EntreContos

Detox Literário.

Prelúdio (Regina Ruth Rincon Caires)

 

Pela escuridão do quarto, imagina ser noite.  Ou madrugada…

Perdera a noção do tempo. Foram muitas mortes, muitos renascimentos. Tanta aflição, tantas dores, tanta luta! Mas, agora, vindo não se sabe de onde, é invadido por um deleitoso sossego.  

No silêncio, entrecortado pelo gotejar do soro no equipo, os pensamentos, de maneira incansável, se avolumam, se atropelam como se disputassem uma corrida derradeira. E no peito, o retumbe do coração mais parece o bater das asas inexperientes do menino passarinho. Sabe que está longe disso.

A inércia do corpo não lhe permite observar aquilo que não esteja na direção dos olhos. Vê o teto, apenas o teto. Ainda lhe restaram os ouvidos. Ouve perfeitamente. E sente o toque. Incomoda-se quando percebe os olhos mendicantes de Leninha. Sabe que ela procura uma certeza. Quer saber se ele está ali, se a escuta, se a reconhece.  Mas, infelizmente, não tem o controle da resposta.

Leninha deve estar por ali, em algum lugar do quarto. Há um ressonar leve espalhado na penumbra, tão leve quanto ela. Companheira de vida, cumplicidade velada. Filhos não brotaram. Apesar da expectativa levada por toda vida, percebeu que a esperança escorreu pelos cantos dos olhos quando Leninha sentiu que as regras haviam cessado. Neste dia, chorou. Foi a única vez que se mostrou derrotada. Aconchegada nos braços ternos de Nestor, extravasou a dor da frustração. Alisava a barriga com desdém, com raiva, dizendo-se seca, estéril. Menosprezara-se.

E sabe que deveria ter amenizado a dor da companheira. O problema poderia não estar com ela! Nunca avaliaram, nunca procuraram orientação médica. Poderia ter dito isso a ela. Mas não disse. Talvez por orgulho, talvez por culpa. E ela nunca aventou tal possibilidade. Talvez por respeito, talvez por amor.

Para ele, a vida era um querer sem freios. Eram metas, metas e metas. Alcançada a primeira, nem a degustava e já era sugado pela engrenagem da próxima, da próxima e da próxima. A vida era uma moenga de momentos, de sonhos. Para Leninha, não. Passava, plena, pelos minutos, pelas horas, pelos dias, pela vida. Talvez o constante brilho do olhar e a perene ternura do seu trato tenham norteado e protegido a caminhada confiante de Nestor. Para ele, isso era absoluta convicção. Pena nunca ter dito a ela.

Há um ressoar de passos no corredor. Deve ser a enfermeira. Cerra os olhos. A voz suave, sussurrada, avisa que vai substituir o soro e ministrar um medicamento. O líquido queima e dá a sensação que vai rasgando a veia quando injetado na canícula. Certamente deve ser sonífero. Ou analgésico. Interessante que, hoje, as feridas das costas não latejam. O colchão d’água está mais suportável, refrescante.

A enfermeira sai e Nestor reabre os olhos. Ainda bem que Leninha não acordou. Continua ressonando, mansamente. Sempre foi assim, sono profundo, restaurador. Talvez seja pela ausência de remorsos.

De volta para a penumbra, os pensamentos voam para as palavras irreverentes da mãe, lá atrás. Ela dizia que todo moribundo, antes de morrer, apresentava uma melhora assustadora. Mas que isso não a enganava. Sabia que a morte era matreira e que só queria abocanhar a vítima com mais vigor.  Nestor sente vontade de rir, de gargalhar… A alma gargalha.

Leninha acorda. Busca, com os pés, os chinelos no chão. Aproxima-se da cama. Agora ele a vê. Está colocada bem de frente, na mesma direção dos olhos dele.  Bonita. Mesmo com os cabelos grisalhos totalmente desgrenhados, continua formosa. Serena. Mas os olhos embaciaram. Olha fixamente no rosto do amado, bem de perto. É possível sentir o respirar pelas narinas. Tão perto, tão longe… Nestor sente a carícia das mãos que passam pelos cabelos, pela testa, pelo rosto… Leninha fala com os olhos, abraça com o cuidado. E ele se abandona no abraço. Quer matar a saudade. Quer tocar aquele rosto, agradecer, gritar o seu amor. Impossível. Mas ela sente, ela sabe. Sempre soube.  

Nestor fecha os olhos. Quer emoldurar, na memória, aquele rosto. Quando os reabre, ela não está mais ali. Silenciosa, voltou ao descanso. E ele, num turbilhão de pensamentos. Continua mais forte que a droga que lhe foi injetada.

De repente, o peito inicia um repique. Batidas aceleradas do coração provocam certa confusão nas ideias, parece que o corpo todo estremece, uma onda de calor insuportável percorre as veias, queima. Depois, abranda. Chega um frio abominável, insano.

Ele sabe que são as asas na constante luta pelo voo. Devem carregar o cansaço acumulado por tantos anos. Puxa vida, tem ainda tanta coisa para pensar! Mas está confuso. Não consegue conectar o fio do pensamento que estava por ali, com ele, ainda há pouco. E sente um cansaço incontrolável, os olhos pesam, as ideias fogem. Nem ouve mais o ressonar de Leninha. O gotejar cessa.

O dia ainda nem clareou e o soro foi retirado. Leninha tem a certeza da qual tanto se esquivara.

Ele não está mais ali.

O velho pássaro pousou.

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34 comentários em “Prelúdio (Regina Ruth Rincon Caires)

  1. Givago Domingues Thimoti
    23 de dezembro de 2018

    Olá!

    Tudo bem?

    Esse é um conto extremamente bonito! A leitura é um pouco travada no início, é verdade. Porém, com o decorrer do texto, você imerge na narrativa com tal força que é capaz de sentir-se no quarto do moribundo Nestor. Gosto bastante quando o(a) autor(a) consegue provocar isso no leitor.

    Talvez além da leitura travada, tenha escapado alguns errinhos de gramática como vírgulas fora do lugar. Mas também não sou um grande gramático, então talvez nem sejam erros mesmo.

    Enfim, um ótimo conto!

    Parabéns pelo trabalho!

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Givago, sou um desastre com pontuação. Obrigada pela leitura e pelo comentário. Abraços e feliz 2019!!!

  2. Gustavo Araujo
    18 de dezembro de 2018

    Resumo: No leito de morte, um velho homem jaz paralisado e incomunicável. Porém, isso não o impede de recordar os fatos mais marcantes de sua vida.

    Impressões: Como comentar este texto com um mínimo de isenção? Eu me vejo neste conto, sinto que o poderia ter escrito, assim mesmo, com esse soco no peito com a intenção de deixar o leitor meio tonto. Por óbvio, não tenho como não gostar de tudo o que foi escrito, de cabo a rabo (tudo bem, eu iraria a última frase). O tema é a velhice, o apagar das luzes, o ocaso da vida. Nesse contexto, nosso protagonista está grudado à cama de um hospital, mirando a esposa sem que ela saiba, ruminando os alicerces de sua própria existência – com especial atenção aos filhos que não vieram. O(A) autor(a) optou por uma narrativa enxuta, apostando, talvez, no que seria seguro, evitando devaneios que poderiam soar repetitivos ou enfadonhos. Com isso, o conto ganhou força, mas também deixou aquela sensação de que poderia ter se esticado um bocadinho mais.

    Um dos livros mais instigantes que li chama-se “A Restauração das Horas”, do escritor americano Paul Harding. A trama, vencedora do Pulitzer, versa sobre um ancião à beira da morte, assim como aqui. O fim da vida se torna motivo para recordações, despertando raiva, amor, risos, vergonha, remorso, culpa e suspense, com histórias dentro de histórias, tudo isso em pouco mais de cem páginas. Este conto me fez resgatar a sensação ao mesmo tempo de desconforto e enlevo que a leitura da obra de Paul Harding me proporcionou, algo que me influencia tanto como leitor como também como escritor, já que busco essa mistura de sentimentos a cada texto que leio ou produzo.

    Embora eu ache que este conto poderia ter avançado mais, não posso deixar de dizer que foi, sem dúvidas, um dos grandes textos deste desafio. Parabéns pela obra e boa sorte na final do campeonato!

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada, Gustavo! Obrigada pela leitura e pelo gentil comentário. Feliz 2019!!!

  3. Catarina Cunha
    18 de dezembro de 2018

    O que processei disso tudo aí: Um cara internado acompanha seus últimos momentos em uma cama de hospital, enquanto os quereres e arrependimentos se misturam à imagem da amada e a falência do corpo.

    Título: engana, puro veneno com mel.

    Melhor imagem: “E no peito, o retumbe do coração mais parece o bater das asas inexperientes do menino passarinho.”

    Impacto: positivo. Um retrato de uma cena que pode ter durado alguns minutos, mas que foi aprofundado de tal forma que senti como uma eternidade. Curto e certeiro. Boa mão.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada, Catarina! O título e o “menino passarinho” roubei da música de Luiz Vieira (Prelúdio para ninar gente grande) – alguns a chamam de “menino Passarinho”. É uma poesia, eu amo… Obrigada pela leitura e pelo comentário. Feliz 2019!!!

  4. Fheluany Nogueira
    18 de dezembro de 2018

    O assunto dessa curta e emocionante narração é o episódio final da vida do protagonista. Nestor está no hospital, acompanhando pela esposa Leninha e sente que foi egoísta com ela, envolvido com trabalho e em relação ao fato de não terem tido filhos. É um casal de idosos, ele está em sofrimento e, ao final, é sugerido um procedimento de eutanásia. A história contada é triste, tingida com poesia e belas lembranças. Por isso, “me peguei” refletindo sobre a morte.

    O texto não corresponde a um modo de sentir e pensar individualizado, mas de uma cultura inteira, com seus estereótipos e lugares comuns. No entanto, ocorreu nele outro tipo de organização ao modo de elaborar, nas cenas críveis e na exploração de recursos próprios para produzir um discurso personalizado, diferenciado, como nas repetições enfáticas (“Talvez por orgulho, talvez por culpa. (…) Talvez por respeito, talvez por amor”), antíteses (“Tão perto, tão longe…”) e bonitas metáforas, e, que sem serem artificiais, não “forçaram a barra”, evitando cair no exagero estético. O título e imagem são carregados de lirismo, mesmo trazendo certa previsibilidade para o desfecho.

    Não notei falhas no uso da Língua, exceto por alguma colocação pronominal (“se avolumam, se atropelam” – o pronome reflexivo iniciando oração); a leitura é fluente e os personagens principais são bem construídos — o leitor consegue se colocar na pele do protagonista, alguém com dores ainda não curadas, culpa, solidão e sentia a vida se desfazendo.

    É um bom trabalho, comove pelo tom de confissão, remorso e, também, pelo envolvimento afetivo, sem escorregar para a pieguice.

    Só resta dar os parabéns e desejar boa sorte. Abraço.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada, Fheluany Nogueira! Tenho o costume de usar a colocação pronominal “popular” quando não está no início da oração (parágrafo). Fica mais parecido com o meu jeito de contar. Obrigada pela leitura, pelo comentário cuidadoso. Feliz 2019!!!!

  5. Fil Felix
    16 de dezembro de 2018

    Boa tarde! O marido, possivelmente em coma, tem delírios sobre o casamento, o fato da mulher não engravidar, da presença dela no hospital, de não conseguirem se comunicar. Até o momento em que ele morre.

    É uma história curta, que emoldura uma cena, um momento final da vida desse casal. A maneira de contar, que muda de narrador, não sei se propositadamente, também ficou interessante. O final é bastante poético, com as batidas de asas. Só acredito que poderia ter estendido um pouco, melhorando o contexto da cena, para que o leitor possa se identificar mais com a situação, como falar sobre o porque dele estar ali.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Caro Fil Felix, em verdade, o personagem não estava delirando. Estava consciente depois de vários períodos de ausência, de quase morte. Foi o prenúncio de que as asas deixariam de bater. O motivo que o levou a estar inerte numa cama de hospital não tem importância alguma no enredo. Eu quis passar a sensação de um ser em seus minutos finais, só isso. Obrigada pela leitura e pelo comentário. Feliz 2019!!!!!

  6. Amanda Gomez
    15 de dezembro de 2018

    O texto conta a história de um homem em seu leito de morte, o autor relata com profundidade os momentos, as angustias o silêncio de alguém que está morrendo, que não tem mais controle de sua vida. Conhecemos também Leninha, sua esposa que o acompanha até o último batimento.

    ______________

    Um texto relativamente curto mas que carrega uma carga tão grande de sentimentos, o autor se aprofundou de uma forma primorosa no personagem, conhecemos, sua esposa, seus arrependimentos. Parece ter sido uma vida boa, feliz apesar de tudo, um casamento com amor… mas sem frutos. Nestor está morrendo, os últimos dias tem sido de dores e tormentos, de despedidas silenciosas. Apenas olhares, apenas certezas, apenas… ah, não sei. Seu conto é muito bonito autor(a), emocionante, cru…ao mesmo tempo que carregado de uma poesia, não sei explicar. Queria saber fazer isso, contar tanto, criar tanto…em tão poucas palavras.

    Parabéns!

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada, Amanda! Que bom que você compreendeu a minha mensagem… Você é muito generosa… Obrigada pela leitura e pelas doces palavras. Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  7. Gilson Raimundo
    7 de dezembro de 2018

    Nestor esta numa cama de hospital bem próximo da morte, ele se recorda dos momentos vividos com sua esposa Leninha, sente remorsos por não ter tido filhos com ela e principalmente por permitir que ela assumisse o peso da infertilidade sem nem ao menos procurar um médico até que finalmente o peso dos anos o leva.

    O autor escreve muito bem a leitura foi rápida e sem contratempos, tirando o drama da morte suave do moribundo, senti falta de um pouco mais de ação, o arrependimento por não ter filhos poderia ser valorizado, criar um confronto, algo marcante na narrativa que levasse a um desfecho empolgante, a morte fosse até uma redenção ou que esse Nestor tivesse pelo menos uma meia duzia de filhos com outra mulher, enfim, algo marcante e não uma vida inteira sem representatividade. Nestor e Leninha tiveram uma história que não vai fazer falta para ninguém.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Eita! A história deles vai fazer falta para aquele que ficar. A vida é assim. Enquanto existir uma foto sua em alguma casa, você será lembrado. Depois… O depois é para os imortais. Não queria colocar confronto no texto, queria que a morte fosse calma, apenas carregada de sentimentos. Obrigada pela leitura, obrigada pelo comentário. Feliz 2019!!!

  8. Ana Maria Monteiro
    6 de dezembro de 2018

    Observações: a história é extrememente simples, mas a forma como está descrita e a beleza de que se reveste estão muito bem conseguidos. Belo.
    Prémio “A vida é curta e longas as despedidas”

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada pela leitura e por compreender a minha mensagem. Feliz 2019!!!

  9. Ricardo Gnecco Falco
    5 de dezembro de 2018

    Resumo: Senhor idoso em estado catatônico e terminal despede-se de seu grande amor e companheira de vida ao pressentir o final de sua existência carnal.

    Impressões pessoais: Um conto bem escrito e com uma carga dramática bem distribuída entre as linhas, mesmo que ainda soando um pouco forçosa. Talvez por ter seu autor abdicado da utilização, com fartura, dos limites de palavras impostos pelo Desafio… Tal escolha pode não ter permitido ao leitor encontrar suficiente espaço para o mergulho nas águas profundas que, com maestria, o autor fez jorrar de sua obra.

    Considerações finais: Um bom conto que apostou alto na emoção e, poeticamente, bateu assas e voou quando o leitor, diferentemente do que acontece quando diante de textos ruins, queria e precisava, simplesmente, de mais tempo. Assim como seu personagem…

    Parabéns!

    Boa sorte no Desafio!

    Paz e Bem! 😉

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada pela leitura e pelo comentário! Feliz 2019!!!

  10. Evandro Furtado
    4 de dezembro de 2018

    O conto retrata as horas finais de um homem em seu leito de morte, acompanhado pela amada de toda uma vida. Em resumo, são suas reflexões sobre essas horas finais de existência que compõem a história.

    O texto é extremamente instigante e perturbador. Incomoda de verdade. A morte é desnudada de qualquer romantismo, é mostrada crua e simples. Não há esperança ou beleza, apenas o silêncio do fim. Mais uma vez, isso incomoda. Talvez por mostrar-se próxima desde o início, e o leitor saber que chegará. Ainda assim choca. Como na vida.

    É apenas justo

    OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOUTSTANDING!!!

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada, Evandro!!! Esse “OOOOOOOOOOOOUTSTANDING” é demais!!!!!!! Obrigada pela leitura, pelo generoso comentário e obrigada por ter entendido o que eu quis contar… Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!

  11. Daniel Reis
    2 de dezembro de 2018

    Sinopse: Num quarto de hospital, Nestor passa seus últimos momentos relembrando sua história ao lado da mulher, Leninha, enquanto descreve os momentos derradeiros de sua vida.

    Comentários: apesar do recorte simples e restrito da história, o autor soube compor uma obra firme, quase um quarteto de cordas com final, se não inesperado, pelo menos compatível com a narrativa. Percebe-se a técnica segura, ainda que com alguns momentos carregados de emoção. Tem meu voto para a segunda rodada.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Eita, obrigada! Que bom que conseguiu absorver exatamente o que eu quis dizer! Obrigada pela leitura, pelo comentário… Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!

  12. Fernando Cyrino.
    1 de dezembro de 2018

    Olá, Dolores, que bonito conto você me apresenta. Uma mulher a velar, num quarto de hospital, o seu marido moribundo, durante a “noite” que tanto pode ser metafórica, quanto real. E isto até que, na chegada da manhã acontece o “pouso do velho pássaro” numa linda metáfora que você cria para a morte. A vida que é repassada a limpo pelos dois através de “fluxos de consciência” em suas sonolências e estados de vigília. A nossa estranha incapacidade em demonstrar o amor. A dificuldade tremenda de se comunicar que não raramente ocorre com os casais. Os silêncios tão grandes e tão minúsculos. Os “não ditos” que ficam na penumbra da vida para enfim voltar, revigorados, em momento tão forte, clamando para que sejam tratados, mas tempo não há mais.
    Gostei realmente da sua história, Densa, triste e profunda. Dolores (aliás, que nome mais adequado você encontrou para a autora. Sabemos que a literatura é só fingimento, mas não resisto aqui a fazer a leitura de que Leninha é igual a Dolores e vice versa), você me trouxe um conto que me fez refletir e isto considero como essencial na boa literatura. Prelúdio também como nome do conto ficou bacana. Prelúdio que me conota o começo de algo que se faz leve (o voo), que me sugere até a bela música, aqui é, a liberdade que acontece com a partida final, o pouso enfim do velho pássaro cansado (“ela sabia que ele não estava mais ali”). A morte enquanto metáfora da libertação do corpo doente. Alguns detalhes me fazem pensar que se trata aqui de autor/autora de além mar. Estarei certo? Ou me engano redondamente? Meu abraço de parabéns.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Olá, meu querido amigo! Além-mar?! Não, caipirinha da gema… Obrigada pela leitura atenta, por perceber o que eu quis contar nas entrelinhas. O título “Prelúdio” e o “menino passarinho” roubei da música de Luiz Vieira (Prelúdio para ninar gente grande , ou “menino Passarinho). Você já ouviu? É uma poesia em forma de música. Dolores era o nome de minha avó espanhola: Cristina Dolores. Obrigada pelo comentário (mais lindo que o meu conto). Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!

  13. Sidney Muniz
    28 de novembro de 2018

    Resumo:

    Aqui temos um conto de romance, mas muito bem executado, hein? Conhecemos então a história de dois apaixonados, companheiros, um amor lindo, mas que pelas arte-manhas do destino não puderam ter filhos, e nesse momento o esposo está justamente em uma cama de hospital, sua amada está no quarto, dormindo… O conto é bem leve e carregado de sentimento, uma graça.

    Estou dando nota para o conto sem o pedido prévio de análise, caso venha a ser solicitado haverá o confronto das notas finais dos dois contos para escolha do vencedor do embate.

    Critério nota de “1” a 5″

    Título: 5 – Um belo titulo!

    Construção dos Personagens: 5 – Só de ler me apaixonei pelo casal.

    Narrativa: 5 – Que linda narrativa e ainda que as palavras diferentes dos nomes dos equipamentos, ao meu ver, quebram um pouco a narrativa, isso não é um defeito em si, mas eu pessoalmente prefiro o mais simples, ou seja; contornaria isso descrevendo com palavras mais conhecidas, mas é só chatice, tá perfeito demais!

    Gramática: 5 – Nada me incomodou, e como incomodaria?

    Originalidade: 4 – Não é um conto original, e quando digo originalidade, estou dizendo em construção, forma como as coisas acontecem, ou melhor; um jeito diferente de contar a história e de criá-la… Mas pelo cenário que se passa, gostei da naturalidade e da meiguice na voz do autor(a).

    História: 5 – Não há furos, é tão linda e doce, e eu gostei tanto! Ah, meus parabéns!

    Acho que esse conto pode ser da Cláudia, mas eu sou tão ruim em tentar adivinhar e tem tanta gente que não conheço!

    Total de pontos: 29 pts de 30

    Boa sorte no desafio!

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Sidney Muniz, menino, mais gostoso que ler e escrever o conto é perceber que você assimilou tudo que eu quis contar. Obrigada pela leitura, obrigada pelo comentário tão cuidadoso. Não é da Cláudia, é da velhinha mais doidinha da turma. Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!

  14. Paula Giannini
    26 de novembro de 2018

    Olá autor(a),

    Tudo bem?

    Resumo
    Nos minutos finais de vida, um moribundo reflete sobre sua trajetória.

    Meu Ponto de Vista
    O conto é belíssimo, poético, e, traz a metáfora do pássaro para o momento em que a alma parte. Críticos de plantão, talvez torcessem o nariz, achando a figura de linguagem demasiado clichê. No entanto, ela funciona e se encaixa na narrativa com tal leveza, com tamanha beleza, que fica impossível não pensar que a escolha foi feita por um autor maduro e ciente do que faz.

    Parabéns pelo lindo conto.
    Beijos
    Paula Giannini

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Hoje, depois de ler o lindo conto com que você me presenteou, tudo ficou mais encantador. Obrigada, Paula, obrigada por tudo! Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!!

  15. Eduardo
    21 de novembro de 2018

    O conto fala sobre a morte de um homem provavelmente bastante idoso, chamado Nestor, e que deitado em uma cama de hospital, bastante doente, reflete sobre a vida, sobretudo ao lado de sua companheira Leninha que o acompanha no quarto. Por alguns instantes o personagem apresenta uma aparente cegueira, mas logo em seguida parece ser capaz de enxergar novamente – provavelmente por conta da medicação – e mesmo sentido-se um pouco melhor do que anteriormente, acaba falecendo.
    Embora não se desenvolva muito para além da narrativa citada acima no comentário, o conto é capaz de transmitir certa empatia entre o personagem e o leitor, talvez justamente pela sua simplicidade e pela maneira como retrata um momento tão delicado da vida humana, uma realidade com a qual muitas vezes só nos deparamos de fato, diante dela.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada pela leitura e pelo comentário! Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!!

  16. Cirineu Pereira
    21 de novembro de 2018

    Sinopse

    Prelúdio narra as últimas horas de um moribundo totalmente paralisado num leito de hospital, ao lado do qual lhe assistem a companheira de anos – não tiveram filhos – e eventualmente uma enfermeira. Nestor, o doente terminal, incapaz de se comunicar com o mundo, rumina sua história de vida e o relacionamento com Leninha, a companheira fiel e dócil com a qual ele teria falhado em dar carinho e expressar eu amor, já não há meios, nem tempo e o o conto é arrematado com a morte do protagonista.

    Análise

    A narrativa é deveras subjetiva e generalista. O autor dispõe basicamente de dois ambientes, o quarto de hospital e as memórias do personagem. No entanto, não é eficaz em inserir o leitor em.nenhum deles. Tudo é contato de forma muito direta e superficial, logo não nos é possível adentrar os contextos ou “palpar” os personagens. Sim, apesar das tentativas de traçar um perfil psicológico para os personagens, o autor(a) não consegue fazer com que tenhamos uma imagem razoavelmente sólida deles, logo não desenvolvemos empatia. Um conto linear no quesito emoção/ação e que tem como ponto alto a morte, recurso esse um tanto clichê.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Caraca! “Generalista – não é eficaz em inserir o leitor – tudo é contado de forma muito direta e superficial – não nos é possível adentrar os contextos ou “palpar” os personagens – apesar das tentativas de traçar um perfil psicológico para os personagens, a autora não consegue fazer com que tenhamos uma imagem razoavelmente sólida deles, logo não desenvolvemos empatia. Um conto linear no quesito emoção/ação e que tem como ponto alto a morte, recurso esse um tanto clichê”. Caraca, então, o que foi que eu escrevi?! Uma carta oceanográfica?! Mesmo assim, obrigada pela leitura. Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!

  17. Antonio Stegues Batista
    21 de novembro de 2018

    Nestor está em seus últimos momentos de vida. Leninha, a esposa, faz vigília ao lado da cama. Embora inerte, Nestor reflete sobre alguns momentos do passado.

    A narrativa é focada nos últimos momentos de vida de Nestor e pouco é revelado sobre a vida do casal. A escrita é excelente, as frases bem construídas, mas achei que faltou maiores informações sobre a vida do casal. Acho que deveria haver reflexões de Nestor sobre outros fatos, outros assuntos relevantes. A morte de alguém em coma é algo que assusta, mas aqui o impacto foi suave.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      27 de dezembro de 2018

      Obrigada pela leitura e pelo comentário! Ah! Adorei o seu conto! Feliz 2019!!!!!!!!!!!!!!

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Publicado às 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos e marcado .