EntreContos

Detox Literário.

A Ressurreição dos Mortos (Lázaro Anástasis)

 

Chuva fina e insistente – lágrimas sobre lápides escurecidas pela poluição. Entre corredores e jazigos, a mulher rastreava o endereço definitivo daquele seu tio praticamente desconhecido. Nunca se encontraram em vida. Ao visitar o cemitério, lembrou-se dele e teve pena por ter morrido solteiro, muito antes dela nascer. Mereceria, ao menos naquele dia, uma flor e um rápido pai-nosso. Se soubesse o nome completo, ou data de sepultamento, poderia pesquisar nos registros da administração qual a quadra e a rua exatas. Mas só havia guardado, na memória de infância, a imagem de um anjo de pedra que adornava seu túmulo.

Devia estar em algum lugar na parte mais alta do cemitério. Recordava-se que, acima da estátua, havia somente o céu azul e as aves, pousadas nas asas do anjo. E também a lembrava da mãe, segurando sua mão, enquanto contava a alguém como foi difícil sepultar um irmão, tão jovem. Nem o bispo quis autorizar a cerimônia.

 

Subiu pela ruelas íngremes e estreitas, procurando nos rostos de mármore alguma expressão familiar. Ao invés disso, encontrou um ruído inesperado, algo entre a agonia de um gato e a fricção do metal. Sentiu arrepio e a certeza de que era um recém-nascido abandonado pela mãe. Mas o choro vinha mesmo de dentro de um jazigo, adornado justamente pela estátua de um anjo-bebê.  

 



Bloquearam as entradas sem que os visitantes recebessem qualquer explicação. Policiais da Guarda Municipal e o único coveiro de plantão gritavam por silêncio entre si, na tentativa de localizar outros pedidos de socorro. Funcionário velho, o coveiro já havia visto coisas estranhas, mesmo quando estava sóbrio, e ouvido histórias de mortos que levantavam nos velórios, ou que eram encontrados de bruços no caixão, anos depois, durante a exumação. Mas nada parecido com o que estava acontecendo. Ele mesmo sepultou aquela criança, há quase duas semanas! Sabia que era impossível aguentar tanto tempo sem comer ou, principalmente, sem beber. Além da tremedeira nas mãos, o fato de ouvir outras vozes, desta vez tendo o testemunho da mulher como apoio, fez com que buscasse ajuda o mais rápido possível.

 

Vários jazigos já haviam sido abertos, e em cinco deles constataram-se ocorrências similares. Além do bebê, que morreu e foi retirado ainda nos braços da mulher, histérica, e do jovem rapaz encontrado já sem vida, com indícios de uma luta recente e desesperada para quebrar a tampa do caixão, três ex-mortos foram resgatados e atendidos pela equipe. Dois indigentes sem nome: um homem e uma mulher, ambos já de certa idade, igualmente desmemoriados e confusos. Sepultados há menos de um mês, estavam relativamente bem, considerando as condições em que viveram – ou no caso, em que estiveram mortos.

 

Último a ser resgatado, o terceiro sobrevivente causou espanto: além de fisicamente perfeito e alerta, como se houvesse acabado de acordar, a data em sua lápide era a prova viva de que ele devia estar ali, morto, há mais de sete anos.

 


No gabinete do prefeito, à noite, um grupo seleto de autoridades discutia como tratar aquela emergência. O caso dos dois indigentes seria fácil. Além de ninguém ter testemunhado seus enterros, esse tipo de gente costuma contar histórias sem pé nem cabeça. O bebê foi sepultado novamente, no mesmo lugar, e a família nem soube do ocorrido. O que ficou preso no caixão guardou com ele os detalhes daquela experiência horrível. Já o coveiro era de confiança, pois trabalhava há anos nisso e dependia do emprego para manter a família e o vício no álcool. Única testemunha “civil” do caso, a mulher foi levada ao hospital, em estado de choque, e não acompanhou os desdobramentos da história. Porém, se a imprensa descobrisse “o homem que sobreviveu a sete anos após ser enterrado”, isso daria uma grande manchete. E uma enorme dor de cabeça para a administração municipal.

Parte do gabinete de crise defendia, naquele último caso, uma investigação científica mais acurada, comprovando se houve mesmo a ressurreição ou desacreditando-a, definitivamente. Outros foram além, propondo um exame mais a fundo, tão a fundo que não restassem provas vivas da ocorrência. Porém, o prefeito decidiu que era melhor deixar o homem em paz, desde que se comprometesse a não chamar a atenção – fosse da imprensa, dos médicos ou dos eleitores em geral. Pesou para essa decisão a promessa feita, ainda em campanha, de modernizar aquele cemitério, obra pela qual seria cobrado e na qual já estava comprometido a incluir a concessão dos serviços de lanchonete a um financiador. Nada poderia atrapalhar o andamento das obras, naquele momento.

 

– Quem é vivo sempre aparece – tentou argumentar um assistente da ala mais radical.
– Se ele for vivo, mesmo, que desapareça – disse o prefeito, encerrando a reunião.

 

Dito e feito: ao ser procurado, o homem não estava mais lá.


Atravessou a principal rua do bairro, sem pressa.
Tantas vezes haviam caminhado por ali. Parecia até outra vida.

Riu da ironia.

Eram casas simples, projetadas como conjunto habitacional popular pelo governo militar, agora reformadas e ampliadas por uma nova classe média, na maioria casais jovens, sem filhos. Na praça da sua infância, encontrou os brinquedos do parquinho tão descascados e envelhecidos quanto ele mesmo deveria estar.


Mas, naqueles sete anos, nem um dia sequer havia passado. Sua roupa permanecia a mesma. Um tanto amarrotada, devido à posição desconfortável no esquife, e impregnada pelo cheiro das flores secas depositadas ao seu redor.

A casa onde nasceu transformou-se num sobrado. Não encontraria ninguém ali; mesmo assim, permaneceu alguns minutos a imaginar se ainda existiriam nas paredes alguns quadros pintados pela mãe, nos finais de semana; e, no quintal dos fundos, os limoeiros plantados por ele, com a ajuda do pai.


Desceu a rua relembrando, diante da casa dos vizinhos, o nome e rosto de cada um. Vários imóveis à venda ou para alugar. Assim como os pais, nem mesmo os amigos de infância moravam ali. Por onde andariam? Quantos deles teriam uma chance na vida como ele teve?


Nenhum, provavelmente.

Parou em frente a uma das últimas casas que ainda mantinham a aparência original e os muros baixos, onde antigamente meninos e meninas conversavam até o anoitecer. Fachada e pintura castigadas pelo tempo, cronológico e climático. Hesitou um instante e pensou em pular, como era, ou foi, de costume; mas decidiu, civilizadamente, abrir uma espécie de tramela e passar pelo pequeno portão enferrujado. A botão da campainha continuava igual, no mesmo espelho amarelado. Soaria da mesma maneira? Apertou e ouviu aquele som, agora um pouco mais rouco. Seu coração mais uma vez deu um salto, mas ele permaneceu silencioso.

Espiou pelo buraco do olho mágico.
Do outro lado, o obturador escureceu alguns instantes, até o destrave da correntinha de segurança. A porta se abriu, iluminando-o com um sorriso bem conhecido.

 


Sobre o fogão, a chaleira escurecida soltava uma coluna de vapor d´água. Há tempos já deveria ter sido retirada do fogo para fazer café, prazer adiado pelo sabor da conversa dos dois. Sentados, um em frente ao outro, ele olhava fixamente, enquanto ela falava sem parar. Agora mais velha, bem mais velha do que ele. Já havia contado tudo o que era possível: viagens e filhos crescidos no mundo, a casa herdada dos pais, falta de dinheiro para fazer as reformas. Dores e tristezas, confortos, pequenos prazeres. Ele reparou que, na parede, não haviam quadros nem fotos. Só uma gaiola, aberta e vazia.

– E você, o que tem feito da vida? – ela perguntou, interrompendo o devaneio.

–  Não muita coisa.
–  Não acredito! Nesse tempo todo, não soube nada de você…
–  Acredite. Ando bem quieto ultimamente – ele sorriu, um pouco torto.
–  Logo você, que sempre foi tão agitado… não posso aceitar que não tenha vivido nada de especial…
–  Na verdade, bem pouca coisa que valha a pena contar. Ou lembrar, depois que nós nos afastamos… – ele parou um instante, procurando as melhores palavras. – Se eu soubesse, não teria partido…
Ela tirou a franja do rosto, ligeiramente incomodada:
–  Nem me lembro mais por que é que você foi embora.

 

Ele não disse nada. Nem saberia o que dizer.

Finalmente ela deu atenção à chaleira que chiava e correu despejar o resto da água fervente num filtro de papel, cheio daquele pó escuro e forte, capaz de despertar os mortos.

 


Ele sorveu seu café devagar, amargo até o último gole, enquanto ela continuava a desfiar histórias. Percebeu que continuava a ser a mesma manipuladora, fingindo uma inocência quase indecente. Ele permanecia inerte, subjugado pela força inexplicável da natureza dela. Enquanto houvesse história, ela seria a única narradora possível, sempre em primeira pessoa. Mas havia também a possibilidade da terceira pessoa. Ele foi direto ao ponto, e ela pareceu confusa em ter que dar resposta:
– Ele é bom – justificou, depois de um tempo pensativa.
“Bom em quê?” –  pensou ele .
– Bom para você?
A resposta não veio em discurso direto:

– Você deveria conhecê-lo.
Ele desviou os olhos até o relógio de parede, que marcava um horário desconexo.
– Então é isso. Tenho que ir embora.

– Fique um pouco mais. É bom ter com quem conversar – aparentemente, ela foi sincera.

Silêncio.
– Fica para outra. Agora é tarde – respondeu ele.

– Você vai voltar, algum dia?

– Quem sabe a vida me traz de volta, não é?

 


Despediram-se no portão. Ele seria sempre bem-vindo.

Menos agora. Foi o que ele entendeu perfeitamente.
Aceitou o abraço e desejou que tudo tivesse durado uma eternidade.

Da esquina, ele ainda se deteve tempo suficiente para ver, pela última vez, a silhueta dela, ainda esguia, irresoluta, voando em zig-zag na direção do seu ninho vazio.

Algumas quadras adiante, de cabeça baixa, acabou por encontrar um passarinho caído entre as pedras da calçada. Abaixou-se, pegou aquele filhote e o colocou, estendido, na palma da mão. Provavelmente, havia saltado em tentativa de voo até atingir uma vidraça intransponível. Ajeitou o pescoço quebrado, acariciou as suas plumas ralas. Seu último desejo era, na verdade, um milagre: ter de volta aquela vida que escapou por entre os seus dedos.

Mas tiveram que seguir em frente. Tão mortos quanto estavam antes.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.