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Detox Literário.

A Procissão (Vera Marta Reis)

Na noite do ocorrido, ficou sem dormir, sentado no Mourão da porteira.

Não adiantou que o chamasse, insistisse, brigasse. Estacou, e como estátua ficou.

O nascer o tomou de sobressalto e, de súbito ergueu os braços, tapou os ouvidos e num grito, saiu correndo para o sótão do casarão.

Começou o calvário familiar. Não explicou, não aceitou perguntas. Simplesmente o olhar vazio, as mãos entrelaçadas no peito. Não saiu mais do esconderijo.

Era comum que histórias fantasiosas fossem contadas no sertão. Ele mesmo já presenciara fatos, sem nenhum fundamento.

Mas nunca poderia imaginar que um acontecimento irreal, pudesse mudar toda uma história familiar.

Não havia muito que fazer, vivendo em meio ao sertão, há pouco desmatado, sempre tinha alguém a contar acontecimentos estranhos. Mas igual ao que viveram e, com as consequências dramáticas que levaram Damião a nunca mais ser o homem trabalhador e alegre que fora, era inaceitável.

Era quase meia noite, quando ouviram abrir a porteira, como um estouro de boiada.

“O que é isso, gente?”. Perguntou Damião, ao levantar da cama onde estivera dormindo sossegadamente por algumas horas, corre até a porta de entrada do casarão.

– “Não vá! homem de Deus”. Gritou Maria Ofélia. Deixe-os passar, não sabemos se é gente de bem, se estiverem usando a estrada, que vão em paz e não nos faça mal. Por Deus! Vamos ficar quietos”.

A família toda veio até a grande sala, era um barulho, que ninguém poderia imaginar ouvir em lugar tão remoto.

E durou interminável tempo. Por fim, Damião abriu a porta. O lampião na mão iluminou a escuridão. Com a surpresa seu sangue gelou e sentiu um arrepio partindo da sua nuca e percorrendo suas costas até a base da espinha dorsal.

Era só a poeira, som para arrebentar os tímpanos e visão alguma, era o nada que passava.

Maria Ofélia tentou segurar o marido, que de súbito escapou, o pai implorava que fechasse as portas; e a mãe que não desse ouvido aos chamados, cada vez mais insistentes.

“Tapem os ouvidos, vamos cantar um hino de louvor a Deus”. Convocava Ernestina.

E de joelhos a família cantava, orando e pedindo proteção a todos os santos.

Apenas Damião, como que hipnotizado continuou andando até a entrada da estrada, andou longe acompanhando a fila, que sua mente enxergava.

Os passos ouvidos eram como uma grande procissão, como aquelas que costumavam participar na vila, em dias santos. Sons de vozes, orações, repetições, luzes e cheiro de vela.

Depois passou, e não prosseguiu, como se no ar tivessem evaporado, toda a multidão.

Todos estavam apavorados. O sertão era alvo de tantas histórias, teria mesmo acontecido?

Só sabia que o pesadelo tinha mudado a cabeça do marido. Que trabalhou sem descanso, fazendo um presídio, com portão de ferro, no qual se trancou. Fazendo a família jurar, jamais deixá-lo sair, não importando o que acontecesse, jamais poderia ter nenhum convívio com pessoa alguma.

Passaram-se os anos, décadas e não o viam ou ouviam, e sua comida era levada através de pequeno espaço deixado no portão de ferro.

No dia do casamento a filha exige ver o pai. A mãe inconformada com a sua tristeza, abre pela primeira vez o ferrolho já enferrujado.

“Papai, vou me casar, veja que linda estou vestida de noiva. Queria que o senhor me visse, já que não poderá me acompanhar ao altar”. Disse a moça, mas ao vê-lo, num grito cai sem sentidos nos braços da mãe.

Então uma disforme criatura salta para fora, corre até a mata e some.

Nunca mais tiveram notícias, nem do homem; nem do bicho, que por aquele portão saíra.

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10 comentários em “A Procissão (Vera Marta Reis)

  1. Givago Domingues Thimoti
    14 de março de 2019

    Olá! Tudo bem?

    Um enredo misterioso, que usa o Sertão Nordestino como o espaço da história, misturando com um pouco de fantasia.A princípio, o conto é promissor. Porém decepciona, já que não fornece algo que cative o leitor. Acredito que, com um espaço de 2500 palavras, era possível construir uma narrativa atraente, misteriosa por si só, e não por uma falta de informação ou história.

    Além disso, o desenvolvimento da narrativa é bastante prejudicado pelo tamanho. Corre demais, deixando muitas lacunas, tornando a história confusa e, mais uma vez, pouca atrativa. Por exemplo, o que era a tal da procissão? Como o homem vira bicho? Como a família simplesmente o acorrenta e prende, sem nenhuma pergunta para entender o pedido estranho? Além disso, personagens surgem com a mesma velocidade que desaparecem.

    Por conta dessa falta de profundidade na história, convido o autor para um desafio. Pegue esse conto e trabalhe mais na narrativa, reescrevendo o conto usando algumas sugestões minhas. Fale mais sobre o personagem e a tal da procissão. Um exemplo: seria essa procissão a passagem de espíritos de pessoas que morreram na região, devido a uma traição desse homem? Por quê traiu?

    Notadamente, o escritor tem criatividade. Falta ousar mais, aproveitando de uma melhor forma, o espaço permitido de 2500 palavras.

    PS: Esse trecho do conto ficou bastante confuso. Tente reescrever de uma forma mais compreensível.

    “Não havia muito que fazer, vivendo em meio ao sertão, há pouco desmatado, sempre tinha alguém a contar acontecimentos estranhos. Mas igual ao que viveram e, com as consequências dramáticas que levaram Damião a nunca mais ser o homem trabalhador e alegre que fora, era inaceitável.”

  2. Rocha Pinto
    10 de março de 2019

    Um refúgio no sótão devido a um acontecimento irreal. Alguém pareceu entrar na porteira pelo escuro mas era ninguém. O pesadelo fez o homem fugir para esconderijo construído ficando lá durante anos. No casamento de sua filha esta pretende vê-lo. Ele sai mas parece ser um bicho.

    Conto com alguma fantasia e desfecho surpreendente.

  3. André Gonçalves
    10 de março de 2019

    Resumo: O texto narra a história de Damião, um homem simples do campo que se deparou com uma visão sobrenatural uma certa noite e depois dessa experiência se trancou em uma prisão que construiu em sua própria casa, tendo se transformado em um monstro que fugiu após sua filha lhe ter libertado acidentalmente.

    Comentário: O conto vai direto ao ponto, sem muitos arrodeios e assim termina, demonstrando um sério problema de desenvolvimento. Achei o texto bem simples, poderia haver um maior esforço para esmerar o enredo e afinar as descrições. Encontrei aqui uma certa falta de conexão entre os parágrafos e entre o começo e o fim. Não sei se foi essa a intenção do autor mas ficou com uma aparência de oralidade no texto. Não há trama, apenas uma história retilínea, com uma quase surpresa no final. Não é mau conto, mas o autor parece ter potencial para dar mais atenção ao seu texto e desenvolvê-lo melhor.

    Forma: Aqui deu pra ver um uso incorreto das vírgulas que frequentemente são utilizadas onde não deveria haver nenhuma, interrompendo o fluxo das orações e eventualmente dando um outro sentido não querido.
    Exemplos:
    “Era quase meia noite, quando ouviram abrir a porteira”
    “Mas nunca poderia imaginar que um acontecimento irreal, pudesse mudar toda uma história familiar.”
    Sugiro uma revisão bem criteriosa quanto a isso.

  4. Ana Carolina Machado
    9 de março de 2019

    Oiiii. Um conto que narra a história de Damião e os mistérios que o cercavam. A narrativa segue o tom das histórias que os avós contam para os netos, principalmente no momento em que o homem sai para ver um barulho estranho e quando volta nunca mais é o mesmo. Tendo, depois desse momento construído um tipo de presídio para se manter isolado de tudo e todos, inclusive da família. A filha no dia do casamento vai lhe ver, quer que pelo menos ele lhe veja vestida de noiva e é nesse momento que uma parte do mistério é revelado: Damião havia se transformado em uma disforme criatura que foge para a mata. Nesse momento se chaga a conclusão que ele se trancou para segurança da família e dos moradores. Como disse no começo o conto tem uma narrativa muito boa, que me lembra muito as lendas que tem aqui no Norte. Foi legal como mantém o suspense sobre o porque dele se trancar até o final e ainda fica o mistério de para onde ele foi, que talvez ainda estivesse pelas florestas assustando alguns caçadores ou garotos desavisados. Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio.

  5. Estela Goulart
    7 de março de 2019

    Resumo: (contarei o que entendi, mas pode estar errado) Damião e a família presenciam uma procissão na frente de casa, de madrugada. A esposa pede para que orem, mas o marido a ignora e continua seguindo a procissão. Após o ocorrido, a família o tranca em uma cela de ferro e não o deixa mais sair, até o dia do casamento da filha. Damião se transforma em um bicho.

    Comentários da história: sua ideia foi criativa e interessante. O fato de Damião aparentar ser um homem transtornado (apesar de isso não estar claro no conto) e no decorrer da história se transformar em um monstro ficou legal. A procissão também. Boas ideias.

    Comentários da narrativa: eu serei muito eufemista. Você precisa trabalhar mais a narrativa, o modo como contar a história. O conto não está de todo ruim, você tem um estilo de escrita muito peculiar e que, se for trabalhado, será incrível. E a gente consegue entender se reler várias vezes ou se simplesmente inferir coisas. Mas faltou descrição, faltou empatia do leitor com os personagens. Faltou coerência. Além do mistério com a história. Claro, isso é a minha opinião. Eu posso não ter entendido mas alguém pode ter achado incrível. Não é como se eu estivesse dizendo que pare de escrever, isso é ridículo. Apenas que continue escrevendo, tentando e aprendendo com os equívocos. Você terá um futuro incrível.

    Comentários da gramática: a coesão está ruim, além dos sinais de pontuação. Tente ler mais, isso ajuda muito, de verdade. A gramática não é tão importante quando estamos falando da história, existem redatores para auxiliar nessas coisinhas de pontuação gramatical, mas revisar é sempre bom. Tente reler os próximos contos ou pedir ajuda a alguém.

    Mas continue tentando. Os comentários podem ser ruins às vezes, isso dói, eu entendo. Mas não desista. Contar histórias é ver alguém sorrindo das suas palavras. É trazer alegria ao mundo. E me desculpe se eu falei alguma coisa errada. Boas próximas histórias.

  6. Sarah Nascimento
    3 de março de 2019

    No interior, um homem ouve sons perturbadores vindos do lado de fora.
    A família tenta impedi-lo de espiar o que está acontecendo, mas ele não dá ouvidos.
    Presencia algo terrível e se tranca em uma prisão para proteger todos de si mesmo.
    Certo dia, anos mais tarde, abrem a porta da prisão para que a filha pudesse ver o pai antes do casamento e com isso libertam uma criatura terrível.

    Uma história interessante, estilo lenda do interior. Ela se passa toda bem rápido, digo, os fatos não demoram pra acontecer e isso torna ela emocionante.
    Tem que ter sempre um curioso, nesse caso o pobre curioso sofreu grandes consequências.
    Achei uma pena ele precisar ficar preso, mas no final do conto, isso torna-se justificável.
    Se não tivessem desobedecido e aberto a porta, não teriam libertado a criatura que ele se tornou.
    Só não entendi se a pessoa no início do conto é o Damião ou não.
    Conto muito bom.

  7. jetonon
    28 de fevereiro de 2019

    A PROCISSÃO
    RESUMO
    Estórias de sertão; barulho estridente vindo de fora da casa; visão de uma procissão confusa e barulhenta; acompanhamento da procissão pelo marido sem o consentimento da família; a auto prisão depois do pesadelo; o homem vira uma criatura disforme.
    COMENTÁRIOS
    O conto é bastante intrigante. A meu ver,hoje nos dias atuais a mente humana está muito ligada em tudo e às vezes a obsessão por algo a torna doente. Entretanto, o fato do ser tornar-se uma criatura disforme não fica longe de resultados de obsessões cometidas pelos humanos. Ao mesmo tempo, a família rogou e aceitou pela sua decisão, mesmo porque, não tinha o que se fazer. O poder da mente!

  8. Paulo Cesar dos Santos
    27 de fevereiro de 2019

    5 – A procissão

    “Resumo; o conto mostra a reação do sertanejo, quando coisas estranhas “aparecem”,”.. era quase meia noite quando ouviram abrir a porteira…” e assim percebemos algo que parece muito próprio dessa gente; sua fé; “ tapem os ouvidos, vamos cantar um hino em louvor a Deus”.
    Considerações; um conto gostoso, a autora parece nos colocar dentro com palavras fácies, simples, “ouviam a multidão, poderia sentir o cheiro de vela”. Parabéns

  9. fernanda caleffi barbetta
    22 de fevereiro de 2019

    Um noite, no sertão, uma família ouve um estrondo abrindo a porteira da propriedade. Com receio de que fosse algo ruim, a família de Damião prefere ficar na casa, rezando. Apenas Damião, como hipnotizado, foi ver mais de perto o que tinha acontecido. Era apenas poeira e um som forte. Então, a mente de Damião o fez ver uma espécie de procissão, que ele passa a seguir. De repente, a procissão some. Após esse dia, Damião trabalhou dia e noite para construir um presídio. Quando ficou pronto, se trancou lá dentro e exigiu que ninguém o libertasse. No dia do seu casamento, a filha de Damião pede para ver o pai. A mãe abre a cela e a filha vê uma disforme criatura que salta para fora da prisão e some. Não se tem mais notícias da besta depois daquele dia.

    Achei a história interessante. Prendeu minha atenção até o final.
    Essa frase ficou um pouco perdida no contexto porque não estava falando da esposa neste momento: “Só sabia que o pesadelo tinha mudado a cabeça do marido”. Outra coisa é que em nenhum momento cita ter sido um pesadelo.
    Também ficou difícil a compreensão deste trecho: “Não havia muito que fazer, vivendo em meio ao sertão, há pouco desmatado, sempre tinha alguém a contar acontecimentos estranhos”.
    Há uma alternação entre presente e passado na conjugação dos verbos. Exemplo: Disse a moça, mas ao vê-lo, num grito cai sem sentidos nos braços da mãe.
    Alguns equívocos no uso da vírgula: “Estacou, e como estátua ficou”; “e num grito, saiu correndo”; “que um acontecimento irreal, pudesse mudar”, “Apenas Damião, como que hipnotizado continuou”, “Depois passou, e não prosseguiu, como se no ar tivessem evaporado, toda a multidão”, “A mãe inconformada com a sua tristeza, abre”.
    Falta algo que ligue as duas frases. “Perguntou Damião, ao levantar da cama onde estivera dormindo sossegadamente por algumas horas, corre até a porta de entrada do casarão.”
    Entre a fala e o verbo dicendi, utilizar vírgula: “O que é isso, gente?”. Perguntou Damião” e – “Não vá! homem de Deus”. Gritou Maria Ofélia.

  10. Elisa Ribeiro
    20 de fevereiro de 2019

    Homem presencia uma estranha procissão e aparentemente enlouquece. Constrói uma prisão e nela se isola do convívio com a família. Anos depois, no dia do casamento da filha a família descobre que ele se transformou em um mostro que, descoberto, foge para a floresta.

    O texto pareceu-me ter sido produzido às pressas. Faltam elementos de coerência. Por exemplo, a personagem Ernestina surge sem que se explique o papel dela na trama. Alguns parágrafos também carecem de coesão e notam-se alguns deslizes na revisão.

    A ideia é até interessante e poderia render uma boa história de terror, mas careceu de um desenvolvimento satisfatório nessa versão.

    Parabéns pela participação e felicidades! Um abraço.

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Informação

Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C1 e marcado .