EntreContos

Detox Literário.

Encontro nas Sombras (Noob Saibot)

 

Salve a princesa”, era a frase que fazia as vezes de despertador para mim. Uma voz grave de locutor, passando a credibilidade e confiança que vozes assim costumam passar. Naquele dia não foi diferente: acordei esbaforido. “Salve a princesa”, ele pedia, mas eu não podia fazer nada. Não conhecia ninguém da realeza.

Tomei um café da manhã nada reforçado e fui trabalhar. Tentei ignorar todas as loucuras que costumava encontrar nas ruas dos últimos anos para cá. Quase não consegui desviar, porém, do voo rasante de uma pequena harpia. O alvo principal da criatura, um grande verme que rastejava pelas ruas, não teve a mesma sorte.

No trabalho, minha vida era mais tranquila. Passava a maior parte do tempo catalogando livros — e lendo alguns quando possível. Foi naquela noite, entretanto, após terminar o expediente, que minha vida mudou para sempre.

Enquanto margeava a praça das aves carniceiras, acabei chamando a atenção indesejada da velha bruxa. Ela vivia alimentando os pássaros com pedaços de carne crua. Eu não imagino como conseguia aquele estranho alimento sangrento — e preferia não descobrir. Enquanto eu a observava, ela percebeu meu olhar e veio em minha direção, esbravejando palavras num idioma desconhecido. Eu fugi, mas ela parecia mais ágil que o corpo decrépito sugeria.

Corri rápido como alguém que dependia disso para continuar vivendo — o que pareceu ser o meu caso. Quando resolvi me certificar de que ela não me seguia, acabei esbarrando e derrubando uma mesa que um grupo de trolls usava para apoiar suas bebidas. Um deles ficou encharcado do que quer que seja que trolls costumam beber. Eles me cercaram com suas bocarras cheias de dentes cuspindo e grunhindo coisas apenas parcialmente compreensíveis. Eu pedi desculpas, mas não adiantou. Usei o fôlego que me restava para retomar meu ritmo de fuga.

Eles me seguiram da maneira que conseguiram: aos tropeços. Entrei numa viela mal iluminada e tentei me esconder atrás de umas caixas de lixo. Na escuridão do fundo da rua, dois olhos brilhantes me encaravam. Os trolls entraram na viela e me viram ali escondido. Eu não tive opção: corri em direção à escuridão, torcendo para os olhos serem mais agradáveis que meus perseguidores.

A viela terminava num muro alto, cheio de escombros. Os olhos observavam de um buraco no canto e pareciam me convidar a entrar. Os trolls esbravejavam que iam comer meu fígado com cebolas, ou algo assim. Resolvi me esgueirar pelo buraco. Era estreito e tinha uns vergalhões soltos. Ganhei novos arranhões, mas consegui entrar. Os trolls alcançaram o muro, mas finalmente começaram a avaliar o custo-benefício de me perseguir ou simplesmente resolveram voltar a beber.

Eu estava num terreno baldio e, embora escutasse ruídos assustadores, não encontrei os olhos brilhantes. Pretendia ficar quietinho ali por mais um tempo só para garantir que eles realmente haviam desistido. Foi então que a vi, surgindo das sombras da noite. Era linda, loira e tímida.

— O-oi — eu puxei conversa. — Qual o seu nome? — Não foi muito original, mas foi o melhor que pude elaborar naquela hora.

— Rebeca — sua voz saiu bastante áspera, como se há muito não fosse utilizada.

— O meu é Digo. Quer dizer, é Rodrigo. Digo é meu apelido.

— Legal — ela respondeu, daquela forma que de legal não tinha nada. Criou-se aquele momento frio como quando minha mãe abria a geladeira e ficava tentando lembrar o que pegar.

Demoramos alguns milênios olhando um para o outro sem dizer nada — talvez  tivessem sido só uns longos minutos, não tenho certeza.

— Você também não é muito de conversa, né? — ela finalmente disse, fechando a geladeira metafórica.

— Percebeu? — sorri, sem graça. — Você mora onde?

— Nas sombras — ela respondeu, como se dissesse “no Centro”.

— Onde?

— Eu me escondo nas sombras. Não gosto muito de aparecer.

— E seus pais?

— Eles morreram queimados há vários anos.

— Caramba! Os meus também. Err… Quer dizer… não morreram queimados, mas um dia saíram e nunca mais voltaram. É parecido.

— É, sim.

— E por que vive nas sombras?

— Ninguém sabe que eu tô viva. Prefiro assim.

— Entendi. — Para que a geladeira continuasse fechada, tive que mudar de assunto bem rápido: — Sabe a bruxa da praça?

— Não.

— Ela tá sempre alimentando as aves carniceiras. — Percebi que ela se interessou na história e contei a minha aventura daquela noite.

— Não gostei desses trolls — ela me interrompeu, quando cheguei nessa parte.

— Foi por isso que me ajudou?

— Foi.

— Seus pais eram reis ou coisa assim? — eu perguntei, de repente.

— Não que eu saiba.

— Mas você, agora, é tipo uma filha das sombras, né?

— É. Tipo isso. — Ela sorriu, de canto de boca.

— Então você é a Princesa das Sombras — eu falei, empolgado.

— Sou nada — ela respondeu, com um sorriso tímido.

— É, sim. Vou te chamar assim agora.

Ela apenas assentiu, sem graça, e tratou de mudar de assunto:

— Conta mais sobre os bichos estranhos.

— Não viu nenhum ainda?

Ela negou e eu passei várias horas contando histórias para ela. Falei das harpias que comem vermes, do dragão no banheiro, das naves espaciais musicais e dos fantasmas da biblioteca. O interesse em seus olhos alimentava minha empolgação mais que o clímax de um bom livro. Conversamos até quase amanhecer. Antes que os primeiros raios da aurora nos atingissem, nos despedimos, combinando de nos reencontrar na noite seguinte.

Nem dormi. Passei em casa apenas para me arrumar. Quando terminou o expediente, fiz o caminho mais longo, evitando a praça da bruxa e o bar dos trolls. Entrei no terreno pelo buraco, procurei a princesa, mas não a encontrei. Ainda estava claro, ela apareceria a qualquer momento.

Foi a espera mais longa da minha vida. O medo dela não vir, de nunca mais revê-la, me consumiu como as traças aos livros, só que muito mais rápido. Em cada minuto de espera, parecia que uma estrela nascia, se desenvolvia, explodia em supernova e transformava-se numa pequena anã branca. Antes que o universo inteiro entrasse em colapso, porém, ela apareceu.

Corri e a abracei muito forte. A gente nem tinha intimidade para isso, mas ela aceitou e sorriu, iluminando as sombras que começavam a sobrevoar ao nosso redor.

Contei novas histórias que passei o dia lembrando e incrementando. Ela adorava. Estávamos gargalhando quando ouvimos os gritos e rosnados do outro lado do muro:

— Ei, moleque. É hoje que você vai nos pagar. — Eram os trolls. Um deles colocou a cabeça por cima do muro e apontou uma lanterna em nossa direção.

— Olha que sorte, galera. Ele tá com uma namoradinha. — Sorriu por detrás de sua bocarra cheia de dentes pontiagudos. — Vamos fazer um lanchinho gostoso hoje.

— Princesa — cochichei no seu ouvido —, é hora de sumir nas sombras.

— Eu não consigo — ela respondeu, tensa.

O primeiro troll pulou e outros dois surgiram logo depois. Um deles carregava um grande tacape de madeira. Apontou a luz para a princesa, fez uma careta e disse:

— Caramba, ela é feia que nem o capeta.

— Mas é gostosinha — outro respondeu, aproximando-se e puxando uma mecha de seu cabelo. — Dá pro gasto.

— Tira a mão de mim — ela gritou, empurrando o braço dele.

— Isso, solta ela — eu esbravejei.

Começaram a rir e rosnar.

— Ele acha que vai proteger a namoradinha. Segura ele, que vou comer ela na frente dele.

— Deixa um pouco pra gente — outro zombou.

Eles seguraram meus braços. “Salve a princesa”, eu ouvi novamente aquela voz rouca. Só que eu não era forte o suficiente para me soltar.

Mas a princesa era. Enquanto o troll tentava devorá-la, ela conseguiu dar uma bela mordida, arrancando-lhe um naco da orelha. Ele urrou de dor e esbravejou um punhado de palavras feias.

Seus amigos acabaram se distraindo e afrouxaram a pegada. Consegui me desvencilhar, agarrei uma pedra pontuda no chão e, usando uma força que não imaginei que tivesse, acertei o joelho do troll que segurava o tacape. Ele caiu urrando de dor. Peguei a arma dele e acertei a cara feia do outro. Enquanto este tombava no chão, ergui o porrete mais uma vez e desci com toda força naquele que estava de joelhos.

Minha visão começou a ficar turva, meio nublada. Removi o tacape pingando de sangue do que restou da cabeça do troll e esmaguei a do outro que tentava se levantar. Esses dois nunca mais incomodariam ninguém.

Parti para cima do líder, que procurava a princesa. Ela havia finalmente conseguido desaparecer nas sombras. Pensei em deixá-lo fugir, mas ela nunca estaria segura com um monstro assim à solta. Ele sacou uma arma de fogo de trás da bermuda e atirou algumas vezes. Minha visão ficou ainda mais turva, mas não senti dor. Eu me tornei invencível. Era capaz de tudo. Ergui o tacape e afundei na cabeça dele uma, duas, três, várias vezes. Subia e descia a arma e o sangue lambuzava meu rosto.

Então, tudo ficou escuro.

***

Acordei amarrado numa cama, com um monte de tubos e fios presos a mim. Um homem de jaleco e óculos estava sentado ao meu lado, segurando uma prancheta e me olhando distraidamente.

— Olá, Rodrigo. Eu sou o Dr. Mozart. — E, depois de uma longa pausa, perguntou: — Você sabe por que está aqui?

— Porque tomei uns tiros — respondi, com a voz melosa.

— Por isso também. — Ele leu as anotações, fixou o olhar em mim por alguns segundos e, finalmente, prosseguiu: — Por que matou aquelas pessoas?

— Eram trolls. Eles iam comer a princesa.

— Princesa?

— Quer dizer, Rebeca. Esse é o nome dela. Era uma brincadeira nossa. Não é uma princesa de verdade.

— Entendi: não era uma princesa de verdade. Sabe onde ela mora? O nome completo?

— Não. A gente se encontrava no terreno baldio.

— Você disse que aqueles jovens eram o quê? — o médico perguntou, anotando algo.

— Trolls. Eles queriam comer a gente.

— Rodrigo — ele fez aquela longa pausa, como se estivesse pensando e revisando as palavras na mente antes e dizê-las: —, aqueles jovens não eram… ãh… trolls. Eram pessoas como eu ou você.

— Ma-mas… — eu gaguejei e não consegui dizer mais nada. Milhares de argumentos muito convincentes passavam na minha cabeça, mas a parte do cérebro que transformava isso em palavras desistiu de funcionar.

— Você foi diagnosticado com esquizofrenia. É uma doença que faz com que tenha uma percepção… ãh… diferenciada a realidade. Há quanto tempo vê coisas estranhas?

Eu queria argumentar, provar que ele estava errado, mas aquela parte do cérebro resolveu trabalhar sozinha:

— Desde que meus pais me abandonaram.

— Entendo. Infelizmente não há cura para essa doença. Receitarei uns remédios que irão reduzir os efeitos. — Ele meu olhou novamente por um longo tempo por detrás daquelas lentes grossas. — Não se preocupe. Você não será preso pelos assassinatos. Farei um laudo que o deixará aqui no hospital até… ãh… até melhorar. — “até morrer”, imaginei que ele queria dizer.

Algumas noites mais tarde, acordei com uma batida na janela. Uma pessoa me olhava através do vidro espesso. A luz era fraca, mas pude reparar que tinha o rosto desfigurado por queimaduras. A fina mecha de cabelos dourados e o sorriso tímido me fizeram reconhecê-la. Assim era a real Princesa das Sombras.

Eu não conseguia ouvi-la, mas sabia o que estava dizendo: “Obrigada”. Observamo-nos por longos minutos de cumplicidade, com aquela geladeira bem fechada.

Aquele foi nosso último encontro. Os médicos nunca acreditaram em mim, mas o que me manteve aquecido por todos os anos desde então foi a certeza de que eu, afinal, salvei a princesa.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.