EntreContos

Detox Literário.

Toda Professora Já Sonhou em Ser o Michael Douglas (Joelle von Dyne)

7h45min (Faltam doze horas para o incidente)

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Brasil do Futuro implantara uma rígida política de contenção de gastos. Nesse sentido, duas das cadeiras da sala dos professores, quebradas no começo do ano, ainda não haviam sido repostas. “Precisamos dar o exemplo, nós somos os maestros do amanhã” era a invariável resposta da direção, sempre que um guerreiro tentava a sorte em nome da cervical coletiva. Assim, quando Adelaide chegou, gemeu baixinho: a sala já estava lotada.

Sem opções, encostou-se na parede, na vã tentativa de evitar as estridentes conversas dos colegas sobre fezes de bebês, novenas e acontecimentos da política. Respirou fundo ao sentir vontade de voltar para casa. Precisava do salário. E compreendia que simular surdez, às vezes também demência, era um imperativo da vida adulta, não importava o emprego que se arranjasse.

O sinal para a entrada tocou quando ela resolveu conferir o seu saldo bancário. O alarme arranhou os seus ouvidos, estremeceu desavisados e condicionou os adolescentes a rumarem para os territórios marcados com tinta amarela (6A, 6B, 7A, 7B…), nos quais fingiram enfileirarem-se. Adelaide avistou aqueles rostos espinhosamente jovens e lembrou que daria os oito períodos de aula. Sorriu, sem saber se de forma abnegada ou homicida.

 

8-A, aula de Geografia. Dois períodos

– Pessoal, é necessário que prestem atenção na explicação e que entendam a matéria. Nossa recuperação é na semana que vêm e a turma foi mal no último trimestre. Vou perguntar de novo: dúvidas? Algum ponto sobre as fronteiras não ficou claro? Por favor, depois não adianta chorar no fim do ano. Vamos aproveitar a revisão da matéria!

Adelaide arfou com o esforço em ser o mais didática e animada possível. Ganhou um estrondoso silêncio em resposta. Olhou para as caras impassíveis e agitou os braços, ansiosa por manifestações. Milene, a menina obcecada por desenhos animados japoneses, ergueu o dedo:

– Profe, o que tá escrito ali?

– Ali onde, Milene?

– Ali.

– Aqui, Milene?

– É, profe.

– Estratégia, Milene, estratégia.

– Brigada, profe.

Até a galera do fundão escutou o ranger de dentes da sora, que implorou por intervenção divina nos resultados da prova. Os alunos respeitaram o momento, trocando bilhetinhos e riscando formas geométricas nos cadernos.

9h50 min (Faltam 10 horas para o incidente)

Saiu para o intervalo e deparou-se com um menino do primeiro ano seminu. O conhecido Feijãozinho passou por Adelaide como um raio em direção ao pátio. Camiseta do uniforme, meias e cueca estampada eram o seu figurino. Nem sinal dos tênis. A calça voava nas mãos gordinhas, flâmula da selvageria infantil. Estupefata, não teve tempo de fazer nada. Seguiu, na torcida para que alguém desse conta do fugitivo mirim.

Uma trilha sonora berrava que é para gingar e rebolar que o verão pede mais. Levando em conta que eram poucas as músicas permitidas pela equipe diretiva, Adelaide adivinhou que a próxima seria o lamento da amante na boate. Enquanto isso, meninas assistiam ao Estevan do 9-A ensaiando jogadas com a cesta móvel de basquete dos pequenos. Fingiu repreender o rapaz, mais com riso do que com rigor. Tinha carinho por aquela mistura de ídolo Disney com algum intelectual beatnik e, não, ele não estragaria o brinquedo. Segundos depois, a supervisora, carregando um par de miúdas pernas relutantes no colo, atravessou a sua frente. A briga de Feijãozinho contra as normas do vestuário permanecia intensa.

Sentou, mas foi só respirar para que Fabiana, a contratada de Ciências, se materializasse ao seu lado com um sorriso devoto e a peculiar saia florida:

– Adê, sonhei contigo. Foi lindo! Grávida, um barrigão, a criança era um espírito de luz. Quando os pombinhos vão dar jeito, hein? Queremos um bochechudinho para apertar e visitar.

– Nossa, Fabi, que legal. Nem sei o que dizer.

– Conta quando vai trazer esse anjinho para a Terra.

– É complicado, não me vejo mãe. Muita responsabilidade, quem sabe no futuro…

– Que absurdo, não quer ser mãe? Ser mãe é tão lindo.

– Eu não me sinto preparada.

– E o anjinho?

– Um dia nasce, hehe.

– Ai menina, que horror. Vou ali conversar com a Liane.

A saia varreu os pés de Adelaide, que finalmente pode checar o celular. Porém, a paz acabou junto com o café da sala. Os sedentos pela bebida começaram a reclamar que assim não teriam condições de encarar um quadro-negro, que era inadiável a vaquinha para uma cafeteira maior, que desaforo tinha limite, etc.

 

7-A, aula de História. Um período

Buscou os questionários e, como sempre, pegou as provas de Matemática para a Cátia Beatriz. As outras professoras evitavam o secretário e, frequentemente, Adelaide era intermediária nos pedidos de cópias e afins.

Não compartilhava do pavor, simpatizou com Juliano desde que ele ocupara a vaga da aposentada Orfila. Um garoto competente e tranquilo, qualidades imprescindíveis para quem lida com o setor administrativo de uma escola. Bem, a pintura facial e os crucifixos invertidos que ele insistia em usar eram detalhes, extravagâncias de moço.

Os papéis estavam prontos, organizados por disciplinas e grampeados. Agradeceu com o gesto do chifrinho, pois o volume da música na sala impossibilitava qualquer comunicação verbal.

 

6-A, aula de Ensino religioso. Último horário da manhã

Ata n° 574

Registra-se que no dia 07 de outubro de 2018, o discente Tobias Pinheiro Leite (turma 6-A), na aula de Ensino religioso, pegou uma garrafa de água e despejou o conteúdo da mesma na cabeça de Rafaela Pinheiro Leite (turma 6-A), sua irmã. A docente Adelaide Zabatini Rocha encaminhou os dois para a direção. Ambos foram advertidos e os responsáveis acionados. Nada mais a constar, aqui encerra-se a ata assinada por mim e pelos demais.

Ata n° 575

Registra-se que no dia 07 de outubro de 2018, logo após a feitura da ata sobre o incidente que ocorrera na turma 6-A, a discente Rafaela P. Leite principiou a gritar que todos deveriam ir para o inferno e a proferir palavras de baixo calão. Saiu em disparada, tendo, neste momento, chutado a porta da orientação e amassado a mesma.

Ela foi contida pelo assistente Juliano Favre Leal, sem prejuízo para a sua integridade física. Retornará ao cotidiano escolar somente acompanhada dos responsáveis, que deverão arcar com os custos de reparo da porta. Nada mais a constar, encerra-se aqui a ata assinada por mim e pelos demais.

 

12h30min (Faltam sete horas para o incidente)

A barriga de Adelaide roncou. Contudo, cozinhar, engolir e mastigar demanda tempo e ela necessitava ir ao banco tentar, pela quarta vez, renegociar os seus empréstimos. Nem imagina que é famosa na agência 72 do Banco do Estado, os atendentes de lá a apelidaram de Chorona. E olha que a instituição se orgulha do tratamento que oferece para os funcionários públicos: assentos e água premium são reservados para os mesmos.

O desfecho da empreitada foi que o gerente, com a sua larga corrente de ouro e cabelos esculpidos com gel, agradeceu os serviços patrióticos da professorinha, perguntou para quando seria o casamento e riu cordialmente, só não liberou as cobiçadas taxas mínimas. A Chorona saiu mais pobre do que quando entrou. Para completar, as filas dos caixas eletrônicos terminaram de atrasá-la e o salgado de presunto, mastigado no ritmo dos solavancos do ônibus, bombardeou o seu estômago como uma granada.

 

9-B, aula de História. Dois períodos

Com um prejuízo de trinta e sete minutos, Adelaide chegou esbaforida e, ao mesmo tempo em que arrumava o material didático sobre a mesa, rompeu a passar uma avaliação para o 9-B. Se solicitasse o dever na semana que vêm, perderia o prazo de entrega dos cadernos de classe e, aí sim, ela iria se incomodar:

– Pessoal, vou pedir um trabalho sobre a cultura dos Estados Unidos e….

– Ahhh…

– Letra do alfabeto nenhuma, meus queridos. Desenvolver a habilidade da pesquisa é fundamental e atualmente existe a internet. Ou seja, sem desculpas para não fazerem o trabalho!

– Dá para copiar dos sites? Tipo, imprimir.

– Formandos já são grandinhos o suficiente para filtrarem as informações e escreverem um texto com as próprias palavras.

– Puxa sora, complicado.

– Atenção. A atividade é escolher uma música estadunidense e traduzi-la. Depois, produzir um artigo que explique quando a canção foi composta, qual é a mensagem da letra e os outros dados relevantes que coletarem ao longo das leituras.

– Sora, me explica essa parte de canção composta.

Um urro acusou Joel de burro, o que irritou Adelaide:

– Parou o deboche, melhor perguntar do que achar que sabe e fazer errado. A pessoa terá que explicar quando e como a música foi criada, Joel. Compreendeu? Excelente. Vale qualquer uma. Até do Marilyn Manson, se quiserem.

Jurou que tinha despertado interesse com o nome polêmico e orgulhou-se do quanto era descolada, mas os trinta pares de sobrancelhas arqueadas indicaram que ali acabara de ocorrer um conflito de gerações:

– Tá, nono B, matem a minha curiosidade. Quem escuta Marilyn Manson?

Fernanda, sempre educada, pediu a palavra:

– Professora Adelaide, o meu pai gosta dele. Acho barulhento e chato, mas ele é fã.

Derrotada, a não tão jovem regente aceitou que o rock pauleira fosse ignorado. Entretanto, sublinhou que não admitiria descuidos com as referências da tarefa. Os estudantes, aos risos, bradaram que pesquisa sem bibliografia não tem serventia. A troça carinhosa com o seu velho ditado lhe arrancou o único sorriso da tarde abafada.

 

15h05min (Faltam quatro horas para o incidente)

Para aproveitar um naco de solidão, fingiu que corrigia provas durante o intervalo. Logo, cada desavisado que tentou atrapalhar o momento sagrado, pegando merendas ou esquecimentos do tipo, foi fulminado com os olhos por cima dos óculos de Adê. Ninguém insistiu na missão. Gostavam dela, mas não era por acaso que os cartunistas do colégio teimavam em desenhá-la com o capacete do Darth Vader.

 

7-B, aula de História. Dois períodos, até o encerramento da tarde

Sussurros de “saca a camiseta do Juliano” precederam o recado de que Lola, a diretora, queria Adelaide no seu escritório imediatamente. Torcendo por um engano, selecionou atividades do livro para a turma e atendeu a convocação que cheirava a transtorno. O ponto é que o seu olfato era infalível. Silas e a esposa, pais do Jonas do 6-A, aguardavam-na para conversarem.

Na tentativa de semear a paz no ambiente, sorriu e estendeu a mão para cumprimentá-los. O casal recusou a proposta com duros acenos de cabeça. Lola, mais agitada que o normal, ordenou que a subalterna escutasse o que a família tinha a dizer:

— Professora Adelaide, sou um homem que respeita o magistério. Função complicada, lidar com quarenta crianças numa sala. Também esclareço que não sou um ignorante. Permito que os meninos passeiem, me informo sobre política, aceito bastante coisa. Só não tolero que mexam com a minha família! Eu é que decido o que é certo ou errado para eles.

Adelaide notou que a mulher, que balbuciava animadas concordâncias ao monólogo do marido, não fora apresentada e que ninguém estava preocupado com isso:

— Vacina é mentira, governo inventou pra enfiar moléstias nas pessoas. Não tomei, meus filhos não foram picados e, ó, tão tudo firme e forte. Continuaremos assim. Ontem, o Jonas veio me perguntar se era vacinado. Cismado na tal injeção, que a senhora teria dito que previne doenças. Não tive escolha, dei umas palmadas e coloquei de castigo. Daí exijo esclarecimentos, qual a razão de falar disso na aula de Geografia?

— Pai, o debate era sobre as descobertas da ciência e como elas mudaram as sociedades. Mencionei a penicilina e…

— Peraí, eu estudei e sei que geografia são os rios, os mapas, não essa penicilina ai. É um absurdo não falar de geografia na aula de Geografia.

O primeiro impulso foi o de discursar sobre o conhecimento como motor do progresso, a importância da liberdade de pensamento e outras questões epistemológicas profundas. Todavia, se deu conta de quem estava ao seu redor. Um homem que, por ser afilhado do prefeito, acreditava poder tudo: desde matricular os filhos sem a documentação exigida até cobrar propina em postos de gasolina. Uma diretora que, para subir de cargo, rolaria no chão e latiria. E uma mãe que abdicou do próprio nome. Não havia possibilidade de diálogo, não sem ser massacrada. Por isso calou, lembrando-se de que mártires invisíveis não são muito úteis. Como cantava o velho Seixas, seria horrível morrer dependurada numa cruz.

Listou mentalmente as compras que faria no mercado e quase resolveu a indecisão entre pagar a internet ou a academia, quando a voz masculina a puxou de volta para a escola:

— Meus cumprimentos, professora. Espero que tenhas entendido que não é pessoal, mas que preservo os meus filhos acima de tudo. Gostei da conversa, da abertura para as minhas ideias. É por isso que manterei o Jonas aqui, até a sua formatura. Vamos, querida!

Enquanto a diretora mostrava toda a arcada dentária para aquele que, quem sabe, poderia ser a sua ponte para a Secretária de Educação, Adelaide balançava a cabeça maquinalmente.

 

5h25min (Faltam duas horas para o incidente)

O apito que anunciou o fim do expediente, mesmo exagerado, soou como música para os seus ouvidos. Adelaide correu até a parada, alcançou o ônibus e passou os vinte e cinco minutos do trajeto de pé, sentindo pulsar cada veia de suas pernas. E, se antes desconfiava, também passou a ter certeza de que a empresa municipal de transportes era a fachada de um laboratório de subversão as leis da física.

 

7h25min (Faltam vinte minutos para o incidente)

Carregada de sacolas, topou com Maurílio, o seu noivo, esparramado no sofá. Ao vê-la, ele abriu o clássico sorriso de pedinte e, sem nem lhe dar um beijo antes, disparou a miar favores:

— Mozão, eu tô exausto. Lava a louça e faz aquela macarronada para nós?

— Maurílio, meu dia foi péssimo.

— Ai, Dedê, tá sempre reclamando.

— Eu tô sempre reclamando porque eu nunca consigo descansar!

Maurílio, num muxoxo, retrucou que quem mandou ela querer ser professora e que escolas nem são tão cansativas assim. Foi o que bastou.

Decidiu terminar, expulsaria aquele traste do apartamento. Para garantir que ele levasse somente o que comprou, marchou para o quarto e começou ela mesmo a fazer as malas. Porém, o tremor de terra, que Adelaide nunca descobriu a causa, impediu que o relacionamento acabasse. Terror! Mothra surgiu nos céus. Batendo as gigantescas asas, levou caos e destruição para aquela cidade que, por estar tão longe do Japão, nunca havia se preocupado com um plano de prevenção para kaijus.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.