantásticas; ou mesmo a própria escola tratar-se de um local mágico etc. As opções são infinitas. O próprio narrador onisciente poderia ser uma criatura fantástica (personagem)… Dava para fazer de incontáveis formas. Porém, simplesmente ‘despejar’ um balde de anime no último parágrafo, surgido meio que ‘do nada’, para mim (lembre-se: esta foi a forma que EU vi; são as minhas impressões; sinceras) não caiu muito bem…
    Mas, no geral, como disse lá no início, o conto está bem escrito e as descrições são boas. Algumas observações técnicas (errinhos bobos de revisão que passaram):

    Secretária (tirar esse acento);
    subversão as leis (inserir crase);
    verbo necessitar precisa ‘de’ um “de”.

    E uma sugestão que tange a técnica também:

    horários poderiam ser no formato vigente brasileiro, de 24 horas, evitando possíveis confusões.

    Bem… É isso! 😉

    Parabéns e boa sorte no Desafio!

    ————————————-
    RESUMO DA HISTÓRIA:
    ————————————-
    Professora em plena crise existencial, motivada por pregressa escolha profissional, decide terminar relacionamento afetivo ao final de um longo e cansativo dia que, de forma ainda mais inesperada, termina com uma terrível invasão fantástica.

  10. Rubem Cabral
    16 de março de 2019

    Olá, Joelle.

    Resumo da história: acompanhamos o dia da professora Adelaide, que valentemente enfrenta mil desafios durante seu expediente espinhoso: alunos preguiçosos, pais sem noção, colegas intrometidos. O fim do dia culmina com o ataque de Mothra: o kaiju gigante.

    Prós: conto divertido, com escrita ágil e personagem principal bem desenhada.

    Contras: a contagem regressiva para o evento cria certa expectativa que o final frustra um pouco.

    Nota: 4,5

  11. Evandro Furtado
    16 de março de 2019

    A história de um dia de uma professora com todos os acontecimentos comuns ao cotidiano escolar possíveis.

    Achei a história bastante verossímil. Adelaide me parece uma pessoa real com uma vida real. Gostei da forma como os acontecimentos são descritos, permitindo que cada cena seja materializada. A comédia é sutil, mas funciona. Esse final maluco acabaria com qualquer texto, mas é a Mothra!!! MOTHRA!!! MOSURA YA! MOSURA! DONGAN KASAKUYAN INDO MUU! Isso sempre vai ganhar pontos extras comigo.

  12. Victor O. de Faria
    14 de março de 2019

    RATO (Resumo, Adequação, Texto, Ordenação)
    R: Dá pra resumir com duas palavras: Pára-Bens. Trata-se de uma exposição do dia a dia tragicômico de uma professora no país, tirando, é claro, a borboleta gigante do final. O texto não se situa em nenhum local específico, mas somos informados que está longe do Japão. Senti uma vibe americana, mas misturada com conceitos brasileiros. Só não entendi onde o Michael Douglas se encaixa – apesar de conhecer o meme.
    A: É um texto bem divertido, mas não chega a ser uma comédia propriamente dita. Tem muitas pitadas de ironia e sarcasmo, embora justamente isso tenha tornado o texto tão cativante. As mazelas da vida cotidiana expostas de maneira tão real que quase atingem o limite da categoria, tornam-se surreais nas entrelinhas. O final foi se desenhando com o suspense embutido, mas acho que acabou quebrando demais o “timming” que vinha se desenvolvendo. Achei que ela ia fazer/sofrer alguma coisa grandiosa na escola e não um absurdo desses, apesar de gostar dos filmes do Godzilla. – 4,0
    T: A escrita é competente. Tem boas trocas temporais, e alguns escorregões em tempos verbais, mas nada que afete a continuidade. Gostei de algumas trocas de expectativa, como associar bom moço com tatuagens, heavy metal e sinais invertidos. – 4,0
    O: A estrutura funciona, apesar de buracos. Contudo, é compreensível. Não havia como expor todos os caminhos por onde a professora passaria. Como mencionei acima, só achei o final abrupto demais. A figura é um spoiler, mas antes de ler, achei que se tratava de licença poética. Se o autor(a) não for professor/professora, só pode ter algum parente/conhecido, pois a trama é bastante vívida. – 4,0
    [4,0]

  13. Paula Giannini
    12 de março de 2019

    Olá autor(a),
    Tudo bem?

    Resumo:
    Em uma espécie de “Dia de Fúria”, a professora passa por seu cotidiano, até que finalmente possa exterminar os pobres mortais que a cercam, ou, ao menos, em sua imaginação. Ou, ao menos o namorado machista e chato. rsrsrs

    Meu ponto de vista:
    O(a) autor(a) optou lindamente por escrever comédia para este desafio. Ainda que com uma pitada de fantasia ao final. 😉

    Um teto escrito com técnica, em uma escolha muito bem feita na aplicação da linguagem, e, no modo como pontua o horário, instigando o leitor a ficar com ele, cheio de curiosidade e empatia pela pobre professora.

    Comédia é 90% empatia e o(a) autor(a) acerta em cheio ao criar sua personagem, bem como a trama e todo o percurso que vai, do início do convite para que o leitor imagine qual o evento final, ao momento do evento propriamente dito.

    O início é perfeito. A primeira linha (o primeiro parágrafo – a primeira página) perfeita deveria ser a busca de todo(a) autor(a), mas, às vezes nos esquecemos disso. Porém, o final também é igualmente incrível, fechando o ciclo do conto com maestria, brincando com a imaginação da personagem, com direito a alusões ao à toda a construção da personagem durante a trajetória do texto.

    Parabéns empolgados!!!
    Sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  14. Davenir da Silveira Viganon
    12 de março de 2019

    Professora tem um dia terrível, em que está prestes a perder o controle e o conto narra os motivos que se acumularam para chegar ao momento em que ocorre o incidente quando chega em casa e discute com o namorado.
    Achei o conto excelente no retrato da vida de professor. Ouvindo muita besteira dos pais, colegas, alunos, além da desvalorização do professor em todos os sentidos, foi tão fiel e eu me identifiquei tanto que acabei achando não tão cômico quanto devia ser, contudo é definitivamente comédia, ou melhor, uma tragicomédia muito fiel a realidade. Alias, esse conto tem a melhor introdução que vi em tempos no Entre Contos. Parabéns!

  15. Rsollberg
    6 de março de 2019

    Fala, Joelle.

    Resumo: O conto narra um dia comum da vida de Adelaide, uma professora que faz das “tripas coração” para seguir adiante. Partido em pequenos capítulos, o texto passeia pelas aulas e os percalços da personagem na escola. Tudo isso tendo em vista a expectativa (alardeada desde o principio) de um incidente relevante.

    Então, vou começar pelo título.
    A sacada com o Michael Douglas é muito boa, pois instiga o leitor a buscar uma conexão com a história. De inicio achei que tivesse a ver com a famigerada droga “MD”, depois veio a mente o Wall Street e todo o glamour da profissão contrastando com o caos e sucateamento do magistério. E, embora tenha pensado em a “guerra dos roses” no final, não me restou dúvidas que a menção ao autor se deu por causa do personagem “William Foster” em um dia de fúria.

    Apesar da pequena pitada de fantasia, o conto é majoritariamente de comédia, no caso, uma ótima comédia. Usando de um humor refinado e boas referências, o autor soube trazer para o texto leveza com um tema tão delicado. Especialmente agora, num País onde a Educação vem sofrendo sistematicamente ataques hodiernos do próprio governo, de um Estado que se orgulha da ignorância.

    Voltando, a história é muito divertida e tem um dinamismo próprio do humor. a força do gancho e do arremate, do absurdo que se confunde com o usual. Essa pegada dos grandes mestres Artur Azevedo, Lima Barreto e João do Rio, com pequenas quebras de realidade. Bem escrito, destaquei alguns trechos que chamaram muito minha atenção pela imagem, vigor ou zombaria reflexiva:

    “E compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta, não importava o emprego que se arranjasse”

    “Tinha carinho por aquela mistura de ídolo Disney com algum intelectual beatnik” – Vi uma mistura de Zack Efron e Jack Kerouac, ou melhor Troy Bolton e Sal Paradise.

    “Por isso calou, lembrando-se de que mártires invisíveis não são muito úteis.”

    “E, se antes desconfiava, também passou a ter certeza de que a empresa municipal de transportes era a fachada de um laboratório de subversão as leis da física.” Curti especialmente esse trecho, pois fiz algumas brincadeiras com o tema no meu conto para esse desafio.”

    O fim traz um absurdo para uma história mundana, quebrando sobremaneira o esperado. Uma saída audaciosa e, no meu entendimento, acertada. Quantas vezes não vimos o Monty Phytom, o maior grupo de humor da história, adotar esse estilo, seja nos esquetes, seja nos longas como “A vida de Brian”, “Em busca do cálice sagrado” e “o sentido da vida”. Certamente vai ter gente que não vai gostar, mas cest la vie!

    Por fim, pra dizer que não falei de “kaijus”, não gostei muito do uso de “sora” , soou estranho pra mim. Estou familiarizado com o “Prof, Fêssora, e até o Sôra” mas nessa frase, por exemplo, me confundiu :”escutou o ranger de dentes da sora”

    De qualquer modo, parabéns e boa sorte.

    Ah, a imagem apesar de reveladora, é provacante e não quebra o clímax!

  16. Felipe Rodrigues
    6 de março de 2019

    Professora narra os percalços que passa em seu dia a dia de trabalho, as confusões entre os alunos, com os pais malucos, diretora gananciosa, entre outras. O texto vem em pílulas, cada uma se aproximando mais da conclusão prometida, e então ela surge com um quase término de relacionamento e bichos batendo asas no céu e causando terremotos.

    Ao passar em rota de colisão os encontros cotidianos – e que devem ser rotina de todo profissional da educação – a protagonista trabalha com a ironia de forma a apontar as dificuldades da profissão no Brasil (é interessante notar que para isso ela não precisou recorrer ao exagero, visto que todas as situações, extremamente reais, já denotam algo surreal, um exagero vivo e sem necessidade de reinvenção). E é no final do conto que encontramos este elemento, o inseto gigante a bater as asas no céu e trazer o acidente, que funciona como uma homenagem ao conto, arrematando a história com uma dos personagens das histórias japonesas de que uma das alunas citadas tanto gostava, e passando a percepção de mesmo ao fim de tudo a tal professora, desalinhada na vida e no trabalho, ainda tinha o pensamento voltado à sala de aula. Um dos melhores que li até agora, e olha que já li uns 10, por aí. Parabéns a quem escreveu tal petardo.

  17. Fabio Baptista
    24 de fevereiro de 2019

    ———————–
    RESUMO
    ———————–
    As desventuras de Adelaide, uma professora de escola pública, entre as aulas, a sala dos professores e afazeres do dia a dia (tipo ir ao banco e almoçar).
    Quando chega em casa no fim do dia e encontra o noivo folgado, a cidade é atacada por um monstro gigante.

    ———————–
    ANOTAÇÕES AUXILIARES DO RESUMO DURANTE A LEITURA:
    ———————–
    Acabei apagando, pois pouco acrescentaram.

    ———————–
    SOBRE A TÉCNICA:
    ———————–

    A melhor entre os contos que li. Escrita madura, segura, piadas inteligentes e sutis muito bem encaixadas. Ótimos ganchos para segurar a atenção com a contagem regressiva.

    – 7h45min (Faltam doze horas para o incidente)
    >>> a melhor frase de abertura do certame. Simples e causa uma expectativa dos diabos kkkk.

    – sempre que um guerreiro tentava a sorte em nome da cervical coletiva
    – E compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta
    – Sorriu, sem saber se de forma abnegada ou homicida.
    – os trinta pares de sobrancelhas arqueadas indicaram que ali acabara de ocorrer um conflito de gerações
    – empresa municipal de transportes era a fachada de um laboratório de subversão as leis da física
    >>> muitas frases de um humor inteligente

    – os atendentes de lá a apelidaram de Chorona
    >>> kkkkkkkkk

    – melhor perguntar do que achar que sabe e fazer errado
    >>> depois das desventuras com o regulamento desse certame, eu não poderia concordar mais… rsrs

    – É um absurdo não falar de geografia na aula de Geografia
    >>> tá certa a indignação, Rogérinho! kkkkk

    ———————–
    SOBRE A TRAMA
    ———————–
    Não há muita trama. São crônicas de uma professora, a rotina contada de um jeito engraçado. Gosto bastante disso.
    A chegada do monstro no final destoou muito do restante, não sei se ficou bom, mas não chegou a prejudicar o ótimo conto (totalmente baseado numa ótima personagem) construído até então.

    ———————–
    CONSIDERAÇÕES FINAIS
    ———————–
    Ótimo conto, um dos meus preferidos.

    NOTA: 5

  18. Gustavo Araujo
    21 de fevereiro de 2019

    Resumo: O dia de uma professora de colégio público com suas aspirações, medos e frustrações; alunos mal educados mas também participativos; diretores que pensam em promoção pessoal e pais incapazes de raciocinar.

    Impressões: O conto é muito bem escrito. Faz uso de uma linguagem dinâmica, fluida e provocativa. Convida o leitor a imergir no mundo da professora Adelaide, fazendo-nos testemunhas de seus medos, inseguranças e indignações. De fato, a protagonista é construída de forma bastante competente, uma pessoal real com defeitos e qualidades, alguém com quem podemos nos identificar de plano. Outros personagens, porém, soam unidimensionais, como a diretora e os pais, mas entendo que servem como vetores para que a pessoa que escreveu o conto dê seu recado, manifeste sua própria indignação.

    Em verdade, o conto me parece muito mais o desabafo de quem trabalha nesse meio do que uma obra de mera ficção. Isso porque a história soa autêntica, verdadeira, ao menos durante o desenvolvimento, o que é ótimo. No fim, quando Adelaide resolve pôr um fim no relacionamento com o namorado folgado, podemos compreender o título: depois de um dia de frustrações, ela resolve libertar sua fúria, como Michael Douglas naquele famoso filme. Abrindo um parêntese, digo que não só os professores têm esse desejo, de libertar a raiva que existe em nós.

    O ponto negativo é que, para adequar o conto à proposta do desafio, a autora se viu obrigada a criar um final Deus-ex, inserindo um monstro destruidor de cidades à la Godzilla. Deu para ver, até porque a autora não fez qualquer questão de mascarar essa adaptação forçada, que a real intenção, de que o real significado do texto foi chamar a atenção para a rotina de sacrifícios que os professores enfrentam, sem o devido reconhecimento.

    É um bom trabalho, ainda que fora da proposta do certame.

  19. angst447
    21 de fevereiro de 2019

    RESUMO: Adelaide é uma dedicada professora que enfrenta uma grande carga diária de trabalho. Seu cotidiano revela-se bastante desafiante, com os constantes obstáculos encontrados dentro e fora da sala de aula. Para piorar, não consegue renegociar seus empréstimos no banco. Na volta à escola, ainda tem que lidar com um pai de aluno, cheio de razão, que impõe sua vontade sem respeitar a professora. Para culminar, no fim do dia, ao chegar em casa, encontra o noivo folgado que só demanda mais trabalho e ainda debocha do fato ter escolhido o magistério como profissão. Ela prepara-se para expulsá-lo de sua casa e de sua vida, mas há um tremor e as asas de Mothra levou o caos e a destruição para a cidade.

    AVALIAÇÃO: Há neste conto, um misto de comédia e fantasia. O cotidiano de Adelaide é angustiante, mas ao mesmo tempo apresenta ironias e particularidades que só rindo mesmo. Texto bem escrito, diálogo bem verossímil , personagens caracterizados de forma adequada, ritmo de narrativa bem cadenciado. Não encontrei lapsos de revisão que mereçam ser apontados. A única coisa que me incomodou foi o fato de que criei a imagem do revoltado personagem interpretado por Michael Douglas, quebrando tudo, e essa catarse foi abafada no final. A fantasia só abre as asas no finalzinho, mas ficou bom.
    Até a próxima rodada. Boa sorte!

  20. Marco Aurélio Saraiva
    20 de fevereiro de 2019

    Adelaide é uma professora endividada, insatisfeita com a própria vida e essencialmente sozinha. O conto mostra um retrato de sua vida – um período de pouco menos de doze horas que se arrasta e demonstra bem a vida da professora da rede pública, até culminar em um ataque Kaiju inesperado.

    O seu conto é uma caricatura exagerada (Se isso não for uma redundância) e com ares de comédia sobre a vida sofrida de um professor do ensino público no brasil. Ganhando pouco, trabalhando como um animal de carga e usando transporte público de baixa qualidade. Além disso, Adelaide é mal tratada pela vida de uma forma geral: pelo chefe, pelo gerente do banco e até pelo próprio noivo (por isso o “exagerado” que falei).

    Vejo o conto como a narração de um dia muito ruim em uma vida que já não ia bem. Você retrata bem todas as dificuldades e dilemas de Adelaide e dá uma boa visão de uma realidade brasileira. Além disso, você escreve bem pra caramba, usando frases inteligentes e impactantes, com um certo tom cômico afiado. Notei que, de vez em quando, você se confunde com o tempo da narrativa (às vezes no pretérito, às vezes no presente), mas foram erros pontuais.

    O final do conto, inicialmente nonsense, é interessante. Para mim, o ataque do Kaiju era tudo o que Adelaide precisava. Era tudo o que ela queria: um “reset”, um fim do mundo onde ela poderia se ver livre de todos os problemas, dívidas e responsabilidades e se preocupar com apenas uma coisa: sobreviver. O conto inteiro constrói uma sensação de desespero até que, quando uma criatura gigantesca ataca, o leitor se sente ALIVIADO por saber que Adelaide ficaria livre de tudo o que foi lido até então!

    Destaque para a frase: “…compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta, não importava o emprego que se arranjasse.”

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B e marcado .