EntreContos

Detox Literário.

Todas as Vozes da Minha Pia (Senhorita Louça)

 

— Bom dia, Pedro, como tem passado? Pelas olheiras e a cara amassada não muito bem. Eu já te avisei para não encher o pote, com aqueles teus amigos da faculdade,  até a lua dormir. Tudo vagabundo e você, o único empregado, pega a marola dos caras e só leva caixote. Agora olha aí o estrago: ressaca, sono e cartão de crédito topado. Teus amigos vão dormir até o meio-dia e você vai adernar até o metrô e trabalhar feito um zumbi. Vai ficar em frente ao computador batendo perna nas redes sociais, com o word aberto piscando na barra de ferramentas, só esperando o chefe passar para trocar de tela. E esse bafo? Bota creolina no enxaguante bucal se não  essas bactérias vão fazer uma festa rave aí dentro. Depois não reclama de afta e deficit cognitivo. Não acredita? Então onde estão seus óculos? Dá uma olhada na geladeira, gaveta de carnes. Você não tem a menor possibilidade de dar certo. Babaca.

( Preciso desenvolver meu pensamento lateral, criando  originalidade de forma simples, ou essa pia vai me matar.  Então se eu pegar uma marreta de borracha e der uma surra nessa pia, a energia cinética gerada me devolverá porrada em dobro. O que me trará o reconfortante consolo do autoflagelo. Talvez a forma linear seja mais prática. Simplesmente desinstalo a pia e vendo pela internet. Com o dinheiro faço mais merda com a minha vida.)

— Você achou mesmo que, me vendendo para um hotel pulguento, se livraria de mim? Eu tinha esperança que essa cabecinha conseguisse fazer o mínimo de sinapses neurais através de processos  mnemônicos. Você precisa lembrar onde escondeu os seus sonhos. Pense nas palavras-chave: revolução, amor, livro e objetivo.

(RALO! Meus sonhos escoaram pelo ralo. Devem ter ficados presos no cano. Posso chamar o zelador, dizer que está entupido. Não, melhor não. Ele vai pegar aquele arame gigante e cutucar meus sonhos até que não reste nem um cochilo. Vou retirar e serrar o cano para liberar meus sonhos sem danos.)

— Não se esqueça de fechar a água, Pedro, ou verá os seus sonhos espalhador por todo o prédio, descendo pelas escadas ou, pior, pelo fosso do elevador onde serão eletrocutados e destruídos definitivamente.  Você criou todas essas barreiras mentais e ideológicas, agora acha que vai abrir a caixa de Pandora com uma obra no banheiro? As paredes, Pedro, nas paredes. Seus sonhos estão enterrados nas paredes que você construiu, quando abandonou a banda de rock do ensino médio e o grupo de teatro da praia. Quando trocou as redações dos jornais pelo formalismo jurídico. Quando seus desejos passaram a valer menos do que o extrato bancário.

(Odeio esses azulejos brancos. Odeio essa cortina cinza, odeio tudo aqui. Vou quebrar tudo, não desistirei de meus sonhos. Aguentem firmes, eu estou chegando para resgatá-los!)

(…)

O zelador recebeu uma estranha reclamação contra o som vindo do apartamento do tímido advogado.

—  Que barulho é esse Dr. Pedro? Fazendo obra a esta hora?

— Não, obra não. Comprei uma bateria.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.