EntreContos

Detox Literário.

O Cheiro Vermelho de Tinta (Rufus)

 

O JARDIM

 

Era seu segundo mês trabalhando no jardim da família Expedito: duas vezes por semana, religiosamente. Nesse período, Caio nunca vira o senhor ou a senhora Expedito, todos os pagamentos eram entregues por Pedro no final do dia. O casarão guardava um ar barroco, ornamentado e carregado, com seu enorme jardim cercando toda a residência, conectados por um caminho de lajes. Também nunca entrara, até então, na casa. Em meio às podas e regas, percebia o silêncio matador que havia lá, com seus vultos disformes correndo pelas janelas do segundo andar, onde provavelmente estariam os quartos. No térreo as janelas ficavam fechadas ou cobertas por pesadas cortinas de veludo. Pedro, quando contratou Caio, segredou que seus pais estavam bastante enfermos e de idade avançada, não levantavam da cama e eram assistenciados por enfermeiras durante dia e noite. E apesar de não comentar a idade, Pedro não aparentava possuir mais que 35 anos, um pouco mais velho que Caio. E mesmo sem ter visto nenhuma enfermeira entrando ou saindo do casarão, sua espontaneidade e o sotaque interiorano convenciam-no da história.

A casa possuía três andares, uma porta principal de madeira maciça, janelas longas e vidros grossos. A pintura, de um bege profundo, estava descascando. Caio pensou em oferecer-se como pintor, para poder impressionar a família e fazer valer a contratação. Mas logo viu que o jardim, abandonado há meses, já oferecia trabalho demais. O caminho de lajes, ligando o portão de ferro da rua à porta da casa, estava repleto de ervas daninhas e trevo. Os pequenos gatos e duendes que ladeavam o início do caminho, cobertos de lodo. Até mesmo as esculturas espalhadas pelo jardim estavam esverdeadas e sujas pelo tempo. Como as plantas eram sua paixão, Caio teve uma certa admiração pela desordem e um desejo ao colocar as mãos nos crótons e coléus que davam cor em meio ao verde de marantas e singônios.

Numa tarde Pedro saiu da casa, deixando a porta entreaberta. Caio podia ver, de relance, inúmeros quadros pendurados pela parede do hall de entrada. Pedro trazia uma fita vermelha numa mão e duas latas de coca-cola na outra, oferecendo uma ao jardineiro. “Caio, sei que está trabalhando nas roseiras agora, mas gostaria de te mostrar uma coisa”. Havia algo em seu olhar, algo lenhoso. Desde sempre Caio não conseguia se impor ou tomar a frente das situações. Fácil de se deixar levar, dizia sua mãe. Foi assim na infância e foi assim quando pensou em oferecer o serviço de pintura , mas não conseguiu. Sempre foi o garoto magro e vulnerável, protegido pela mãe. Mesmo aos trinta, ainda mantinha essa postura. “Claro, tudo bem…”, foi o que conseguiu responder. E assim entrou pela primeira vez no casarão, guiado pelo patrão.

 

A FITA

 

Caio ficou maravilhado com a quantidade de quadros espalhados pelas paredes. Molduras quadradas, retangulares e até ovais, de paisagens, naturezas mortas e retratos, que iam dos mais figurativos aos mais abstratos. Em comum, a maioria possuía uma forte paleta vermelha em sua composição. Ao perceber o espanto nos olhos do jardineiro, Pedro aproveitou para apresentar o ambiente. “A pintura é algo bastante importante em nossa família. Meus pais pintaram alguns desses quadros. Os pais deles pintaram outros. E por aí vai. Alguns são de minha autoria, também. Essa característica mágica que os seres humanos possuem, de captarem a essência de um momento, uma sensação”, deu um longo gole do refrigerante e apontou para um quadro representando um casal elegante, de mãos dadas e em volta de um jovem Pedro, os três com roupas antiquadas. Caio podia sentir que era Pedro ali. Não somente sua figura, mas de alguma maneira, de alguma forma relacional, também era ele. “O senhor deve gostar muito de Dorian Gray”, comentou. E numa gargalhada, Pedro não somente demonstrou a quebra da barreira entre eles, como também uma certa afinidade. “Que isso… Gosto muito dos retratos, mas nada tão mórbido. Mas foi por isso que o chamei aqui. Percebe o quanto é importante para mim? A visão, a imagem… E infelizmente, em breve deixarei de enxergar, de poder pintar ou admirar qualquer obra de arte. Ficarei cego. E conforme você está reformando o jardim, quero passar a tocar e sentir, mais que olhar. Entende?”.

Caio perdeu muito do que foi dito após a declaração de que seu patrão ficaria cego. Não conseguia imaginar como viveria ali, numa casa daquele tamanho, com tantos cômodos e os pais doentes. “Meu médico disse que preciso me acostumar a idéia, memorizar o espaço”. Entregou a fita vermelha nas mãos de Caio, segurando-as fortemente e, olhando fundo em seus olhos negros, revelou um desejo. “Quero que me venda, passarei a usar a fita de agora em diante”. Virou-se de costas para o jardineiro, fechou os olhos e permitiu que Caio se aproximasse, passando a fita em volta de sua cabeça, sentindo a pressão do nó.

 

O ESPINHO

 

A terapia de Pedro envolvia habituar-se à cegueira e também a residência e ao próprio jardim, em que Caio teve um importante papel, levando ao patrão flores, folhas e demais objetos que encontrava pelo lugar, para que ele pudesse pegar, sentir e, principalmente, cheirar. Todas as vezes que passava pela porta do casarão, ele observava um quadro muito abstrato e curioso, repleto de círculos e semi-círculos vermelhos. Decidiu que perguntaria a respeito dele, logo após entregar o ramo das roseiras que podara. Pedro, sentado na poltrona em frente ao grande retrato da família, vendado e sereno, percebeu o cheiro da flor antes mesmo de Caio a entregar. “Ah, nossas rosas. Inconfundíveis. Sabe, Caio… certa vez li que somos pegos pelo olfato. Nossos instintos, nossos fetiches… Para além do órgão sexual, o desejo parte do cheiro”. E Caio, como de costume, ouvia mais do que falava. As palavras entalavam em sua garganta, raspando. E naquela tarde de primavera, com o sol tranquilo lá fora, o aroma das flores junto ao odor leve de tinta a óleo e mofo nas paredes, ele queria mesmo era descobrir qual a fragrância, que perfume tinha Pedro.

“Venha, deixa eu tocar as flores”. Pedro levou-as ao nariz, abrindo um sorriso e, sem perceber, cortou a mão nos espinhos e emitiu um som passageiro de dor. “Desculpa, senhor… deveria ter arrancado os espinhos antes, não imaginava que…”, Caio pegou o lenço que levava no bolso e enrolou a mão de Pedro. “Não se preocupe… Acho que a dor faz parte de qualquer adaptação. Diz, meu sangue é vermelho como as rosas?”. Um tanto constrangido, Caio riu e lembrou de umas das histórias que ouvia da mãe. “Reza a lenda que as rosas surgiram das lágrimas da deusa Afrodite, quando chorou a morte do seu amante Adônis, sendo tingidas de vermelho com sangue”.

Uma gota caiu do teto sobre o rosto de Caio. Um líquido espesso e viscoso, vermelho. Ele passou a mão no rosto e, ao olhar pra cima, percebeu que havia uma grande mancha escura no teto. “Senhor, acho que derrubaram alguma coisa lá em cima, que está vazando”. Mas Pedro sequer esboçou alguma preocupação. “Estou resolvendo isso”. Era incrível, pensava Caio, como a serenidade dele o conquistava. “Aproveitando sua história sobre as rosas, me permita compartilhar um conhecimento meu”. Pedro levantou e dirigiu-se ao hall de entrada, parando em frente ao quadro que Caio queria comentar. Seu coração, inclusive, acelerou. “Este é um dos meus quadros preferidos, puramente abstrato”, ele começou. “Sim, não tem figuras nem nada, isso eu lembro da escola”, Caio respondeu. Ambos de frente à moldura. “E digo mais, a falta de figuras nos força a visualizar o todo, a buscar lá dentro de nós por algum significado, algum porquê, encontrar uma forma à essas linhas, círculos e cores que explodem na tela. Pintei em homenagem a nossa antiga cozinheira, que descanse em paz, que amava estampas de bolinhas. Ela amava usar colorau em tudo. ‘Vermelho’, que em muitas línguas significa a própria cor. A intensidade, vida e morte. Um mundo numa palavra, num pigmento. Mesmo sem ver, posso sentí-lo”. Ao voltar o rosto para a sala, Caio percebeu que a pingueira no teto estava mais forte, formando uma poça horrenda no chão.

 

O QUADRO

 

No último dia da primavera, uma quinta-feira, também foi o último dia em que Caio trabalhou no jardim da família Expedito. Havia uma magia em torno de Pedro, um homem das artes, culto e delicado, pela qual Caio se viu muito afetado. Como gostaria de ouvir a história por detrás de cada quadro do casarão. Mas não se achava à altura, nunca se considerou bom o suficiente e sempre preferiu a companhia das plantas à dos humanos. Mas naquela última quinta-feira, até mesmo suas mais íntimas companheiras lhe traíram. E o vermelho, que numa ponta é vibrante como o sangue da vida, também descobriu que na outra é opaco como o coágulo da morte.

O jardim estava quase pronto. As esculturas mais uma vez se distinguiam do verde, o caminho de lages se destacava e hortênsias azuis floresciam. Olhou para o casarão, o caminhar dos vultos no segundo andar, das enfermeiras certamente. Mas ao adentrar o jardim, porém, percebeu que algo mudara. A grama, que deveria ser firme, mas macia, transformou-se em algo pastoso, praticamente pantanoso. Teria sido o calor?, pensou. As estátuas de gatos e duendes que ladeavam o caminho soltavam uma tinta escura dos olhos. E as rosas, que na última terça estavam vistosas, murcharam. Conforme se aproximava da casa, o jardim como um todo se desgrenhava, morria. Apavorado, as lágrimas correram sobre o rosto. O trabalho de toda uma estação estava diluindo, com a morte encontrando todo aquele verde. Observou que um dos galhos de um limoeiro, ao quebrar, expeliu um líquido rubro em vez de seiva.

Desesperado, entrou sem bater no casarão e foi pego de surpresa por um forte cheiro de óleo. Não óleo de cozinha ou de fritura. Mas um óleo de tinta. Pedro continuava em sua poltrona, a fita vermelha nos olhos. “Senhor, algo estranho está acontecendo no jardim”, aproximou do patrão, segurando-o pelo braço, querendo levantá-lo. A goteira no teto se espalhara por toda a casa, sujando o piso e deixando pegadas. As paredes suavam, escorrendo a tintura da madeira. Os quadros, porém, permaneciam intactos. Pedro forçou Caio a ajoelhar-se diante da poltrona, colocando as mãos em seu rosto, sentindo sua pele, sua barba por fazer, seus poros dilatando. Aproximou seu rosto ao dele e, como foi durante a vida, Caio congelou e deixou o coração disparar. “Você é muito belo, Caio. Um retrato impressionista, eu diria. De longe, vejo tudo que deseja, mas com medo. De perto, vejo os porquês. E seu cheiro tem cor”. Pedro umedeceu os lábios com a língua e lambeu sua bochecha, um som áspero de atrito entre a língua e os pelos crescendo. “Tem gosto, também”.

O calor abafado do ambiente sufocou o jardineiro. O cheiro forte de tinta subindo pelas narinas, deixando-o tonto. Do teto caíram inúmeras gotas espessas de tinta, respingando pelos móveis e pelo corpo dos dois homens. Aos poucos Caio teve o rosto coberto pelo líquido escarlate. Inundado. O chão aos seus pés, como numa piscina amniótica, o engoliu. E foi como voltar ao útero da mãe Gaia, adubando o solo com seu próprio sangue. E na escuridão que cobriu sua consciência, o casarão e o jardim transformaram-se numa grande mancha, um borrão em sua história.

Não sabia quanto tempo havia passado, mas o mau cheiro permanecia nesse breu, quando ouviu um murmurar lá no fundo. Um eco em meio à escuridão. Uma conversa. Como se essas pessoas se aproximassem de Caio, como um rosto que te olha, distinguiu melhor os sons. “Consegue ver, Ricardo? Este é meu quadro preferido. Uma verdadeira beleza, pintada ao estilo impressionista, com pinceladas soltas, sem forma ou contorno fixos. Feita em homenagem ao nosso antigo jardineiro. Cada ponto que forma uma flor foi como uma lágrima que deixei cair. E vermelhas, como a excitação humana”. E caminhando pelo segundo andar, Caio observou o jardim pela última vez.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.