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Detox Literário.

A Lenda da Árvore Cantante (Felipe Takashi)

Os deuses concederam um propósito ao povo Jatenã, eles protegeriam a Árvore Cantante. Sumé, “o Emissário dos Deuses”, deu uma única ordem: nenhum dos Jatenã comeria dos seus frutos ou permitiria que outros os comessem, ou as consequências seriam terríveis. Pindorama já era uma terra cheia de pessoas e criaturas maléficas.

Kurana era o morubixaba, e Negali, seu irmão mais velho, o pajé. O número de ataques a tribo não cessava, e a discordância entre os dois também. Kurana respeitava os deuses e nunca sequer ousou tocar na Árvore Cantante, aquela que sussurrava o nome de todas as coisas vivas e mortas.

O sacerdote tinha outras intenções. Ele se sentia abandonado pelos deuses. Era sábio, testemunho de muitos verões. Mas seus poderes de xamã e curandeirismo eram limitados.

Cada dia mais o seu coração se envolvia em sombras pegajosas. Negali achava que se ultrapasse a condição humana, seu povo não morreria mais.

Kurana sentia seu irmão ficar cada vez mais estranho, distante como as estrelas. O guerreiro, as vezes, sentia-se culpado.

O morubixaba nasceu dois anos depois de Negali, mas seu físico era muito mais forte do que o do irmão, e por isso, foi escolhido como novo líder. Seu apático irmão não demonstrou desconforto com a decisão. O jovem não desejava a guerra, ao contrário, ansiava a paz. Dedicou-se a pajelança, aprendendo os segredos dos espíritos, dos elementos e das ervas.

Sua ânsia de conhecimento o levou até as portas dos abismos, lugares onde só os baixos espíritos rastejam.

Negali era tão respeitado e influente quanto seu irmão, e suas ideias, já estavam criando ecos no subterrâneo daquela sociedade. Não demorou muito até que essas vozes distorcidas chegassem aos ouvidos de Kurana. Ele se entristeceu e reuniu o conselho de notáveis. Seu irmão e seus asseclas eram uma ameaça.

Diante do júri, sob a regência do morubixaba, Negali e seus seguidores foram julgados.

— Meu irmão, pela primeira vez me arrependo de não ter assumido meu posto como morubixaba — disse Negali balançando a cabeça.

— Você renegou o título de sucessão, não me culpe pelas suas escolhas — disse Kurana com os olhos turvados por lágrimas. — As águas que já correram não podem nos banhar novamente. Eu esperava que se você não quisesse respeitar a memória do nosso pai, ao menos que respeitasse o mandamento dos deuses.

— Os deuses? Seu tolo! Sumé vem aqui apenas para colher os frutos da Árvore Cantante e só. Será que não entende? Somos fantoches nas mãos deles.

— Os deuses nos incumbiram de um grande dever — retrucou seu irmão caçula. — Você esqueceu o rosto dos seus ancestrais.

— Kurana meu irmão, escute sim, nosso dever é morrer nas mãos de assassinos e monstros — argumentou Negali —, já imaginou o porquê? Os frutos da Árvore Cantante concedem aquilo que os deuses reservam para si: a imortalidade — disse o pajé sussurrando.

— As flores das trevas brotaram em seu coração, que você seja exilado junto com os seus, aqueles que estiverem a favor, votem comigo — decretou o morubixaba decidido.

E todos acompanharam o voto de Kurana. Ele sabia que aquele levava a sentença de morte, mas não desejava manchar suas mãos com o sangue de seu irmão. Os guerreiros escoltaram os réus para fora do conselho, mas antes que saísse, Negali fez uma ameaça:

— Eu juro irmão, pela aurora e pelo crepúsculo, eu vou derrubar a Árvore Cantante. Se nós não pudermos comer dos seus frutos, os deuses também não terão direito.

#

Durante três dias a tribo chorou como se estivesse de luto. Até a Árvore Cantante gemeu uma canção de tristeza pelo exílio de Negali. Por um breve período, o povo Jatenã se desesperou pela ausência do pajé. E atendendo aos pedidos da tribo, Sumé pediu para que escolhessem um jovem para consagrá-lo pajé, e para isso, foi escolhido o primogênito de Kurana, Tenhopá.

Ele nasceu um verão após a saída de seu tio. Não conhecia seu nome ou rosto, pois Negali virou um tabu na sua comunidade. Durante um tempo, com o crescimento de Tenhopá e suas habilidades, o povo se esqueceu do antigo pajé.

Certo dia, quando Tenhopá completou quinze verões, Sumé o levou para conhecer a Árvore Cantante de perto pela primeira vez. O rapaz seguiu-o. Ele tinha dois metros de altura, tatuagens sagradas pelo abdômen e ombros. Na sua cabeça, um enorme penacho de penas de arara-vermelha e azul.

A árvore era rodeada por uma barreira de espinhos e uma cerca alta, feita em varas. Ao redor dela, guerreiros armados de lanças, e arco e flecha. Ao verem o Emissário dos Deuses, fizeram uma reverência e abriram passagem.

A área era restrita e guardada dia e noite pelos guardiões.

Dentro da cerca, o garoto ficou bem próximo a árvore. Estava maravilhado. A árvore era imensa, com um tronco robusto. A sua casca parecia uma sobrepele orgânica. As suas folhas eram translúcidas e emitiam um brilho fluorescente. Quando caíam, secavam e se tornavam um pó brilhante que ascendia ao céu. O jovem perguntou:

— O senhor me falou da Árvore Cantante, mas não compreendo sua função — disse Tenhopá alisando a árvore.

— A Árvore Cantante é o presente dos deuses, é o pilar dos mundos, aquela que une o Céu, a Terra e o Submundo — falou Sumé com voz trovejante. — Suas raízes representam as origens ancestrais, o tronco é o tempo, os galhos são as raças, as folhas, cada vida que existe nesse mundo…

— E porque as folhas caem? — perguntou o garoto sem entender.

— Representam aqueles que desencarnam — disse o mensageiro divino. — A Árvore Cantante dia e noite mantém o equilíbrio através de suas melodias. Nascer, viver, envelhecer e morrer, essa é a essência do universo.

— Eu escuto a Árvore Cantante, mesmo em meus sonhos ou quando estou longe — disse o garoto.

— É normal que aqueles com maior consciência em relação ao ciclo da vida se tornem mais próximos da força do equilíbrio — retrucou o guerreiro.

— Às vezes eu escuto a voz dos abismos…

Sumé pousou sua mãozorra em cima dos ombros do pequeno pajé e disse:

— Se afaste delas, muitos se perderam nas sombras graças aos chamados do Submundo, você entendeu Tenhopá?

O garoto ficou assustado com a reação de Sumé, sempre contido. O mensageiro o fez prometer que jamais daria ouvido aquelas vozes de novo. E ele obedeceu.

#

Durante muitas luas, os Jatenã viveram no sossego dos seus lares. Os ataques a três verões vinham diminuindo, e durante aquelas semanas, não houve nenhum. Kurana estava feliz, seu novo filho havia nascido e era uma menina.

Quem estava inquieto era Tenhopá. As vozes dos abismos ficavam cada dia mais altas. Visões terríveis o atormentava no mundo dos sonhos. Ele não revelou nada ao seu pai, não queria estragar sua felicidade, nem trazer temor ao seu povo num período de paz. Mas seus instintos estavam corretos.

Num dia sem luar, invasores atravessaram a fronteira. Os guerreiros a postos tentaram revidar o ataque, mas o contingente foi insuficiente. Os inimigos estavam em maior número e muito bem organizados. Bestas e feras lutavam lado a lado com tribos adversárias dos Jatenã. Algo inédito. Um guerreiro jatenãno tocou a trombeta de guerra, mas já era tarde demais, os invasores já haviam avançado no perímetro.

Contando com o efeito surpresa e a escuridão, os inimigos ganharam terreno. Tenhopá se uniu ao seu pai na luta. O velho guerreiro estava munido de uma borduna de ferro dada por Sumé. O pajé usava de seus encantos e litanias para atacar os seus oponentes e curar os feridos.

Os dois exércitos se enfrentaram, a batalha seguiu feroz até o líder dos invasores se identificar. Foi um choque para Kurana. Do alto de um gorjala, estava Negali, com as marcas daqueles tocados pelo Submundo, comandando as forças caóticas. Ambos se colocaram de prontidão para a luta, mas Negali não se deu o trabalho de descer.

Kurana atacou o gigante negro em vão. Com seus membros potentes, ele conseguia provocar abalos na terra, desestabilizando o guerreiro em suas investidas. A luta seguiu até o ponto em que o gorjala conseguiu capturá-lo e trazê-lo perto de Negali.

— Lembra-se da minha promessa meu querido irmão? Eu vim cumpri-la.

— Eu me arrependo muito de não tê-lo executado — respondeu o morubixaba.

— Uma vez alguém me disse: “As águas que já correram não podem nos banhar novamente” — retrucou o velho pajé.

O gorjala arremessou Kurana longe após uma ordem de Negali. O ancião soltou uma gargalhada crocitante, mas se decepcionou. Seu irmão mais novo flutuava no ar. Com o auxílio dos espíritos dos ventos, Tenhopá dobrou as massas de ar e fez seu pai aterrissar em segurança no chão.

— Pai, o senhor está bem?

— Acho que sim — disse Kurana tentando não preocupar o filho, mas já sentindo as costelas quebradas perfurarem o pulmão. — Filho, fuja agora! Salve o nosso povo.

Tenhopá não parecia escutar mais nada, seu coração batia descompassado. A Árvore Cantante soava em alta voz em seus ouvidos, mas as vozes do Submundo provocavam uma desconfortável ressonância em sua alma.

Eles não precisaram se apresentar. Ambos já se conheciam. Negali saltou do gorjala e encarou seu sobrinho.

— Então, esse é o novo pajé da tribo Jatenã? Parece-me que possui algum talento.

— Sumé me ensinou bem — respondeu o garoto ousado.

— O velho Sumé… onde ele está agora enquanto seu povo morre nas mãos de capelobos e quibungos? — indagou o velho pajé. — É a esses seres que você serve? Não seja tolo como seu pai, junte-se a mim e fundaremos uma nova ordem. Sem dependência dos deuses. Sem hierarquias. Sem dor ou choro…

— Do mesmo jeito que está fazendo agora? — desafiou o jovem.

Homens e monstros se digladiavam, e já não era possível saber quem era quem.

— São efeitos colaterais, nada disso será preciso quando derrubarmos a Árvore Cantante — disse o ancião.

— Só passando por cima do meu cadáver — decretou Tenhopá.

Buscando o poder dos espíritos da terra, ele amoleceu o solo onde os inimigos pisavam e os prendeu até o joelho, impedindo seu avanço. Os jatenãnos comemoraram, porém, cedo demais. Conjurando os espíritos sombrios aos quais servia, Negali fez com que as sombras dos seus guerreiros ganhassem vida própria e quebrassem o solo. Clamando ainda a esses mesmos espíritos, ele fez com que as chamas ascendessem ao céu em forma de esfera e atingissem a Árvore Cantante.

Tenhopá clamou aos espíritos dos rios, e formou uma onda gigante para apagar as chamas. E ele teria conseguido se não fosse por um dardo venenoso tê-lo acertado no ombro. Ali, incapacitado para batalha, ele viu a derrocada de sua tribo.

Cordas de cipó foram envolvidas na árvore. Gorjalas e labatutes puxavam. Capelobos, lobisomens e guerreiros cortavam as raízes com machados de pedras. Pela manhã, aconteceu o inevitável. O eixo da existência tombou. Do enorme buraco onde a árvore ficava, subiu um odor nauseabundo, como se cem urnas funerárias tivessem sido abertas.

E sob uma cacofonia mefítica, ascenderam do Submundo sete terríveis seres. Cada um com um nome blasfemo aos deuses e aparência horripilante.

O primeiro foi Teju Jagua. Tinha o corpo de um enorme jacaré, com sete longos pescoços com cabeças de cachorro, cada uma apontada em uma direção.

Depois dele veio Mboi Tu’i, uma gigantesca serpente com escamas listradas, sua cabeça era desproporcional ao resto do corpo, possuía penas e um bico de papagaio. Sua língua era vermelha e bifurcada.

O terceiro nesse desfile de horror também era uma serpente, Moñai. Seu extenso corpo era de um vermelho-sangue, sua cabeça grandiosa ostentava dentes serrilhados que teimavam em sair da mandíbula. Na cabeça, dois chifres, seus olhos hipnotizavam como a morte.

Jaci Jaterê foi mais sutil, surgiu como um corpo de luz, e ocultou sua verdadeira forma como um homem de cor branca e cabelos ruivo ondulados. Possuía um cajado cheio de joias preciosas que provocavam ilusões.

Kurupi saltou do abismo. Era pequeno, com uma cabeça achatada e orelhas enormes. Olhos negros sem íris, corpo ossudo e nenhum pelo.

Heichó tinha poderes sobre a morte. Tinha aparência simiesca, com garras afiadas e barbatanas nas mãos e pés. Os olhos eram vermelhos como chamas.

O último a ascender do fosso foi Anhangá, “Aquele que traz a desgraça”. Seu corpo era luminoso, de um branco leitoso iridescente. Tinha a forma de um grande veado. Seus olhos eram opacos. Na testa, estava a marca de uma cruz negra invertida. Seus chifres pareciam feitos de cristal. Anhangá tomou a frente dos monstros e disse a Negali numa voz gutural:

— Huohuohuo, você cumpriu o nosso acordo, abriu os portões do Submundo para que as entidades renegadas pelos deuses voltassem a Terra e mais uma vez cumprissem o seu papel, instituir o caos — disse o demônio. — Agora tome o seu despojo!

— Sim — disse Negali tomando um fruto da Árvore Cantante em sua mão.

De repente, desceu um clarão do céu. E do raio, surgiu Sumé, o justiceiro de Tupã.

— Você cometeu muitos pecados. E agora cometerá mais um erro, pare agora! — ordenou.

— Dane-se você e seus deuses inúteis — respondeu o velho pajé.

E comendo o fruto, ele pensou ter conseguido a tão sonhada imortalidade. Mas ao invés disso, a energia contida no fruto começou a deformar o seu corpo, aumentando a fauna de criaturas grotescas ali reunidas. Negali gritava de dor. Era tanta dor e vergonha que ele fugiu. Sumé tomou o fruto em sua mão e o estendeu aos demais:

— A função da Árvore Cantante vai além de manter o equilíbrio da existência — disse Sumé esmagando o fruto de polpa leitosa. — Suas raízes sugavam o poder dos sete demônios dos abismos e as materializava em frutos. Enfraquecendo-os para que nunca fugissem. Eu os levava até os deuses e eles os purificavam com seus poderes. E agora, ainda assim desejam experimentar o fruto da sua perdição?

Ninguém ousou, todos respeitavam Sumé.

— E quanto a vocês demônios, fujam enquanto podem.

Os sete demônios fugiram quando ele assim ordenou. O guerreiro místico deu ordem para que tapassem a entrada do Submundo, para que não fugisse mais nenhuma monstruosidade de lá. E pediu para que ocultassem o local. Depois disso, Sumé foi até Tenhopá. Ergueu-o em seus potentes braços. Os guerreiros se aproximaram.

— Dê-nos o corpo de Tenhopá e faremos um enterro digno de um herói — disseram eles.

— Toda a morte é inglória… os deuses têm seus próprios planos para Tenhopá.

Depois disso, um raio riscou o céu e desabou sobre a Terra, abalando toda a sua estrutura. Quando o clarão sumiu, Sumé não estava mais lá. Depois disso ele nunca mais foi visto entre os homens.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C1.