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Detox Literário.

Salvador ou a Lenda do Medroso Valente (Sal Vahdor)

 

1. A espada e o escudo

Era uma vez um rapaz que não conhecia o medo.

Nota do autor: o que acabei de escrever é mentira. Era um rapaz como qualquer outro e se alguém disser que nunca teve medo na vida é tão mentiroso como o início deste conto. Portanto, vou recomeçar, desta vez contando toda a verdade…

Era uma vez um rapaz medroso como nunca tinha sido visto igual naquela pequena cidade do interior. Tinha medo de tudo, desde o escuro aos insetos, passando pelas alturas, pelos palhaços e pelas freiras da Ordem de Cluny da escola onde andava. Só não tinha medo da própria sombra, porque ele podia ser medroso, mas não era estúpido.

Os pais, desconhecendo o caráter que o filho viria a ter, no momento do nascimento deram-lhe o nome de Salvador. Mais tarde, quando o pequeno cresceu e a peculiaridade do seu caráter se mostrou, eles deram-se conta do erro e a ironia tornou-se motivo de chacota na privacidade do casal.

Salvador era pequeno para a idade, tinha pulmões fracos e era alérgico a tudo. No nariz equilibrava uns óculos de vidro grosso que diminuíam os seus olhos a um tamanho anedótico. Na escola, isso bastava para que ele se tornasse motivo de perseguições dos colegas. Só encontrava alguma paz de espírito na biblioteca, a ler livros de aventuras que o transportavam para lugares onde não precisava ter medo – como se isso fosse possível para quem tinha medo de tudo, até mesmo do longo e sombrio corredor da cave que dava para o salão que o pai fizera especialmente para ele.

O caso era de tal ordem que os pais, quando o alarme ultrapassou o aceitável, o levaram a um psicólogo que lhes explicou, depois de algumas consultas pagas a preço de ouro, que o Salvador não sofria de nenhuma doença, porque o medo não podia ser tratado como tal. O medo era apenas medo. Não havia vacina nem comprimido que o tratasse. Era algo tão natural como a coragem. Só precisava de aumentar a sua auto-estima. Pouco convencidos, decidiram recorrer a instâncias mais elevadas.

Ele chegou no seu pequeno Citroën 2CV vermelho de 1966. Deu-se pelo carro ainda antes deste entrar pelos portões da casa, tanto pelo barulho anacrónico do motor como pelo intenso nevoeiro negro que o seguia. Dele saiu o avô, uma criatura ainda mais anacrónica do que o próprio carro. Parecia uma personagem de um dos filmes italianos antigos que o pai do Salvador costumava ver. Usava um fato cinzento e um chapéu gasto pelo tempo. Desde que se lembrava, Salvador sempre o tinha visto com aquele fato e aquele chapéu. Era um gigante de mãos grandes que o sentava ao colo e lhe contava histórias. Quando o avô falava, parecia que o mundo parava para o neto, que contemplava cada palavra como verdade suprema inquestionável.  

“Trouxe-te um presente, mas tens de prometer guardar segredo”, disse naquele dia o avô. O coração do Salvador bateu mais rápido – presentes e segredos eram as coisas mais importantes para ele. Estavam os dois sozinhos no salão da cave, sentados no sofá velho, à frente da televisão e de um monte de brinquedos no meio dos quais Salvador costumava passar horas. O avô passou-lhe um embrulho grande de papel castanho toscamente feito, que Salvador rasgou com a gana que lhe era habitual nessas alturas – e só nessas alturas. Lá dentro encontrou um escudo e uma espada de madeira pintados à mão.

“Foi o meu pai que fez, o teu bisavô. Ainda me lembro de quando ele me sentou ao colo e me contou o segredo da nossa família.”

O Salvador abriu muito os olhos. Segredo? Pensava que o único segredo da família era o tio Aníbal que tinha sido preso por assaltar um banco.

O avô tossiu, inundando o salão de um forte cheiro a tabaco que fez o próprio Salvador tossir.

“Desculpa… Como estava a dizer, a nossa família tem um segredo que é passado de geração para geração. Nós temos a missão de defender as nossas casas e as nossas famílias contra a ameaça do mal.”

O pequeno Salvador pegou no pequeno escudo de madeira e na igualmente pequena espada e, brandindo-a no ar, perguntou: “E o avô acredita mesmo nisso? É apenas uma espada e um escudo de brincar. Tenho outros, ainda melhores.”

“Estes são diferentes, Salvador. São mágicos, mas o mal da magia é  que tens de acreditar para que ela aconteça. Se não acreditares, nunca vão passar de dois brinquedos de madeira.”

O eco das palavras do avô ficou a ressoar no espírito do pequeno Salvador, que guardou a espada e o escudo num canto sem lhes ligar nenhuma até ao Dia do Barulho.

 

2. O Dia do Barulho

O Salvador estava sozinho em casa. Anoiteceu rapidamente e ele foi apanhado no salão com a luz do corredor desligada. Primeiro, o Salvador não deu conta, entretido que estava a assistir à sua série favorita na televisão. Foi só quando acabou a série que duas coisas aconteceram:

(1) Ele reparou na escuridão do corredor;

(2) Ouviu um barulho inexplicável que vinha do mesmo corredor e que lhe fez disparar o coração.

Tudo tem uma explicação lógica, disse ele em voz alta, numa tentativa infrutífera de arranjar coragem. O seu olhar caiu, então, sobre o escudo e a espada de madeira do avô. Pegou neles, engoliu em seco e deu dois passos em direção ao corredor. O barulho repetiu-se. Era um som seco e forte. Ele não teve dúvidas: havia alguma coisa no corredor. Depois do barulho, sentiu o cheiro a peixe podre, como quando o Alberto se tinha peidado na aula de Matemática.

Foi só depois dos seus olhos se terem adaptado à escuridão que o Salvador o viu. Era grande, quase chegava ao teto, tinha o corpo coberto de pelos e escamas, umas imensas asas de morcego e garras do tamanho da pequena espada de Salvador. Os olhos eram de fogo e a boca estava cheia de dentes afiados. Dos livros que lera, sabia de que animal se tratava: um Dracossauro, um cruzamento perdido entre dinossauros e dragões. Um ser lendário que só na lendas mais obscuras aparecia. A única coisa que ele não percebia era o que fazia no seu corredor, pensou Salvador, enquanto tentava arranjar uma saída, tolhido pelo medo e hipnotizado pelo olhar de fogo do Dracossauro.

Olhar de fogo.

Salvador saltou para o canto do salão onde o pai tinha colocado um extintor de incêndios, depois de um pequeno acidente com um jogo de experiências de Química. Arrastou-o penosamente   até ao corredor e, esquecendo o medo, fê-lo disparar.

“Toma lá gás carbónico, monstro nojento!”, gritou, enquanto admirava a sua obra: uma nuvem espessa de fumo branco que inundava o corredor e o fizera tossir como nunca tinha tossido antes. Quando dissipou, Salvador viu que tinha conseguido o seu objetivo: cegara o monstro. Sem pensar no que estava a fazer, pegou na espada e no escudo e começou a bater no Dracossauro, que grunhia como um javali. A besta era forte, mas o minúsculo Salvador era rápido e ágil. Sentia o poder das suas garras e dos seus dentes, mas também lhe sentia o medo. Num gesto irrefletido baixou demasiado o escudo, recebendo um golpe em cheio no peito que o projetou contra a parede, partindo o jarrão grande que a avó tinha dado à mãe.

“Estou feito”, pensou, com o peito e as costas a gritarem de dor – mas a besta ainda mexia, pelo que voltou a pegar na espada e foi à luta, distribuindo espadeiradas a torto e a direito. Sentiu com orgulho que o monstro estava a perder a força e, no preciso momento em que o Dracossauro soltava o seu último suspiro e desaparecia no ar, a luz do corredor acendeu-se e a mãe do Salvador apareceu. O Salvador, todo sujo e a sangrar da testa, exibiu orgulhosamente a espada e o escudo. Ele tinha morto a besta. O que interessava se a alcatifa estava manchada pelo gás ou se tinha partido tudo? O que interessava se a mãe não acreditava nele? O segredo era para ser mantido. Tinha prometido ao avô e o pequeno Salvador gostava de cumprir as suas promessas. Libertara a casa do monstro e isso fazia valer a pena os gritos e a semana de castigo no quarto, onde passaria o tempo a ler e a olhar pela janela para o jardim que era ocupado quase integralmente por uma nogueira cuja altura ultrapassava em muito a altura da casa.

Foi num dos ramos mais altos da nogueira que o Salvador viu o ninho. Não era um ninho de pássaro. Ele já tinha visto o desenho num livro. Usou os binóculos para ter a certeza. A configuração não deixava margem para dúvidas: era um ninho de Dracossauro. Se o destruísse, a casa estaria a salvo. Só tinha de arquitetar um plano que começava por tentar esquecer o seu medo pelas alturas.

 

3. O Ninho de Dracossauro

“Salvador, prometes que te portas bem?”, perguntou a mãe.

Ele acenou afirmativamente com a cabeça. No entendimento dele, destruir o ninho de Dracossauros no alto da nogueira estava incluído no bom comportamento, mas sabia que ela, como todos os adultos, tinham dificuldade em compreender esses pormenores. Viu-a sair de casa e ir para  o trabalho. O pai tinha saído ainda mais cedo, pelo que ele estava oficialmente sozinho em casa e fora do castigo. Fez os deveres de matemática e depois saiu para o jardim. A nogueira ali estava, imensa. Para todos os efeitos, a árvore mais alta do mundo.

Salvador arrastou o escadote até ao tronco. Fez um esforço para o encostar da forma mais firme que conseguiu, depois engoliu em seco e fez o possível para não olhar para baixo enquanto subia. Do escadote subiu para o ramo mais baixo, e depois foi subindo até ao ramo onde estava o ninho. Foi ali que ele cometeu o erro de olhar para baixo e faltou-lhe o ar. Nunca tinha estado tão alto. Descobriu que não conseguia mexer-se. Estava agarrado ao ramo, paralisado pelo medo. Tremia como nunca tinha tremido na vida. Queria chamar pelos pais, mas sabia que eles não estavam em casa. Tinha de ser ele a resolver o problema. Mas, primeiro, tinha de destruir o ninho. Arrastou-se como uma lagarta pelo tronco e chegou à massa de ramos e folhas que constituía o ninho. Fez força e conseguiu atirá-lo ao chão, mas o feito não o tranquilizou. Faltava o mais difícil. Tentou descer para o ramo inferior, mas desequilibrou-se e caiu desamparado no chão.

 

4. Mea culpa

“A culpa é sua, pai.”

Salvador acordou na cama de hospital. À sua volta tinha os pais e o avô.

“Que eu saiba, não fui eu que o mandei subir à nogueira.”

A discussão era feita em voz baixa. O Salvador pediu água.

“Estás bem?”, perguntou o pai.

“Como é que ele pode estar bem se partiu o braço? Tu e o teu pai são iguais. Parece que não vivem neste mundo”, gritou a mãe.

“Eu estou bem, mãe”, sossegou-a Salvador, mas a mãe já tinha virado o azedume para o avô.

“Se não fossem as suas ideias, Sr. Aníbal, ele nunca teria subido.”

“Eu caí ao descer, não foi ao subir, mãe…”

“Tu podias ter morrido!”, gritou a mãe.

“Clara, ele podia ter morrido, mas não morreu. Teve a coragem necessária para subir à árvore. Daqui para a frente, vai ter a coragem para enfrentar tudo. Um braço partido é um bom preço a pagar por uma vida sem medo. Claro que não vale a pena abusar da sorte, Salvador. Acabou a tua carreira como alpinista, certo?”

Salvador sorriu e olhou para o braço engessado. Desconhecia que a sua vida mudaria depois do acidente. Tal como tinha prometido ao avô, nunca mais subiu às árvores. Também nunca mais precisou de lutar contra Dracossauros ou qualquer outro animal lendário em casa. Ele tinha feito um bom serviço. Ao regressar à escola descobriu que ele próprio se tinha transformado numa lenda ao cair da nogueira e os fanfarrões da escola nunca mais se meteram com ele. De qualquer forma, não seriam um desafio à altura de quem já tinha matado um Dracossauro adulto com uma espada de madeira.

O tempo acelerou mesmo sem ele sentir a diferença. Ultrapassou a infância e a adolescência. Namorou, tirou o curso. Fez-se adulto. O avô, que ele sempre pensara ser um gigante, tornou-se cada vez mais pequeno com o passar dos anos, até caber debaixo do braço, o corpo mirrado como uma uva-passa fora de época, a pele fina, quase transparente, o olhar sumido mas ainda matreiro, a voz que se transformara num sopro quase inaudível até que um dia deixou mesmo de se ouvir e ficaram apenas as memórias. Nesse dia, Salvador soube o significado da verdadeira dor, apenas suplantada pela dor que sentiria, muitos anos depois, pela morte do pai e da mãe.

 

5. A luta continua

Chegara o Outono naquela casa, situada a demasiados quilómetros da casa onde Salvador tinha crescido. O choro da criança era uma constante. O Eduardo tinha os olhos da cor do mar e um tufo de caracóis loiros transformavam-no num anjo maroto. A mãe pegou nele ao colo, mas nem assim ele se calava.

“O avô está aqui. Queres que ele pense que és um bebé chorão? Já és um homem crescido!”

O Eduardo calou-se ao pressentir a chegada do homem que adorava. A mãe pô-lo no chão e ele correu para aquele homem que ele pensava ser um gigante. Na realidade, Salvador tinha uma estatura mediana, mas isso nunca lhe tinha feito perder o sono.

“Então, estás a chorar outra vez, Edu?”

O menino abanou a cabeça, limpando as lágrimas à manga da camisola.

“Trouxe-te uma prenda.”

“É um jogo, bô?”

“Não, não é um jogo. Mas tem de ser um segredo só nosso. Um segredo que me foi passado pelo meu avô.”

Salvador pousou o neto no chão e deu-lhe um embrulho que ele tinha feito. O Eduardo desembrulhou-o numa fúria expectante. Sentiu-se algo desanimado quando deparou com uma espada e um escudo de madeira de aspeto antigo, que ainda cheirava ao verniz que Salvador lhe tinha aplicado alguns dias antes. Eduardo pegou na espada, brandiu-a no ar, mas logo se desinteressou dela e pegou na sua consola portátil.

Outros tempos, pensou Salvador, não se deixando desanimar. O menino levantou-se, anunciando-se aflito e saiu da sala a correr, deixando Salvador sozinho na sala com os seus pensamentos, até  que um cheiro familiar o fez levantar-se. A besta regressara. Viu-a no canto da sala, a chamar por ele.

Ele pegou no escudo e na espada (que eram tão pequenos, meu Deus!) e investiu. Foi ajudado na luta pelo neto que entretanto chegou. Juntos, derrotaram o monstro enquanto Joana gravava tudo no smartphone, num vídeo que publicaria no Facebook, no álbum chamado de “As fantásticas lutas imaginárias do Edu e do avô contra o lendário Dracossauro”.     

FIM

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.