EntreContos

Detox Literário.

A Viagem do Rei (Reinaldo K. Vanhac)

Sentado no banco do jardim, ele observava algumas pombas num telhado distante. Pensava que suas lembranças eram agora como aquelas pombas que voavam para longe. Como aquelas do poeta Raimundo Correia; ”. Vai-se a primeira pomba. Vai-se outra…e mais outra…enfim dezenas.”

E como diria Augusto dos Anjos; fica um vazio, um deserto onde a larva do esquecimento rasteja pelos apodrecidos meandros da mente. Os nervos e músculos dos membros, outrora rijos e fortes, permanecem desolados, fracos e covardes. E a inspiração? Ah! A inspiração é como a chuva na longa estiagem, tudo fica seco e morto.

Bateu no peito para despertar a vida e o que ouviu foi o som cavo de uma casca vazia. Restava apenas a sombra do rei que ele foi.

 

-X-

– Arranjei um lugar para deixar o pai – disse Heitor, vestindo-se para ir para o trabalho. Heloisa ajeitou a gravata do marido.

– Quem sabe contratamos alguém para cuidar dele aqui em casa? Não me agrada a ideia de vê-lo num asilo.

– Também não gosto, mas não tem outro jeito. Passamos o dia todo fora, Clarisse no colégio. Papai não tem mais condições de ficar sozinho. No asilo ele será bem tratado. Nos fins de semana o buscamos para passear.

– Já falou com ele? Ele aceitou?

– Sim. Reconheceu que já não pode mais tomar certas decisões.

– Você acha que teu pai está com Alzheimer?

– Acho que sim. Suas constantes crises de apatia, confusão mental e esquecimentos são sintomas da doença.

– Clarisse não vai querer ficar longe do avô!

– Ela se acostuma.

 

-X-

Naquela manhã, Rolf pegou o caniço, as iscas e saiu para pescar. Atravessou a praça no centro da clareira rodeada pelas árvores gigantes, as sequoias onde os gnomos moravam. Passando na frente da ferraria de Pirlo, parou para conversar com ele.

– Meu amigo, preciso de uma faca nova. A que eu tinha perdi no rio.

– Tenha mais cuidado, Rolf! Você é muito descuidado. Farei sim. Venha pegar amanhã.

Rolf agradeceu e seguiu caminho. A mulher de Fredo, o padeiro, estava estendendo roupa no varal, gritou para ele;

– Rolf! Traga um peixe para nós. Dos grandes!

– Com certeza, dona Mirza.

Minutos depois, Rolf chegou ao rio. Ao se aproximar da margem, ouviu um crepitar como se a mata estivesse pegando fogo. Ficou espantado ao ver que as folhagens, pedras e árvores e o próprio solo do outro lado do rio estavam desaparecendo. Uma energia negativa avançava destruindo tudo que havia em seu caminho. O gnomo estremeceu, deu meia volta e saiu correndo.

 

-X-

O rei sentia-se sonolento com o balançar da carruagem. Procurou manter-se alerta para enfrentar qualquer imprevisto. Havia aceitado a sugestão do príncipe herdeiro, para procurar abrigo nas Terras Altas. Com o exército enfraquecido e sem condições de enfrentar a invasão dos bárbaros, por precaução, decidiu abandonar o castelo e buscar refúgio no castelo de Vale das Rosas. O conde Augusto era amigo de longa data e protegeria a família real com suas tropas.

– É uma casa de repouso, papai. O senhor vai gostar.

                                                          

-X-

Rolf corria o mais depressa que podia. Corria pela trilha sinuosa que levava à clareira no centro da floresta. Sentia suas forças falhando e temia cair esgotado sem ter tempo de avisar o seu povo. Ele não acreditava que o mundo terminaria naquele dia e isso lhe dava forças para seguir adiante e com suas curtas pernas, continuou vencendo as distâncias.

 

-X-

– Vamos passar no supermercado para comprar algumas frutas para ele.

O comboio fez uma parada para os cavalos descansarem um pouco. O rei desceu da carruagem, sendo recomendado não se afastar da estrada. Ele sentou-se na raiz de uma árvore, recostando-se no tronco. As árvores eram robustas, algumas com buracos na base do tronco. Imaginou que eram moradas de gnomos. Ficou pensando no Vale das Rosas. Diziam que lá, os ares eram terapêuticos. No castelo poderia conhecer finalmente, a espada Durandal, a espada do templário Rolando, forjada por um gnomo, ferreiro mágico que havia lhe dado um nome e uma alma. Durandal estaria exposta no grande salão do Castelo das Rosas.

 

-X-

– Ele ficará em boas mãos – afirmou Augusto, diretor da casa de repouso.

Heitor ficou olhando o pai sendo levado por um atendente. – Não temos condições para cuidar dele. Eu e minha esposa trabalhamos, ficamos o dia todo fora de casa. Isso não é uma desculpa, evidentemente. Poderíamos pagar alguém para cuidar dele em casa. Mas achamos melhor uma casa de repouso.

– Seu pai será bem cuidado. O que ele pai gosta de fazer? Uma atividade física ou intelectual, ajuda no seu bem-estar aqui.

– Ele é escritor, mas ultimamente não tem escrito nada.

 

-X-

Rolf chegou finalmente na cidade, pegou a buzina que estava pendurada num poste e assoprou, convocando toda a população. Os membros do conselho o rodearam.

– O que aconteceu? – indagou Fredo, o gnomo de cabelos vermelhos. Rolf tomou grandes golfadas de ar, antes de responder.

– Nosso mundo está acabando.

– Como assim? – indagou Pirlo.

-. Para além do rio, uma força negativa avança destruindo tudo que há em seu caminho. Logo estará aqui.

– O que podemos fazer?

Todos ficaram inquietos e com temor. Houve murmúrios e lamentos.

– Nosso mundo será destruído! – exclamou Rufus, o marceneiro.

Fredo agitou as mãos- Acalmem-se! Não vamos perder a esperança. Vamos falar com o mago.

                                                          

-X-

Ao entrar no grande salão, o rei olhou para a lareira. Ficou decepcionado, ao ver que havia apenas um vaso de flores sobre ela. Nenhuma espada. Talvez o conde tenha vendido ou dado de presente a alguém, pensou. O castelo não tinha nenhum atrativo e ele imaginou que os dias ali seriam aborrecidos e solitários. Ao lado da lareira, sobre uma mesinha, havia um caderno e uma caneta para escrever, mas ele os ignorou.

                                                          

-X-

– O homem que nos criou está perdendo suas forças mentais.- disse Fulcro, olhando para o portal na água trêmula na bacia de latão. – Uma grande escuridão está invadindo seu espírito. Ele está velho, desiludido. Passou a vida toda escrevendo e não tem ninguém que receba seu dom. Por isso, nosso mundo está acabando.

– Então, é o nosso fim! – exclamou Rolf.

– Podemos fazer alguma coisa? – perguntou Fredo.

– Infelizmente, não. Mas a realidade e fantasia tem certas conexões metafísicas, como se fossem engrenagens em movimento se encaixam, portais que se fecham e outros que se abrem. Tenham calma. Deixemos a natureza seguir seu curso e vamos torcer para que tudo volte ao normal.

 

-X-

Enquanto esperava, a menina sentou-se em frente a lareira. Ao ver o caderno e a caneta sobre a mesinha, pegou-os e começou a escrever.

Enquanto ela escrevia, na lareira, das brasas adormecidas brotou uma chama dançante. O galho ardente estalou lançando faíscas no ar. Dragões, duendes, gnomos e fadas, giraram ao seu redor.

                                                          

-X-

Arthur acordou quando sentiu que havia alguém ao lado da cama. Ficou feliz ao ver Clarisse. Sentiu a mão dela na sua. Um toque de juventude e inocência. Mesmo que ele se fosse para sempre, continuaria vivo nas lembranças dela.

– Como você está, vovô? Eu não queria acordar o senhor.

Ele sorriu – Eu não estava dormindo, apenas descansando os olhos.

– Veja, vovô, escrevi uma história- disse a netinha, exibindo o caderno- Vou ser uma escritora como o senhor.

– Que ótimo! Excelente notícia. Lê para mim?

– Claro! – respondeu a menina e pronunciou as palavras mágicas: – Era uma vez…

                                                          

-X-

Estavam todos na margem do rio. A força negativa foi se dissipando, devolvendo as coisas da natureza aos seus devidos lugares.

– Nosso mundo está salvo! – disse Pirlo pulando de contente. Os outros gritaram, hurra!

As engrenagens e conexões que Fulcro havia falado, estavam em plena atividade.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.