EntreContos

Detox Literário.

A Dama Rubra (Una Dunvegan)

Ao despertar depois da cirurgia, notei a presença dela no quarto. Cabisbaixa, o corpo esquálido em vestes brancas permanecia em pé, imóvel no canto mais próximo à porta, entretanto, sem apoiar-se em nada. As mãos não portavam a simbólica foice, mas repousavam com dedos pálidos e longos entrelaçados sobre o colo. Ao se perceber observada, levantou o rosto lívido, mal revelado pelas madeixas vermelhas, e seus olhos opacos e sem expressão trespassaram-me a alma.

A princípio, pensei tratar-se de outra enfermeira, ou médica. Sorri tentando dissipar o constrangimento que era apenas meu. Indiferente, ela abaixou novamente os olhos para o assoalho e assim permaneceu. Não tardou para que a presença da suposta morte, a mim revelada na figura da mulher sorumbática e ruiva, não me incomodasse mais. Logo ela era tão somente como qualquer outro objeto no quarto, tal qual o abajur frio ou um daqueles pedestais de inox que sustentavam as bolsas de soro. Como ninguém mais apareceu, não tardei a cair novamente no sono. Talvez estivesse ainda sob efeito do anestésico.

Horas mais tarde, a enfermeira gorda, cujo nome eu não lembrava – nem queria perguntar, pois considerava uma indelicadeza tal esquecimento – abriu lentamente a porta introduzindo antes através dela o rosto risonho. Adivinha quem veio, perguntou, após certificar-se de que eu estava acordado. Oras, quem viria? Eu não tinha ninguém, tão somente um filho que morava no exterior e com quem raramente falava, mas ao qual até então eu quis poupar dos meus problemas de saúde; e o filho deste, mas meu neto era ainda uma criança e morava com a mãe que, claramente cuidava para que o menino esquecesse o pai e o avô. Pois vieram ambos, anunciou a enfermeira, escancarando a porta, e sorridentes os dois irromperam por ela. O garoto, como um novilho de rodeio, correu em direção a minha cama. Vovô, exclamou ele, mas foi detido pelo pai antes que se atirasse sobre mim.

Um homem normal teria chorado, mas eu não sou um homem normal, sou um velho que há muito perdeu o encanto por este planetinha atrasado. Até há algum tempo, ainda via graça em escrever, mas o Parkinson me furtou isso. E mesmo depois, ainda alimentava a esperança de que meu filho e eu um dia pudéssemos nos conhecer realmente, entretanto o Parkinson… Bem, eu preferi esconder dele, não me arrependo. Enfim, um homem normal teria chorado, mas eu não tinha certeza se realmente conhecia aqueles dois.

Contenha-se, o vovô não está bem, meu filho ordenou, retendo o menino pelo pulso. Vovô… Acho que foi a única vez que alguém se referiu a mim dessa forma. Pai, como você está, ele perguntou. Naturalmente, uma pergunta retórica, e eu quis lhe dar a única resposta cabível, um sorriso, mas não sei se os músculos da minha face realmente se moveram. Ele sim, sorriu. Inclinou-se sobre a cama, abraçou-me como quem toca uma bolha de sabão, só que mais demorado. Levantou-se, beijou meu rosto, afagou os últimos fios na minha calva, arrastou a poltrona para mais perto da cama e, antes de se sentar, envolveu minha mão como quem acolhe um filhote órfão de pássaro.

Agora ele vai sucumbir, pensei comigo. Não sucumbiu. Soltou minha mão e se esticou na poltrona. Bem, os médicos já me contaram tudo o que sabem, e o que não sabem… Ponderou. Mas enfim, estou voltando para o Brasil, de fato, estive longe por tempo demais. Ficarei contigo, pai, ele decretou. Ficarei contigo e com o meu filho.

Quem é esse homem, eu me perguntei. Quem é esse autômato bonito sob o terno elegante e a gravata apertada? Quem é esse homem contido que, após anos, reencontra o pai convalescente como quem vai a uma reunião de negócios?

Lembrei-me então do menino, como é mesmo que se chama? – Resolvi esperar que o pai pronunciasse o nome dele. – Meus olhos mal começaram a vasculhar o quarto e  o encontraram aos pés dela, ao lado da porta. E os dois assim – ela cabisbaixa com as mão sobre o colo, os olhos acidentalmente voltados para o garoto, ele ali sentado, entretido por algum brinquedo – sugeriram uma bizarra cena familiar, mãe e filho. Só que a mãe, eu estava convicto, era a morte. Eles aparentemente não a viam, é claro, ela viera por mim.

Pai, estou finalmente lendo seus manuscritos. Sim, só agora, me perdoe. Mas enfim, tomei a liberdade de mostrá-los a uma amiga. Eu conheci essa mulher em Glasgow, é escocesa, mas morou por muito tempo no Rio. Enfim – ele ainda repete o advérbio, como um cacoete, sempre que se sente desconfortável com as palavras -, ela trabalha para uma grande editora em Londres agora e acredita seriamente que poderíamos publicar seu livro em inglês. O que você acha, não é mesmo maravilhoso? Claro que você precisará organizar tudo juntamente com ela – você irá adorá-la -, tão logo melhore… Engraçado ele dizer aquilo tudo de forma tão entusiasmada. Que merda os médicos lhe haviam dito? Não estava evidente que eu não melhoraria?

Por instantes, fiquei realmente irritado, mas então pensei que deveria, até o fim, fazer o que sempre fiz, proteger o meu filho. E ele, contendo-se perante meu neto, não estaria a fazer o mesmo? Tive dúvidas até não ter mais dúvida, eu estava errado. Então, nervoso, engasguei-me com a própria saliva, assustei eles dois e a enfermeira logo veio em socorro de nós três. Virou minha cabeça para que expelisse o catarro e notei algum sangue. Tirou-os do quarto, adicionou algo ao soro, entubou-me e saiu logo em seguida. Ficamos apenas a dama ruiva e eu.

Pai, estou finalmente lendo seus manuscritos… talvez se ele os tivesse lido antes. Talvez se antes ele os tivesse mostrado a alguém mais, mas agora é tarde. Claro que eu gostaria de ser publicado, mesmo que postumamente, mas meus escritos eram antes para ele. Talvez se ele não tivesse deixado o filho e o pai, em busca de dinheiro… Mas que bobagem estou dizendo? Certamente se eu não tivesse lhe ensinado a dar ao dinheiro a importância que eu mesmo nunca consegui dar, todos estaríamos mais felizes – provável que o infeliz seja somente eu. De certo, se eu não tivesse desistido de escrever e me dedicado mais aos que amo, então teríamos tido tempo para falar sobre o que ele leu e o que realmente importa na vida.

Você – meus pensamentos dirigiam-se agora à mulher que voltara a fitar através de mim – certamente poderia nos devolver o tempo que desperdiçamos e, mesmo que nenhum tempo possa ser recuperado, ao menos me poderia conceder um prazo adicional para impedi-lo de repetir os meus erros. Disse-lhe isso sem pronunciar as palavras – minha boca já não era capaz de articulá-las – e adormeci sentindo as lágrimas mornas transbordarem dos meus olhos. Ao menos nos meus sonhos ela se ausentava.

Ao despertar, notei a presença dela no quarto. Cabisbaixa, o corpo esguio num longo branco permanecia em pé, imóvel no canto mais próximo à porta, no entanto, sem apoiar-se. As mãos não portavam nada, mas repousavam com dedos alvos e longos, de unhas bem tratadas, entrelaçados sobre o colo. A princípio, pensei tratar-se de outra enfermeira, ou médica, e ela, ao perceber-se observada, levantou o rosto, afastou as madeixas rubras e por fim, seus olhos claros e confiantes encararam os meus. Após estremecer, sorri tentando dissipar o constrangimento. Ela aproximou-se com passos decididos e estendeu-me a mão. Levantei-me abruptamente – só então compreendi que havia adormecido na poltrona -, e surpreendido pelo súbito vigor do meu corpo, correspondi ao cumprimento. Olá, muito prazer. Sou Una, creio que seu filho lhe falou sobre mim, disse ela, desviando os olhos para o homem entubado no leito.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C1.