EntreContos

Detox Literário.

Ratos sem asas (Ítalo Calvino)

 

Da primeira vez que deram Ravi, foi para uma família ali, da periferia mesmo. A casa grande, o quintal nem tanto, mas com casinha de cachorro, vazia. Queimaram suas roupas, rasparam-lhe os cabelos. Os piolhos andavam circulando no cais, não em sua cabeça, argumentou, as duas mãos grudadas à cabeleira que Deus lhe deu. Não houve negociação. Os cachos caíram, as lágrimas não, que não ia chorar na frente daquela mulher de risinho de lado.

À noite, a sopa de peixe, o que não era de todo mau, e o dedo em riste, apontando o local onde deveria dormir, com um cobertor de campanha. A casinha de cachorro já não estava vazia.  

No dia seguinte, fugiu. Assim como escapou em todas as outras cinco vezes em que foi parar nas casas das pessoas que podiam oferecer um futuro melhor a uma criança, como dizia a mãe.

Não queria nada disso de futuro melhor. Sim, queria. Desde que fosse ao lado da mãe e das irmãs, todas elas: a Japonesa, a Negra, a Loira, a Ruiva. Todas filhas de pais diferentes, mas da mesma mãe. Meia-irmãs, como corrigira uma daquelas madames adotantes de periferia. Queria estar com a família. Isso é o que queria. Queria isso. E queria mais.

Queria ser menino.

Sempre foi assim, desde pequena, Ravi sonhava com coisas de menino. Não que gostasse de meninas daquele jeito que os rapazes gostam. Não. Jamais teria interesse em beijá-las, ou em colocar as mãos lá embaixo, do jeito que os marinheiros faziam. Não era isso. É que intuíra, desde sempre, que ser homem, naquele seu mundo de suor e luta, tinha lá suas vantagens. E não eram poucas.

Homens podiam ficar até tarde vadiando em mesas de barril, bebendo, e rindo, e jogando truco a dinheiro. Não precisavam abrir as pernas para ganhar alguns trocados. Não. Se queriam trocados extras, carregavam uma carga aqui, lavavam um convés de Navio estrangeiro ali, iam para o alto-mar e pronto, negócio feito. De mais a mais, as mães não costumavam dar um filho homem para outras famílias. Filhos homens eram mais úteis, e não se prestavam a ser filhas de criação, que, no fim das contas, era o nome que se dava às empregadas sem salário das madames de meia-pataca.

Então, Ravi, desde muito cedo, aprendeu a cuspir de lado, e a mascar fumo, sonhando em ter aqueles braços gordos dos homens, com tatuagens azuis de âncoras e caveiras. Depois de perder as madeixas, manteve os cabelos curtos, e negava-se a vestir saia, e, bem mais tarde, sutiã.

Era livre. E, para seu alívio, quase não tinha os peitos, não era como a Ruiva, que arrebatava filas, guardando dinheiro entre sua fartura. Jamais seria uma escrava como as irmãs que, poupadas da adoção benevolente das senhoras da burguesia, ganhavam a vida de fazer favores aos marujos, como aprenderam observando a mãe desde sempre.

Odiava ser mulher. Naquele mundo, ninguém prestava atenção nelas. Prestava, mas só para as coisas do sexo e da cozinha. No mais, não participavam das decisões, das lutas, das coisas sérias de políticas e sabe-se lá mais o que, que cabia só aos homens. Só a eles as horas de lazer, a autoridade para escolher o que sim e o que não em suas vidas. O prazer do mar aberto jamais seria para mulheres, com seus enjoos, e frescuras e ideias de mulheres. Homens não engravidavam. E, ainda tinha aquilo. Aquilo que teria facilitado em muito a vida da mãe e das irmãs. Aquilo que fazia um homem, um de verdade, se impor perante tudo e todos. As armas.

Por ali, todos tinham uma. Os homens do mar traziam pistolas, garruchas, automáticas, grandes, pequenas, velhas, até de chumbinho havia. Um deles, o Alemão, exibia o que dizia ser uma Luger-P08, da Marinha de seu país, uma raridade.

Ser homem, por ali, significava portar uma arma. Só por segurança, diziam. Ninguém quer usar sua pistola, é o que repetiam. Mas queriam. E seus dedos coçavam a cada vez que o adversário de jogo gritava e batia na mesa. Truco. E suas pólvoras cantavam a cada vez que um lhes olhasse atravessado. Truco, papudo.

Ravi assistia a tudo, prestando pequenos serviços: carregava barris de chope, servia pinga sem dar chorinho. As armas em cima da mesa eram só para mostrar quem é que mandava no cais do porto de São Luiz, E ela ria junto aos tentos dos marujos, a língua dançando para fazer sinais do falseio, e, nessas horas, quase se esquecia de quem era. Mulher. E eles também. Não fosse os mais antigos, os que a conheciam dos velhos tempos de menina cabeluda, todos veriam o que os demais enxergavam nela, um rapaz franzino, imberbe e meio efeminado, para quem deixavam uns trocados que mal dava para o pão.

Assim era. As irmãs passavam faceiras, o olho cumprido sondando as mesas, sentavam no colo de um, passavam as mãos no rosto de Ravi. Com esse eu me casava, brincavam sem desfazer a farsa, enquanto a Ruiva, barriga de menino em tempo de estourar, sonhava com o príncipe que um dia a tiraria daquela vida, e ela, a caçula, com o dia em que, com sua arma em punho, finalmente seria, mesmo se de saia, respeitada como os homens.  

Naquela noite, porém, algo estava diferente. A tempestade balançava os barcos ancorados, o bar vazio só tinha uma mesa ocupada. Nela, já bem alto, o Alemão, com uns olhos de mar que eram os únicos capazes de mexer com ela de um jeito estranho.

Senta? Fez que não. Joga? Não dizia nada. Ravi estava desconcertada. Não. Estava em serviço. E arriscou um sorriso, pegando o copo vazio sobre a mesa. E, foi nesse instante que a viu. Fração de minuto que, se pudesse, apagaria de sua vida, que, se pudesse, faria voltar no tempo só para fazer tudo de novo, só que diferente, mas não dava. Isso de voltar no tempo era fantasia de menina. E agora, naquele minuto, a P08 a encarava, chamando-a para o combate.

E jogou.

Uma rodada. Uma só, apostando a pistola, ou, um segredo que o gringo contaria depois, caso ele ganhasse. Desconfiada, levantou-se a fim de dar meia volta. Mas a mão do moço a segurou, e, com ela, uma coisa quente e desconhecida, amoleceu suas pernas, fazendo-a sentar constrangida.

Apostaram. E jogaram. Não uma como combinado, mas a nega, e, depois, a melhor de três. A revanche. Agora, ela também entornava martelinhos de cachaça, a vista embaralhando e a camisa com um botão aberto.

Perdeu todas. A primeira, a segunda, a desforra, a de quatro. E caminhou com o vencedor até o bequinho, já desconfiando do pedido do Alemão. Passou a mão na faquinha de serra sobre a mesa. E, ele, com um gesto automático, guardou a pistola na calça, bem ali, avolumando o local onde os homens exibiam os seus orgulhos.

Já no beco, o campeão, por algum motivo, já não mexia com sua natureza. E foi ali, que descobriu que não só às mulheres se pede para que se abram as pernas. Passou a mão na faca, e a faca, no braço do homem, embora percebesse que já não precisava. Ele desvendara o seu segredo. E ela, o dele.  

E correu.

Sem olhar para trás, disparou abraçando forte a coisa, o símbolo de sua coragem.

A arma do Alemão agora era sua.

Amanhecia quando caiu exausta e de joelhos, sacudida pelo tremor da adrenalina. Ali estava segura. Ali, sempre fora quem quisera ser, mocinho, bandido, herói, e, naquele instante, criança, heroína defendendo as irmãs dos temores da vida.

Subiu na bobina de madeira que funcionava como mesa. Era a dona do mundo, a dona de São Luiz. Mirou no balde, as roupas de molho, podia transformar a lata em peneira. Queria dar um tiro, um só.

Recuou. Não queria chamar atenção. Apontou para cima, agora vamos ver quem é que manda, ensaiava. Mãos para o alto, falava grosso, e guardava a pistola no coldre, sua calça, como via os demais fazerem. Queria ver, agora, marujo embriagado cantar de galo em seu portão, exigindo a presença das irmãs. Queria ver homem levantar a mão e encostar o dedo em uma delas. Enfiaria o cano em seus narizes até tocar o osso da testa. Não queria confusão, eles que dessem meia volta. Queria ver eles se borrarem.

Mirou o grampo de roupa no varal. Precisava aprender a manejar, treinar a mira. Um tiro só. Só um e esconderia a Luger em um local só dela. A mão tremia, segurou o braço como via em filmes de policial, o olho mirando na mola do grampo. Um tiro só. O gatilho na ponta do dedo. Gelado.

Disparou.

O estampido surdo ecoou na madrugada e por pouco não caiu da mesa. Não esperava o coice, o cheiro de pólvora, a fumaça. O calor fez com que derrubasse a arma e, o segundo tiro, saiu sozinho, disparado em direção a um bando de pombas que ciscava por ali. Partiram em revoada. Por sorte não ferira nenhum daqueles ratos com asas destinados a viver à margem, tão ratos quanto ela, só que com asas.   

De dentro de casa, de repente, pôde ouvir o choro. O bebê da Ruiva, menino, o primeiro da família, já chegou com os modos dos homens, sem se fazer anunciar.

Abaixou-se para apanhar a pistola. Quem sabe a sorte mudava. Pena a mãe não estar mais por ali para ver.

Já com o menino no colo, a arma agora era brinquedo de engrenagens e maravilhas para montar e desmontar. Juntos, eram mocinho e bandido. Ela cavalinho, ele, vaqueiro. E Ravi encantava-se com aquelas meiguices de coisas da mãe que jamais seria. Mas tia, sim. E assumiu a responsabilidade de cuidar do menino enquanto a Ruiva, já longe do cais, pilotava o fogão em tempo integral no restaurante popular da prefeitura.

Com o menino a seu lado, o revólver, agora, tomava outros ares. Entendia os homens e sua necessidade fremente de se impor diante dos outros, em uma pirâmide de poder na qual eram a base, também eles eram ratos, e pombos famintos a caça da sobrevivência. Entendia as irmãs, a mãe, o motivo de, ela mesma, ter ido parar tantas vezes nos lares daquelas gentes desconhecidas. O mundo era guerra, ouvira de um bêbado que se dizia desertor do exército americano. E era. Guerra.

Não mais.

Não para o seu menino.

Esquecida no fundo da lata de arroz, a munição adormecia na garantia da hora que, por infelicidade, pudesse ser requisitada como defesa. E como esse dia não chegasse, para tia e sobrinho, a cozinha era escola, local para contar histórias do tempo em que Ravi fora doada pela avó para essa ou aquela madame. Como a de quando uma dessas mães de mentirinha, vestindo a criança com sainhas, meteu-lhe uma peruca nos cabelos que se insistiam curtos, e levou-a para um passeio em barco de turismo. Nesse dia, a peruca virou chapéu de capitão, inventava, e lá vira sereias e navios fantasmas com piratas que abatiam tubarões. Tudo era desculpa para o brinquedo. E o pequeno, agora caçador de tesouros, empunhava sua garrucha sem balas em direção à prisioneira.

O que é aquilo? Perguntara ao ver os projéteis no fundo da lata de arroz catado. Sujeiras, respondera, fechando a tampa em um pulo.

E, assim como o acaso também influi no efeito de caos, após o leve bater de asas no outro lado do planeta, naquele instante, no portão de casa, a campainha soou. E, correndo para atender, Ravi não estava lá no momento em que o menino, trepando no banquinho, alcançou a lata. Assim como jamais soube que ele a imitava, no momento em que ela, já na porta da cozinha, escutou o estampido seco que fazia recordar o dia da revoada de pombos. Naquele instante, porém, Ravi teve apenas uma certeza, a de que o sobrinho não era um rato de asas.

E não pôde ver o momento em que ele voou.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.