EntreContos

Detox Literário.

O Animalismo (Ajax Bandeira)

Sobre quem sou eu nesse mundo cada vez mais extraórdinário e bizarro; a memória que tenho mais fresca é a de tocar bateria no trio muito famoso, em ao menos, na maioria dos botecos da Baixada. Outra lembrança é que nas horas amargas, pedalo uma bike da Nautica até a Unidade de Saúde da Família, além dos tambores que marcam a divisa Santos/São Vicente, onde tomo conta, das 08:00hs as 17:00hs, da farmácia do posto, com acesso as maravilhosas drogas da indústria farmaceutica. Lembro ainda que foi numa sexta-feira final de expediente que me enchi de um princípio ativo que deveria deixar-me excitado e feliz, mas, que talvez, não tenha harmonizado-se com o volume de alcool que ingeri à hora do almoço, fato é, que já na bike voltando para casa, cruzando a Imigrantes fui atropelado por um jaguar. E agora, abro o olho me vejo meio sentado, meio caído aos pés de um balcão de bar, feito em madeira.

A iluminação não é das mais claras, então, minha visão do todo está prejudicada, mas juro que vi um urso polar vir se aproximando do balcão onde estou, apoiado nas patas traseiras, com um tapa olho e usando uma jaquetas jeans sobre uma camiseta com a estampa do Motorhead e logo me vem a mente os versos de “As of Spade” – “Jogando pela mais alta, dançando com o diabo, indo com o fluxo, é tudo um jogo pra mim”. Definitivamente o urso aproxima-se do balcão e sem me dá qualquer importância, me espreme com seu corpanzil contra o balcão de madeira, de modo que a minha cara fica desgraçadamente espremida contra as partes genitais do animal, li em algum lugar que um estudo revelou que os órgãos genitais dos ursos estão encolhendo de tamanho ano após ano, mas, para minha derrota completa, não era o caso desse espécime especifico. “Não há mal que perdure mais que uma noite”, Churchil dizia, então a sorte foi que o Urso roqueiro não demorou a ser atendido e devolve-me a condição de respirar em paz.

Levanto com dificuldade e só agora reparo no ambiente em que me encontro, é um bar bem decadente e talvez por isso mesmo, é bem estiloso, o estranho é que além do urso polar, também vislumbro na penumbra serpetinada pela fumaça dos cigarros, outros animais replicando o comportamento humano. Por exemplo um cachorro São Bernardo com o copo suspenso e o olhar perdido em algum lugar obscuro da sua memória, sem dúvida algo muito triste de ver, mais adiante um rinoceronte bate com o punho, digo, com a pata na mesa, provocando seus camaradas, uma lebre, um sapo e um bode e na sequência recolhe as fichas do jogo, que aparentemente acabara de ganhar.

Tonto e com um gosto azedo na boca, balanço minha cabeça e pisco os olhos procurando afastar aquelas visões da minha provável loucura. Uma voz estrondosa me tira dessa confusão mental, – Eu conheço você!

Me volto e encontro o urso me medindo dos pés a cabeça. – Você tocou aqui, no mês passado, nessa espelunca! Você toca bem, cara! Se não estivessem fechando, eu pediria que fizessemos um som! E o ursão bonachão me apresenta sua gaita de boca. – Mas, nasce um novo dia, a noite acabou! Vamos! Eu pago um pingado com um pão na chapa, na padaria ao lado. Venha, rapaz! Vamos conversar. Eu fiz uma canção…

Antes que possa responder ou me aprumar direito, o meu mais novo amigo me arrasta para as ruas. O dia está deveras claro, o sol fere os meus olhos e… Mas que droga alucinógena é essa que eu tomei? Passeando nas ruas ou correndo contra a rotina diária, nos pontos de ônibus, dentro dos carros, caminhando apressados eu os vejo de novo, os animais imitando os humanos e outros humanos como eu, que seguem pacificamente o estapafúrdio circo sem nenhuma reação a anomalia que eu testemunho.

Em todo lugar, em qualquer direção que eu olho eu vejo essa mistura de homens e animais. Na padaria mastigando sem sentir o gosto do pão, estão dois leões vestidos em ternos caros, uma girafa retocando o seu batom, três ratos contando as moedas que cada um carrega nos bolsinhos, uma dúzia de ovelhas na fila… Enlouqueci. O urso manda pendurar a conta e me puxa – Vou te mostrar uma coisa! Diz o urso.

– Voce votou no presidente asno?

Diante da minha cara repleta de interrogações, o urso explica.

– Elegemos o senhor Walmir Bolseiro para presidente da Gremio Recreativo, Esportivo e Escola de Samba das Camisas Amarelas. Ele é um asno de primeira grandeza!

Sem muita cerimônia arranca um jornal em exposição na banca de jornal e me mostra a cara do asno com a faixa presidencial.

– Particurlarmente, acho que foi a melhor escolha. Esse país precisava de uma chacoalhada. Você não acha?

Na foto, o jegue exibe boa parte de sua dentição num sorriso forçado.

– Venha vou lhe mostrar uma coisa! Diz o urso que continua me arrastando como a uma leve trouxa, não demora e estamos no alto de um pequeno edifício.

– É aqui que me divirto, ele diz. Eu o sigo até a borda do teto edificio, de onde é possível ver a circulação das pessoas lá embaixo. Demoro a perceber o que está acontecendo. Estou de fato, muito perturbado, somente com o som do primeiro disparo, que vejo o rifle de repetição nas mãos do urso, digo patas do urso… Horrorizado percebo que ele atira contra um grupo de veados que passavam. Uns após outro, os pobres animais vão sendo abatidos. Os tiros explodem seus cérebros. A pontaria do urso é de dar inveja!

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C2.