EntreContos

Detox Literário.

O Gnomo e Eu (Mão verde)

Já fiz um pouco de tudo na vida: catei sucata, fui marceneiro, pedreiro, encanador, caminhoneiro, empresário e um excelente construtor. Também fui viciado em baralho, bebidas, cigarro e frequentei todos os tipos de bordéis e casas noturnas. Nessa época, minha mãe vivia reclamando da minha vida boêmia e pedindo para que eu casasse. Bom, de tanto ela falar, casei.

Depois de casado, resolvi mudar de vida e larguei todos os vícios para trás. Tornei-me um marido exemplar, mas, ao abandonar os vícios, fiquei com um enorme vácuo existencial. Amava minha esposa, ainda assim faltava algo, e o vazio continuava a atormentar minha mente, dando início a um sentimento de total insignificância diante do universo.

Mesmo desfrutando dos confortos oferecidos pelo meu trabalho, comecei a questionar minha natureza, chegando à conclusão que precisaria arrumar algo que desse um significado para minha vida. E, com isso, passei a ficar cada vez mais imerso em minha imaginação.

Ao passo que respondia minhas perguntas, criava um mundo fictício dentro da minha cabeça. Isso fez com que eu passasse a maior parte do meu tempo surrealizando no abstrato, inventando tramas e criando todo tipo de personagens, dos mais carismáticos aos mais bizarros, mesmo assim, continuava com saudades da antiga vida.

Um certo dia acordei imerso nessa crise existencial que, como em todos os outros dias, me imobilizava e não me permitia ser feliz. Então resolvi colocar uma bermuda com intenção de caminhar e aliviar meu cansaço mental, a seguir, saí de casa sem camisa e sem rumo pelas ruas da cidade.

No dia seguinte comprei um tênis e comecei a treinar todos os dias. Seis meses depois já colecionava medalhas de maratonas e segui assim por muitos anos. Estava muito feliz, porque finalmente tinha encontrado algo que fazia diminuir aquele vazio dentro de mim! Durante algum tempo isso funcionou e eu realmente estava feliz, mas depois que aquilo virou automático, passou a não ser mais suficiente. Sem perceber eu dava asas à minha imaginação e entrava em mundos que não eram meus. Estava usando as possibilidades da minha mente para fugir da minha realidade que não me bastava. E mais uma vez me vi perdido e confuso.

No início de meu expediente de terça feira de manhã, um cliente me pediu para fazer o orçamento de um imóvel que ficava afastado da cidade. No caminho, entrei em uma estrada de terra, tirei o capacete, respirei o ar puro da mata e fui observando as árvores; estranhei o barulho trazido pelo vento, tive a impressão que alguma pessoa sofrendo falava baixinho:

— Socorro, solte-me.

Cheguei a pensar que estava dando vida aos personagens criados na minha imaginação e sem saber direito o que estava acontecendo segui em frente.

Foi então que vi na minha frente um barraco abandonado, em ruínas, rodeado de árvores mortas e com o mato muito alto à sua volta. Desci da moto, escutei novamente aquele sussurro e um arrepio subiu na minha espinha. Ao entrar nele, pisei numa tampa improvisada de madeiras e ouvi:

— Socorro!

Logo entendi que as tábuas de madeira estavam tampando um buraco que escondia um porão. Tirei a primeira tábua do chão para ver e ouvi ainda mais alto:

— SOCORRO!

Ao tirar todas as tábuas, rapidamente desci as escadas.

Quando pisei no porão, tive a maior surpresa de minha vida, esfreguei os olhos para ver se estava realmente vendo um gnomo verde, agonizando, amarrado na parede por uma frágil corrente, ou se aquela cena era fruto da minha imaginação.  

Ao ter certeza que aquilo era real, na mesma hora ajudei a miniatura de homem a sair das amarras, assim que desfiz das correntes que o prendiam, o corpo dele, frágil, magro, envelhecido ganhava robustez, vitalidade e força por intermédio de alguma magia desconhecida por mim e falou:

— Não posso dizer o motivo pelo qual fui acorrentado naquela parede, para que você não seja tragado por forças ocultas que assombram o vosso planeta, porém, vou conceder-lhe algo maravilhoso.

Fiquei curioso para saber o que era e nem bem o gnomo acabou de falar, perguntei o que ganharia.

— Caso aceite meu presente, você vai ficar rico e famoso. Vou implantar telepaticamente em sua cabeça uma linda história de amor, depois você transforma a trama em livro. Garanto que vai vender milhões de cópias.

Aceitei sem hesitar, assim que o fiz, o gnomo desapareceu.

Voltei pensando naquela simpática criaturinha, cheguei em casa, contei sobre o ocorrido com o gnomo para minha família, deram risadas na minha cara e disseram que eu estava louco.

Após meu relato, fiquei em pé diante de uma lousa de anotações de nossos compromissos diários e disse para minha esposa, filha, e ao meu amigo de trabalho que passaria para um livro a história que o gnomo colocou na minha cabeça.

Julgaram que eu havia enlouquecido de vez, e ouvi da boca do meu amigo, que nunca havia me visto escrever sequer um bilhete, imagina um livro.

Ele nem terminou de falar, respondi em tom áspero: “ouçam com atenção! Sempre agi com honestidade e a maior parte das coisas que construí na vida naufragou, com isso aprendi algo de enorme importância nas coisas que tive êxito; uma delas é que quem dá ouvidos aos outros, não constrói coisas novas. E nada nesse mundo vai impedir que eu escreva esse livro.”.

Assim que falei, acendi o pavio das gargalhadas, todos riram, até eu mesmo ri da cena, mas alguma coisa escondida em meu subconsciente despertou. Uma história de amor completa apareceu em minha mente, tive um ataque de euforia. Em seguida, comecei a ter ânsia de vomito de tanta vontade de começar a escrever meu livro.

Saí dali e fui para o quarto. Cheguei lá respirando pela boca, com o coração tremendo, junto com a parte superior do meu corpo. É como se eu estivesse passando mal. Sentei na cama, peguei um papel e uma caneta e tudo começou a vir. Cada toque majestoso que só um escritor realmente profissional poderia ter imaginado. A delicadeza, a sofisticação das palavras, o enredo se desenrolando perfeitamente. Escrevi a noite toda sem parar – em fluxo, como dizem por aí.

Ainda sem dormir fui à padaria tomar um café e tentar conversar sobre o livro com outras pessoas. Foi então que me toquei que essa seria uma jornada muito solitária. Ninguém à minha volta costumava ler e por isso não entendia essa vontade visceral que brotava de mim, tampouco essa capacidade de utilizar o imaginário como refúgio da realidade – e eu nem falei nada sobre o gnomo.

Bom, a partir daquele momento eu sabia que as coisas tinham mudado, fosse obra do gnomo ou não. Tudo à minha volta passou a ter relação com o livro: eu só falava sobre isso, então tranquei-me naquele quarto e só saía para comer e tomar banho. Não falei com ninguém. Na primeira semana disse para meus clientes que estava doente e precisava repousar durante algum tempo. Aí sim minha família achou que eu estava louco, mas eu não me importava. Estava em êxtase com aquilo tudo e mais para a frente poderia falar com eles e fazê-los entender que eu não estava alucinado.

Diferente do que eu achava, não foi algo que fiz numa sentada. Passaram-se dezoito luas entre a escrita do livro e o momento em que comecei a procurar profissionais para me ajudarem – já que ninguém à minha volta poderia fazê-lo. Contratei alguém para fazer uma leitura crítica do texto, também contratei uma revisora para lapidar meu texto e depois ainda o diagramador, um designer gráfico, a gráfica que faria os exemplares do meu livro… Tudo para que ele saísse exatamente como eu tinha imaginado e que, com a ajuda do gnomo, sabia que conseguiria fazer. Por fim resolvi que não publicaria em nenhuma editora famosa, mas iria eu mesmo criar uma editora e lançar o livro.

Depois de tudo pronto, mandei imprimir oitocentas copias na maior gráfica do Brasil.

Não ficou barato, gastei todas as minhas economias.

Foi um período de trabalho intenso, mas valeu a pena, e, mesmo antes de planejar o lançamento, vendi os oitocentos livros em apenas um dia, pois, a grande maioria dos funcionários da gráfica comprou os exemplares antes mesmo de saírem da linha de produção.

Fiquei entusiasmadíssimo e, como disse no começo, sou empreendedor, sendo assim, conversei com meus familiares, contei sobre o sucesso do livro, também lhes disse que precisaria vender alguns bens para investir em publicidade.

Vendi alguns imóveis, inclusive minha casa, para investir na editora, minha esposa disse que eu poderia ter feito loucura, mas, após ouvir o relato de alguns funcionários da gráfica sobre o conteúdo da obra, deu todo apoio.

Peguei o montante e criei uma editora independente, também usei uma parte do dinheiro para contratar uma atriz famosa, para fazer publicidade do meu livro no Domingão do Faustão; Fausto Silva cobrou uma fortuna para anunciar meu romance em seu programa.

Tudo começou a acontecer do jeito que o gnomo falou; na primeira semana, vendi trinta mil copias, e, para minha alegria, continuou vendendo em média duas mil e quinhentas copias por dia.

Com o dinheiro arrecadado, fiz algumas extravagâncias, comprei joias para minha esposa e dei um Land Rover de presente para meu amigo de trabalho.

Juntos, fomos a muitas livrarias espalhadas pelo Brasil, para noite de autógrafos, o sucesso foi tanto que tive que contratar um advogado poliglota para ser meu produtor, no Brasil e no exterior. Era honesto, mas cobrou dez por cento de todos os contratos que fecharia em meu nome a partir daquela data.

As mudanças em nossas vidas foram tão boas e significativas, que deixamos nosso produtor trabalhando sozinho e fomos descansar em Sauipe.

 

Certa tarde, estava tomando champanhe Moet Chandon, enquanto admirava o vai e vem das ondas, quando ao longe avistei o gnomo verde, de sunga branca, em cima de uma prancha de stand up azul, acenando com o remo em minha direção.

Ao vê-lo, fiquei imensamente feliz e o chamei para vir comemorar comigo, mas ele sorriu e foi desaparecendo junto ao pôr do sol.

Assim que voltei para o quarto, o telefone soou, era meu produtor dizendo que acabara de marcar para daqui a vinte dias, uma noite de autógrafos na Community Book Store, uma das livrarias mais charmosas de Nova York.

 

As férias passaram depressa; enfim, embarcamos com destino à capital do mundo, junto a mim vieram, produtor, esposa, filha e amigo de trabalho, não fui ingrato com as pessoas que mais me ajudaram a vencer.

Ao chegarmos ao aeroporto, notamos certo alvoroço.

Alguns brasileiros seguravam placas com meu nome, ainda não tinha noção sobre o que era ser uma celebridade.

Após nosso desembarque, meu produtor orientou-me a cumprimentar meus leitores, fiz questão de apertar a mão de cada um deles, havia mais ou menos umas setenta pessoas nos aguardando no saguão, isso fez com que atrasássemos, e fomos direto para a charmosa livraria.

 

Quando a limusine branca se aproximou do evento, notei que a fila dobrava o quarteirão, meus fãs já sabiam que eu não falava inglês, mas meu produtor traduzia tudo que diziam simultaneamente.

Com muito custo, entrei no recinto, e, para minha surpresa, era aguardado por J. K. Rowling. Ela estava deslumbrante, tinha um sorriso enigmático e cumprimentou-me em português, dei um beijinho no rosto dela, disse obrigado, depois fiz uma dedicatória no livro que Joanne segurava na mão.

Fiquei um pouco envergonhado quando ela perguntou se eu havia lido Harry Potter, mesmo sem graça, disse a ela que não, despedi-me de Joanne, prometendo ler toda sua obra.

Assim que ela saiu, chegou Bono junto com Neil Gaiman, mais uma vez precisei do meu produtor para traduzir a conversa, eu não sabia muito o que dizer para eles, assim mesmo tentei ser simpático.

 

A última celebridade da noite foi o mago Paulo Coelho, que, por sinal, foi muito gentil com minha pessoa, doou-me uma espada, dizendo que tinha sido batizada diante do Santo Graal, não acreditei na história dele, mas fui simpático, aceitando sem hesitação.

Paulo também me convidou para passar uma temporada no apartamento dele, em Genebra, agradeci o convite, porém, fomos interrompidos pelos organizadores, avisando que nosso tempo havia se esgotado.

Por fim, sentei em uma mesa improvisada no corredor central da livraria e comecei a atender o público em geral.

Para cada leitor que vinha até mim, o secretário do evento pegava um livro com uma frase pronta, eu apenas cumpria o protocolo, perguntando o nome da pessoa, quando não entendia, meu produtor soletrava no meu ouvido, enquanto escrevia o nome dela no livro, depois era só assinar.

A noite de autografo passou depressa, infelizmente, não tive a oportunidade de atender todos os convidados.

 

Enfim, tudo terminou.

Assim que saímos da livraria, o diretor comercial da Netflix ligou para meu produtor, interessado em transformar a trama do meu romance em um seriado, e que queria fechar o contrato na manhã seguinte.

 

No outro dia, bem cedinho, acordei, olhei para o teto do quarto e notei que o vácuo existencial em minha vida tinha desaparecido.

Levantei da cama, abri a porta de correr da minha suíte presidencial do Hotel St. Moritz, em frente ao Central Park, respirei o ar puro das árvores, voltei fazendo barulho e acordando todo mundo.

Após o café da manhã, dei uma entrevista para a rede CNN, depois fomos correr no Central Park, corri quinze quilômetros em trinta minutos, minha esposa falou que estou voando baixo.

Liguei para meu produtor e juntos fomos fechar contrato com a Netflix, faturei quatro milhões de dólares na venda do enredo.

Logo depois do negócio fechado, meu produtor avisou que meu livro já tinha sido traduzido para mais de dezoito idiomas e que se tornou no maior bestseller da atualidade.

Os dias e as noites se passaram e chegou a manhã do dia em que nossa comitiva saiu da magnifica cidade americana, feliz por voltar para a casa, levando na bagagem uma experiência de vida que até então desconhecia.

Voltamos discretamente ao Brasil, meu espírito não aguentava tanta badalação, sempre fui uma pessoa simples, que amava o aconchego do lar, os amigos e a família.

Com isso, descobri o que rejuvenesce o espírito e preenche o vácuo existencial: é a motivação diante de uma nova empreitada. E, foi graças a aparição daquele gnomo, que incentivou minha vocação, mesmo sendo em idade madura, descobri que escrever era, entre todas as coisas, o que mais gostava de fazer na vida.

Para chegar até aqui, saí do mundo real, segui meus sonhos, atravessando obstáculos e mergulhei na felicidade.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C2.