EntreContos

Detox Literário.

O Saci-pererê Galopando uma Mula-sem-cabeça (Tinamou)

Saci-pererê e mula-sem-cabeça, conversavam sobre futebol, na cachoeira do Lobisomem, ao lado da ilha do lago. O Saci-pererê é um “moleque” peralta, que gosta de infernizar as pessoas com suas brincadeiras. Já a Mula-sem-cabeça, prefere assustar quem passa perto. E ambos têm algo em comum, são vistos muitas vezes na roça. Então resolveram se encontrar a noite, para conversar um pouco mais sobre seu time.

Porém, como começou a chover, adiaram a reunião. Há tempo desejavam isto, mas vira e mexe dava errado. O motivo sempre o mesmo, a chuva. Para ambos, era sinal (obvio) de ficar em casa. Uma não tinha cabeça para sair neste tempo, o outro, a cada passo, um escorregão e “tum” de bunda no chão.

Mas era só questão de tempo (bom) e uma hora daria certo. Portanto, deixaram nas mãos de Deus, quando estiasse, se encontrariam no lago, a beira da cachoeira do Lobisomem. Na primeira oportunidade, após a lua cheia. Por que, se o sujeitinho estivesse por ali, não iria rolar. Eita cara complicado o Lobisomem. Numa noite “tava” de boa, noutra, parecia que se transformava.

O local foi escolhido a dedo. Bonito, cheio de belas árvores, o céu um deslumbre só. Havia até uma caverna, onde poderiam se abrigar caso chovesse, como também, fazer o churrasco. No que a mula-sem-cabeça se prontificou e disse; – eu faço o fogo. Depois da cachoeira, havia um pequeno lago, ao lado deste, um gramado lindo, um tapete. No lago com suas águas transparentes e cheio de pedras, uma ilha era paradisíaca.

Todos os… bem, quem morava lá, amava o local. Haviam dois moradores famoso, o “Boto-cor-de-rosa”, ou “botinho lindo”, como ficou conhecido. No entanto, nunca gostou de ser chamado assim e dizia; – mas bah tchê, não gosto desse apelido, sou macho. Porém, todos sabiam quem fez a gozação, foi o Saci-pererê. E por isto, nunca entrava na água, dizia que não sabia nadar. Na verdade tinha receio, vai que o boto pega ele e passa uma rasteira.

A outra moradora ilustre deste lago, Iara, um deslumbre de mulher. Entretanto, ela e Boto-cor-de-rosa não se “acertavam bem”. Iara achava o Boto-cor-de-rosa meio fresco, daí o motivo do Saci-pererê “cair no pelo do Botinho lindo”, sempre que podia, alfinetava.

Como não era muito comum este tipo de encontro, os anfitriões resolveram não chamar ninguém. Quem sabe em uma próxima. Contudo, o quero-quero, um cara que não cala a boca nunca, não aguentou e deu com a língua no bico. Mas, como ele ficou sabendo, sempre foi algo que incomodou a galera. Em um golpe de sorte, Curupira matou a charada.

Ao anoitecer, Curupira estava de olho em alguns pescadores, que não pescavam, apenas se divertiam. Pegavam o peixe e soltavam, pura sacanagem isto. Machucam os animaizinhos e não comiam; – vou “botar” um fim nisso, disse Curupira. Havia uma reclamação do sindicato dos peixes, para que alguma medida drástica fosse tomada. E como ele (Curupira) era o defensor dos fracos e recebia por isto, tinha até o valor descontado no recibo de pagamento, era obrigado a tomar uma atitude. E disse; – ok, faço, mas precisamos sentar e conversar, esse desconto de aposentadoria eu acho um absurdo. Somos eternos, para que pagar isto? O porco do mato não falou nada, era o responsável por esta lei absurda.  

Depois desta reflexão, voltou a sua guarda, estava de “tocaia”, esperando os meliantes. Quando de repente viu o quero-quero, se aproximando de onde Curupira estava. Achou estranho, todos sabem, este passáro não fica em campo fechado, a casa dele é gramado, estilo perto da cachoeira do Lobisomem. Contudo, não deu importância, poderia ser um voo “à toa”. Mesmo assim resolveu prestar atenção.

Ao lado do riacho tinha um lugar bonito, uma árvore caída, que servia de ponte para os pescadores. Porém, os bichos da floresta usavam aquele lugar para namorar. Era comum serem flagrados por ali, casaizinhos assanhados. Até Lobisomem dizem, foi visto nas imediações, no maior amasso com “dona Pisadeira”, uma coroa enxutona.

Seus devaneios foram quebrados por um estalo. Porém, ao perceber que não havia ninguém, sabia quem estava chegando, só poderia ser Comadre Fulozinha. Quando ela queria, não era vista. E pensou, será que o sindicato dos peixes, chamou também ela para dar um jeito nos pescadores? Num raciocínio lógico, imaginou o que poderia ser a resposta. Se está acontecendo isto, eu sei de quem é a culpa, das Traíras. Traidoras, será que pediram o serviço de outro? Não confiam mais no meu trabalho? Assim que resolver aqui, terei uma conversa com eles. E voltou a seu silêncio.

A cena que viu a seguir foi única, não acreditou. Na moita, ao lado da árvore caída, Dona Fulozinha toda bela, de vestidinho colado, colar brilhante, com certeza presente de “Mãe de ouro”, ao avistar quero-quero, apareceu. Coincidência pensou Curupira. Que nada, ficou de queixo caído, ao chegarem perto um do outro, foi aquele beijo de estalar, se abraçaram e ficaram papeando por um tempo.

Por conta desta casualidade, todos ficaram sabendo o porquê do churrasco. Dona Fulozinha falou ao quero-quero; – estava eu, em uma bela noite de lua cheia, uma quinta feira, dava pra sair sem medo, você sabe né, Lobisomem quando tá nos dias, sai de perto. Parou por um instante e retomou; – ouvi Saci-pererê e Mula-sem-cabeça marcar um churrasco, uma pelada, não entendi bem, achei que estavam falando sobre alguém aqui da mata, mas não, era sobre uma partida de futebol, parece que vão promover uma confraternização.

Então conversaram mais algum tempo, sobre diversos assuntos, por fim ela pediu segredo, pois se eles não queriam que outros soubessem, para quê alardear. E quero-quero consentiu; – ok meu amor, pode deixar, não comento com ninguém. Beijaram-se de novo por um longo tempo e foram embora.

Nisto Curupira quase caiu da árvore de tanto rir, esse sujeito guardar segredo, impossível. Só tinha um, “saia na moita” com dona Fulozinha. Pois sabia, se Capelobo soubesse desta traição, até sua terceira geração, nasceria sem pena. O amante de Fulozinha era “doido de pedra”.

Contudo, Curupira resolveu não falar nada sobre o jogo, sabia, quero-quero não resistiria muito tempo.

E não deu outra, aproveitando um luau na vila, Saci-pererê e Mula-sem-cabeça, foram se divertir, assustar o pessoal. Quero-quero aproveitou e saiu falando para todos; – olha pessoal, parece que esses dois que foram assustar as pessoas na vila, farão um churrasco, para discutir sobre uma pelada, eu achei um absurdo fazer isto e mão chamar todo mundo, então acho que devemos atrapalhar a organização. Muitos não viram lógica nisto, outros acharam uma afronta à coletividade, afinal, todos eram “donos” daquele local. Portanto, não poderia existir panelinha. Depois de algum tempo discutindo, deram razão ao quero-quero. E cada um se propôs a não falar nada, apenas espiar, para ver no que iria dar.

Entretanto, alguém falou mais que o necessário. E todos sabiam, quem não havia cumprido com sua palavra. No dia do churrasco, apesar de Saci-pererê e Mula-sem-cabeça chegarem ao local no horário combinando. Foram os últimos, no mais, “tava todo mundo lá”.

Dona Fulozinha estava invisível, ninguém me vê aqui, quero-quero ficou atrás das pedras, Curupira fez que não foi, coitadinho pensou Boitatá atrás do coqueiro, suas pegadas não enganavam mais. Num canto quietinho, Capelobo observava tudo e prestava atenção à dona Fulozinha, ela andava muito estranha. Iara e Boto-cor-de-rosa, sob uma moita, quietos observavam a cena, era um lugar privilegiado. Lobisomem não estava, a noite não era para ele. Mãe de ouro ficou junto dos girassóis, não chamava a atenção. Pisadeira nem disfarçou, disse que não estava bem da barriga e ficou por ali. Tinha tanto bicho querendo entrar, que parecia festa dos insetos, ou a corrida para a arca de Noé.

Enfim começou o churrasco, porém não demorou muito, Saci-pererê, malandro que só ele, falou; – quem estiver escondido e quiser participar do churrasco, saia do esconderijo, vocês são ruins para enganar os outros. Riu e concluiu; – o quero-quero já dedurou todos.

Depois de assentados confortavelmente, Saci-pererê disse, – pessoal é o seguinte, resolvemos fazer um churrasco e não chamar ninguém, porque nunca houve este tipo de confraternização, vai que não dá certo, alguém bebe umas a mais e fala besteiras, pode acabar mal.

Ouve uma vaia geral e depois de alguns minutos de muito falatório, a bicharada e entes presentes, se propuseram há respeitar aquele dia e ninguém sair da linha. Nisto Capelobo falou; – deixem a segurança por minha conta. Ninguém discutiu a intervenção dele. Então, só faltou discutir o dia da pelada. E a Mula-sem-cabeça disse, – que tal sexta próxima. Sem pensar, foi aceito por todos. Porém, cometeram um erro infantil, era lua cheia e o Lobisomem? Ninguém se lembrou deste detalhe, ficaram muito empolgados. Caso o capitão Nascimento estivesse presente diria; – “vai dá cocô, tô avisando, vai dá cocô”.

Enfim, após uma interminável semana, chegou o dia esperado, chamaram o burro, a vaca, tinha até cabrito para deixar o pasto (campo) aparadinho. Só que o boi fez uma grande besteira, havia tomado umas na noite passada, deu diarreia e o campo estava cheio de montes. Os Vagalumes reunidos, garantiram a iluminação. Tudo estava perfeito.

Então era só rolar a bola, mas esqueceram dela, e o Tatu-bola resolveu a situação, porém, nada de bicudão, se acontecer saio e a partida acaba.

A torcida estava divida da seguinte forma, quem torce pelos Sacis-pererê, deste lado, na outra parte, quem torcia para as mulas sem cabeça. Mas uma coisa chamou a atenção, havia muitos torcedores sem time, que ficaram na geral. Eram os outros seres das florestas, “tava” Boitatá, Corpo seco, tinha insetos e muitos animais, dizem até que conde Drácula apareceu.

Alguns bichos eram parte na organização do evento. Seo Cigarra, lógico, árbitro do jogo. Quero-quero, narrador. O boi, não foi, estava com o traseiro assado. O gambá ficou de bandeirinha, porém, nada de erguer o rabo. Seu Coruja, com visão privilegiada, era arbitro de linha. A Anta era a massagista, dizem que sua trompa fazia milagres. O Macaco animava a torcida. O Urubu na maca, vai que alguém… Enfim, estava uma festa só. Em torno do campo, sem cerca, estava Capelobo, com cara de poucos amigos.

Antes de iniciar a partida, combinaram, o Saci-pererê não poderia usar muleta. E a Mula-sem-cabeça não poderia esquentar a cabeça, caso isso ocorresse, o jogador seria expulso.

Feita a escalação, quero-quero leu a lista com os nomes dos jogadores, – o time das mulas terá a seguinte escalação, no gol, Mula-sem-cabeça, na zaga, Mula-sem-cabeça, nas laterais, Mula-sem-cabeça, então fez uma pausa, e olhou os nomes dos outros jogadores e percebeu, todos usavam o mesmo. E agora, o que fazer? Rapidamente resolveram a situação, colocaram um inseto sobre cada Mula-sem-cabeça e Saci-pererê. E ficou assim a escalação, Mula-sem-cabeça com Berne no gol, na zaga, Mula-sem-cabeça com Piolho, no meio campo, Mula-sem-cabeça com Lesma e por ai afora. Nos Sacis-pererê a mesma coisa, Saci-pererê com Pulga, no gol, Saci-Pererê com Sarna, na zaga, Saci-pererê com Bicho de pé, era centroavante e Saci-pererê Mil pernas, encerrou a lista.

Enfim, depois deste último contratempo, seo Cigarra da início a partida.

E Mula-sem-cabeça toca na bola, sem saber para onde chutar, apontou para onde o nariz (nariz?) estava virado e “pow”. O Tatu bola (bola do jogo) por ter levado um chute “bem lá”, gritou de dor, nisto estava em direção à seo Cigarra, de boca aberta por causa da dor, engoliu o juiz.

Os árbitros de vídeo, Iara e Boto-cor-de-rosa, inocentaram tatu bola da “refeição acidental”, afinal, o culpa era da Mula-sem-cabeça, foi avisado, nada de bicudão.

E recomeça o jogo, Tatu ao chão, Saci-Pererê com Sarna, esperto, sai em disparada (corria feito louco), dá o drible da vaca na Mula-sem-cabeça com Lesma (lerda que só ela) e cruza Tatu-bola. A zaga se antecipa a Saci-pererê com Grilo pulador e cabeceia para escanteio. Porém, não encontraram a bola, melhor o Tatu-bola, de novo o arbitro de vídeo foi chamado. Enquanto isto, a mula-sem-cabeça se debatia e como o Urubu demorou a chegar (dizem que foi por querer), ela morreu. No laudo de necropsia, o Urubu rei (perito nesta arte) afirma, a Mula-sem-cabeça se engasgou com o Tatu-bola e morreram. Uma asfixiada e o outro um pouco torrado, meio fora do ponto, porém, saboroso.

Moral da historia, a segunda baixa em poucos minutos de jogo. Ao “cabecear sem cabeça”, a mula engoliu o Tatu-bola e deu origem a um novo prato culinário, Tatu-bola assado com Cigarra. Quem provou, diz ser uma especiaria inigualável.

Logo após este incidente, o jogo ficou monótono. Era muita bola (outro Tatu-bola) fora por parte dos jogadores. As Mulas-sem-cabeça não trocavam passe, os Sacis-pererê, reclamavam dos montes escorregadios, que o Boi deixou, não paravam em pé. E logo veio o intervalo.

Passado este, já era quase meia noite e o Tatu-bola voltou a rolar. No primeiro lance de ataque, Saci-pererê com Bicho de pé (era o queridinho das senhoritas, Sacis pererê), fez o gol, porém o Gambá disse que estava impedimento. Foi uma correria, Saci-pererê jurava que não e quiseram partir para cima do bandeirinha. Capelobo foi ajudar, e Gambá deu uma piscada, virou para os Sacis-pererê e ergueu o rabo, não houve mais revolta. Porém, insatisfeitos com a marcação, pediram arbitro de vídeo.

Após dois minutos, Iara e Boto-cor-de-rosa partiram em disparada rio abaixo. Ninguém entendeu nada. Quero-quero, que havia parado de narrar o jogo há algum tempo, foi ver o quê havia acontecido. Colocou no telão e todos observaram estarrecidos as cenas.

Uma câmera mostra ao fundo o lance, porém o que chama a atenção é outra coisa. O quero-quero aparecia na tela, no maior amasso com Comadre Fulozinha, estavam atrás da placa de publicidade, bem longe de Capelobo, imaginavam-se seguros. Quando a cena foi mostrada no campo, Capelobo não entendendo por que olhavam para ele e riam, resolveu prestar atenção no telão. Viu a cena e procurou quero-quero, bem ao longe, no alto voava seu desafeto. Mesmo assim saiu em disparada, queria pegar aquele desinfeliz.

Contudo, havia outra câmera e esta mostrava a bela cora Pisadeira, apontando para a lua e gritando; – é meia noite, é meia noite, fujam, ele tá vindo. Todos entenderam o recado, que erro bobo, esqueceram o Lobisomem.

Caraça mano, foi um Deus nos acuda, pareciam um monte de Judas pedindo perdão. A coroa Pisadeira tentou intervir, mas foi sem sucesso. O Lobisomem parecia sem freio, onde levava o braço caia um, dois, até mais. E gritava; – quem organizou isto e não me chamou? Ninguém assumia a culpa. Comadre Fulozinha sumiu por uns tempos, Mãe de ouro não se movia, Boitatá nem sinal, enfim, quem pode sumiu.

Só quem viu a cena pode atestar, contudo, dizem que Saci-pererê e Mula-sem-cabeça, firmaram uma parceria eterna.

A mula-sem-cabeça corre e Saci-Pererê a galope nela grita, – freia, acelera, vira para a direita, agora para a esquerda, pula.

E quero-quero, dizem, foi visto no deserto do Saara, um lugar com uma visão privilegiada e sem árvores.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C3.