EntreContos

Detox Literário.

Brejo da Cruz (Paula Giannini)

 

Fechou o buraco. Era o quinto que plantavam naquela semana. Todos jovens, todos azuis e filhos do mesmo destino, sina marcada em cada um deles desde o dia em que ousaram vir ao mundo, não belos e rosados, não filhos de boas famílias, não frutos de frondosas árvores, não das jaqueiras, nem dos abacateiros. Não. Aquelas eram apenas crias mirradas, colhidas de xiquexiques, mandacarus, caroás.

Enterrar é plantar. Gostava de dizer assim, desde que ouvira a frase saltar da voz de uma criança. Aquela mesma voz que trava pulmões, arroxeando gargantas, quando se segura o choro. Assim, mais que sentença, o pensamento virou lei, e a lei virou imagem intermitente em seu imaginário.

Enterrar é plantar. E era mesmo, ao menos assim imaginava. Enquanto se afastava, as costas voltadas para o bosque do campanário, vislumbrava os cabelos se insinuando na superfície, pequenos arbustos tateando a terra em busca de luz, brotando em movimento imperceptível das covas simétricas. E então, dispostos lado a lado, ressequidos e tortos, na impossibilidade de se tornar adubo bom o suficiente para produzir a fartura das mangueiras, resistiam, caatinga, no cenário inconfundível do cemitério dos famintos.  

Criança que não come tudo, não cresce e fica assim. A audição era o seu melhor sentido, mas o olhar atônito daquele menino, mirando através do buraco em seu estômago, ainda que mudo, jamais passaria despercebido. Criança que não come, não cresce. O garotinho, certamente, jamais vira algo assim.

Criança que não come, morre cedo, e os adultos da fome, aqueles sobreviventes com o furo na barriga, eram poucos, quase raros, espalhados em tocas invisíveis, embaixo de viadutos, em construções abandonadas, no oco da árvore de uma praça.

No oco. Era ali que vivia, bicho no vão imenso, no vácuo ventre aberto pelo tempo, no centenário cajueiro, bem em frente à praça da Rodoviária de Brejo da Cruz. Quase invisível. Quase. Mas não de todo. Afinal, era preciso se arriscar, sair e beber o pouco da água que o corpo ainda segurava, comer algo, uma sobra, um grão de arroz, com sorte, migalhas de pão espalhadas aos pombos, era preciso fazer as necessidades, também estas, tão poucas.

Criança que não come, não pode nem fazer cocô. O garoto insinuou um quase sorriso, e ofereceu o que tinha em mãos àquele ser que sua mãe temia, nem tanto pelo buraco ali, bem no meio de seu corpo esquálido, permitindo com que se enxergasse o outro lado, mas, pelo estigma, o da miséria. Era como se ela, a fome, guardasse em si um algo de errado, um quê de contagioso, de enfermidade que gruda em quem a toca, fazendo com que aquela marca, aquele buraco imenso, brotasse no exato e mesmo lugar onde os abastados abrigavam seu ventre robusto, tanto mais rechonchudo quanto mais próspero aquele abastado fosse.

Estendeu a mão.

Um caderno usado e um lápis de colorir. Era isso que o menino lhe entregava. Não a tampa de um iogurte para ser lambida, resto de milho de pipoca, meia fruta, marmita azeda ou um embolorado pão. Não, nada disso, ali, a seu alcance, apenas papel e lápis, um estúpido lápis-de-cor-vermelho, com a ponta gasta por fazer.

Um leve aceno de cabeça, agradeceu. Assim era a vida. E o menino desapareceu, puxado pelas mãos da mãe, com pescoço voltado e os olhos fixos nos seus, até onde a vista de ambos pôde se alcançar.

Assim era a vida. Mais um dia sem comer. Desse modo, logo seria a próxima semente lançada ao jardim da morte. Temia. Só a noite era mais escura que o vazio em seu estômago.

Só a noite.

Mais precisamente, à meia-noite. Era essa a hora do encontro. Em meio às horas mortas, no toque de recolher espontâneo dos abastados, os famintos saíam de suas tocas, espectros do ser-humano que um dia poderiam ter sido, não fosse aquilo, o azul pronunciado em suas peles, e o buraco. O oco a lhes atravessar o ventre. E a alma.

Vamos cozinhar? Eles diziam. E os famintos, um por um, apresentavam a coleta de seu dia. Quem nada tinha, nada comia. Era essa a lei na selva-urbana. Aos poucos, cada um mostrava o que conseguira, um pacote com restos de bolacha era um luxo aqui, cascas de banana, uma iguaria ali. Uma fruta roubada do cemitério dos abastados, um banquete digno de reis.

Só à noite.

Está com fome? Perguntaram. Então, desenhe sua comida, disseram. Foram duros. Era necessário. Assim era a vida. Assim era. Papel e lápis, todos riram. Desenhe.

Desenhou. Aquela era uma lei de exceções abertas apenas para as crianças. E, como se já contasse 18 anos, agora integrante da categoria dos adultos, em um impulso bobo, simplesmente riscou o papel.

E foi então, que aconteceu.

Terremoto. Terremoto, diziam correndo. Todos. Abastados, meninos, casais, surgidos do nada, batendo-se uns aos outros em busca de abrigo. Terremoto. Terremoto. Ouvia, ainda na confusão do susto.

Terremoto. Nada mais era de espantar. Nada. De onde estava, era capaz de divisar a correria, os pés de sanfoneiros, jardineiros, guardas-noturnos levantando poeira, famintos escapados do ciclo daquele Brejo de um modo ou outro com seus disfarces em camisetas compridas, escondendo a marca daquilo que um dia fora oco.

Escapados. Jamais seria um deles. Jamais seria coisa alguma. Agora se dava conta da altura de que caíra. Em um bueiro, morreria azul antes mesmo que alguém desse pela falta do ser que habitava o oco do cajueiro da rodoviária.

Azul. Já vira aquilo acontecer centenas, se não milhares de vezes. A perfuração começava no umbigo, buraco-negro devorando aquilo que não tinha do que se alimentar. Depois era a cor. A cútis azulando gradualmente, a começar pelas unhas, os lábios, os pés. Depois vinha o nada, quando o buraco já não tinha o que devorar ali.

Do alto, a luz denunciava que já era dia.

Há quantas horas estaria ali? Dias? Semanas? Perdera a percepção, talvez delirasse, quem sabe já fosse adubo jogado à terra sem, ao menos, se dar conta disso. Talvez.

O sol já estava a pino, quando, ao reparar na cor das próprias mãos, lembrou-se do lápis vermelho. Do papel, intacto e jogado ao seu lado. Não. Não ia terminar seus dias ali, se havia um direito que lhe assistia, era o de, em seu fim, alimentar um mandacaru na cova que lhe cabia.

Puxou o papel com dificuldade, nessa hora, o simples levantar de um lápis era esforço inumano. E forçou a ponta riscando o branco da folha.

S.O.S.

Faria uma dobradura, aviãozinho lançado rumo à abertura do bueiro. Alguém o veria, e a salvação viria das mãos de um dos disfarçados. Um bombeiro, faxineiro, quem sabe de uma babá, um passageiro qualquer que, encontrando seu pedido de socorro, viria voando em sua direção.

Esperou. Nada. Do lado de fora o silêncio rasgava o tempo e já era a hora de o sol se por. À noite, todo azul é cinza e logo os meninos famintos aproveitariam os escombros para encontrar restos jogados na correria do caos. Ninguém perceberia seu clamor, e, de mais a mais, poucos deles eram capazes de entender as letras.

Um aviãozinho, mamãe. Escutou. Ao menos seus ouvidos ainda alcançavam o entendimento. Um aviãozinho, ele disse, acendendo a esperança em seu refúgio. Um aviãozinho. E viu a dobradura retornar, e cair em queda livre, no centro exato do círculo de seu vazio, intacta, não fosse pela ponta amassada da aeronave.

Desespero.

Angústia.

Terror.

Não sentia.

Há meses não sabia o que era isso de sentir. Não sentia, e, conhecia bem aquilo. Um sintoma. Tão logo o azul se pronunciava na pele, assim que o buraco negro, após brotar do umbigo, consumia todo o ventre, a dor sumia, já não doía. A dor da fome cessava, e, a desgraça, de algum modo, tornava-se também uma benção. Estranha e perigosa graça que afastava muitos daqueles seres do instinto da sobrevivência. Sentia fome, sim, quem não? Mas agora, o buraco era o vazio, e só. E, aquele vácuo, simplesmente, o nada.

Talvez se escrevesse a palavra completa.

Socorro.

Socorro em vermelho, em letras garrafais. Talvez. Quem sabe o S.O.S. soasse vago aos poucos, ali, acostumados às letras. Desenharia socorro, e depois… Depois o quê? Depois, nada. Se, por acaso alguém, por pura sorte, o encontrasse, se, por ainda uma maior sorte, esse alguém o desdobrasse, se por milagre o lesse, o que faria? Jamais saberiam de onde viera o chamado. O passageiro olharia para cima, buscando, talvez, o dono da façanha balançando nas construções. Mas, não. Não haveria ninguém lá. Ninguém nas construções. O chamado viera dos esgotos. Quem suspeitaria?  Quem sabe se fizesse um mapa. Desistiu. Tampouco saberia precisar a própria localização.

Era o fim.

Acabou, ele disse. Acabou, vão para suas tocas. Acordou com a voz do cozinheiro. Após o terremoto, os famintos pareciam ter-se multiplicado. Eram muitos. Protestavam, falavam de comidas das quais jamais veria a cor. Não mais.  

E, foi então que aconteceu novamente.

Aconteceu.

Não o tremor de terra, que este fora um assombro inédito e único. Mas, aquilo. O próprio assombro.

Papel e lápis na mão, escreveu o que lhe veio. A coisa no mundo que mais poderia desejar no momento de seu fim. O último pedido de um ser condenado.

Escreveu.

Pudim de leite.

Lembrava do dia em que, pela primeira vez, desejara um. Em frente à padaria, no chão, o potinho de plástico jazia melado da calda doce. Passou o dedo no fundo e lambeu.

Calda de açúcar. O sabor lhe invadia os sentidos, o sabor do açúcar queimado, a sensação macia e lisa do pudim no céu da boca. Degustava. Mais que isso, engolia, agora, aquilo que jamais conhecera.

Lembrava-se de erguer os olhos e de ver, na vitrine, pequenos e convidativos pudins, preparados com esmero para o paladar dos abastados. Não. Aquilo não era para um faminto. Jamais conheceria o gosto de experimentar um pudim.

Mas sentia. Agora provava. Agora sabia.

Olhou com estranheza para o papel.

Pudim de leite.

Lembrava bem daquele dia. O guarda-noturno o enxotando da frente da loja. A cabeça baixa. A bolota cor de uva chutada na calçada. Apanhou. Cheirou. Uva. Uma imensa bolota de uva. Enfiou na boca. Sabonete. Não sabia. Jamais em sua vida conhecera ou banhara-se com tal luxo. No máximo, resto de sabão de coco, barra de ariar pia.

Sabonete.

Escreveu.

E ali, de seu buraco-estômago, bolinhas de sabão saltaram, como naquele estranho dia em que desejara um pudim. Aquele mesmo dia em que chorara e rira, porque o gosto perfumado de um sabonete transformara seus soluços em imensas bolhas a flutuar através do oco de sua fome. E porque os passageiros, em frente à padaria da rodoviária, jogavam-lhe moedas, em retribuição ao bizarro show que os divertia tanto.

Olhou para cima. As bolinhas flutuantes já alcançavam a boca de lobo, orifício de saída do bueiro.

Pão com manteiga, escreveu correndo. E a manteiga derretida em pão quentinho tomou, imediatamente, conta de sua boca. Não o ranço azedo que provara naquele dia em que, juntando as moedas correu até a vitrine dos pudins mostrando ao atendente que, sim, sim senhor, tinha dinheiro para pagar. Mas não. Famintos não entram onde frequentam os abastados, e, de mais a mais, faltavam 10 centavos. As moedas que juntara não eram suficientes.

Não implorou.

Era proibido alimentar um faminto.

Era a lei na engrenagem daquela selva-de-pedra.

Contou os trocados. A soma dava para o pão. Amanhecido. E para a manteiga. Rançosa.

Só que agora não. Agora o pão, a coxinha de frango, o ovo cozido colorido e tudo o quanto escrevia, tinha gosto e textura daquilo que podia haver de mais delicioso.

Escrevia e comia.

Pela primeira vez em anos, sentia o prazer de ter a fome saciada. Um prazer quente, reconfortante e desconhecido para aquele ser quase invisível. Assim, sem perceber a transformação por que passava, suspirou, e, pela primeira vez, até sonhou.

Era madrugada quando sentiu os pingos em seu rosto. Chovia. Levantou-se, buscando proteger o buraco que dava acesso ao interior de seu corpo.

E foi então que percebeu o novo assombro, bem ali no meio de si, em forma de um pequeno furo por onde passaria apenas um dedo.

Um dedo, e nada mais.

Em um susto, retirou o dedo metido no orifício. Aquilo que já não sentia, sentira. Aquilo que já não doía, doera. Aquilo que atravessava seu corpo em um imenso vazio, simplesmente sumira. Levantou-se em um reflexo, buscando o lápis. A folha flutuava na água da chuva, do esgoto que subira com a tempestade.

Precisava sair dali. Contar a todos o que descobrira. Encontraria papéis, lápis, canetas. Ensinaria tudo aos famintos, as vogais, as consoantes, o alfabeto inteiro, palavras, poesia. Pensava no sem número de comidas das quais poderiam se alimentar, juntando apenas algumas letras.

Arroz, feijão, banana, macarrão, pudim de leite, escreveriam.

Farofa, manjar, bolo de coco, comeriam.

Precisava sair dali.

Precisava levar a novidade aos meninos. A fome tinha remédio, a dor, a falta dela, o vácuo, o nada, tudo tinha uma cura.

Escalou o bueiro arrancando sangue das unhas. Vermelho. Não azul como rezava a lenda dos meninos do Brejo da Cruz. E chegou à superfície bem na hora do encontro da noite.

Alguém morrera. Soube tão logo avistou as pás nas mãos dos famintos. Nesta noite, não haveria janta, mas enterro. Uma menina.

Jogou o último punhado de terra sobre a cova, sabia o que brotaria ali. E depositou, sobre ela, uma flor de mandacaru. Choraria para sempre aquela criança que lhe falara sobre aquilo de plantar. Triste sina. A pequena não tivera tempo para aprender. Triste sina. A menina jamais saberia das letras que os livraria, a todos, da engrenagem da morte.

Juntou o grupo. E subindo em uma pedra, contou a eles do segredo do fim da fome.

Lápis, papel, canetas, livros.

Eram capazes de aprender. De sonhar. De ser gente. De crescer.

Lápis, cadernos, borrachas, livros.

Poderiam escapar do buraco. Do sofrimento. Da privação.   

Lápis, lapiseiras, cadernetas, livros.

E viu os companheiros, um a um, voltarem as costas e sair cochichando, cabisbaixos. Um a um, todos se foram.

Ficou só.

Lápis, papel, canetas, livros, desacreditavam. Para aqueles meninos, tudo era proibido. Era a lei, eles disseram. Sem dinheiro, sem papel, sem lápis, sem comida, sem nada. Quem, em sua sã consciência, com trocados para o sopão, haveria de comprar lápis? Quem? Eles disseram. Era a lei, escutou.

Era a lei.

Ninguém era capaz de escapar de sua sina.

Ninguém era capaz de escapar, de verdade, daquela selva criada pelos homens.

Ninguém escapava da selva.

Do brejo.

Da cruz.

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41 comentários em “Brejo da Cruz (Paula Giannini)

  1. Cirineu Pereira
    10 de abril de 2019

    Resumo:
    História de um jovem que, vivendo entre esfomeados vê acontecer consigo um fenômeno comum entre seus iguais, chegando ao limite da fome, sua pele começa a adquirir tom azulado, bem como amplia em seu estômago um buraco (negro) que suga tudo, a começar por suas próprias sensações físicas. Após um abalo sísmico, o jovem cai num bueiro munido apenas de papel em lápis que antes ganhara ao invés de algum alimento.

    Aplicação do idioma
    A simplicidade do vocabulário pode ser entendida como um traço de estilo, até pela eficácia, competência e objetividade observadas, tanto na escolha, quanto na ordenação das palavras. Então, tão somente para não dizer que é perfeito, eu teria preferido uma imagem melhor do que a desgastada “frondosas árvores”, assim como a construção “…até onde a vista de ambos pôde se alcançar.” pareceu-me confusa, senão equivocada e, em “A bolota cor de uva chutada”, pareceu-me haver um erro de digitação, pressupondo que, ao invés de “chutada”, a autora quis escrever “uva chupada”.

    Técnica
    A autora revela uma técnica madura, segura, repleta de recursos. A narrativa que se incia aparentemente hermética e lírica, ainda que extensa, evolui para a ação, com eventos claros, reflexivos, profundos e sedutores, bem conduzidos e cadenciados. No entanto, ao meu ver, excede-se no lirismo e, mesmo que em raros momentos, perde a mão, como se seduzida pelo próprio virtuosismo.

    Título
    Apesar de apropriado, o título não incita a curiosidade do leitor (talvez por isso demorei tanto em ler este maravilhoso conto), uma vez que as palavras brejo e cruz possuem conotações pesadas, pouco atraentes e até tristes.

    Introdução
    Composta de pelo menos três parágrafos aparentemente herméticos, ainda que poéticos, a introdução poderia desestimular leitores menos familiarizados com peças literárias mais, digamos, artísticas. No entanto, pouco antes de finalizar o conto, demais leitores são reportados de volta ao inicio, como numa espécie de insight. Quero crer que isso é propositado e demonstra grande domínio técnico por parte da autora. Ainda que, estudando mais a fundo esses parágrafos iniciais, o entendimento de algumas construções continue difícil. Em “…na impossibilidade de se tornar adubo bom o suficiente para produzir a fartura das mangueiras, resistiam, caatinga, no cenário inconfundível do cemitério dos famintos.” a importância e real significado da palavra “caatinga” no contexto específico não me ficaram claros.

    Enredo
    Enredo criativo e original. Mesmo sem apelar para a “pirotecnia” comum ao gênero Fantasia – o conto se enquadra mais no Realismo Mágico -, a autora foi capaz de elaborar uma narrativa que, cheia de crítica social implícita, remete ao fantasioso e, em paralelo, faz uma metáfora com a realidade dos que têm a fome como elemento do seu cotidiano (Azul de fome? Buraco no estômago? São esses elementos fantasiosos ou sutis metáforas?) e insinua a leitura, a escrita, a alfabetização, o imaginário da ficção literária como insumo, tábua de salvação e alimento, muito antes para intelectos e almas do que para corpos.

    Conflito
    A fome, a miséria, a ignorância, a exclusão, a morte… Ainda que apresentado com sutileza, o conflito é pessoal, social, humano, universal.

    Ritmo
    A narrativa possui uma cadência orquestral, não obstante, pareça-me que às vezes a autora perca a mão, por excesso ou formato, no lirismo. Também algumas cenas, como o encontro com o menino que presenteia o protagonista, considerado o abismo social entre eles, talvez pudessem ser melhor exploradas e aprofundadas.

    Clímax
    Creio que para o desfecho seria mais adequada – mais coerente com o conto em si – uma ruptura abrupta, com o protagonista vendo seus iguais, incrédulos e debochados, a dar-lhe as costas antes que concluísse o discurso sobre sua descoberta. “”Um a um, todos se foram. Ficou só.”” Tudo que se segue parece-me supérfluo e até mesmo prejudicial ao conjunto da obra.

    Personagens
    Este conto poderia receber diversas classificações, inclusive se poderia dizer que é um conto social. Enfim, por sua natureza e forma, a história dispensa a “individualização” dos personagens. O protagonista poderia ser qualquer dos milhões de famintos de sua mesma faixa etária que já habitaram, habitam e habitarão esse mundo.

    Tempo
    Os mesmos argumentos aqui usados para validar a ausência de individualidade do protagonista pode ser aplicado à linearidade e pouca ênfase dada ao tempo na história, o contexto narrativo é praticamente atemporal.

    Espaço
    As descrições de cenário e contextualizações físicas, plásticas, geográficas… Estão bem inseridas. A ideia do protagonista habitando, com sua barriga oca, o tronco oco do cajueiro, é esplendida. Ademais, há referências ao nordeste brasileiro, principalmente em citações de plantas e vegetação típica. O evento do terremoto, no entanto, talvez pudesse ser substituído por catástrofe mais comum no país, possivelmente um mero incêndio. O contraste social, pungente e rotineiro, bem como o próprio bueiro, remetem a uma cidade grande, não obstante, este cenário poderiam ser apresentados com traços mais claros.

    Valor agregado
    O conto porta grande valor artístico e social, ainda que estes aspectos não tenham sido tão evidenciados para leitores, digamos, menos familiarizados com literatura de alto nível.

    Adequação ao Tema
    Parece-me um conto totalmente enquadrado no gênero Realismo Mágico, o qual pode ser considerado uma ramificação do gênero Fantasia.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Cirineu,

      Obrigada pela leitura cuidadosa, mesmo após o desafio.
      Valeu pelas dicas, vou considerar.

      Beijos
      Paula Giannini

  2. Leandro Soares Barreiros
    29 de março de 2019

    Em uma sociedade marcada pela desigualdade, um grupo de pessoas excluídas lidam com o abandono, com o descaso e com a fome da sua própria maneira. Diante da brutalidade da vida material, um homem descobre que a solução de seus problemas e de todo o seu grupo possa estar no mundo imaginário.
    Mas não está.

    Oi, autor. Eis que não costumo apreciar muito textos carregados de linguagem poética. Especialmente se os considero longos. Não sei bem precisar o motivo. Acredito que seja muito difícil manter o fluxo narrativo com as divagações, metáforas e reflexões incessantes que a poesia demanda. Em algum momento, o texto tende a cair para um reforço exagerado (e esse exagerado é bem subjetivo, há quem possa gostar. Aliás, acho que muitos devem gostar) de um determinado elemento. E a repetição de ideia tende a me cansar cada vez mais.
    Por isso, não costumo ler muitos textos carregados nesse estilo. E, por isso, eu provavelmente não consiga apresentar qualquer utilidade ao criticar o seu texto. É simplesmente um pouco fora dos limites de minha competência. Ainda assim, tentarei:

    Senti no seu texto os pontos que levantei anteriormente de maneira geral. A metáfora entre a pobreza, a fome, a morte e o jardim começa bem (tive que buscar no google as plantas citadas, porque não entendo nada de botânica), mas há uma insistência em produzir imagens e símbolos de elementos já bem estabelecidos na história. E, não bastasse isso, o que antes era tratado de maneira simbólica e, portanto, criativa, vai dando espaço para descrições piegas (claro, verdadeiras, mas ainda assim extremamente apelativas).

    Vou tentar reproduzir algumas impressões minhas lendo, para mostrar como essa gradação funcionou comigo:

    “ E então, dispostos lado a lado, ressequidos e tortos, na impossibilidade de se tornar adubo bom o suficiente para produzir a fartura das mangueiras, resistiam, caatinga, no cenário inconfundível do cemitério dos famintos. “

    ‘Entendi. Gostei da imagem criada para representar a miséria. Muitos passam fome e acabam morrendo, há abandono de uma parcela da sociedade que é miserável’.
     
    “Criança que não come tudo, não cresce e fica assim. A audição era o seu melhor sentido, mas o olhar atônito daquele menino, mirando através do buraco em seu estômago, ainda que mudo, jamais passaria despercebido.”

    ‘Interessante a relação entre os miseráveis e os favorecidos, como os primeiros viram um exemplo pedagógico banal para os segundos instruindo os filhos’
     
    “Afinal, era preciso se arriscar, sair e beber o pouco da água que o corpo ainda segurava, comer algo, uma sobra, um grão de arroz, com sorte, migalhas de pão espalhadas aos pombos, era preciso fazer as necessidades, também estas, tão poucas.”

    ‘Certo… isso já ficou claro’.

    “Não a tampa de um iogurte para ser lambida, resto de milho de pipoca, meia fruta, marmita azeda ou um embolorado pão.”

    ‘ok…’

    “Vamos cozinhar? Eles diziam. E os famintos, um por um, apresentavam a coleta de seu dia. Quem nada tinha, nada comia. Era essa a lei na selva-urbana. Aos poucos, cada um mostrava o que conseguira, um pacote com restos de bolacha era um luxo aqui, cascas de banana, uma iguaria ali. Uma fruta roubada do cemitério dos abastados, um banquete digno de reis.”

    ‘…’

    “Lembrava do dia em que, pela primeira vez, desejara um. Em frente à padaria, no chão, o potinho de plástico jazia melado da calda doce. Passou o dedo no fundo e lambeu”

    ‘…………………………………….’

    E por aí vai. Minha impressão geral é a de que o conto teve como objetivo martelar a noção da miséria e da fome inúmeras vezes, de diferentes formas, começando por boas metáforas e, na ausência delas, passando para apelos mais dramáticos. Ou, talvez, por metáforas igualmente boas, mas que por conta da repetição se tornaram cansativas.

    Mas que fique bem claro: minha cabeça funciona voltada para modelos mais clássicos de história. A sua proposta é carregada em metáforas e eu não domino bem esse tipo de leitura. De todo modo, acho que talvez seja válida minha crítica sobre a repetição da mesma ideia de formas diferentes como algo meio cansativo. Ou não, eu realmente não entendo bem esse estilo.

    Aspectos positivos:

    As metáforas iniciais ficaram fantásticas, na minha opinião. São belas, criativas e sóbrias. O seu domínio sobre as palavras é óbvio e invejável. O lirismo poético é também muito bom, ajudando a construir parágrafos bonitos que mesclam acontecimento, pensamento e diálogo. Mesmo raramente escolhendo histórias com esse estilo, é bom encontrar algo do gênero de vez em quando, para dar uma refrescada na cabeça.

    Enfim, mesmo com as críticas achei a primeira parte da história muito boa. Recebe, de mim, 3,5 o um anéis.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Leandro,

      Obrigada pela leitura cuidadosa e pelas dicas, que, vou considerar.

      Quanto às plantas, estranhei seu comentário sobre botânica. Você não é brasileiro? Ao menos na minha época, estudava-se muito sobre a vegetação de locais de seca, entre outros. 😉 Porém, foi bom você comentar, muitas vezes partimos do pressuposto que o leitor sabe o que sabemos, e isso, obviamente, não é uma verdade. Por outro lado, levar o leitor à pesquisa é algo bom, não.

      Beijos
      Paula Giannini

      • Leandro Soares Barreiros
        17 de maio de 2019

        Oi, Paula.

        Sou brasileiro, mas, como se evidencia, fui um péssimo aluno de geografia rs.

        A pesquisa sobre as plantas foi bastante agradável, para ser sincero, e gostei bastante das imagens.

        Reforço que achei as suas construções lindas, mas fui vencido pelo o que entendi como diferentes representações sobre as mesmas coisas. Talvez se as metáforas tivessem abordado outras questões eu apreciasse o texto ainda mais.

        Um beijo!

      • Paula Giannini
        22 de maio de 2019

        Beijos, querido!!! Vamos ao próximo desafio, né?

  3. Priscila Pereira
    26 de março de 2019

    Brejo da Cruz (Julinho de Adelaide)
    Sinopse: As pessoas que não tem o que comer ficam com um buraco no meio do estômago, são estigmatizados e abandonados pela sociedade. Os que morrem são plantados no cemitério dos famintos. Um dia, o protagonista cai em um bueiro durante um tremor de terra. Tentou pedir socorro com um bilhete, usando um pedacinho de lápis e papel que ganhou de uma criança normal. Ninguém viu o bilhete, então, sem esperança escreveu o que gostaria de comer, e de alguma forma pode sentir o gosto, foi escrevendo tudo o que queria comer e foi sentindo o gosto de tudo. Conseguiu sair do bueiro, alimentado e forte. Tentou mostrar o que descobrira aos outros, mas não ficaram animados, afinal, onde arrumariam papéis e lápis? Tudo era negado a eles.

    Olá autor(a)!

    Que conto profundo, emocional, tão complexo e poético! Amei!! Infelizmente apesar de ser fantasia, é muito baseado na realidade. A sua descrição do sabor dos alimentos foi impecável! Deu até pra sentir o gosto…rsrsrs. É triste e ao mesmo tempo que aponta uma esperança. A educação, a imaginação e a escrita pode salvar o mundo. Muito bom mesmo. Parabéns!!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querida Priscila,
      Obrigada pela leitura e pelo carinho ao comentar.
      Beijos
      Paula Giannini

  4. Fheluany Nogueira
    22 de março de 2019

    O texto fala de miséria e como vencê-la, trabalha com metáforas, colocando o leitor diante de um jogo de encaixe de analogias decorrentes da capacidade de simbolização.

    De início cria-se um ambiente de pobreza natural — “Enterrar é plantar” cactáceos e arbustos tortos. Criança que não come, não cresce, adultos com fome têm um vazio, um oco na barriga. O menino consegue papel e um lápis. Vem o terremoto que o joga no buraco, ele pede socorro duas vezes e não é atendido. Espera a morte, mas vem o assombro: escrevia nomes de alimentos ou coisas que desejava e se sentia nutrido, satisfeito. Consegue fechar o buraco do corpo e sair daquele em que caíra. Tentou ensinar aos outros o que aprendera, desacreditaram. “Era a lei, eles disseram”. A narrativa se abre e se fecha em círculo com as palavras do título BREJO DA CRUZ.

    Estilo inconfundível, com uma estratégia que propicia ao leitor descortinar uma percepção de mundo que se forma nas entrelinhas, fora do alcance dos olhos comuns. A mensagem seria que só as palavras, os livros, a aprendizagem alimentam. Uma forte crítica social.

    As construções estrutural e frasal, em parágrafos e frases curtas e reiterativos trazem um ritmo ágil e prazeroso. Escrita competente, texto bem planejado, plurissignificativo, cativante, apesar de alguns exageros na dramaticidade, sobretudo no prólogo.

    A pior de todas as fomes é a fome da alma — o texto faz uma profunda análise desta lição, percebendo o significado duplos nas coisas, a descoberta e a capacidade de ser incompreendido, mesmo seguindo objetivos e realizando o propósito com muita atenção.

    Conto perfeito, muito sensível, mesmo considerando-o um tanto longo demais e repetitivo em algumas expressões é muitíssimo bem escrito, com domínio claro da língua portuguesa e um certo lirismo musical.

    Parabéns pelo trabalho. Boa sorte na Liga. Um abraço.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querida Fátima,
      Seus comentários são sempre primorosos.
      Muito obrigada.
      Beijos
      Paula Giannini

  5. MARIANA CAROLO SENANDES
    19 de março de 2019

    Resumo: Um dos filhos da fome, aqueles com o buraco na barriga, descobre a saída para a sua situação no papel e na caneta: escrever sacia. Bom, na terra selva-urbana, as coisas não são boas. O sonho acaba.

    Majestoso e tão triste. Começo destacando a imagem que abre o conto: Portinari, o nosso artista da fome. O autor parte do quadro para, em uma prosa poética, contar a história daqueles que nasceram com um buraco na barriga. Mirrados, escondidos, mas tantos… Um deles descobre a magia das letras e, nossa, a passagem que ele passa a se alimentar delas tá entre as coisas mais bonitas que eu li esse ano. O desejo dele de contar aos outros, a verdadeira roda que os tiraria da noite vazia… Bom, o final é tão, tão triste, tão Brasil, tão real. É o melhor conto do desafio em minha opinião: está bem escrito, é impactante e criativo por todo o trabalho feito a partir da pintura. Mas, apesar de todas as cenas surreais, não há fantasia ali. O que torna o conto mais melancólico. Parabéns, um trabalho necessário.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querida Mariana,
      Obrigada por sua leitura tão generosa.
      Fiquei até emocionada, até porque conheço seu trabalho (de longe, mas sim) como educadora e escritora.
      Beijos
      Paula Giannini

  6. Jorge Santos
    17 de março de 2019

    Resumo: este narra conta a história de um homem pobre que cai num bueiro depois de um terramoto mas que ninguém o ajuda. Esta é uma forma simplista de falar de um texto riquíssimo que nada tem de simplista e que fala desse flagelo tão actual que é a miséria, tanto da miséria material como a miséria espiritual. É um texto de uma poesia incrível, que se lê com prazer, mesmo que essa mesma leitura seja um exercício desconfortável. Achei apenas que o exagero ultrapassou o limite do razoável em alguns pontos e que excesso de repetições deveria ter sido contido. Fora isso, estamos perante um texto brilhante mas de digestão difícil.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Jorge,
      Obrigada pelas palavras generosas.
      Sim, a fome é algo de difícil digestão, e, algo que deveria se tornar pura ficção…
      Beijos carinhosos.
      Paula Giannini

  7. Pedro Paulo
    12 de março de 2019

    RESUMO: Colocado em uma progressão linear, o conto se sintetiza da seguinte forma: o protagonista é um dos famintos que se espalham pela cidade de Brejo da Cruz, impedidos de comer e comidos pela fome, representada pelo azul, pelo buraco. Em mais um dia ordinário da miséria, sua jornada de pedinte lhe arranja apenas um lápis e um papel, material desprezado pelos companheiros. Um terremoto joga o protagonista para dentro de um bueiro, onde passa um tempo de inércia meditando sobre a sua situação, até que enfim risca o papel com o seu desejo, um pudim de leite. Não foi pouca a surpresa ao sentir o sabor doce daquela iguaria, logo se lançando a escrever outras coisas que pudesse sentir. A descoberta o motiva a escalar para fora do seu túmulo prematuro, levando a novidade aos companheiros, que mais uma vez desprezam. O conto se encerra com a conclusão da personagem a respeito daquela condição: inescapável.

    O CONTO: Este é um conto em que se sobressai a qualidade técnica. O enredo, de certa forma resolvido na fantasia, talvez deva ser encarado de forma metafórica, como se quisesse entregar uma mensagem mais do que contar uma história, o que de modo algum é negativo e, em verdade, não apaga a existência do início-meio-fim na leitura, inegavelmente presentes na jornada do protagonista.

    Eu elogio primeiramente o aspecto técnico porque o autor soube escrever de maneira bastante ágil, conseguindo entregar ao leitor uma sensação de dolorosa resignação, em que acompanha também uma cruel fatalidade. A miséria dos personagens não é só vivida, mas sentida, não significa apenas a escassez, mas um preâmbulo da morte, sobre o que não se ignora o fato do conto se iniciar com um enterro. Da mesma maneira que soube escrever a dor, também trouxe à vida o gozo, evidente na esperança que o personagem alimentou quando também se “alimentou” com o papel. Aí aponto uma boa escolha narrativa ao responsabilizar o próprio personagem pela sua escapatória. No início do conto, algo que não é verdadeiramente anunciado, mas está bastante presente é a inércia, a resignação diante de um futuro quase certo que seria a morte pela fome. Quando o personagem escapa, demonstra que sua prisão no bueiro constituía muito mais uma escolha suicida do que uma armadilha na qual havia caído (não fica clara uma relação entre a chuva e a escalada para fora do bueiro). Acentua a resignação, faz de Brejo da Cruz um espaço ainda mais cruel, em que pessoas como o protagonista seriam moídos pelas engrenagens da “selva-de-pedra”.

    Quanto ao que assinalei anteriormente sobre metáfora é porque eu não sei se interpretei de maneira correta, mas se faz um paralelo entre a imaginação ou, talvez, a educação, e o fim da miséria. Não é um paralelo incomum e corresponde quase a uma oposição entre o feio da pobreza e a beleza da possibilidade. Eu entendi como metáfora, pois imaginei que se de fato a personagem tivesse um poder de materializar o que quisesse a partir do papel, bastaria que achasse uma folha e demonstrasse. Ao mesmo tempo, o autor escreveu sobre a folha ensopada por causa da tempestade, o que impossibilitaria uma demonstração e não descarta totalmente a possibilidade de ter sido um poder real. Eu continuo acreditando que se trata de uma metáfora, pois naquele jogo pobreza vs. imaginação, o conto se encerra com uma vitória da primeira, condizente com uma realidade dura.

    Avalio um enredo razoavelmente comum escrito com imensa qualidade técnica. Sobre a adequação ao tema, acredito que houve sim aproveitamento da fantasia, mas estarei fechando a nota nesse critério assim que ler os demais contos desse tema. Boa sorte!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Pedro Paulo,
      Obrigada por sua leitura e considerações.
      Vou ponderar sobre as coisas que falou.
      Beijos
      Paula Giannini

  8. Matheus Pacheco
    6 de março de 2019

    RESUMO: Um conto de fantasia contemporânea sobre uma cidade fora do tempo comum, onde escapar é impossível , onde toda o desenrolar é contado por um maluco que habitava um toco na cidade de Brejo da Cruz, a um estilo Lovecraftiano pique “Sombra sobre Innsmouth” fazendo o leitor, ao terminar perder a esperança de fugir.
    COMENTÁRIO: Um conto muito bom mas eu acho que foi mal utilizado para o contexto de fantasia, se encaixando mais em terror que no proposto, não deixa de ser bom, mas de novo, não se encaixou.
    Se estivéssemos julgando o desafio terror esse seria um conto 4,5.
    ótimo conto e um abraço.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Matheus,
      Obrigada por sua leitura.
      Pena que não seja terror… hahahah
      Beijos
      Paula Giannini

  9. Renata Afonso
    6 de março de 2019

    Esqueci de citar a fantasia/metáfora (lápis para escrever o que fazer,viver, comer) da educação como solução para a fome, a miséria e a morte. Magnífico!

  10. Renata Afonso
    6 de março de 2019

    Oi, Julinho de Adelaide,
    Tudo bem?
    Parabéns, antes de tudo, pela sensibilidade ímpar, e até posso dizer (se correta estiver sobre a autoria rs) tão sua, tão bem escrita e desenhada, sentida ao extremo, de todas as formas.
    Brejo da Cruz é um local onde vivem, ou sobrevivem, os esquecidos pelo mundo, os desfavorecidos, aqueles que não conheceram o sentimento que deveria ser considerado “normal”, de saber-se seguro e alimentado, desde as mais tenras idades.
    Meninos azuis, o azul da fome, da dor, da morte….o azul que muitos fingem não ver – e aí digo que a metáfora do bueiro é chocante e perfeita…..a vida sobrevivendo nos bueiros, escondida, uma vida tão igual a todas, massacrada pelo peso do não ser visto, não ter importância, da marginalidade de ver a vida lá, de onde não pode incomodar ninguém, onde seu rito não tem voz, onde só o sonho-pesadelo solitário preenche os dias que faltam para que a transformação em “semente” aconteça, de vez.
    Lembranças acres de uma pequena satisfação momentânea, a de alimentar-se, contadas pelos olhos de quem enxera além do que se vê.
    A interrupção, o terremoto, a escalada para a terra para presenciar mais uma semente sendo plantada, a semente que antes promessa torna-se alo que não se sabe, a dúvida do que virá, a constatação de desvalia, a morte.
    Seu conto é excelente, bem escrito, leitura fácil (e sofrida), só devo dizer que não vi muita fantasia, embora a linguagem metafórica a enquadre tal como (aqui, como leitora, talvez eu tire alguns pontinhos, mas por entendimento meu sobre adequação ao tema, ok?).
    Parabéns pelo conto, e muito obrigada por mais essa beleza!
    Beijos!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querida Renata,
      Seu comentário é primoroso, dá vontade de emoldurar e colocar aqui na parede.
      Obrigada pela generosidade e cuidado na leitura.
      Beijos
      Paula Giannini

  11. Fernando Cyrino
    4 de março de 2019

    Meu caro Julinho da Adelaide (chegou o Chico?). Você me traz uma bela homenagem à linda música do seu xará o Chico Buarque. A cidade, Brejo da Cruz, onde as crianças, menores abandonados pelas ruas, se alimentavam de nada, (ou da luz). Meninos invisíveis que, mesmo estando à volta, não são vistos pela sociedade. E o nosso herói, uma dessas crianças que vivia no oco da árvore, busca se salvar pela palavra (a literatura aqui é homenageada por você no meu modo de ver) e para isto chama os seus companheiros de abandono e infortúnio, mas não é ouvido. Ele fica só eis, que é impossível a fuga da realidade tão perversa. Gostei dessa sua homenagem. Achei que foi criativo na fantasia, ao criar esse buraco no meio da barriga dos invisíveis. O buraco de luz, eis que se alimentavam dela. Um conto interessante, muito bem escrito, mostrando-me que se trata mesmo de alguém da Série A, que possui grande domínio da escrita. Mas, no entanto, Julinho, seu conto não me fisgou. Achei que faltou algo que me encantasse mais. Achei um tanto forçado, eu sei, é fantasia, o garotinho naquela penúria absoluta, escrever SOS buscando o salvamento do bueiro. Trata-se de linguagem universal, mas que achei que não estaria ao alcance de tal criança. Fique com o meu abraço.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Fernando,
      Estou agradecendo e lendo os comentários mais uma vez. Fiquei sem computador esses dias.
      Obrigada pela leitura.
      Você foi um dos poucos que decifraram o pseudônimo.
      Sim, a canção de Chico é perfeita.
      Beijos
      Paula Giannini

  12. Regina Ruth Rincon Caires
    24 de fevereiro de 2019

    Brejo da Cruz (Julinho de Adelaide)

    Resumo:

    Difícil tarefa. Tudo é tão emblemático, tão rico de conteúdo que resumir seria como concretizar eflúvios. “Julinho DA Adelaide”, dos anos 70, faria de costas. Mas vamos lá…

    Brejo da Cruz seria a “comunidade” dos excluídos, criaturas que brotaram como sementes de mandacaru, sem estirpe. Mortos pela fome, pelo abandono, pela condição de “invisíveis”, costumeiramente eram enterrados (plantados) ali. À noite, depois que a cidade se acalmava, os famintos se reuniam para cozinhar os restos que colheram das lixeiras dos abastados. Quem nada trazia, nada comia.

    Na rua, como ajuda, o menino ganhara apenas um caderno usado e um lápis. Não iria comer a sopa da noite.

    De repente, um terremoto. Na correria das ruas, esbarravam-se pobres, abastados, mendigos, o pavor não tinha classe. E o menino acabou caindo num fosso profundo, e, esquálido, não teria como sair de lá. Só, os pensamentos o dominavam. Queria ser encontrado, que o tirasse dali. Com ele, o velho caderno e o lápis. Tentou fazer aviãozinho “S.O.S”, sem sucesso. Pensou em lançar um bilhete, mas desistiu. Começou a pensar nas comidas que desejava comer: PUDIM DE LEITE – escreveu e “comeu”. PÃO COM MANTEIGA, COXINHA DE FRANGO, OVO COZIDO COLORIDO – escrevia e “ia comendo”. E sentiu-se saciado, forte. Precisava sair dali e contar aos outros meninos que aquela seria a salvação de todos do Brejo da Cruz. Eles precisavam do saber, do “juntar as letras”, do conhecer, de entender a “engrenagem daquela selva-de-pedra”. E, agarrando-se ao barranco, com muito esforço, saiu do buraco. “Contou a eles do segredo do fim da fome. Lápis, papel, canetas, livros.”

    Infelizmente, ficou só, falando com seus botões. Os outros desacreditavam, achavam que tudo aquilo era sina.

    Comentário:

    Um texto que, apesar de não me fazer chorar, provocou um incômodo nó no peito. Escrita excelente, construção primorosa, poucos deslizes. Há um entrelaçamento de ideias que prende o leitor, há frases bem construídas, há fluência na descrição. O leitor está na cena.

    O autor é experiente, conhece as minúcias de uma boa narrativa. Fala da morte, da fome, da esperança e desesperança, do oco. Ah! Esse buraco danado que come pelo meio, que reduz o ser a uma coisa invisível. Mostra que nada é sina, que “ a fome tinha remédio, a dor, a falta dela, o vácuo, o nada, tudo tinha uma cura.” E com a morte da menina, ao final do conto, o menino explicou a salvação: “A pequena não tivera tempo para aprender. Triste sina. A menina jamais saberia das letras que os livrariam, a todos, da engrenagem da morte.”

    Este conto, sem sombra de dúvida, foi dos melhores que li até agora. E o parágrafo, que colei abaixo, mostra a qualidade da escrita do autor. Uma descrição feita de poesia:

    “Enterrar é plantar. E era mesmo, ao menos assim imaginava. Enquanto se afastava, as costas voltadas para o bosque do campanário, vislumbrava os cabelos se insinuando na superfície, pequenos arbustos tateando a terra em busca de luz, brotando em movimento imperceptível das covas simétricas. E então, dispostos lado a lado, ressequidos e tortos, na impossibilidade de se tornar adubo bom o suficiente para produzir a fartura das mangueiras, resistiam, caatinga, no cenário inconfundível do cemitério dos famintos.”

    Parabéns pelo texto!

    Boa sorte no desafio! Abraços…

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Oi, Regina,
      Obrigada pela leitura cuidadosa de sempre.
      A arte nem sempre é para fazer chorar, às vezes rimos, em outras, há um nó no peito, na garganta, na boca do estômago. Que bom que lhe causei esta sensação, foi a ideia.
      Muitos beijos da amiga aqui.
      Paula Giannini

  13. Givago Domingues Thimoti
    23 de fevereiro de 2019

    Caro(a) autor(a),

    Desejo, primeiramente, uma boa primeira rodada da Liga Entrecontos a você! Ao participar de um desafio como esse, é necessária muita coragem, já que receberá alguns tapas ardidos. Por isso, meus parabéns!

    Meu objetivo ao fazer o comentário de teu conto é fundamentar minha nota, além de apontar pontos nos quais precisam ser trabalhados, para melhorar sua escrita. Por isso, tentarei ser o mais claro possível.

    Obviamente, peço desculpas de forma maneira antecipada por quaisquer criticas que lhe pareçam exageradas ou descabidas de fundamento. Nessa avaliação, expresso somente minha opinião de um leitor/escritor iniciante, tentando melhorar, assim como você.

    PS:Meus apontamentos no quesito “gramática” podem estar errados, considerando que também não sou um expert na área.
    RESUMO: Brejo da Cruz aborda, de forma fantasiosa, a vida das pessoas marginalizadas as quais vivem nas cidades grandes, tendo um enfoque num personagem que descobre um meio de abrandar a fome, depois de uma tragédia como um terremoto.

    IMPRESSÃO PESSOAL: Por enquanto, Brejo da Cruz vem sendo para mim o conto mais impactante da Série A. A temática social da narrativa é muito bem mostrada pela alegoria. É uma daquelas obras que não vieram para agradar ou arrebatar o leitor. Para mim, logrou no objetivo de mostrar a realidade que cerca de 1 bilhão de pessoas vivem, com um fundo fantasioso, mas nem tão fantasioso assim.

    ENREDO: O enredo é muito bem construído, com expressões populares (?) servindo como base para a aparência dos personagens tais como: “azul de fome” ou “tô com tanta fome que parece que tem um buraco no meu estômago”. O(a) autor(a) foi bastante feliz com essas escolhas, misturando com bastante harmonia o realismo com a fantasia.
    Talvez, o único ponto negativo do enredo seja um ponto que me pareceu um tanto quanto desconexo: o momento em que o protagonista ficou preso no buraco. Ele foi salvo, mas por quem? Enfim, talvez seja apenas lerdeza minha
    GRAMÁTICA: Não encontrei nenhum erro gramatical.

    PONTOS POSITIVOS
    • Não gosto muito de contos como Realismo-Fantástico. Ainda assim, a forma de abordar o tema foi muito boa.
    • A construção de personagens foi ótima.
    • Impactante

    PONTOS NEGATIVOS
    • Apenas aquela aparente lacuna de quem salvou o protagonista.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Givago,
      Seus comentários são sempre maravilhosos. Mesmo quando são criticas. Você lê com cuidado, amor e carinho.
      Muito obrigada.
      Beijos
      Paula GIannini

  14. Luis Guilherme Banzi Florido
    23 de fevereiro de 2019

    Bom diaaa! Td bem?

    Resumo: uma triste e tocante metáfora da fome. Garoto de rua recebe caderno e papel de outra criança e percebe que a educação é capaz de salva-lo, e a todos os outros famintos. Infelizmente não consegue mostrar isso pros demais.

    Comentario:

    Por que faz isso comigo, contista? Chorei no trabalho, torcendo pra não chegar nenhum cliente rsrs.

    Vamos lá. Devo dizer que comecei achando que seria um conto meio chato de ler, pois não estava entendendo bem o que acontecia. Mas isso se dissipou rapidamente, assim que entendi a situação. Dealguma forma, esse conto foi crescendo em mim, me emocionando e sensibilizando. Algumas construções estão muito fortes, como “E porque os passageiros, em frente à padaria da rodoviária, jogavam-lhe moedas, em retribuição ao bizarro show que os divertia tanto.” e “Não implorou. Era proibido alimentar um faminto. Era a lei na engrenagem daquela selva-de-pedra.”

    Devo dizer que essa segunda passagem se instalou incomodamente em mim. É uma questão que me toca profundamente, e procuro sempre notar e valorizar essas pessoas “invisíveis”.

    Aqui perto do meu trabalho vivem alguns moradores de rua, e eu constantemente sento pra conversar com eles e levo roupa e comida. Acabei me tornando próximo de alguns, e sempre me emociono com suas histórias e sofrimentos.

    Um tempo atrás, um deles conseguiu um emprego e saiu da rua. Ele veio me contar, agradeceu e chorou, dizendo que eu era uma pessoa importante na vida dele, que havia notado ele como ser humano. Falou que eles não queriam nada, só que as pessoas os olhasse como seres humanos, e não como lixo.

    Ainda sinto um aperto no peito quando lembro disso.

    Enfim, tô divagando demais, aqui. O ponto é que seu conto tem uma sensibilidade e crueza que me encantaram. Parabéns, não é fácil escrever assim. Além disso, a técnica é excelente.

    A única ressalva que faria é que tenho dúvidas se entra nos temas propostos, mas isso não algo que eu preste muita atenção, ainda mais numa obra tão sublime, e Principalmente pq não manjo muito de fantasia e suas ramificações, e não quero ser injusto.

    Enfim, excelente! Parabéns!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Luis Guilherme,
      Tudo bem?
      Obrigada por dividir sua história comigo. Acho muito importante ver as pessoas por trás da impressão que temos em nosso convívio habitual, e, embora já saiba de sua sensibilidade há tempo, percebi um pouco mais.
      Obrigada, também pela leitura generosa.
      Beijos
      Paula Giannini

  15. Fabio D'Oliveira
    23 de fevereiro de 2019

    O corpo é a beleza, a forma, o mensurável, o moldável. A alma é a sensibilidade, os sentimentos, as ideias, as máscaras. O espírito é a essência, o imutável, o destino, a musa. E com esses elementos, junto com meu ego, analiso esse texto, humildemente. Não sou dono da verdade, apenas um leitor. Posso causar dor, posso causar alegria, como todo ser humano.

    – Resumo: Na margem da sociedade, eles tentam sobreviver. Dia a dia, de forma pedinte, buscam aquilo que irá dar um pouco de energia, para assim, no dia, seguinte, assumir mais uma vez a carreira de pedinte. Entre mortes, com verdadeiras plantações de esperanças mortas, eles vivem. Até que um terremoto o leva, o foco da narração, ao esgoto. Em desespero, busca ajuda, com aviões de papel e chamados, tudo em vão. Mas descobre uma luz no final de tudo: a imaginação. Mas essa esperança logo é assombrada pela realidade. Assim acaba a história, com o desgosto daquilo que não podemos mudar.

    – Corpo: Você está de parabéns. Sua escrita é excelente. Sem falhas de gramática e bem organizado. Tem talento. E sabe escrever com naturalidade. A única ressalva que tenho sobre o conto é sua densidade. A leitura não foi muito agradável. O uso exagerado de adjetivos, os floreios, as repetições de pensamento; tudo isso me cansou mentalmente. Tanto que, infelizmente, não consegui a desejada imersão na história. Li duas vezes, em dias distintos, e o resultado não mudou. Costumo ler de tudo, desde textos simples até os mais complicados. Quando uma leitura me cansa dessa forma, enxergo como um defeito. Há uma estranha contradição: nota-se a naturalidade da escrita, mas ela é densa e cansativa, ao mesmo tempo. Não vi exagero na poesia em si, mas sim na aplicação da construção textual. Talvez a fonte de inspiração causou isso, não sei, Chico Buarque é poesia em pessoa, mas nem todos conseguem ser como ele. Se a escrita fosse mais simples, sem floreios demais, mas com aquele bom toque poético, poderia ficar melhor para todos e capturar o maior número de leitores possíveis. Do jeito que está, nem todos vão gostar da leitura. Eu, sinceramente, gostei de você e de sua habilidade, mas não do conto em si.

    – Alma: A falta de originalidade pode ser superada pelo excesso de criatividade. Mas este último, nesse caso, ficou no meio termo. Nem pouco, nem muito. Mediano. Alguns dizem que o caminho do meio é o melhor. Até eu digo isso. Mas talvez existam exceções… No final de tudo, o conto se torna uma homenagem direta ao músico Chico Buarque e sua famosa canção que leva o mesmo nome do texto. Para mim, existe a reciclagem de ideias amplamente discutidas, como a miséria, a fome, os problemas sociais que enfrentamos na atualidade e etc. Isso tudo num corpo que carece de certa originalidade, pois quase tudo é moldado de acordo com a fonte de inspiração. Acho que você tem um cacife literário para fazer algo MUITO melhor que isso.

    – Espírito: Você pretendeu fazer um conto de fantasia, mas não consegui enxergá-lo como tal. Tudo o que acontece na história pode ser interpretado como uma metáfora. Ou seja, para mim, todo o texto se construiu de forma real. Essa foi a imagem que ficou quando terminei a leitura. O foco parece ser concluir a homenagem de forma que honre a letra da música. Não existe muita interação com o mundo ao redor, muito menos com outros personagens. Acho que para fortalecer a imagem de fantasia, seria necessário dar mais atenção à realidade do conto. Acredito que, talvez, tenha se prendido muito à tarefa da homenagem e esqueceu de dar vida própria ao texto.

    – Conceito: Prata!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Oi, querido,
      Obrigada pela leitura cuidadosa e pela avaliação original.
      Você me deu prata, mas fiquei com o bronze. rsrrss
      Beijos literários.
      Paula Giannini

  16. Gustavo Araujo
    22 de fevereiro de 2019

    Resumo: menino de rua luta contra a fome até cair num bueiro por causa de um terremoto. Lá dentro, ele descobre que consegue preencher esse buraco no estômago ao escrever o nome de alimentos num papel que recebeu por acaso de outra criança. Quando ele consegue ganhar as ruas de volta, tenta ensinar seu segredo, ou melhor, sua técnica a outros famintos, mas ninguém parece lhe dar atenção. Ninguém quer trocar comida por lápis. E assim seguem a sina da selva. Do brejo. Da cruz.

    Impressões: é um conto escrito de forma maravilhosa, um deleite para os olhos, para quem aprecia boa literatura. As palavras se encaixam com perfeição, gerando empatia imediata, transmitindo sensação, ritmo, cores, cheiros… Impossível não se afeiçoar ao pequeno protagonista, aquele que vemos tantas vezes em nossas andanças nas cidades grandes, mas que não enxergamos realmente. Eles e suas pequenas sagas heroicas, dia após dia, inventando maneiras para viver, para sobreviver. Para comer. O conto passa muito bem essa atmosfera de angústia e, de certa forma, de claustrofobia, nos fazendo torcer para que nosso menino-azul-com-um-buraco-na-barriga consiga quebrar essa espiral de miséria, nem que seja por meio de fantasia.

    Ocorre que apesar de todo esse virtuosismo alguma coisa me fez travar a leitura. Claro que um conto com a temática fantasia exige do leitor certa suspensão de descrença, mas ainda assim, no contexto interno da narrativa, os fatos precisam parecer verdadeiros. Por isso, ainda que eu possa aceitar a ideia de um terremoto repentino jogar o protagonista no bueiro, não consigo comprar o fato de que ele, um pequeno sobrevivente do dia a dia das cidades, saiba o que é “S.O.S” ou mesmo que consiga escrever “SOCORRO” no papel transformado em aviãozinho. Sei que parece picuinha de minha parte, mas isso realmente me incomodou.

    Talvez – só talvez – se ele desenhasse as coisas, mesmo se fossem desenhos toscos, o resultado soasse mais verossímil, mais adequado com o fim proposto. Mais ou menos assim: ele está preso no bueiro e, para matar a fome, desenha (e não escreve) um pudim, um bolo, uma fruta… Por fim desenha a lua vista pelo buraco do bueiro. aberto em sua imaginação, para poder sair… Enfim, só ideias que a agora me passam pela cabeça e que a meu ver, com todo respeito, se encaixariam melhor na proposta da narrativa.

    De qualquer maneira, a mim parece evidente que este texto se encontra num patamar muito superior ao da média – mesmo deste grupo A – dada a elevada técnica com que foi escrito. É trabalho de gente grande, com muita sensibilidade e, como eu disse acima, de encher os olhos. Serve como exemplo para quem está começando e ainda mais para quem tem experiência, que se julga pronto e acabado nesse ofício de dar vida às palavras. De minha parte, só tenho a agradecer, por você, estimada autora, cerrar fileiras com a gente aqui no EC.

    Um grande abraço e… boa sorte no desafio!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Gustavo,

      Obrigada pela leitura, mesmo não sendo uma obrigação do desafio, afinal, você é o grande campeão da série A. Muito generoso e gentil.

      Respondendo ao seu questionamento, de fato, minha primeira ideia foi a de representar o que tomava vida na forma de desenhos. Porém, refleti e acabei me questionando… Por que não escrever? Assim ,eu teria um tipo de resultado como “comer letras”, “comer palavras”, “comer cultura, literatura, enfim” para que, no final, fossem elas, as letras, quem pudessem, de algum modo, salvar o mundo. Foi isso. Se funcionou? Não sei. Mas, parafraseando a Sabrina Dalbello, que diz algo que amo…

      “Às vezes a poesia faz sentido,
      em outras, o leitor é quem dá um significado a ela”

      Obrigada, de verdade.
      Beijos
      Paula Giannini

  17. Rafael Penha
    22 de fevereiro de 2019

    RESUMO: Trata-se da história de um jovem morador de rua, seus anseios e agruras até se ver jogado dentro de um bueiro após um terremoto. Depois de fantasiar e filosofar sobre a realidade, ele retorna a superfície para mostrar a seus colegas o que aprendeu.

    COMENTARIO: Um conto narrado com uma técnica muito bem elaborada. Os pensamentos do rapaz são quase palpáveis, tal é a qualidade descritiva. Entretanto, e meu ver, o que sobrou de beleza descritiva, faltou em enredo. O conto se estende muito descrevendo situações e sentimentos, sendo prolixo à exaustão e a história não avança. Creio que a intenção do autor seja enquadrá-lo no tema fantasia, mas eu vejo uma diferença entre Fantasia e Fantasiar. Neste conto, vemos apenas um jovem quefaz sua mente fantasiar para aliviar a amarga realidade em que vive. Nesse sentido, eu não o enquadraria no tema fantasia, tampouco no de comédia. A forma como o terremoto veio e se foi, e como o garoto ficou horas, ou dias ou semanas (jamais saberemos) preso, e conseguiu fugir com um simples esforço, me pareceram saídas narrativas pouco elaboradas e inverossímeis para dar alguma movimentação à história. Em suma, por mais vívido e palpável que foi a narrativa, eu não me senti atraído ou interessado na história destes moradores de rua. Talvez, o enredo precise ser mais desenvolvido, levar a história de um ponto A a um ponto B. Ou talvez não. Talvez esse tipo de narrativa apenas não me agrade.

    Abraços!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Rafael,
      Obrigada por sua leitura e considerações.
      Beijos
      Paula Giannini

  18. Angelo Rodrigues
    21 de fevereiro de 2019

    Caro Julinho de Adelaide,
    Resumo:
    jovem pobre vivendo numa praça, após sofrer as dificuldades da pobreza, descobre-se, após um terremoto, de posse da salvação para a resolver a fome de tantos: educação. Mas como tê-la quando falta o mais básico, que é a própria comida, que antecede à compra do material que os fará se livrar da fome.

    Avaliação:
    gostei bastante do conto, embora tenha encontrado dificuldade em localizá-lo no centro da fantasia – dado que comédia não é (embora não veja nisso problema).
    Vi-o ainda mais como uma fábula, um koan para uma situação para a qual não há solução à vista, como se na miséria houvesse uma espécie de circularidade, dado que para a educação é necessário o dinheiro que inexoravelmente após aparecer, irá para suprir a necessidade de alimentos. Estar vivo precede tudo.
    Há belas passagens bastante bem construídas, caracterizando-se pelo porte poético ao tratar de assunto tão delicado.
    Lápis e papel, cadernos, livros. Tudo são alimentos fabulares. Educação. Mas como resolver tudo isso?
    Em muitos momentos é tratado um dos assuntos mais delicados, particularmente aqui no Brasil. A sina, o destino, a consequente exatidão em se realizar aquilo que é esperado dos que nada têm. Isso foi bem legal, e o nosso protagonista com seu buraco-desejo perfeitamente compreendido, tornou-se – infelizmente – uma voz solitária na pregação de novos e mais desafiantes destinos, que levariam aquelas pessoas com as quais ele fala, a saírem da degradante sina, das engrenagens das mortes, chegadas pelas febres e endemias “naturais” da pobreza.
    Parabéns e boa sorte na Liga!!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido Ângelo,

      Obrigada pela leitura, comentários e considerações tão pertinentes.
      De lá para cá, muitas coisas aconteceram e agora você está na série A. Viva! Parabéns.

      Beijos
      Paula Giannini

  19. Antonio Stegues Batista
    21 de fevereiro de 2019

    Brejo da Cruz- conta a história de um grupo de crianças pobres, que passam os dias perto de uma rodoviária pedindo esmolas.

    Acho que o conto é uma metáfora sobre a pobreza no Nordeste Brasileiro. A cor azul e o buraco no estomago dos personagens tem um sentido apenas figurativo. O buraco representa o oco da fome, já a cor azul tem uma representação que não consegui captar. Portinari teve uma fase azul em suas obras, mas a imagem que ilustra o conto não é original. Podemos considerar que as crianças fantasiam para enganar a fome. A narrativa, a escrita é boa, porém, achei que houve excesso de metáforas num todo, linguagem, ações, diálogos, que poderiam ter sido concretos, reais, uma realidade mais crua e impactante. A imagem da pobreza no Nordeste ficou disfarçada em forma de poesia, quando devia ter sido mostrada na sua realidade, “nua e crua”. Apenas uma opinião.

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido amigos,
      Obrigada por sua leitura e considerações.
      A realidade nua e crua é, na maioria das vezes, invisível. Tratei-a com fantasia (aliás, tema do desafio), sem perder o pé no real drama de nosso país (e do mundo), e, em minha busca em falar dos invisíveis na maioria de meus textos.
      Beijos
      Paula Giannini

  20. Tiago Volpato
    20 de fevereiro de 2019

    Resumão:
    É a história de um menino pobre que um dia ganha lápis e papel que faz acontecer tudo o que ele coloca por ali. Ele escreve um monte de comida e sente o gosto de tudo, acho que é uma metáfora de escrever e se sentir cheio. No fim ficamos com a mensagem de que só podemos sair da miséria com a educação.

    Considerações:
    É um texto muito bem escrito, você tem bastante habilidade com as palavras, tem um vasto repertório e sabe muito bem escolher as palavras certas. O texto é bem poético e bonito, tem uma mensagem bacana, mas achei um pouco confuso, o que eu entendi talvez não seja o certo, mas sou da opinião que não existe certo ou errado em um texto, o que o leitor entender e tirar dele é o correto. Diante disso, acho que o texto fugiu do desafio proposto, como ele não tem nada de humor, o tema deveria ser fantasia, mas na minha opinião não tem nada de fantasia aí. Tem o livro que faz as coisas acontecerem, mas dentro do estilo do texto, pra mim isso é uma metáfora. Acho que o texto seria perfeito em qualquer outro desafio, mas nesse deixou a desejar.

    Adendo:
    Fazem dois dias que fiz essas considerações e pensei melhor. Lendo também uns comentários no fórum cheguei a conclusão que fantasia não é só criaturas medievais, magos e etc, o conto aborda uma fantasia mais ampla, uma fantasia cotidiana que busca o triunfo contra a miséria.Seu conto está dentro do tema sim, eu estava errado.
    Abraços!

    • Paula Giannini
      18 de abril de 2019

      Querido amigo,
      Obrigada por sua leitura e considerações.
      De fato, fantasia abrange uma grande gama de outros temas, que não só os da Europa, com suas fadas, e elfos, e gnomos. Há a realidade fantástica, o folclore nacional, entre tantos outros.
      Beijos literários.
      Paula Giannini

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Informação

Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A e marcado .