EntreContos

Detox Literário.

Voz (João-Paulo Santos)

 

Em qual momento percebera que a voz pela qual tramitavam suas palavras não era a sua própria? Observando-se no espelho rachado, ombros ritmados pela respiração cansada, largo sorriso vermelho, o professor Antônio Rocha rememorava a madrugada. Seria apenas encontrando a origem da descoberta pela qual passara que poderia se tomar como verdadeiramente livre. Perdido no brilho úmido de seus olhos, circunscreveu aquele primeiro pensamento que o perturbara antes de que se deitasse: era uma outra lembrança, vaga e obscura: Antônio se lembrara de sua irmã.

Mais importante, percebera naquele instante que não se lembrava do nome dela. Depois que ela abandonou a casa de seus pais, deixaram de pronunciá-lo. Antônio, mesmo novinho, compreendera que também não deveria dizê-lo. Conseguia ver o tormento nos traços de envelhecimento precoce da mãe e na severidade reforçada que assumira o pai. Todas as refeições eram feitas em silêncio e em família; os sorrisos, plásticos, só apareciam nas visitas de parentes. Seus tios certamente não o percebiam por perto. Antônio ocupava a posição privilegiada das crianças, de poderem estar próximas, pois os adultos acham que não estão escutando. Ele se lembrava do que diziam:

─ Pelo menos sobrou Toninho…

Antônio nunca concebera o rosto do pai como um que pudesse ser sorridente. Quando o homem morrera, sentiu-se mais confortável ao ver que o cadáver ostentava a mesma carranca incômoda que carregara em vida. Portanto, seus olhos infantes enxergavam logo a fraude dos sorrisos que o pai dava para seus familiares. O que identificava de verdadeiro, porém, era a gravidade do olhar que o homem pesava sobre si.

Sua adolescência o fizera esquecer dos tempos em que a irmã estava consigo, quando o levava na escola e para fora da escola, para os inflamados eventos culturais que passaram a tomar as praças públicas. Compreendeu mais tarde que aquelas manifestações constituíam ameaças à sociedade e então o ressentimento que já nutria pela irmã se transformou em outro sentimento: como aquela irresponsável ainda me levava para essas coisas? Ainda assim, era comum encontrar sua mãe sozinha na sala de estar, diante da única fotografia familiar em que sua irmã estava presente. Certa manhã, questionou sobre ela, rompendo o tradicional silêncio familiar. O pai não deixou nem que terminasse sua pergunta – uma das várias – parando de pé, inclinado sobre a cadeira de modo que poderia esmurrá-lo se quisesse. E os punhos dele estavam mesmos fechados.

─ Aquela ingrata não só desprezou tudo que demos a ela, mas também nos desonrou! Era uma alienada, não queria viver a realidade, queria ser como aqueles bandidos que se aproveitavam das salas de aula! Nós não falamos dela nesta casa. Ela é uma rebelde.

Aquilo explicara tudo o que precisava saber, sobre as manifestações para as quais era levado e o abandono da casa. E também fizera com que definisse o seu futuro, uma vez mais indiretamente influenciado pela sua irmã. Seria o que ela, em sua rebeldia, se negara a ser: um professor, um correto, para limpar o nome dos Rocha. Depois disso, Antônio abraçou toda chance que teve de falar em público, conversava constantemente com os professores e divulgava o trabalho docente em sua escola nas suas redes sociais. Suas notas o levaram à licenciatura em Estudos Sociais e não reprovara em nenhum dos anuais Exames Nacionais da Docência. Caso inquirissem, diria de olhos fechados e de trás para frente os quatorze itens que constavam nas placas afixadas nas salas e aula, os deveres do professor.

Não demorou a se popularizar nas escolas particulares. Nas noites em que decidia alimentar seu ego, lia os comentários nos vídeos de seu Instagram. Se toda escola tivesse um professor como o senhor; é isso que um aluno tem que aprender em sala de aula, escola não é lugar de política não; isso sim que é História e Geografia. É fato, é verdade científica, é aquilo que aconteceu e não defesa de lado a ou lado b. É o tipo de ciência que a criança tem que conhecer! O Movimento pela Moral Escolar também o notara. Aqueles mesmos cidadãos preocupados com o país e o seu futuro, que tinham pressionado pela aprovação do Exame Nacional de Docência, agora também escreviam o currículo nacional e queriam a sua ajuda.

A família Rocha festejara.

─ Toninho está na TV! É um figurão, um dos que está levando o país para o rumo certo!

─ O professor hoje em dia recebe muito mais, recebe o que deve. Tá sendo reconhecido como aquele que forma a garotada para trabalhar, pra contribuir com a economia! Vocês é que estão salvando esse país, graças a Deus!

A austeridade não abandonara o seu pai mesmo na idade avançada e naquela noite de celebração o seu sorriso continuou engessado. Morreu pouco depois. Sua mãe sobrevivera a ele, passava suas últimas noites no asilo e nenhum outro familiar a visitava a não ser Antônio. Ela não parecia se importar e muito menos escutar quando contava sobre os avanços no Currículo Definitivo com o qual contribuía escrevendo mais os pedagogos e especialistas do Movimento. Nas primeiras visitas, sua própria empolgação orgulhosa o impedia de perceber que o olhar da senhora sua mãe se perdia em algum ponto no chão poeirento por debaixo de sua cadeira. De pouquinho em pouquinho, Antônio foi deixando de falar, até que não dissesse mais nada. Sentava-se à frente dela, observava-a comer sua sopa e nunca tentava ajudá-la, ainda que visse a tremedeira em sua mão, a maioria da sopa voltando à tigela. Ele pensava que seria invasivo e ela também não parecia querer comer. Mas um dia ela o assustara.

Não havia feito nada demais, só balbuciou algumas palavras. O que escutou era de algum modo a voz da mãe, mas só sabia disso porque a viu falar, pois realmente não lembrava como sua mãe soava. Em verdade, não se lembrava de nada que ela dissera em sua vida. Na memória de Antônio havia apenas o rosto dela, seu tormento resignado. Ele se inclinou em sua direção:

─ O que disse?

─ Quero… quero que ela volte…

Então ela pronunciou um nome e mesmo sem escutá-lo direito, Antônio soube de quem era. O filho se levantou com tanta força que a cadeira se arrastou atrás de si. Pela primeira vez, sua mãe lhe direcionou o olhar, parecendo ter os ombros ainda mais encurvados. Ela enxergava e temia o rubro no rosto do filho e os tendões destacados em seu pescoço. De punhos fechados, Antônio sentia que poderia esmurrá-la sem a mínima perturbação em fazê-lo. Mas só deu meia volta e partiu. Pagaria as contas do asilo e isso bastaria. Depois verificaria se o cadáver da senhora manteria aquela expressão arrependida tal como o pai conservara a carranca.

Mas apesar de sua decisão, não dormiu naquela noite. Como aquela velha pôde fazer isso com ele? Depois de tudo pelo que passara, do respeito que trouxera à família… Era um professor, um educador de renome, um homem a serviço do país! E o que havia sido a irmã? O que aquela garota mimada tinha trazido de bom para casa? Porque, então, lamentavam tanto a sua saída? Não, eles não lamentavam, mas fingiam não lamentar! Sua mãe precisou envelhecer e encolher para ter a coragem de falar o nome da filha e, quando o fez, foi olhando para o chão! Seu nome… qual era seu nome?

Antônio não se lembrava. Quando pensava na irmã, vinha à cabeça apenas a palavra. Precisou dizer em voz alta para confirmar que se tratava de uma palavra qualquer e não do seu nome.

─ Rebelde.

Ele que disse isso? Virou-se quase caindo da cama. Viu só a janela e no outro lado as paredes, uma delas tomada pelas molduras com o seu diploma e pelos certificados que recebera do Estado, assegurando sua ética docente… penduraria mais um, que receberia depois de promulgado o Currículo Definitivo. Demorou um olhar no espaço vazio que reservara para aquele. Então se levantou, caminhou pelos recintos do apartamento, sua respiração era pesada, enfrentava um aperto no peito. No meio da sala, tomou a coragem para dizer mais uma vez.

─ Rebelde.

Levou a mão à boca. Não era grave ou aguda, era… era uma voz comum, humana, até mesmo reconfortante. E não era estranha, era a mesma que fazia ouvir os seus alunos, ou que ressoava nos auditórios das várias conferências que participara, palestrando em defesa do Currículo, esforçado em se fazer ouvir acima dos manifestos do lado de fora, antes da polícia chegar para prender os responsáveis… mas ainda que a voz fosse familiar, a mesma de todo dia…

─ Rebelde.

A voz não era a sua. E aquele não era o nome da sua irmã. Mas como? Correu para o banheiro, inclinou-se sobre a pia, de frente para o espelho. Sim. Ele ainda era ele mesmo, enxergava o reflexo do próprio rosto.

─ Rebelde.

Aquela era uma voz, e já a escutara antes, mas…

─ Rebelde.

Os lábios se tocaram e se afastaram, úmidos, a língua subiu e desceu. Como em um vídeo sem sincronia, soava como se a palavra fosse alheia a si.

─ A. ─ não ─ E ─ como é possível? ─ I ─ sou eu que escolho falar, então  por que não me escuto? ─ O ─ se não é minha voz… ─ U ─ de quem é?

Gritou. Esgoelado, dava pulinhos e mesmo na altura do descontrole, não se reconhecia. Tão agitado, resvalou a cabeça no espelho, rachando-o em três partes. Sentou-se na privada, cabeça inclinada para trás. Será que é ela? Será que ela está falando por mim? Não, não é… mas quem é ela? Não se lembrava do seu nome… conseguia se lembrar daquilo que a mãe dissera, mas não conseguia reproduzir. Em sua boca, não parecia uma palavra, apenas uma desordem de fonemas. Rebelde… este não é o nome dela. Ele conhecia o significado de rebelde. E ela se rebelava contra quem?

Esforçando-se, lembrou-se de que ela abandonara a casa bem quando os cartazes dos deveres dos professores passaram a ser distribuídos pelas escolas. Era contra isso que ela protestava. Se estava distante de se lembrar da própria voz, estava ainda mais de se lembrar da voz dela, mas das palavras dela, ele se recordava: isso não é educação, isso é censura! E seu pai dizia: isso é a lei!

A lei… se ela não a obedecia, era mesmo uma rebelde. Criminosa. Antônio dera a sua vida pela lei. Cumprira tudo o que estava prescrito e agora ele mesmo escrevia, estava escrevendo o Currículo! Mas bom… o que ocorrera primeiro, afinal? Havia lido muito mais do que fora permitido escrever. E aquilo que tinha escrito, enfim… tinham sido suas próprias palavras? E quando falava…

─ Rebelde.

… falava com a própria voz?

─ Este não é o nome da minha irmã. ─ sussurrando, Antônio soou mais  reconhecível.

Ficou de pé diante do espelho. De boca escancarada, já nem conseguia mirar o seu reflexo. Fez com que a mão entrasse quase inteiramente, tentava agarrar a própria língua. Não deu certo. Abdômen contraído, viu-se forçado para frente e vomitou, restos de comida e bile caindo pelo chão. Não… não é assim. Ajoelhou-se na sujeira, apoiou o queixo sobre o mármore da pia, abriu a boca, deixou a língua esticada para fora o máximo que pôde, pairando entre os dentes. Inclinou-se para trás e se jogou para frente, batendo o queixo contra o mármore. Um gosto ferroso, o morno nos cantos da boca. Repetiu, a boca se encheu de sangue. De novo e de novo até que um pedaço irregular de carne escorregasse até o ralo, traçando um rastro sanguinolento da borda até ali.

Apesar da dor, ele sorriu ao ficar de pé. Com esforço, lembrou-se do que o incomodara naquela madrugada. Eu sei o nome dela. Sua mutilação condicionava uma pronúncia bizarra, mas era daquela maneira que Antônio se reconhecia. Antônio Rocha dizia o nome da irmã e era a primeira palavra em muito tempo que pronunciava com a própria voz.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.