EntreContos

Detox Literário.

A Ressurreição dos Mortos (Daniel Reis)

 

Chuva fina e insistente – lágrimas sobre lápides escurecidas pela poluição. Entre corredores e jazigos, a mulher rastreava o endereço definitivo daquele seu tio praticamente desconhecido. Nunca se encontraram em vida. Ao visitar o cemitério, lembrou-se dele e teve pena por ter morrido solteiro, muito antes dela nascer. Mereceria, ao menos naquele dia, uma flor e um rápido pai-nosso. Se soubesse o nome completo, ou data de sepultamento, poderia pesquisar nos registros da administração qual a quadra e a rua exatas. Mas só havia guardado, na memória de infância, a imagem de um anjo de pedra que adornava seu túmulo.

Devia estar em algum lugar na parte mais alta do cemitério. Recordava-se que, acima da estátua, havia somente o céu azul e as aves, pousadas nas asas do anjo. E também a lembrava da mãe, segurando sua mão, enquanto contava a alguém como foi difícil sepultar um irmão, tão jovem. Nem o bispo quis autorizar a cerimônia.

 

Subiu pela ruelas íngremes e estreitas, procurando nos rostos de mármore alguma expressão familiar. Ao invés disso, encontrou um ruído inesperado, algo entre a agonia de um gato e a fricção do metal. Sentiu arrepio e a certeza de que era um recém-nascido abandonado pela mãe. Mas o choro vinha mesmo de dentro de um jazigo, adornado justamente pela estátua de um anjo-bebê.  

 



Bloquearam as entradas sem que os visitantes recebessem qualquer explicação. Policiais da Guarda Municipal e o único coveiro de plantão gritavam por silêncio entre si, na tentativa de localizar outros pedidos de socorro. Funcionário velho, o coveiro já havia visto coisas estranhas, mesmo quando estava sóbrio, e ouvido histórias de mortos que levantavam nos velórios, ou que eram encontrados de bruços no caixão, anos depois, durante a exumação. Mas nada parecido com o que estava acontecendo. Ele mesmo sepultou aquela criança, há quase duas semanas! Sabia que era impossível aguentar tanto tempo sem comer ou, principalmente, sem beber. Além da tremedeira nas mãos, o fato de ouvir outras vozes, desta vez tendo o testemunho da mulher como apoio, fez com que buscasse ajuda o mais rápido possível.

 

Vários jazigos já haviam sido abertos, e em cinco deles constataram-se ocorrências similares. Além do bebê, que morreu e foi retirado ainda nos braços da mulher, histérica, e do jovem rapaz encontrado já sem vida, com indícios de uma luta recente e desesperada para quebrar a tampa do caixão, três ex-mortos foram resgatados e atendidos pela equipe. Dois indigentes sem nome: um homem e uma mulher, ambos já de certa idade, igualmente desmemoriados e confusos. Sepultados há menos de um mês, estavam relativamente bem, considerando as condições em que viveram – ou no caso, em que estiveram mortos.

 

Último a ser resgatado, o terceiro sobrevivente causou espanto: além de fisicamente perfeito e alerta, como se houvesse acabado de acordar, a data em sua lápide era a prova viva de que ele devia estar ali, morto, há mais de sete anos.

 


No gabinete do prefeito, à noite, um grupo seleto de autoridades discutia como tratar aquela emergência. O caso dos dois indigentes seria fácil. Além de ninguém ter testemunhado seus enterros, esse tipo de gente costuma contar histórias sem pé nem cabeça. O bebê foi sepultado novamente, no mesmo lugar, e a família nem soube do ocorrido. O que ficou preso no caixão guardou com ele os detalhes daquela experiência horrível. Já o coveiro era de confiança, pois trabalhava há anos nisso e dependia do emprego para manter a família e o vício no álcool. Única testemunha “civil” do caso, a mulher foi levada ao hospital, em estado de choque, e não acompanhou os desdobramentos da história. Porém, se a imprensa descobrisse “o homem que sobreviveu a sete anos após ser enterrado”, isso daria uma grande manchete. E uma enorme dor de cabeça para a administração municipal.

Parte do gabinete de crise defendia, naquele último caso, uma investigação científica mais acurada, comprovando se houve mesmo a ressurreição ou desacreditando-a, definitivamente. Outros foram além, propondo um exame mais a fundo, tão a fundo que não restassem provas vivas da ocorrência. Porém, o prefeito decidiu que era melhor deixar o homem em paz, desde que se comprometesse a não chamar a atenção – fosse da imprensa, dos médicos ou dos eleitores em geral. Pesou para essa decisão a promessa feita, ainda em campanha, de modernizar aquele cemitério, obra pela qual seria cobrado e na qual já estava comprometido a incluir a concessão dos serviços de lanchonete a um financiador. Nada poderia atrapalhar o andamento das obras, naquele momento.

 

– Quem é vivo sempre aparece – tentou argumentar um assistente da ala mais radical.
– Se ele for vivo, mesmo, que desapareça – disse o prefeito, encerrando a reunião.

 

Dito e feito: ao ser procurado, o homem não estava mais lá.


Atravessou a principal rua do bairro, sem pressa.
Tantas vezes haviam caminhado por ali. Parecia até outra vida.

Riu da ironia.

Eram casas simples, projetadas como conjunto habitacional popular pelo governo militar, agora reformadas e ampliadas por uma nova classe média, na maioria casais jovens, sem filhos. Na praça da sua infância, encontrou os brinquedos do parquinho tão descascados e envelhecidos quanto ele mesmo deveria estar.


Mas, naqueles sete anos, nem um dia sequer havia passado. Sua roupa permanecia a mesma. Um tanto amarrotada, devido à posição desconfortável no esquife, e impregnada pelo cheiro das flores secas depositadas ao seu redor.

A casa onde nasceu transformou-se num sobrado. Não encontraria ninguém ali; mesmo assim, permaneceu alguns minutos a imaginar se ainda existiriam nas paredes alguns quadros pintados pela mãe, nos finais de semana; e, no quintal dos fundos, os limoeiros plantados por ele, com a ajuda do pai.


Desceu a rua relembrando, diante da casa dos vizinhos, o nome e rosto de cada um. Vários imóveis à venda ou para alugar. Assim como os pais, nem mesmo os amigos de infância moravam ali. Por onde andariam? Quantos deles teriam uma chance na vida como ele teve?


Nenhum, provavelmente.

Parou em frente a uma das últimas casas que ainda mantinham a aparência original e os muros baixos, onde antigamente meninos e meninas conversavam até o anoitecer. Fachada e pintura castigadas pelo tempo, cronológico e climático. Hesitou um instante e pensou em pular, como era, ou foi, de costume; mas decidiu, civilizadamente, abrir uma espécie de tramela e passar pelo pequeno portão enferrujado. A botão da campainha continuava igual, no mesmo espelho amarelado. Soaria da mesma maneira? Apertou e ouviu aquele som, agora um pouco mais rouco. Seu coração mais uma vez deu um salto, mas ele permaneceu silencioso.

Espiou pelo buraco do olho mágico.
Do outro lado, o obturador escureceu alguns instantes, até o destrave da correntinha de segurança. A porta se abriu, iluminando-o com um sorriso bem conhecido.

 


Sobre o fogão, a chaleira escurecida soltava uma coluna de vapor d´água. Há tempos já deveria ter sido retirada do fogo para fazer café, prazer adiado pelo sabor da conversa dos dois. Sentados, um em frente ao outro, ele olhava fixamente, enquanto ela falava sem parar. Agora mais velha, bem mais velha do que ele. Já havia contado tudo o que era possível: viagens e filhos crescidos no mundo, a casa herdada dos pais, falta de dinheiro para fazer as reformas. Dores e tristezas, confortos, pequenos prazeres. Ele reparou que, na parede, não haviam quadros nem fotos. Só uma gaiola, aberta e vazia.

– E você, o que tem feito da vida? – ela perguntou, interrompendo o devaneio.

–  Não muita coisa.
–  Não acredito! Nesse tempo todo, não soube nada de você…
–  Acredite. Ando bem quieto ultimamente – ele sorriu, um pouco torto.
–  Logo você, que sempre foi tão agitado… não posso aceitar que não tenha vivido nada de especial…
–  Na verdade, bem pouca coisa que valha a pena contar. Ou lembrar, depois que nós nos afastamos… – ele parou um instante, procurando as melhores palavras. – Se eu soubesse, não teria partido…
Ela tirou a franja do rosto, ligeiramente incomodada:
–  Nem me lembro mais por que é que você foi embora.

 

Ele não disse nada. Nem saberia o que dizer.

Finalmente ela deu atenção à chaleira que chiava e correu despejar o resto da água fervente num filtro de papel, cheio daquele pó escuro e forte, capaz de despertar os mortos.

 


Ele sorveu seu café devagar, amargo até o último gole, enquanto ela continuava a desfiar histórias. Percebeu que continuava a ser a mesma manipuladora, fingindo uma inocência quase indecente. Ele permanecia inerte, subjugado pela força inexplicável da natureza dela. Enquanto houvesse história, ela seria a única narradora possível, sempre em primeira pessoa. Mas havia também a possibilidade da terceira pessoa. Ele foi direto ao ponto, e ela pareceu confusa em ter que dar resposta:
– Ele é bom – justificou, depois de um tempo pensativa.
“Bom em quê?” –  pensou ele .
– Bom para você?
A resposta não veio em discurso direto:

– Você deveria conhecê-lo.
Ele desviou os olhos até o relógio de parede, que marcava um horário desconexo.
– Então é isso. Tenho que ir embora.

– Fique um pouco mais. É bom ter com quem conversar – aparentemente, ela foi sincera.

Silêncio.
– Fica para outra. Agora é tarde – respondeu ele.

– Você vai voltar, algum dia?

– Quem sabe a vida me traz de volta, não é?

 


Despediram-se no portão. Ele seria sempre bem-vindo.

Menos agora. Foi o que ele entendeu perfeitamente.
Aceitou o abraço e desejou que tudo tivesse durado uma eternidade.

Da esquina, ele ainda se deteve tempo suficiente para ver, pela última vez, a silhueta dela, ainda esguia, irresoluta, voando em zig-zag na direção do seu ninho vazio.

Algumas quadras adiante, de cabeça baixa, acabou por encontrar um passarinho caído entre as pedras da calçada. Abaixou-se, pegou aquele filhote e o colocou, estendido, na palma da mão. Provavelmente, havia saltado em tentativa de voo até atingir uma vidraça intransponível. Ajeitou o pescoço quebrado, acariciou as suas plumas ralas. Seu último desejo era, na verdade, um milagre: ter de volta aquela vida que escapou por entre os seus dedos.

Mas tiveram que seguir em frente. Tão mortos quanto estavam antes.

18 comentários em “A Ressurreição dos Mortos (Daniel Reis)

  1. Leandro Soares Barreiros
    29 de março de 2019

    A história tem como premissa um fenômeno que leva a ressurreição de alguns mortos de uma cidade. Acompanhamos um dos ressuscitados que visita uma antiga paixão. Ao final, ele percebe que ela seguiu adiante, coisa que ele também deve fazer, de um jeito ou de outro.

    Gostei do conto, embora tenha estranhado um pouco o descarte da personagem mulher no início e tenha achado a cena com o prefeito um tanto quanto desnecessária.

    No que diz respeito à mulher, achei ousada, contudo pouco eficiente, a transição para outro protagonista com um limite tão pequeno de palavras. Já no caso da cena com o prefeito, achei-a descartável. Isso porque a história não pende para as implicações de uma ressurreição (o que é proposto na cena), mas para uma reflexão das consequências de nossas escolhas e do significado de estar vivo e, mais ainda, de ser capaz de aproveitar a vida.

    De fato, é justamente no terceiro ato que a história ganha forças com a dinâmica entre o homem e a mulher. Também é nesse momento que aparecem as melhores construções, ou, pelo menos, as que mais gostei, vide:

    ” Enquanto houvesse história, ela seria a única narradora possível, sempre em primeira pessoa. Mas havia também a possibilidade da terceira pessoa. Ele foi direto ao ponto, e ela pareceu confusa em ter que dar resposta:
    – Ele é bom – justificou, depois de um tempo pensativa. ”

    Reforço, achei o conto bom. Acho, contudo, que a história seria muito melhor se houvesse um foco maior na dinâmica do morto e se fosse cortado o que é desnecessário no início da história. Inclusive, acredito que se o texto iniciasse com

    “o coveiro já havia visto coisas estranhas, mesmo quando estava sóbrio, e ouvido histórias de mortos que levantavam nos velórios, ou que eram encontrados de bruços no caixão, anos depois, durante a exumação. Mas nada parecido com o que estava acontecendo. ”

    A introdução seria mais impactante e serviria melhor a um texto que deve ser curto.

    Algumas coisas que talvez valha a pena revisar depois:

    “E também a lembrava da mãe, segurando sua mão, enquanto contava a alguém como foi difícil sepultar um irmão, tão jovem.”

    “Subiu pela ruelas íngremes e estreitas”

    “A botão da campainha continuava igual, no mesmo espelho amarelado”

    De todo modo, boa história. Um sólido 4 o um anéis;

    Parabéns! Abraços.

  2. Priscila Pereira
    26 de março de 2019

    A Ressurreição dos Mortos (Lázaro Anástasis)
    Sinopse: Uma moça procura o túmulo de seu tio, que morreu muito jovem ainda e acaba presenciando a ressurreição de algumas pessoas. As autoridades do lugar querem abafar a todo custo a história. Um dos ressuscitados vai visitar seu antigo bairro, e uma antiga amiga, ou amante.

    Olá autor!

    Não tenho certeza se entendi seu texto muito bem… me pareceu três textos distintos que foram costurados um no outro. Ou eu perdi alguma coisa? O que tem o começo, com a moça contando do tio, com o final? Desculpe se a minha limitação como leitora me impediu de entender. Se tiver algo para entender… kkk
    Algumas observações:
    “Nem o bispo quis autorizar a cerimônia.” Isso dá a entender que foi suicídio. Procede?
    “O bebê foi sepultado novamente, no mesmo lugar, e a família nem soube do ocorrido.” Como assim? Enterraram ele vivo??
    “A botão” Errinho de digitação.
    “Mas tiveram que seguir em frente. Tão mortos quanto estavam antes.” Não entendi…
    O conto está escrito de forma firme e bela. O enredo e os personagens é que estão soltos, sem uma trama concreta. Bem, é isso. Boa sorte no desafio!

  3. Fheluany Nogueira
    22 de março de 2019

    Vários mortos voltam à vida e entre eles um homem morto há sete anos que, depois de ser liberado pelo prefeito (que só se preocupava que se espalhasse tal notícia e ele perdesse votos), andou pela cidade revendo lugares. Em certa casa, reencontra uma antiga namorada. Dialoga com ela através de evasivas, vai embora porque o marido já chegava. E o texto é arrematado com uma reflexão: “Seu último desejo era, na verdade, um milagre: ter de volta aquela vida que escapou por entre os seus dedos./ Mas tiveram que seguir em frente. Tão mortos quanto estavam antes”.

    Impossível não lembrar de “Incidente em Antares” ou séries e filmes mais variados, como “Game of Thrones”, “Glitch”, The Returned e outras em que pessoas mortas retornam inexplicavelmente à vida e tentam se reintegrar à sociedade. Interessante como o número sete é cabalístico em todas elas.

    A história apresenta uma série de situações identificáveis ao leitor. Nessas cenas, o ritmo calmo e constante usado não confere tanto impacto e tenho a sensação de ver a intenção de emotividade, mas não chego a sentir. Contudo, traz algum envolvimento, mais pela empatia com o protagonista, por ser um tema que desperta o sobrenatural de cada um, pela linguagem cuidada e descrições bem construídas.

    A revelação final vem de forma mansa, sem surpresas e com certa previsibilidade. A vida continuou para os outros, apesar de uma morte. Se o morto volta, tudo está diferente.

    Resumindo: conto bom, identificável, reflexivo, bem escrito, mas sem novidades.

    Dica gramatical: não haviam quadros nem fotos – verbo haver, no sentido de existir, é impessoal: havia

    Parabéns pelo trabalho. Boa sorte na Liga. Um abraço.

  4. Jorge Santos
    17 de março de 2019

    Resumo: numa cidade, vários mortos ressuscitam. O conto segue a história de um deles, que vai visitar a antiga companheira, que entretanto já estava com outro homem. Conto de zombies, não violento. A ideia é interessante, mas poderia ter sido executada de forma diferente, mais emotiva, talvez. Em termos linguísticos achei alguns problemas com as formas verbais utilizadas, que me soaram estranhas. O final torna-se previsível, se bem que foi bem executado e jogando perfeitamente com a imagem que ilustra o conto.

  5. MARIANA CAROLO
    13 de março de 2019

    Resumo: Um estranho fenômeno faz com que mortos ressuscitem. Um deles levanta e vai em busca da mulher que amou. Tomam um café juntos.

    Olá Lázaro, que conto melancólico. Não sei se foi o momento que estou lendo, mas ele me deixou um pouco menos esperançosa no mundo. Ele está bem escrito, o elemento fantasia está presente – estou elogiando todos os textos que fugiram do gênero capa e espada. Aliás, você conseguiu fazer algo diferente do Incidente em Antares, o que é digno de nota. Porém, a morte (talvez por dentro?) do personagem deixou tudo mais cinza. Não é uma crítica, pois é bastante válido despertar sensações, mesmo que elas não sejam boas. Parabéns e boa sorte no desafio.

  6. Pedro Paulo
    11 de março de 2019

    RESUMO: Algo surpreendente ocorre na cidade. Cinco indivíduos inexplicavelmente voltam à vida em seus túmulos, apenas três sobreviventes à traumática experiência. A prefeitura consegue lidar com os dois indigentes e, depois de debate, concluem por deixar o terceiro – cuja morte remontava a sete anos atrás – ir embora. Este é o nosso protagonista. Ele caminha pelo seu antigo bairro, não encontra seus pais e nem seus amigos. Reencontra apenas uma antiga paixão, cujo breve diálogo evoca antigas emoções, entre mágoas e amores. Eles não se pertencem mais, ao menos não naquele momento, talvez nunca. O protagonista sem nome abandona a amada sem nome. Caso refizesse o caminho, acabaria voltando ao túmulo. O autor preferiu não indicar o seu destino, então o conto se encerra com o protagonista sem rumo, num claro sentimento de inadequação à vida, dado que deveria estar morto.

    COMENTÁRIO: Muito bom!

    Creio que o conto pode se dividir em duas partes, uma dedicada a nos mostrar o fenômeno e as suas reações (no caso, a ressurreição de alguns enterrados do cemitério e como as pessoas da cidade se comportaram em relação a isso) e a outra orientada na perspectiva do protagonista, o terceiro ressuscitado. Parabenizo o autor pela agilidade na escrita. Essas duas partes não são anunciadas na leitura, mas a distinção é perceptível. A primeira é cheia de nuances, pois traz a perspectiva de vários personagens na sequência de eventos que se sucedem a partir da descoberta. Dessa maneira, o que se destaca aqui é como o autor soube organizar os personagens de forma utilitária, a mulher que descobriu o bebê servindo à introdução, o coveiro alcoólatra chamando a ajuda e a prefeitura corrupta cuidando do caso. Isso imbuiu a leitura com organicidade e verossimilhança.

    A segunda parte é diferente por termos a perspectiva de uma personagem, com o autor escrevendo com mais profundidade sobre os sentimentos do ressuscitado, evocando uma inevitável sensação de melancolia. Se eu estive escrevendo sobre a capacidade do autor se ser sucinto, a conversa do protagonista com sua antiga amada é a maior prova dessa qualidade, pois há muito pouco de verdadeiro e diálogo e muito mais de nuance na maneira como os dois se relacionavam e o sentimento dele para com ela, não só de amor, mas também de ressentimento. A despedida não reflete somente esse “desacordo” entre os dois, mas também o desacordo do próprio protagonista em relação à vida. Ele deveria estar morto e o leitor sabe e concorda com isso. É difícil concordar com a necessidade da morte de alguém e se o autor nos levou a isso, é porque escreveu muito bem, assinalando essa mensagem com a cena de desfecho, do encontro com o pássaro morto.

    Sobre a adequação ao tema, enfim, considero o conto dentro da fantasia ou, talvez, do realismo mágico (no qual aprofundarei minha conceituação até o fim do desafio). Eu não estou dando uma nota final ainda, mas se pudesse fazer uma crítica nesse sentido, é que o autor não teria aproveitado toda a potência da fantasia. Mas, ao mesmo tempo, a proposta não é que o autor escreva sobre fantasia, mas dentro dela, no que concebo que escreveu sim. Esse critério de adequação será o que fechará ou não a nota máxima e, como avalio a série A, fecharei a nota quando observar como os demais contos de fantasia aproveitaram o tema.

    Boa sorte!

  7. Matheus Pacheco
    6 de março de 2019

    RESUMO: Um conto de fantasia moderna onde os mortos de um cemitério municipal misteriosamente voltaram a vida, destacando um desses “sobreviventes” que retornou para a casa de uma conhecida, provavelmente uma antiga namorada, para se despedir propriamente.
    COMENTÁRIO: Eu andei percebendo que os últimos contos que eu estou avaliando poderiam muito bem se encaixar em diversos outros gêneros, este por exemplo poderia ser classificado como um drama e não como uma fantasia, o que não tira a qualidade do texto, só o coloca dividido.
    Um excelente conto um abraço

  8. Renata Afonso
    6 de março de 2019

    Oi,Lázaro,
    Tudo bem?
    Seu conto tem início com a visita de uma sobrinha ao local de “descanso eterno” de um tio que fora enterrado com dificuldade (aqui não sei se entendi bem,mas não achei conexão com a parte em que diz que nem o bispo quis autorizar a cerimônia com o restante da história) – vou reler antes de enviar o comentário 🙂
    “E também a lembrava da mãe, segurando sua mão, enquanto contava a alguém como foi difícil sepultar um irmão, tão jovem. Nem o bispo quis autorizar a cerimônia.”- é, não entendi mesmo….mas é coisa minha.
    Pois bem, a partir daí uma série de fatos inacreditáveis passa a acontecer, com a ressurreição de alguns mortos – alguns que voltam a morrer, outros que são levados para local que não vem ao caso, e outro, que some e vai em busca de um passado perdido.
    É uma fantasia que transita entre a reflexão e a tristeza, se é que podemos separar, de fato, as duas questões.
    A volta ao antigo ambiente resulta em frustração para o recém-ressurreto, que descobre que seu antigo amor é, hoje, comprometida – e, de certa forma,mais solitária que ele mesmo, trancafiado na morte por longos sete anos.
    Um texto para pensar no que somos e em que sera o “não ser, o não estar”, mas que particularmente não despertou grandes sentimentos, não somente por não ser, ao menos para mim, tão adequado aos temas propostos, quanto por uma certa confusão, como se fossem várias histórias que unidas formaram um conto – bem escrito e inteligente, mas pesado e dramático, que passa sutilmente pela fantasia.
    Há necessidade de uma pequena revisão também.
    Gostei do seu conto, você claramente é alguém que escreve bem, porém, aqui não me identifiquei.
    Desejo boa sorte,
    Abraço!

  9. Fernando Cyrino
    4 de março de 2019

    Um caso insólito. Alguns mortos revivificados no cemitério da cidade. Alguns que “morrem” novamente e outros que saem pela cidade. Dentre esses o nosso herói que vai em busca do seu bairro, da sua casa, do seu antigo amor. Encontra-o e, ao som da chaleira chiante conversam das coisas e tempos antigos. Mas a vida (ou a morte) seguem em frente e ele repara que ali não havia mais espaço (ela tinha alguém que lhe era bom). No caminho o morto redivivo encontra um passarinho morto. Gostei da última frase: “mas tiveram que seguir em frente, tão mortos quanto sempre estiveram”. Gosto de imaginar (apesar que a interpretação aqui é aberta e pode dizer respeito também ao pássaro, os dois mortos eram a mulher que tinha amado e ele. Uma ideia muito interessante, mas que peca em alguns aspectos que me parecem bem importantes para o bom entendimento da história. Quem sabe você não teve tempo suficiente para trabalhar o texto, ou paciência para burilá-lo, conforme merecia. E nem estou falando das questões de revisão que faltaram. Trato aqui de questões de continuidade, por exemplo. O morto falecera há sete anos, mas quando volta para o seu bairro e casa, fica a impressão de que se passaram bastante mais anos. Os parentes já não moravam por lá, a casa tinha se tornado sobrado, as pinturas estavam descascadas, muitos tinham morado. Achei que precisaria ter havido mais tempo para tanta coisa haver acontecido. No início do conto você me trouxe o rapaz morto há muito tempo para, em seguida, deixá-lo por lá no cemitério. Poderia ter explorado mais este lado, ao meu ver. Ou era ele o homem que havia saído pelo caminho? Não poderia ser, eis que ele morreu quando a visitante do cemitério nem era nascida ainda. E a morte deve ter sido algo que merecia, quem sabe, estar no conto, eis que até o bispo se negou à cerimônia. Bem, meu caro Lázaro, achei que seu conto tem uma boa ideia (lembrou-me Veríssimo em Incidente em Antares, mas você, definitivamente, não quis me fazer uma comédia), que apresentou dificuldades na sua implementação. Meu abraço fraterno.

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    24 de fevereiro de 2019

    A Ressurreição dos Mortos (Lázaro Anástasis)

    Resumo:

    De início, uma mulher procura o túmulo do tio em um cemitério. Não sabe a quadra, o nome completo do morto, segue a busca apenas com as imagens que traz da infância, quando ia até lá com a mãe. Mas, essa mulher não é protagonista da história, como parece. De repente, ela ouve um barulho que arrepia. Percebe choro de criança, som que sai do jazigo, e em seguida outros mortos lutam para saírem das covas. O cemitério foi cercado por seguranças, os visitantes foram impedidos de deixarem o local. A mulher do começo da história passou mal, foi socorrida e encaminhada ao hospital, em estado de choque. Enfim, alguns mortos foram confirmados como vivos. Entre eles, dois indigentes foram liberados e outro individuo foi orientado a não comentar o ocorrido. Estava enterrado havia sete anos. Este é o protagonista. Sai do cemitério, caminha lentamente pelas ruas que lhe viram crescer, olhou as casas dos amigos, dos pais, tudo diferente. Parou em frente da casa da amada. Tocou a campainha (ou não), foi atendido (ou não), eles conversaram muito (ou não), o café foi coado e servido como nos velhos tempos (ou não). Já era tarde.

    Comentário:

    Belo texto, um primor de fantasia. Narrativa bem construída, fluente, sem qualquer obstáculo ao entendimento. Aberto, deixa a imaginação voar. Bem escrito, bem ambientado, o autor escreve com poesia e brinca com as palavras. Fiquei tocada. A leitura foi além do texto, divaguei.

    Lindíssimo o desfecho da narrativa que cita o “horário desconexo”, a figura da gaiola vazia e o encontro do pássaro morto. O milagre realmente desejado era “ter de volta aquela vida que escapou por entre os seus dedos”.

    Parabéns pelo texto!

    Boa sorte no desafio! Abraços…

  11. Gustavo Araujo
    24 de fevereiro de 2019

    Resumo: sem razão aparente, pessoas mortas voltam à vida. Um deles, que se assume o protagonista do conto, depois de ter passado sete anos como defunto, volta ao bairro em que cresceu para encontrar tudo modificado, com exceção da casa da antiga namorada. Consegue conversar com ela, mas evidentemente, não há como recuperar o tempo e os acontecimentos perdidos. No final, se despedem e ele se sente tão morto quanto antes.

    Impressões: é um belo conto. Apesar de alguns escorregões na parte gramatical, não dá para negar que o texto traz consigo a dose exata de nostalgia para atrair o leitor como um inseto à única lamparina da rua. Um pouquinho mais e a receita teria desandado. Por isso, parabéns pelo equilíbrio.

    O texto me lembrou do maravilhoso “O Menino Perdido” do Thomas Wolfe, em que um homem retorna à cidade em viveu depois de muitos anos e é tomado por uma melancolia que sequestra também o coração de quem lê. E também me lembrou do livro do Veríssimo, Incidente em Antares, em que mortos voltam à vida por um breve período, para acertar as contas com o passado.

    O bacana aqui é que o fantástico, a fantasia, não é o que chama mais a atenção, mas sim a dificuldade do protagonista em se reinserir no cotidiano, refém que é de um passado muito distante. Impossível não se afeiçoar a ele, não sentir sua dor, não partilhar de sua tristeza muda, de sua decepção contida, escondida e sufocada, refletida na metáfora do passarinho morto.

    Em suma, um trabalho muito bonito, cheio de sensibilidade e com a receita certa para agradar qualquer tipo de leitor, já que toca em temas universais e atemporais. Parabéns e boa sorte no desafio.

  12. Givago Domingues Thimoti
    24 de fevereiro de 2019

    A Ressurreição dos Mortos
    Caro(a) autor(a),

    Desejo, primeiramente, uma boa primeira rodada da Liga Entrecontos a você! Ao participar de um desafio como esse, é necessária muita coragem, já que receberá alguns tapas ardidos. Por isso, meus parabéns!

    Meu objetivo ao fazer o comentário de teu conto é fundamentar minha nota, além de apontar pontos nos quais precisam ser trabalhados, para melhorar sua escrita. Por isso, tentarei ser o mais claro possível.

    Obviamente, peço desculpas de forma maneira antecipada por quaisquer criticas que lhe pareçam exageradas ou descabidas de fundamento. Nessa avaliação, expresso somente minha opinião de um leitor/escritor iniciante, tentando melhorar, assim como você.

    PS:Meus apontamentos no quesito “gramática” podem estar errados, considerando que também não sou um expert na área.
    RESUMO: “A Ressurreição dos Mortos” nos conta a história de um ex-morto que desperta misteriosamente e a primeira coisa que faz é visitar sua ex-namorada.

    IMPRESSÃO PESSOAL: O conto me surpreendeu. Tem uma pegada meio sombria no início, fato esse que torna a leitura menos fluida, pelo menos para mim. Entretanto, essa atmosfera desaparece no desenvolvimento, soando mais como o retorno de um homem que havia ido para um outro país.
    Na conclusão, o clima desolado retorna com a certeza do ex-falecido que o seu relacionamento com a moça havia morrido, assim como o passarinho o qual encontrou na rua.
    PS: Não que tenha alguma relevância para essa minha avaliação, vou falar mais pela vontade de contar um causo do que por qualquer outra coisa. Uma vez, indo para o colégio, eu estava bastante nervoso por conta de uma prova. Sempre fui (e ainda sou) um supersticioso. Por isso, procurava algum sinal do Universo que me dissesse “Você não vai se f* nessa prova, calma!”. Foi quando notei um bando de pombos na rua, próximos a uma caçamba de lixo. Até aí, tudo normal. Eis que um Sandero prata, acelerou bem rápido para cima das aves. A cena se deu lentamente nos meus olhos. Ouviu os ossos se partindo. Pena para tudo que é lado. Como supersticioso que sou, fui para a prova condenado…
    Acabou que não me ferrei. O que quero dizer com essa historieta? Nem tudo é o que parece ser. Nem sempre é o sinal do Universo. Ou seja, o morto vai voltar para a moça
    ENREDO: O enredo é bom, porém, poderia ser melhor. Aqui é mais um pitaco de leitor-escritor. Ao invés de apresentar o gabinete de crise e o prefeito preocupado mais em abafar o caso do que qualquer outra coisa, acho que seria mais interessante abordar como o personagem morreu ou presentear o leitor com o flash do relacionamento entre ele e a moça. Dessa forma, acho que seria mais fácil se conectar com o personagem. Faltou na narrativa essa imersão maior à fantasia.
    Achei a leitura um tanto travada no inicio, mas fluiu depois do primeiro ou segundo parágrafo. Notei uma mudança de tom também. No meu caso, o erro se tornou em acerto. Não sei se iria gostar do clima sombrio dos primeiros parágrafos. Mas, claramente, isso varia de pessoa em pessoa.

    GRAMÁTICA: Não notei nenhum erro gramatical

    PONTOS POSITIVOS:
    • O conto me surpreendeu. Sempre bom quando isso acontece
    • Bem escrito, embora com alguns deslizes na narrativa

    PONTOS NEGATIVOS
    • A mudança na atmosfera. É um ponto meio incoerente. Por um lado, gostei. Mas pelo lado critico, esse foi um erro que vale a pena ser mencionado

  13. Luis Guilherme Banzi Florido
    22 de fevereiro de 2019

    Bom dia, amigo. Tudo bem?

    Resumo: homem desperta dos mortos e Vai à casa de uma amiga antiga, provavelmente mais que amiga. Em meio a conversas triviais, cicatrizes antigas se abrem e ele decide partir de vez.

    Cara, devo dizer que seu conto parecia promissor e me despertou bastante interesse, mas mesmo com mais de uma leitura, e várias leituras do final, terminei sem entender o desfecho. Sinto muito, provavelmente é uma falha minha como leitor.

    Pelo que entendi, o conto é uma metáfora de um homem que se sentia morto, após perder o grande amor, e tenta ir atrás dela novamente apenas para perceber que era um erro, como fora da outra vez.

    Só não entendi muito bem o papel do pássaro, na história. Temos a gaiola aberta na casa, a mulher representada como um passar o voltando ao ninho, e o passar o morto no fim. Acredito que faça parte da metáfora, algo como “me sentia preso numa gaiola, fugi, senti falta do ninho, mas quando tentei voltar, o ninho já estava ocupado. Agora me sinto como um pássaro morto, que tentou bater asas e deu de cara numa vidraça”

    Espero não ter viajado totalmente hahahah. Se for isso, gostei bastante da metáfora.

    Algumas ressalvas:

    Achei um pouco inverossímil o acontecimento inicial. Me parece muito improvável, pra não dizer impossível, que a prefeitura simplesmente deixasse o cara seguir viagem, fingindo que nada aconteceu. Claro q se for tudo uma grande metáfora, isso tudo nem teria acontecido de fato. Ainda assim, Acho importante que a história que serve como base pra metáfora seja palpável e bem construída.

    Outro comentário meio chato de fazer é que não sei se consigo enquadrar o conto em um dos temas. Claramente não é comédia, e não sei dizer se entra em fantasia. Mas não vou ficar me detendo nisso pq não tenho nem certeza se enquadra ou não.

    Enfim, concluindo, é um conto curioso e interessante, que deixa coisas em aberto e espaço pra reflexão. Gostei. Parabéns e boa sorte!

  14. Rafael Penha
    21 de fevereiro de 2019

    RESUMO: Trata-se de um curioso caso de ressureição dos mortos, encobertada pelas autoridades públicas, temendo um escândalo. Em meio a isso, um dos mortos “reacordados” consegue escapar e caminha por sua antiga vizinhança até encontrar alguém que lhe era caro. Depois da conversa, ele percebe que não pertence mais ao mundo dela e segue seu caminho.

    COMENTÁRIO: Diferente das histórias de zumbi, nesta, os mortos revivem de certa forma, sãos. A técnica de escrita me pareceu mais elaborada e descritiva no início, mas senti uma pequena mudança no decorrer do conto, o que me causou estranheza. O enredo é original e melancólico, mas pouco interessante, na minha visão. O ser extraordinário que voltou da morte, não fez nada de extraordinário. Talvez se um de nos voltasse, como ele voltou, seria bem parecido, mas eu esperava mais, apesar de compreender se tratar de um conto intimista. Sem dúvida, é fantástico, mas a única coisa que a fantasia faz é trazer um homem de volta. Gostaria de ter visto o que anos de morte mudaram ou transtornaram em sua mente e percepção, mas ele volta da mesma forma que teria voltado se apenas tivesse se mudado para outro estado. O conto tem um potencial bem maior que o explorado e o autor pode pensar em reabordá-lo de forma mais filosófica e metafórica.
    Grande abraço!

  15. Fabio D'Oliveira
    21 de fevereiro de 2019

    O corpo é a beleza, a forma, o mensurável, o moldável. A alma é a sensibilidade, os sentimentos, as ideias, as máscaras. O espírito é a essência, o imutável, o destino, a musa. E com esses elementos, junto com meu ego, analiso esse texto, humildemente. Não sou dono da verdade, apenas um leitor. Posso causar dor, posso causar alegria, como todo ser humano.

    – Resumo: Enquanto procurava o túmulo de seu tio, movida pela empatia e dever com sua família, uma mulher acaba presenciando algo incrível: a ressurreição de alguns mortos. A prefeitura local abafa o caso com a ajuda da Guarda Municipal e do coveiro do cemitério. E a pobre visitante entra em choque, sendo levada para o hospital. Seu destino incerto mescla-se com o mistério da situação. Então, em passos vagarosos, um dos ressuscitados visita seu bairro de infância e seu amor. Após uma breve conversa, percebe que muito coisa mudou e que, de fato, sua vida fora perdida. Assim acaba a história, com o final se transformando num início.

    – Corpo: Sendo sincero, e bem direto, você é bem habilidoso com as palavras. A forma como escreve traz naturalidade ao texto. O início, que é um dos pontos principais do texto, me capturou muito bem. Inclusive, acho que pode fazer muito mais do que isso, pois o conto teve alguns trechos quentes, de verdadeira excelência, mas noutros momentos amornou. Não chegou a esfriar, felizmente. Para exemplificar, a parte da prefeitura não é de extrema importância e sua narrativa, nesta parte, acabou enfraquecendo — talvez pelo tom explicativo. Não me causou o mesmo impacto dos primeiros e últimos parágrafos. Nenhum erro de português, nenhum erro de digitação, está de parabéns!

    – Alma: A escrita está maravilhosa. Porém, algumas coisas da história me causaram certo incômodo. Primeiro: a inserção da mulher que procurava o túmulo do tio. Por que colocá-la na narrativa, escrever tão bem sobre sua busca, e simplesmente mandá-la pra escanteio depois da ressuscitação dos mortos? Talvez você tenha sentido necessidade de dar uma visão maior para a história, incluindo a ação do coveiro com a Guarda Municipal e a crise na prefeitura. Mas essas partes não eram de tamanha importância, não mesmo. As melhores partes do conto foram justamente quando você baseou a narrativa na vivência dos personagens. Poderia ter reformulado, talvez não ter incluído a prefeitura, apenas o coveiro e/ou visitantes do cemitério, dando foco na mulher que procurava o tio e no rapaz que ficou morto por sete anos. Ou simplesmente ter melhorado os personagens dessas partes, pois o coveiro e o prefeito, como ficaram, deixaram a desejar. Segundo: as trocas de foco da narrativa poderia ser bem delineada. Dividir em atos deixaria o conto bem mais organizado e bonito. Sem falar, claro, que daria pra fazer a transição do personagem de forma mais leve, sem correr o risco de causar estranheza no leitor. E terceiro: sete anos que pareceram vinte e sete anos. Sinceramente, você passa a sensação, o tempo inteiro, que o rapaz ficou ausente por MUITO tempo. E sete anos, rapaz, não é tanto tempo assim. Achei estranho, inclusive, a mulher não ter notícia nenhuma dele. É evidente que é um antigo amor dele. É comum ter envolvimento com os familiares e afins, então como não ficou sabendo da morte dele? Não ficou claro, no texto, se ele foi enterrado como indigente ou algo do tipo. Tinha até flores no seu caixão! Dificilmente indigentes são enterrados com esse tipo de cerimônia. Como não houve uma explicação maior de quanto tempo ele ficou afastado do bairro que cresceu, acabaram ficando essas dúvidas. Mas isso é fácil de ajustar, só inserir um detalhe aqui e acolá. O conto possui muito potencial. Invista nele e guarde, pois será algo que valerá expôr ao mundo quando sua hora chegar.

    – Espírito: O tema aplicado é fantasia. Porém, ele fica no plano de fundo, com a narrativa se focando nos personagens e como a prefeitura reage ao misterioso incidente. Acho isso um pouco ruim, apesar de não sair da temática, faltou brilho nela. É um assunto clichê demais, também, tanto os conflitos dos personagens quanto o mistério da ressuscitação. Faltou originalidade, infelizmente. O autor é muito talentoso na arte da escrita. Mas precisa trabalhar a criatividade.

    – Conceito: Ouro!

  16. Angelo Rodrigues
    21 de fevereiro de 2019

    Caro Lázaro Anástasis,

    Resumo:
    a surpresa da morte irrealizada, ou do retorno à vida. Um homem retorna à vida como se nada houvesse acontecido consigo. Refaz um trajeto conhecido até encontrar uma mulher, conversam, ele vai embora e encontra um passarinho morto no chão. Ambos caminha juntos, tão mortos quanto antes estavam.

    Avaliação:
    gostei do conto. A impiedade da vida, a piedade da morte. A morte é um piscar de olhos que não interrompe a visão. Talvez isso não tenha permitido que o morto se acreditasse como tal, e na tumba permaneceu por sete anos sem se dar conta de que morto estava.
    E não há dúvida de que isso seja possível, pois andam por aí mais mortos do que imaginamos ou podemos notá-los como tal.

    Há um conto de Poe, Os Fatos do Caso do Sr. Valdemar, que é bem interessante, nessa linha da suspensão da morte:
    (…)
    A pessoa deitada na cama era ainda o Sr. Valdemar ou só a consciência dele presa a uma hipnose? Será que Valdemar, através da hipnose, consegue fugir da morte? O que vai acontecer quando ele despertar do transe?
    (…)

    O nosso protagonista, talvez um morto sob hipnose, pode ainda andar por aí até hoje sem que se tenha dado conta de que morto está.
    O conto é legal, como disse, mas tem alguns problemas.
    – a mulher que procura pelo tio, atua como uma condutora irrelevante para encontrar os mortos-vivos, depois sai de cena e perde a relevância;
    – a criança que é desenterrada, volta a sê-lo sem explicação;
    – a mulher que o morto-vivo encontra mostra-se significante embora essa significância não se explicite. Era uma manipuladora, ok, mas… como assim? Não vi relevância nessa postulação;
    – há clichês, como por exemplo dizer que o coveiro é um bêbado. Bem, não conheço nenhum coveiro – talvez um ex-coveiro: Rod Stwart, o roqueiro, que se não é, um dia foi um bêbado, dizem –, embora “saiba” que todos os coveiros são bêbados pela via dos clichês;
    – a cafajestice de autoridades também é um clichê que o conto não precisava ressaltar.
    Não vi relevância, também, nos espaçamentos dados entre estruturas narrativas. Não sei se propositais ou não, e, se tentam expressar distanciamento temporal ou de ideias, não era preciso tantos.

    O final é bastante interessante, pois subverte uma expectativa quando diz que o morto ao encontrar um passarinho morto, a ele não transfere vida, e seguem ambos, mortos. Legal isso, mas não seria ruim se um morto pudesse “dar” ao outro a vida que não tem.
    Parabéns e boa sorte na Liga!!

  17. Tiago Volpato
    20 de fevereiro de 2019

    Resumão:
    Encontram-se diversos mortos voltando a vida. A história segue um deles, um camarada que ficou 7 anos morto debaixo da terra. Enquanto as ‘otoridades’ decidem o que fazer com ele, ele pica a mula e vai andar por aí, tudo mudou, exceto pela casa de um brotinho que vivia por ali. Os dois batem um papo, ele se cansa e vai embora.

    Considerações:
    Sua técnica de escrita é muito boa, mas acho que as frases podiam ficar mais enxutas, o que daria mais dinamismo ao texto. Alguns momentos achei um pouco enrolado, o que deixou o texto mais lento, já os diálogos gostei bastante, estão muito bem escritos.
    O texto tem elemento de fantasia, mas achei o tema pouco explorado, teve o gancho inicial dos mortos voltando a vida, mas a fantasia ficou só nisso, mesmo assim cumpriu o tema, só achei que podia ter explorado mais.
    O texto é bom, mostra que mesmo vivos, muitos de nós estamos mortos. Foi bem interessante.
    Minha sugestão seria aumentar a parte da interação do homem com a nova vida, mostrar mais do seu vazio e de que talvez ter voltado não seja tão bom assim. Você ainda tinha mais umas palavras pra gastar, podia ter trabalhado mais isso.

  18. Antonio Stegues Batista
    20 de fevereiro de 2019

    A Ressurreição dos Mortos- é a história de um fenômeno que aconteceu certo dia num cemitério. Uma mulher vai visitar o túmulo de um parente, quando ouve o choro de uma criança. O coveiro abre o túmulo e descobre que a criança está viva. Logo outros mortos ressuscitam e um deles vai visitar a ex namorada.

    Achei um bom conto, apesar de a mulher do princípio, não ter nenhuma relação com os outros que ressuscitaram, tampouco os outros tem relação entre si. Um grupo de autoridades se reúnem para resolver o problema, pois a ressurreição dos mortos, para a cidade é um problema, o que não deu para entender. Ficou meio superficial até essa parte. Os problemas são resolvidos na medida em que os mortos tornam a morrer, com exceção de um, que sai do cemitério a procura de sua ex-namorada. O texto está bem escrito, mas achei estranho não haver vínculo entre os personagens no início. Parece que os fatos são apresentados apenas para justificar o personagem principal que vai visitar a amada, assim como o pássaro morto que apenas ilustra um final sem surpresas impactantes.

Deixe uma resposta para Fernando Cyrino Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A e marcado .