EntreContos

Detox Literário.

O Enigma do Rei (Montserrat)

Sob o céu alaranjado do crepúsculo, sacou a espada e posicionou-se, os pés fincados no chão, aguardando a investida do animal. A expressão fechada, a respiração curta, as mãos crispadas sustentando a lâmina na horizontal, como um prolongamento da visão.

A besta acelerou. Dois mil arratéis ganhando velocidade, bufando num tropel intenso, esmagando ossos milenares sob os cascos. Um monstro negro protegendo a ponte. Nada passaria por ela pois assim fora desde tempos imemoriais. A cabeça baixa, o trio de chifres apontados para frente, a marcha inexorável da morte.

A mulher prendeu os lábios e retesou os braços. Lembrou-se de Galahad, em casa, inválido, o coração torturado. Por ele estava ali. Pela redenção. Pelo Graal. Não, não falharia. Porque a fé é o que impele os bravos, os inconformados, os que têm coragem.

Aguardou até que a fera se aproximasse. Um instante que poderia compreender uma vida inteira, uma revolução, uma era. E, no instante final, com um salto no limite, enterrou na besta a espada, pela nuca, enquanto o sol se esfacelava por trás das montanhas.

Estava feito.

Sem tempo a perder.

Não poderia assistir o animal em seus estertores, o sangue lhe escorrendo sobre a cabeça, os olhos vazios, exalando os últimos suspiros. Precisava prosseguir, atravessar a ponte para o vale próximo. Encontrar aquele rio de almas condenadas onde o último guardião preservava o Cálice Sagrado.

Montou seu cavalo, golpeando-lhe levemente o ventre. As patas da montaria ganharam velocidade, martelando o solo fraturado como tambores conjurando um milagre.

Mirou o horizonte. Acostumara-se à aridez onipresente. À raridade de vida, animais ou plantas. À escassez de água. Às árvores moribundas, desprovidas de esperança. Aos perigos. Mas por ele, por Galahad, faria isso mil vezes. Encontraria o Graal, faria com que ele bebesse de sua água santificada. Ele se restabeleceria, levantaria daquele leito coberto de miséria, viveria novamente como um homem. Juntos povoariam aquela terra. Renasceriam.

“Você tem o coração puro”, ele dissera, as lágrimas descendo pelo rosto sulcado quando ela partia. “Vai encontrar o que procura.”

Com a escuridão se derramando sobre o vale, divisou uma mancha no horizonte. Um homem arrastando-se qual inseto. Ela o circundou e percebeu-o implorando por água, delirando. Desmontou e deu-lhe de beber. Provavelmente era um ladrão, mas ao menos naquela momento não oferecia perigo. Ela o colocou deitado no dorso do cavalo e prosseguiu.

Pontos brancos incandescentes ganhavam agora o firmamento, polvilhando a imensidão como lanternas inatingíveis. Em sua mente, a mulher via as constelações girando feito redemoinhos, espirais devorando o cosmo adjacente em uma longa cauda esbranquiçada, precipitando-se em direção à lua minguante. Almas tragadas para o fim inexorável.

A certa altura pararam. Ela acendeu uma fogueira entre as pedras e colocou o homem deitado ao lado do fogo. Percebeu que ele mergulhara num sono profundo. Em breve estaria recuperado, pois a água tem esse dom mágico de instilar vida rapidamente. A água. O Graal. Galahad condenado à cama.

Ao alvorecer o homem parecia mais disposto. Sorria até. Conversaram por um tempo até que ela perguntou-lhe aonde iria. Ele disse que buscava as cidades. As cidades não existem mais, respondeu ela. Esta é a nossa realidade. O que é realidade, retorquiu o homem. Como podes ter certeza de que isto é real e não o sonho de um gênio sádico? Como podes ter certeza de que és quem realmente és, que teu cavalo não é uma simples mula? Que tua busca não é um desejo ingênuo?

O Graal é uma realidade. Basta acreditar, sentenciou ela. Hei de encontra o rei em seu castelo e salvar Galahad.

Não há rei. Não há Graal. Isso é história para crianças. Olha a teu redor, não há vida. Todos morreram.

Por que buscas as cidades, então?

Porque nelas há comida. Somos como baratas, escondendo-nos à procura de restos para lutar por mais um dia.

Ela mirou-o nos olhos. A expressão enxuta, franca, vagamente lhe trazia lembranças inoportunas, algo familiar. Talvez a barba, ou o jeito desafiador de falar. Talvez estivesse atraída por ele.

Vou responder a pergunta do rei, disse ela. Vou decifrar o enigma e mostrar que sou digna do Graal. Com o cálice vou salvar meu homem. É isso o que interessa.

Refugiar-se em contos de fadas não vai resolver qualquer problema. És mulher. Tem a pele escura como a noite. Como esperas ser a heroína deste faz-de-conta?

Ela levantou-se e deu-lhe as costas. Vou partir na direção das montanhas, disse. Podes retomar teu caminho. Dou-te água para que chegues aonde…

A intensidade do golpe a derrubou de plano. O rosto afogueado, a tontura e desequilíbrio. Sentiu o peso intolerável sobre as costas. Em seguida o odor nauseabundo, o hálito fétido sobre a nuca, a saliva viscosa escorrendo sobre a orelha. Mãos sôfregas tentavam rasgar-lhe as roupas, os dedos apertando-lhe as coxas e as nádegas. O homem grunhia sobre ela, cuspia palavras. O sonho, dizia ele, acreditemos nos vossos sonhos. Ela tentou se livrar do ataque, mas não conseguia sobrepujar-lhe a força. Ouviu quando o tecido se rasgou. Em sua mente antecipou o horror que se seguiria. Os dedos imundos. O cheiro pungente, amargo. Desvencilhou-se por um segundo, até sentir um soco no rosto e uma brisa fresca tomando seu peito, agora nu. Quase inconsciente, ouviu um gemido de satisfação. De alguma forma, alcançou a adaga que trazia ao tornozelo. Num movimento urgente, cravou-a no pescoço do homem, repetidas vezes. O sangue jorrou em profusão sobre seus dedos, desenhando pequenos rios sobre o punho e o braço. Rolou-o para lado. Levantando-se, trôpego, ele ainda tentou estancar a hemorragia num gesto patético, agitando os braços. Sabia que iria morrer. Uma pena que fosse tão rápido.

Num átimo, apanhou os apetrechos todos enquanto ele se debatia, gorgolejante, vomitando as entranhas para o fim inevitável. Ignorando a cena, ela subiu novamente no cavalo e retomou o caminho. Estava tomada pela raiva. Não olhou para trás, nem por desprezo.

***

Muitos dias se passaram sem que fosse possível enumerá-los.

Certa manhã, despertou ao sopé de uma montanha avermelhada. A alguns metros de onde dormira, um piano jazia recostado em uma rocha próxima. Por certo deteriorado, consumido pelas intempéries. Sequer podia imaginar como fora parar ali. Caminhou até o instrumento e pressionou uma tecla. Dali desprendeu-se uma nota cujo timbre alastrou-se vale acima, quebrando o silêncio até então irrefutável. Ela sorriu. Nesse instante percebeu que há tempos não sorria. Dedilhou uma segunda nota. E uma terceira. Sem querer, escapou dali uma melodia esquecida, instintiva. Ah, a música, mesmo exalada de um instrumento arruinado, de cordas retorcidas e aleijadas, um afago na alma. Inexplicável e irresistível.

Lembrou-se de casa. De Galahad deitado em seu leito aguardando a morte, a perna amputada, acometido por uma infecção irrefreável. Ele enfrentara uma legião de demônios por ela. Um herói. Um verdadeiro cavaleiro. Agora encolhido, reduzido à insignificância de um corpo retorcido. Agonizando silencioso e resignado.

O Graal, ela dissera, recordando a velha história que sua mãe costumava contar. O Graal pode salvá-lo. Ele sorrira como só os moribundos conseguem sorrir. Um sorriso triste de quem enxerga algo além da realidade. Não morra, eu vou voltar.

Desembainhou a espada num átimo.

À sua frente, uma criança a mirava, curiosa, inquisitiva. Um menino robusto, a pele bronzeada, os olhos prásinos. Ela perscrutou os arredores, em busca de outros. De adultos, de uma emboscada.

Quem és tu, ela disse. Tocaste minha música favorita, o menino respondeu, jamais me esqueceria da melodia. Quem és tu, repetiu a mulher. O menino esticou o braço na direção dela, a palma da mão voltada para cima. Dali surgiu  uma pequena língua de fogo. Ouvi o chamado, respondeu ele. Vim de outras eras, de outros tempos. Sou eu, teu filho.

Um bruxo. Um demônio.

Por favor, disse ele, vê. Em meio às chamas surgiu a imagem dela própria com Galahad. Jovens, fortes, abraçando uma criança. Ele. O menino de olhos esverdeados. Como o pai. Atrás deles, um piano. Como aquele agora semi destruído.

Esquece a busca. Volta. Papai ficará bem.

Ela percebeu o braço afrouxar, os dedos soltando o punho da espada. Ele disse que eu deveria vir, que poderia salvá-lo.

Volta, mamãe. Não é preciso.

O ferimento…

Ele sarou.

É muito grave. Impossível.

Ele está bem.

Viu a si mesma regressando à casa. Léguas incontáveis até suas origens, até sua terra. Mil cenários, mil paragens. Encontraria Galahad contente, pleno, esperando por ela. Seu abraço, seu perfume, seu beijo. A felicidade. Como seria reencontrar a felicidade? Ah, a casa banhada pela luz cálida e dourada do entardecer, protegida pelas sombras de ciprestes centenários.

Não és quem diz ser. Volta para o inferno de onde vieste.

Não, mamãe. Por favor…

Ergueu a espada sobre a cabeça e preparou o golpe. Diante dela, o menino a observava com tristeza, os olhos repletos d’água.

Não, mamãe… Nunca regressarás se encontrar o Graal…

Desferiu-lhe o golpe, o coração em pedaços, no instante em que a criança desvaneceu.

Enxugou o rosto e sondou os arredores. Procura o rio, disse a si mesma, tentando recuperar o controle. O rio das almas.

Com o sol alto prosseguiu na marcha, o cavalo arrastando-se pela planície deserta.

***

Ouviu o chilrear de longe, quase um sussurro. Aproximou-se lentamente, por trás das árvores mortas. Um rio manso e cristalino. Desmontou e dirigiu-se à beira, puxando o cavalo pelas rédeas. Não podiam perder a chance de matar a sede e recompletar o suprimento d’água. Encarou o próprio reflexo na superfície. Os olhos grandes, os ossos protuberantes do rosto, a aparência angulosa. Na linha d’água viu também nuvens esparsas modificando-se com a leve correnteza, unindo-se, alongando-se, retraindo-se, compondo um mosaico de rostos em lamentação, engolidos, condenados.

Do onde estava, percebeu um homem num bote de madeira, de costas para ela. Tinha as costas arqueadas, parecendo pescar. Observou-o por alguns momentos. Um homem velho. Aparentemente ignorando sua presença, ele atirou a rede contra a lâmina d’água e varreu o fundo com um movimento ronceiro. Nada. Repetiu a coreografia com mais intensidade, a pequena embarcação balançando sob seus pés. E outra vez. E outra. Até que se desequilibrou sobre a amurada, mergulhando no rio, já se debatendo.

Nesse momento as nuvens se agigantaram. O homem agitava os braços e procurava a superfície, afundando num devir de agonia, incapaz de sustentar o próprio peso.

A chuva. Não se lembrava da última vez que experimentara a sensação redentora da precipitação.

Despertando, voltou sua atenção para o homem que se afogava logo à frente. Pobre diabo, pensou. Em três minutos estará morto. Ouviu-o chamar por socorro. Lembrou-se do ataque que sofrera há tempos, depois de salvar um infeliz. A chuva intensificou-se, agora quase uma tempestade. Sentiu vergonha de seus pensamentos e atirou-se na água. O rio era mais profundo do que parecia. Nadou até o homem em meio a uma miríade de vozes e resgatou-o, puxando-o de volta à margem.

Ele não perdera a consciência. Permaneceu sentado, as pernas ainda imersas no rio. Tinha o olhar fixo num ponto desconhecido. Não chovia mais. Sua respiração ofegante logo transformou-se em inspiração profunda e compassada, à medida que o sol abria caminho entre as nuvens que se dissipavam. Está tudo bem, ele disse. Quando se levantou fez evidente seu aleijão. Um ferimento na virilha, ele disse, ainda que ela jamais tivesse perguntado, roubando muito mais do que minha capacidade de caminhar.

Quem és tu, ela perguntou sem se mostrar impressionada.

Sou o rei, ele respondeu com naturalidade. Vem comigo ao meu castelo.

Ele avançou claudicante por uma trilha sinuosa. O sol já brilhava impiedoso uma vez mais. Ela seguia atrás, a montaria por último. Vencendo uma pequena elevação, viu um casebre de amarelo intenso, contrastando com o azul dramático do céu profundo. Por trás da construção, um trigal desmedido era penteado pelo vento, enquanto silhuetas negras, corvos talvez, alçavam voo contrariados.

Quando entraram viu-se num aposento simples. Uma cama à direita, arrumada com esmero inesperado. Ao lado, próxima à janela, uma mesa com jarro, bacia e prato. Duas cadeiras de palha repousavam à retaguarda. Fora do campo de visão inicial, mais à frente, destacava-se um piano familiar, sobre o qual se sustentava um vaso de girassóis.

O homem caminhou até a pequena mesa e encheu uma caneca com água, oferecendo a ela com um pedaço de pão. Ela aceitou, embora não estivesse com sede nem fome.

Quando estou bem, disse ele, sentando-se sobre o cobertor da cama, os dias são belos, como agora. Se estou mal, as intempéries avançam sobre o que restou de meu reino. É o que me sobra.

Se és o rei, disse ela, peço que me respondas onde está o Graal.

O Graal, repetiu o homem, o cálice da Última Ceia. O cálice usado para recolher o sangue de Nosso Senhor quando o retiraram da Cruz. A expressão agora vívida fazia a janela brilhar, como se o sol adentrasse o pequeno quarto. O Graal, conservado por Haramati, prosseguiu, a relíquia sagrada de reis e cavaleiros honrados. Passado em segurança de geração a geração por milênios.

O Graal pode curar meu homem. Devolver-lhe a vida.

Sim, o Graal redime quem dele bebe, mas não quem o guarda. Olha para mim, incapaz de fecundar qualquer mulher, de fertilizar a terra. Não há outro motivo para a desolação que se desdobra além daqui. Meu reino, meu antigo reino, que se estendia até o limite dos quatro ventos, verdejante, cheio de vida por gerações, acompanhou me próprio declínio, encolhendo-se ao limite da desesperança. Tudo o que me resta é a expectativa. A chegada de alguém honrado e virtuoso. Para que uma nova era se reinicie. Para que eu possa descansar.

Onde está o Graal, ela perguntou.

Está em tuas mãos.

Preciso dele. Preciso salvar Galahad.

Com o cálice poderás regressar e restaurar a saúde de teu homem, conforme desejas. Porém, se permaneceres aqui, devolverás a vida  a todo o reino. Tua força há de chegar aos cantos mais remotos, trazendo uma nova era de possibilidades. Poderás fecundar a terra, dar à luz um novo começo. Até que o ocaso e a miséria se derramem novamente e um novo substituto seja necessário. Porque a vida é cíclica mesmo quando se flerta com a eternidade.

Imaginou Galahad condenado à cama. Morto. Morto para sempre. Tinha agora a chance de salvá-lo. De salvar a ambos. Poderiam construir uma vida juntos. Felicidade.

Olhou o homem à sua frente. Sua expressão cansada, os olhos tristes de quem abdicou da própria existência entregando-se a algo maior do que si mesmo. Os olhos de quem venceu a covardia, de quem entregou a alma para que outros pudessem viver. Um herói.

Superar monstros e demônios pouco significa diante deste enigma, disse ele, num sopro derradeiro.

Sem hesitar mais, ela puxou a espada e cortou-lhe a cabeça. O corpo pendeu para o lado, o sangue vertendo sobre o cobertor.

Apertou o cálice com força junto ao peito e guardou-o consigo. Saiu da casa enquanto o céu se incandescia de lilás. Montou seu cavalo e rumou a galope para o infinito. Para Galahad.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.