EntreContos

Detox Literário.

Quando as Estrelas Não Tinham Nome (Luneta)

 

Quando as estrelas não tinham nome a gente as chamava por apelidos que criávamos para cada uma delas. Era um tempo em que tudo era mais fácil. Aquela caixinha de areia que ficava no quintal da sua casa para nós era como um deserto que escondia muitas aventuras durante o dia e era um ótimo observatório de estrelas durante a noite.

Naquele tempo parecia que elas se multiplicavam bem diante dos nossos olhos. A cada dia parecia surgir uma nova. Um ponto brilhante esperando um nome. O céu se colocava a nossa disposição como um quadro negro para que escrevêssemos o novo nome daqueles pequenos pontos cintilantes. Tínhamos a mesma idade, mas você sempre pareceu muito mais sábio, talvez fosse o jeito com que me contava suas histórias. Que agora sobre a ótica da maturidade vejo que eram uma mistura de sonho com realidade como as melhores histórias sempre são.

Quando desenhávamos no ar os apelidos que criávamos se fechasse os olhos nesse momento conseguia ver as letras coloridas se formando no ar para logo depois evaporar ir ao encontro da estrela.  Era a nossa rotina. Até que o caminho dos adultos nos obrigou a enfrentar uma separação. Minha mãe aceitou uma proposta de emprego em outro lugar e toda a família teve que ir junto.

Nossa despedida foi doce como a inocência da infância. Não entendi como uma despedida, talvez por causa disso naquele momento não derramei nenhuma lágrima, ao contrario de você. Levava as lembranças comigo e isso fez a estrada naquela noite se tornar um pouco mais iluminada.  Nunca vou esquecer do momento em que lhe vi da janela do carro. Você acenava com a sua pá de brinquedo favorita. Era como se pedisse para que nunca esquecesse das nossas aventuras alegres.

Foram somente um tempo depois da minha mudança de cidade, quando entrei para a série das crianças maiores, que descobrir que as estrelas tinham nome, que obviamente não era nenhum dos que criavamos, e que o cinza da cidade poderia as engolir facilmente. Era como se durante o dia  fosse sugada um pouco da cor cinzenta dos prédios e do sorriso das pessoas para de noite formar a capa que impedia o brilho das estrelas de chegar até os moradores.

Todos andavam com o rosto fechado e com pressa para chegarem em algum lugar. Todos pareciam mal reparar em mim, que era apenas mais uma menininha entre tantas. Minha mãe sempre segurava firme a minha mão. Tinha medo que me perdesse entre aquela multidão de rostos sem expressão.

As vezes nos fins de semana íamos visitar parentes e durante esses momentos aproveitava para lhe ver. Devido a correria da rotina as visitas foram diminuindo de freqüência e cada vez que lhe via sentia que tínhamos perdido muito tempo. A caixinha de areia, o balanço de pneu e o escorregador começaram a se mostrar sem graça. Era a vez da sua irmã mais nova e os amiguinhos se divertirem com eles. O tempo foi seguindo o seu curso como um rio que corre em um profundo silêncio, como se quisesse não ser notado.

Durante os momentos que estávamos juntos, ao contrario de quando éramos crianças, falávamos mais sobre o futuro do que sobre o presente. Sobre que profissões queríamos ter, sobre viagens e outros sonhos.Mas a nossa paixão pelas estrelas continuava. Você tinha ganhado uma luneta de presente para que pudesse as observar melhor.

-Ouvi dizer que é possível colocar o seu nome em uma estrela. Tem que comprar ela antes ou algo assim.- você falou um pouco depois de ter observado uma constelação.

-Se tivesse dinheiro compraria.

-Sinto saudade do tempo em que a gente acreditava que todas as estrelas eram nossas e que poderíamos colocar o nome que a gente quisesse sem precisar pagar nada.

Também sentia muita falta, mas o tempo não para de correr por causa da saudade do passado.

A metamorfose foi ocorrendo lentamente, sem que percebesse me tornei um daqueles rostos sempre com pressa no meio da multidão. Ao invés de criar asas criei raízes que foram pouco a pouco me prendendo na rotina. Durante um intervalo e outro sentia saudade do passado, que cada vez parecia apenas um sonho distante. Muitos anos se passaram e nossos caminhos se cruzaram e descruzaram muitas vezes, porém no momento não vamos relembrar esses fatos. A primeira estrela já está quase aparecendo no céu.

No fim acho que estou onde gostaria de está. Quem olha para nós ver apenas dois idosos olhando as estrelas enquanto conversam, não sabem a importância desse momento e o quanto ele foi esperado. E o quanto é precioso o fato de finalmente ter calma para apreciá-lo.

A velhice, ainda mais quando é vivida com quem amamos, é como uma segunda infância. É como voltar ao inicio da nossa época mais feliz. Regressar para a fase em que as estrelas não tinham nome e por causa disso a gente as chamava por apelidos.

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.