EntreContos

Detox Literário.

Brejo da Cruz (Julinho de Adelaide)

 

Fechou o buraco. Era o quinto que plantavam naquela semana. Todos jovens, todos azuis e filhos do mesmo destino, sina marcada em cada um deles desde o dia em que ousaram vir ao mundo, não belos e rosados, não filhos de boas famílias, não frutos de frondosas árvores, não das jaqueiras, nem dos abacateiros. Não. Aquelas eram apenas crias mirradas, colhidas de xiquexiques, mandacarus, caroás.

Enterrar é plantar. Gostava de dizer assim, desde que ouvira a frase saltar da voz de uma criança. Aquela mesma voz que trava pulmões, arroxeando gargantas, quando se segura o choro. Assim, mais que sentença, o pensamento virou lei, e a lei virou imagem intermitente em seu imaginário.

Enterrar é plantar. E era mesmo, ao menos assim imaginava. Enquanto se afastava, as costas voltadas para o bosque do campanário, vislumbrava os cabelos se insinuando na superfície, pequenos arbustos tateando a terra em busca de luz, brotando em movimento imperceptível das covas simétricas. E então, dispostos lado a lado, ressequidos e tortos, na impossibilidade de se tornar adubo bom o suficiente para produzir a fartura das mangueiras, resistiam, caatinga, no cenário inconfundível do cemitério dos famintos.  

Criança que não come tudo, não cresce e fica assim. A audição era o seu melhor sentido, mas o olhar atônito daquele menino, mirando através do buraco em seu estômago, ainda que mudo, jamais passaria despercebido. Criança que não come, não cresce. O garotinho, certamente, jamais vira algo assim.

Criança que não come, morre cedo, e os adultos da fome, aqueles sobreviventes com o furo na barriga, eram poucos, quase raros, espalhados em tocas invisíveis, embaixo de viadutos, em construções abandonadas, no oco da árvore de uma praça.

No oco. Era ali que vivia, bicho no vão imenso, no vácuo ventre aberto pelo tempo, no centenário cajueiro, bem em frente à praça da Rodoviária de Brejo da Cruz. Quase invisível. Quase. Mas não de todo. Afinal, era preciso se arriscar, sair e beber o pouco da água que o corpo ainda segurava, comer algo, uma sobra, um grão de arroz, com sorte, migalhas de pão espalhadas aos pombos, era preciso fazer as necessidades, também estas, tão poucas.

Criança que não come, não pode nem fazer cocô. O garoto insinuou um quase sorriso, e ofereceu o que tinha em mãos àquele ser que sua mãe temia, nem tanto pelo buraco ali, bem no meio de seu corpo esquálido, permitindo com que se enxergasse o outro lado, mas, pelo estigma, o da miséria. Era como se ela, a fome, guardasse em si um algo de errado, um quê de contagioso, de enfermidade que gruda em quem a toca, fazendo com que aquela marca, aquele buraco imenso, brotasse no exato e mesmo lugar onde os abastados abrigavam seu ventre robusto, tanto mais rechonchudo quanto mais próspero aquele abastado fosse.

Estendeu a mão.

Um caderno usado e um lápis de colorir. Era isso que o menino lhe entregava. Não a tampa de um iogurte para ser lambida, resto de milho de pipoca, meia fruta, marmita azeda ou um embolorado pão. Não, nada disso, ali, a seu alcance, apenas papel e lápis, um estúpido lápis-de-cor-vermelho, com a ponta gasta por fazer.

Um leve aceno de cabeça, agradeceu. Assim era a vida. E o menino desapareceu, puxado pelas mãos da mãe, com pescoço voltado e os olhos fixos nos seus, até onde a vista de ambos pôde se alcançar.

Assim era a vida. Mais um dia sem comer. Desse modo, logo seria a próxima semente lançada ao jardim da morte. Temia. Só a noite era mais escura que o vazio em seu estômago.

Só a noite.

Mais precisamente, à meia-noite. Era essa a hora do encontro. Em meio às horas mortas, no toque de recolher espontâneo dos abastados, os famintos saíam de suas tocas, espectros do ser-humano que um dia poderiam ter sido, não fosse aquilo, o azul pronunciado em suas peles, e o buraco. O oco a lhes atravessar o ventre. E a alma.

Vamos cozinhar? Eles diziam. E os famintos, um por um, apresentavam a coleta de seu dia. Quem nada tinha, nada comia. Era essa a lei na selva-urbana. Aos poucos, cada um mostrava o que conseguira, um pacote com restos de bolacha era um luxo aqui, cascas de banana, uma iguaria ali. Uma fruta roubada do cemitério dos abastados, um banquete digno de reis.

Só à noite.

Está com fome? Perguntaram. Então, desenhe sua comida, disseram. Foram duros. Era necessário. Assim era a vida. Assim era. Papel e lápis, todos riram. Desenhe.

Desenhou. Aquela era uma lei de exceções abertas apenas para as crianças. E, como se já contasse 18 anos, agora integrante da categoria dos adultos, em um impulso bobo, simplesmente riscou o papel.

E foi então, que aconteceu.

Terremoto. Terremoto, diziam correndo. Todos. Abastados, meninos, casais, surgidos do nada, batendo-se uns aos outros em busca de abrigo. Terremoto. Terremoto. Ouvia, ainda na confusão do susto.

Terremoto. Nada mais era de espantar. Nada. De onde estava, era capaz de divisar a correria, os pés de sanfoneiros, jardineiros, guardas-noturnos levantando poeira, famintos escapados do ciclo daquele Brejo de um modo ou outro com seus disfarces em camisetas compridas, escondendo a marca daquilo que um dia fora oco.

Escapados. Jamais seria um deles. Jamais seria coisa alguma. Agora se dava conta da altura de que caíra. Em um bueiro, morreria azul antes mesmo que alguém desse pela falta do ser que habitava o oco do cajueiro da rodoviária.

Azul. Já vira aquilo acontecer centenas, se não milhares de vezes. A perfuração começava no umbigo, buraco-negro devorando aquilo que não tinha do que se alimentar. Depois era a cor. A cútis azulando gradualmente, a começar pelas unhas, os lábios, os pés. Depois vinha o nada, quando o buraco já não tinha o que devorar ali.

Do alto, a luz denunciava que já era dia.

Há quantas horas estaria ali? Dias? Semanas? Perdera a percepção, talvez delirasse, quem sabe já fosse adubo jogado à terra sem, ao menos, se dar conta disso. Talvez.

O sol já estava a pino, quando, ao reparar na cor das próprias mãos, lembrou-se do lápis vermelho. Do papel, intacto e jogado ao seu lado. Não. Não ia terminar seus dias ali, se havia um direito que lhe assistia, era o de, em seu fim, alimentar um mandacaru na cova que lhe cabia.

Puxou o papel com dificuldade, nessa hora, o simples levantar de um lápis era esforço inumano. E forçou a ponta riscando o branco da folha.

S.O.S.

Faria uma dobradura, aviãozinho lançado rumo à abertura do bueiro. Alguém o veria, e a salvação viria das mãos de um dos disfarçados. Um bombeiro, faxineiro, quem sabe de uma babá, um passageiro qualquer que, encontrando seu pedido de socorro, viria voando em sua direção.

Esperou. Nada. Do lado de fora o silêncio rasgava o tempo e já era a hora de o sol se por. À noite, todo azul é cinza e logo os meninos famintos aproveitariam os escombros para encontrar restos jogados na correria do caos. Ninguém perceberia seu clamor, e, de mais a mais, poucos deles eram capazes de entender as letras.

Um aviãozinho, mamãe. Escutou. Ao menos seus ouvidos ainda alcançavam o entendimento. Um aviãozinho, ele disse, acendendo a esperança em seu refúgio. Um aviãozinho. E viu a dobradura retornar, e cair em queda livre, no centro exato do círculo de seu vazio, intacta, não fosse pela ponta amassada da aeronave.

Desespero.

Angústia.

Terror.

Não sentia.

Há meses não sabia o que era isso de sentir. Não sentia, e, conhecia bem aquilo. Um sintoma. Tão logo o azul se pronunciava na pele, assim que o buraco negro, após brotar do umbigo, consumia todo o ventre, a dor sumia, já não doía. A dor da fome cessava, e, a desgraça, de algum modo, tornava-se também uma benção. Estranha e perigosa graça que afastava muitos daqueles seres do instinto da sobrevivência. Sentia fome, sim, quem não? Mas agora, o buraco era o vazio, e só. E, aquele vácuo, simplesmente, o nada.

Talvez se escrevesse a palavra completa.

Socorro.

Socorro em vermelho, em letras garrafais. Talvez. Quem sabe o S.O.S. soasse vago aos poucos, ali, acostumados às letras. Desenharia socorro, e depois… Depois o quê? Depois, nada. Se, por acaso alguém, por pura sorte, o encontrasse, se, por ainda uma maior sorte, esse alguém o desdobrasse, se por milagre o lesse, o que faria? Jamais saberiam de onde viera o chamado. O passageiro olharia para cima, buscando, talvez, o dono da façanha balançando nas construções. Mas, não. Não haveria ninguém lá. Ninguém nas construções. O chamado viera dos esgotos. Quem suspeitaria?  Quem sabe se fizesse um mapa. Desistiu. Tampouco saberia precisar a própria localização.

Era o fim.

Acabou, ele disse. Acabou, vão para suas tocas. Acordou com a voz do cozinheiro. Após o terremoto, os famintos pareciam ter-se multiplicado. Eram muitos. Protestavam, falavam de comidas das quais jamais veria a cor. Não mais.  

E, foi então que aconteceu novamente.

Aconteceu.

Não o tremor de terra, que este fora um assombro inédito e único. Mas, aquilo. O próprio assombro.

Papel e lápis na mão, escreveu o que lhe veio. A coisa no mundo que mais poderia desejar no momento de seu fim. O último pedido de um ser condenado.

Escreveu.

Pudim de leite.

Lembrava do dia em que, pela primeira vez, desejara um. Em frente à padaria, no chão, o potinho de plástico jazia melado da calda doce. Passou o dedo no fundo e lambeu.

Calda de açúcar. O sabor lhe invadia os sentidos, o sabor do açúcar queimado, a sensação macia e lisa do pudim no céu da boca. Degustava. Mais que isso, engolia, agora, aquilo que jamais conhecera.

Lembrava-se de erguer os olhos e de ver, na vitrine, pequenos e convidativos pudins, preparados com esmero para o paladar dos abastados. Não. Aquilo não era para um faminto. Jamais conheceria o gosto de experimentar um pudim.

Mas sentia. Agora provava. Agora sabia.

Olhou com estranheza para o papel.

Pudim de leite.

Lembrava bem daquele dia. O guarda-noturno o enxotando da frente da loja. A cabeça baixa. A bolota cor de uva chutada na calçada. Apanhou. Cheirou. Uva. Uma imensa bolota de uva. Enfiou na boca. Sabonete. Não sabia. Jamais em sua vida conhecera ou banhara-se com tal luxo. No máximo, resto de sabão de coco, barra de ariar pia.

Sabonete.

Escreveu.

E ali, de seu buraco-estômago, bolinhas de sabão saltaram, como naquele estranho dia em que desejara um pudim. Aquele mesmo dia em que chorara e rira, porque o gosto perfumado de um sabonete transformara seus soluços em imensas bolhas a flutuar através do oco de sua fome. E porque os passageiros, em frente à padaria da rodoviária, jogavam-lhe moedas, em retribuição ao bizarro show que os divertia tanto.

Olhou para cima. As bolinhas flutuantes já alcançavam a boca de lobo, orifício de saída do bueiro.

Pão com manteiga, escreveu correndo. E a manteiga derretida em pão quentinho tomou, imediatamente, conta de sua boca. Não o ranço azedo que provara naquele dia em que, juntando as moedas correu até a vitrine dos pudins mostrando ao atendente que, sim, sim senhor, tinha dinheiro para pagar. Mas não. Famintos não entram onde frequentam os abastados, e, de mais a mais, faltavam 10 centavos. As moedas que juntara não eram suficientes.

Não implorou.

Era proibido alimentar um faminto.

Era a lei na engrenagem daquela selva-de-pedra.

Contou os trocados. A soma dava para o pão. Amanhecido. E para a manteiga. Rançosa.

Só que agora não. Agora o pão, a coxinha de frango, o ovo cozido colorido e tudo o quanto escrevia, tinha gosto e textura daquilo que podia haver de mais delicioso.

Escrevia e comia.

Pela primeira vez em anos, sentia o prazer de ter a fome saciada. Um prazer quente, reconfortante e desconhecido para aquele ser quase invisível. Assim, sem perceber a transformação por que passava, suspirou, e, pela primeira vez, até sonhou.

Era madrugada quando sentiu os pingos em seu rosto. Chovia. Levantou-se, buscando proteger o buraco que dava acesso ao interior de seu corpo.

E foi então que percebeu o novo assombro, bem ali no meio de si, em forma de um pequeno furo por onde passaria apenas um dedo.

Um dedo, e nada mais.

Em um susto, retirou o dedo metido no orifício. Aquilo que já não sentia, sentira. Aquilo que já não doía, doera. Aquilo que atravessava seu corpo em um imenso vazio, simplesmente sumira. Levantou-se em um reflexo, buscando o lápis. A folha flutuava na água da chuva, do esgoto que subira com a tempestade.

Precisava sair dali. Contar a todos o que descobrira. Encontraria papéis, lápis, canetas. Ensinaria tudo aos famintos, as vogais, as consoantes, o alfabeto inteiro, palavras, poesia. Pensava no sem número de comidas das quais poderiam se alimentar, juntando apenas algumas letras.

Arroz, feijão, banana, macarrão, pudim de leite, escreveriam.

Farofa, manjar, bolo de coco, comeriam.

Precisava sair dali.

Precisava levar a novidade aos meninos. A fome tinha remédio, a dor, a falta dela, o vácuo, o nada, tudo tinha uma cura.

Escalou o bueiro arrancando sangue das unhas. Vermelho. Não azul como rezava a lenda dos meninos do Brejo da Cruz. E chegou à superfície bem na hora do encontro da noite.

Alguém morrera. Soube tão logo avistou as pás nas mãos dos famintos. Nesta noite, não haveria janta, mas enterro. Uma menina.

Jogou o último punhado de terra sobre a cova, sabia o que brotaria ali. E depositou, sobre ela, uma flor de mandacaru. Choraria para sempre aquela criança que lhe falara sobre aquilo de plantar. Triste sina. A pequena não tivera tempo para aprender. Triste sina. A menina jamais saberia das letras que os livraria, a todos, da engrenagem da morte.

Juntou o grupo. E subindo em uma pedra, contou a eles do segredo do fim da fome.

Lápis, papel, canetas, livros.

Eram capazes de aprender. De sonhar. De ser gente. De crescer.

Lápis, cadernos, borrachas, livros.

Poderiam escapar do buraco. Do sofrimento. Da privação.   

Lápis, lapiseiras, cadernetas, livros.

E viu os companheiros, um a um, voltarem as costas e sair cochichando, cabisbaixos. Um a um, todos se foram.

Ficou só.

Lápis, papel, canetas, livros, desacreditavam. Para aqueles meninos, tudo era proibido. Era a lei, eles disseram. Sem dinheiro, sem papel, sem lápis, sem comida, sem nada. Quem, em sua sã consciência, com trocados para o sopão, haveria de comprar lápis? Quem? Eles disseram. Era a lei, escutou.

Era a lei.

Ninguém era capaz de escapar de sua sina.

Ninguém era capaz de escapar, de verdade, daquela selva criada pelos homens.

Ninguém escapava da selva.

Do brejo.

Da cruz.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.