EntreContos

Detox Literário.

Xadrez de Estrelas (Haroldo de Campos)

 

 

1

 

– Isso não é modo de resolver um impasse – o General Li, chefe da segurança da embaixada da Terra junto a Marte, soltou a mão sobre a mesa. – O que eles precisam é de uma conveniente rajada protônica, para compreender que nos devem respeito.

O General tinha 86 anos, mas em uma época cuja expectativa de vida era 120, isso pouco pesava. Artur Nipongo, o embaixador, vinte anos mais novo, considerava o General competente e dedicado, ainda que ranzinza. Respirou fundo e recomeçou:

– General, o acordo foi celebrado, e demandou um semestre de negociações. Mas se o senhor deseja minha opinião, apoio plenamente a proposta dos Atores de Pfhengar (Nipongo pronunciou corretamente o nome do órgão máximo marciano). Isso poupará a todos de uma guerra.

– E onde ficam os conceitos de justiça e de dignidade? O asteroide Xantos pertence-nos. Chegamos antes deles, e precisamos do Urânio de lá. Não há necessidade de negociações.

– Os marcianos dizem o contrário. Seu embaixador alega que há dois anos, em 2040 pela nossa contagem, eles enviaram uma nave para lá.  

– Mesmo assim, esse acordo é ridículo, Artur. Decidir a posse de Xantos através de uma disputa de três partidas entre os campeões de xadrez dos planetas é um disparate.

– Para nós, General. Todavia, bem ao estilo dos marcianos. Eles valorizam o intelecto, e consideram a superioridade enxadrística a mais importante.

O general tentou outro ângulo:

– E veja a injustiça da coisa… As regras adotadas serão as do xadrez deles. Na academia aprendi o jogo, participei de torneios com sucesso. Mas isso que eles chamam de xadrez é… alienígena!

– Realmente – Artur Nipongo concordou. –Entretanto, eles nos concederam um mês para aprender as regras. E para o bem da economia terrestre, espero que nossos enxadristas consigam.

 

2

 

Tai-Xiang, tricampeã mundial de xadrez, arremessou o tabuleiro em direção a Magnus Carlsen, seu treinador. Ele se desviou e o objeto espatifou um dos espelhos do Clube de Xadrez de Formosa.

– Um mês! Um mês para estudar regras criadas em um manicômio!

– Acalme-se, Xiang, você não estará sozinha.  Uma equipe de Grandes Mestres está analisando as partidas dos marcianos.

Xiang pestanejou. Toda ela era delicada, de uma beleza majestosa, como uma estatueta Ming de 18 anos de idade.

– Os tabuleiros marcianos são compostos de cinco cores, e não duas! E eles têm cinco peças chamadas “construtores”, que deslizam pelas casas coloridas, no lugar dos nossos bispos!

– Quem move bispos pelas casas brancas e pretas como você, Xiang, movimenta “construtores” por outras cores facilmente.

– E seus quatro reis? – A lisonja de Carlsen preocupara Xiang mais ainda. – Se um deles levar xeque-mate os outros podem pagar seu resgate e libertá-lo.

– Mero detalhe, Xiang – Magnus incentivou-a.

– Seus “gatunos do deserto”, que substituem nossos cavalos, ficam cansados e saltam cada vez menos com o decorrer do jogo. Por isso devem descansar periodicamente. E só podem ser capturados pelos “mercenários vulcânicos”. No lugar de proteger o rei com o nosso “roque”, eles usam a “intrigueira”, que semeia discórdia entre as quatro “esposas” de um rei contrário.

– Isso revela o espírito machista deles. Fico pensando se…

– No lugar dos peões, alma do nosso jogo, há sinistros “anões alados”, que podem voar, nadar e pegar carona com os “gatunos”. Isso é xadrez ou videogame? – Xiang percorria a sala, derrubando móveis imprudentes que interrompiam seu trajeto.

– Especialistas disseram que é xadrez, fizeram um acordo e aí você entra. Mas não é obrigada a aceitar – Magnus estava perdendo a paciência. – Nesse caso, a vice-campeã, Layla Verantova, disputará contra o campeão marciano, daqui a um mês.

Xiang estacou, estupefata, voltando-se para Carlsen.

– Aquela tonta? Se eu não conseguir vencer um marciano, você acha que ela dá para o começo?

– Só estou dizendo o que vai acontecer caso o medo leve você a desistir.

Xiang avançou em direção a Magnus, que recuou para fora do seu alcance.

– Desistir… medo.. alguma vez, na vida… Ora, vá procurar seus mestres e pergunte se descobriram alguma ponta por onde se pegue esse xadrez de hospício. – Xiang olhava ao redor, em busca de algum objeto para enfatizar sua ordem. Quando finalmente encontrou um vaso compatível ele já deixara a sala, sub-repticiamente.  Xiang tinha braços delicados e media apenas um metro e sessenta. Mas um Grande Mestre reconhece o momento adequado para uma retirada estratégica.

 

3

 

Os dez melhores jogadores da Terra analisavam o material fornecido. Todos eram “Grandes Mestres”, o título mais cobiçado por qualquer enxadrista.

Diariamente, Carlsen recebia um arquivo que repassava com Tai-Xiang. A campeã mundial contemplava aquilo de olhos arregalados, e meneava a cabeça, desanimada.

Transcorrido quase um mês, Xiang assimilara todos os princípios do xadrez marciano. Foi realizado um torneio entre os Grandes Mestres. Ela foi a incontestável vencedora, mas isso seria suficiente contra o experiente campeão marciano?

– É o melhor que podemos fazer – ela voltou-se para Magnus e suspirou. – Vamos preparar-nos para a viagem.

 

4

 

O Grande Exibitório Marciano era um cubo de alumínio transparente, polido como uma lente, de modo a ampliar várias vezes seu interior. No centro reluzia um tabuleiro colorido, coberto por peças multicores. Das arquibancadas os espectadores teriam uma visão magnífica do jogo que ia começar.

Um alto-falante anunciou, primeiro no idioma marciano e depois em inglês, a “visitante, suprema campeã do mundo dos terráqueos, Tai-Xiang”.

Xiang adentrou o exibitório, dirigiu-se a uma cadeira e sentou-se. Alguns marcianos olharam-na curiosamente. Outros a saudaram, erguendo o braço direito, cumprimento padrão marciano. A maioria pareceu indiferente, mantendo-se na expectativa.

O alto-falante soou novamente: “Netah Griz, campeão supremo da Irmandade Marciana”. Griz entrou no cubo, o braço direito levantado, ao som da gritaria dos marcianos.

Os marcianos pertenciam ao gênero Homo, mas não ao Sapiens. Em 2031, quando houvera os primeiros contatos, antropólogos dos dois planetas, maravilhados, estabeleceram várias teorias sobre uma origem comum entre os seres dos “mundos irmãos”. A semelhança entre os marcianos e os Neandertais fora base para inúmeras especulações.

Netah Griz era o estereótipo do Neandertal. Cabelos e barba compridos, vermelhos. Cabeça volumosa, nariz curto e largo.  Muito musculoso. A diferença ficava por conta da altura. Griz media mais de dois metros, e parecia o gigante Golias ao cumprimentar Xiang, tomando sua pequenina mão entre as suas enormes, em uma deferência ao costume terrestre.  Netah sentou-se também.

Xiang acionou o relógio e realizou seu lance inicial, movendo um anão alado. O Neandertal fitou-a, aparentando surpresa com alguma tolice logo no começo. Xiang ignorou-o, acostumada a guerras de nervos. Netah deu de ombros e concentrou-se na partida.

Os lances seguiram-se até o médio jogo.  Griz movia as peças rapidamente, parecendo confiante. Xiang tentava parecer à vontade.  A plateia contemplava-os em silêncio, interrompido apenas por comentários em voz baixa, para o espectador ao lado.

O cronômetro marcava cinquenta minutos quando Netah desferiu violento ataque contra um dos reis de Xiang.  O campeão marciano enviou uma tropa de três gatunos, dois construtores e cinco anões através do setor aquático do castelo azul. Xiang decidiu que poderia reduzir o golpe provocando intrigas entre as rainhas adversárias. Netah pareceu preocupado e incluiu um mercenário na retaguarda.

Fiel a seu estilo audaz, Xiang atacava. Um dos seus reis parecia extremamente vulnerável e ela decidiu abandoná-lo. Tratou, porém, de angariar pontos para o resgate. Distraiu-se, e não percebeu que outros dois reis corriam perigo. Logo, estarrecida, percebeu que seus castelos estavam infestados por anões alados. Mais dez minutos se passaram. Agora só lhe sobrava um rei.

Xiang, entretanto, obtivera a soma necessária para resgatar um dos reis sequestrado. Cercou, então, o monarca restante com defensores, e corajosamente iniciou a perigosa jornada até o castelo azul. Entrementes, Netah espalhava armadilhas pelo caminho.

Os construtores de Xiang aproximaram-se do fosso. Anões alados de Netah, a pé ou montados em gatunos, perfilavam-se na defesa conhecida como “canais rubros”. Os Grandes Mestres terráqueos haviam aperfeiçoado um ataque contra essa formação. A campeã terrestre iniciou a neutralização do exército de Netah Griz.

O marciano pensou por alguns minutos e respondeu com a manobra prevista pelos terrestres. Xiang, aliviada, capturou os anões. Finalmente o exército de Xiang penetrou o castelo. Ela estudou a situação.

Seu rei sequestrado estava na situação de sian-sian, que ocorre quando o resgate demora além do tempo estipulado. Portanto, não poderia ser libertado. A manobra do campeão marciano não passara de uma armadilha. Além disso, pelas regras marcianas, seu último rei remanescente também entrava em sian-sian.

– Sian-sian-agrou! – Netah Griz sentenciou. A expressão equivalia ao “xeque-mate” terráqueo.

Toda a plateia do anfiteatro levantou-se e bradou “Netah Griz”, os braços direitos levantados. Enquanto o som ensurdecedor reverberava, o campeão levantou-se e deixou o exibitório, braços erguidos e mãos unidas. Xiang permaneceu sentada por alguns instantes, os olhos entornados, antes de ir embora.

 

5

 

O salão reservado na “Hospedaria Intermundos” fervilhava de comentários mal-humorados dos Grandes Mestres terrestres. Como não previram a manobra do marciano? Debruçados sobre um tabuleiro, analisavam a tática de Netah Griz. Eventualmente jogavam a culpa do desastre uns nos outros, evitando olhar para Carlsen, que mantinha uma sinistra expressão no rosto.

A porta abriu-se e Xiang entrou. Todos silenciaram. Xiang ignorou-os e dirigiu-se ao frigobar. Apanhou uma garrafa de água e saiu. Após um instante de espanto, os mestres voltaram a discutir, acaloradamente.

Xiang tomou o elevador para o terraço. Foi direto para um dos mirantes e contemplou, melancólica, a imensa planície, que escurecia à medida que caía a noite.  Subitamente sentiu o peso de um asteroide sobre os ombros. Encolheu-se instintivamente, era jovem demais para tanta responsabilidade. Olhou ao redor e notou alguém movimentando peças em um tabuleiro.

Era um terráqueo e parecia idoso.  Alguns enxadristas tinham vindo da Terra na nave de turismo Red Channel, para assistir sua derrota. Xiang aproximou-se e constatou que ele reproduzia sua partida. Ao lado do tabuleiro repousava um par de óculos antiquados.

O terráqueo deu-se conta de sua presença e pôs os óculos:

– Ah, é você! Estava analisando o jogo de hoje! Emocionante!

– De forma positiva para uns e negativa para outros.

O terráqueo sorriu. Seu rosto emanava uma espécie de bondade plácida.

– O importante é competir, não?

– Essa frase é permanentemente contestada pelos derrotados. Especialmente quando há asteroides em jogo.

– O governo da Terra deve acreditar muito em você para ter aceitado esse acordo.

– Em face dos acontecimentos, provavelmente deveriam ter desconfiado.

O idoso terráqueo posicionou melhor seus óculos.

– Ora, não foi tão mal assim. Notei uma nítida superioridade sua. Ainda restam duas partidas.

– Superioridade? Netah tratou-me como uma gatinha!

– Nem tanto. Você poderia facilmente ter refutado a manobra que ele lançou.

– Como?

O terráqueo apontou-lhe o tabuleiro.

– Observe com atenção os gatunos de Netah.  

Xiang olhou cuidadosamente. Súbito levantou os olhos brilhantes.

– Estavam cansados demais para lutar!

– Precisamente.

– Como não percebi? Foi tudo um blefe! A vitória estava ao meu alcance!

Xiang sentou-se junto ao terráqueo, desanimada.

– Não creio ter inclinação para essa modalidade de xadrez. Por muitos anos a Terra terá que adquirir Urânio de Marte.

O terráqueo pensou por um momento.

– Talvez não seja assim. Creio ter localizado o problema.

– Qual?

O terráqueo levantou-se.

– Vamos até aquele mirante.

Xiang acompanhou-o.

A noite caíra inteiramente em Marte. A Planície emitia uma fosforescência vermelha. O terráqueo apontou para Fobos e falou:

– Ele diminui a cada dia seu raio orbital. Segundo os astrônomos, um dia aproximar-se-á demais de Marte e será despedaçado pela influência gravitacional.

Xiang achou aquilo sinistro, mas nada falou. O terráqueo prosseguiu:

– Por muitos anos pensou-se que não havia vida aqui. Ninguém poderia supor que seres inteligentes conseguiriam viver em cavernas subterrâneas. O cérebro humano funciona através dessas analogias, que muitos denominariam “preconceito”.

– O xadrez – prosseguiu – reflete nosso modo de pensar, nos componentes lógico, emocional e estético, desde a origem da humanidade. Encontramos fragmentos de placas, possivelmente destinadas a alguma variedade do jogo, datados de um milhão de anos.

– O xadrez tradicional, porém, originou-se na Europa e espalhou-se pelas Américas. A cultura ocidental considera extravagante tudo que não faz parte dela.

– Quando afastamos o insatisfatório, tornamo-nos incapazes de ver o óbvio. Os humanos não percebiam uma civilização abaixo das rochas marcianas. Você desaprova as regras do xadrez deles. Isso obscurece sua visão tática.

– O que confirma – concordou Xiang, em um lúgubre tom – o que já lhe disse. Seria mais sensato desistir imediatamente.

– Voltemos ao tabuleiro – propôs o velho terráqueo.

– Veja – ele arrumou as peças cuidadosamente. – Essa é uma antiga cilada. Observe como os mercenários reúnem-se e capturam, um a um, todos os gatunos – o terráqueo movia as peças pausadamente sobre o tabuleiro, como uma dança de salão.

– Interessante – murmurou Xiang. – Como não me mostraram isso antes?

– Veja essa delicada “dança”, onde as esposas envolvem todos os reis adversários – o terráqueo demonstrou a jogada para Xiang.

– Adorável! –ela bateu palmas, entusiasmada.  – Onde aprendeu isso?

– Oh, tenho por hobby jogos exóticos.

– Mostre-me mais.

O tempo passou. Fobos prosseguia sua dança suicida no céu, enquanto o terráqueo exibia jogadas encantadoras.  A uma distância invisível, o embaixador Artur Nipongo perguntou:

– Quem é ele? Algum Jedi?

– Pedi um relatório completo à Terra – garantiu o General Li. – Amanhã saberemos.

 

6

 

Haveria um intervalo de dois dias até a segunda partida. Pela manhã, no restaurante da “Hospedaria”, Xiang lançou algumas frutinhas em sua bandeja e percorreu o salão com os olhos. Localizou o terráqueo em um canto, girando uma xícara distraidamente entre os dedos. Dirigiu-se para lá e sentou-se frente a ele. Engolindo o desjejum, falou.

– Gostaria que fizesse parte de minha equipe. O treinamento começa em uma hora, no salão dourado do terceiro subandar.

O terráqueo pensou por um instante:

– Você acredita que eu seria útil?

– Evidente. Ninguém conhece o xadrez marciano com você.

– Desconheço o aspecto competitivo. Apenas admiro sua beleza esmerada.

– Você me ensinou a gostar desse jogo. Nada pode ser mais competitivo que o entusiasmo.

O terráqueo decidiu:

– Se é o que deseja, estarei lá.

 

7

 

Na sala reservada ao treinamento, percebia-se uma curiosa segregação.  Em uma das extremidades, os Grandes Mestres inventavam armadilhas para o campeão marciano. Na outra, Xiang sorria fascinada, enquanto o velho terráqueo reproduzia fantásticas “fábulas”, como eram conhecidas as jogadas do xadrez marciano. Todas tinham nome, como “Casamento em Deimos”, “Meteorítica”, “Lava Gasosa”.

Magnus Carlsen, entre os dois grupos, lançava olhares preocupados para os mestres, que não mais ocultavam seu ciúme rancoroso.

Transcorrida uma hora, a exasperação dos Grandes Mestres chegou ao limite. Todos se levantaram e partiram em busca do embaixador.

Foram encontrá-lo saindo da central telefônica. Nipongo carregava um envelope fechado. Imediatamente principiaram sua algaraviada.

– Protestamos…

– Um insulto…

– Ele não tem títulos…

– Exigimos…

Finalmente, o embaixador falou:

– Esperem. Acabamos de receber informações da Terra. Vejamos quem ele é.

Nipongo abriu o envelope e principiou a ler. Parou, surpreso, na primeira linha. Levantou os olhos, com um brilho divertido.

– Parece que ele tem o mesmo direito que vocês de estar aqui.

Apontou para o nome do exótico terráqueo, no início do relatório. Ao lado aparecia o inequívoco GM, que todos sabiam ser a abreviatura de Grande Mestre.

 

8

 

Dizem que o décimo primeiro campeão mundial de xadrez, o americano Bobby Fischer, arrasava os adversários devido a sua inamovível autoconfiança.  Foi uma Xiang desprendendo segurança que se apresentou no exibitório para a segunda partida contra Netah Griz.

 Desde os primeiros movimentos o público marciano notou que ela se apaixonara pelo jogo. Xiang, como os grandes campeões, não mais buscava apenas vencer, mas sim a beleza antes de tudo.  

Ela atacava com movimentos magníficos. O campeão de Marte defendia-se apenas. Inesperadamente, o Grande Mestre marciano atacou com seus anões alados. A manobra era pérfida, e ele, triunfante, fitava Xiang. Os terráqueos empalideceram. Ela estava perdida. Dir-se-ia que um asteroide pendia sobre as cabeças dos presentes.

– Sian-sian-agrou! – ouviu-se. Era Xiang quem falava. A campeã terráquea vingara-se do engodo da primeira partida. Netah fitava, estupefato, o tabuleiro.

Educadamente, a plateia marciana aplaudiu.  Os terrestres davam enormes pulos, na baixa gravidade de Marte.

Subitamente, ouviu-se um brado assustador:

– Siah-seng-sedrar! – Berrava Netah Griz, enquanto recolocava as peças na posição inicial.

Para qualquer jogador o significado era inequívoco. O marciano queria decidir, naquele mesmo momento, a disputa. Xiang nem piscou. Os dois iniciaram a terceira e última partida.

Muitas batalhas foram perdidas por grandes estrategistas, simplesmente porque o orgulho levou-os a prosseguir em condições desfavoráveis.  Em que momento começou a queda de Napoleão, senão quando ele obstinou-se na invasão da Rússia, naquele horrível inverno de 1812?

Em menos de quinze minutos terráqueos, um desorientado Netah Griz sucumbiu novamente à genialidade artística de Tai-Xiang, doravante denominada “campeã suprema de dois mundos”. Xantos pertencia definitivamente à Terra.

 

9

 

O banquete de encerramento terminara. Na mesa, ao lado de Xiang, sentara-se o “Auditor dos Atores de Pfhengar”, autoridade máxima de Marte. Do outro lado da campeã ficara o terráqueo desconhecido. Carlsen, mais ao lado, fingira não ter ciúmes.

O General Li acendeu um charuto. O embaixador perguntou-lhe:

– Afinal, General, quem era esse enxadrista? Por que os outros Grandes Mestres não o conheciam?

– Ele é Grande Mestre – respondeu o General –, mas não em competições. Ele se dedica a composições artísticas, espécies de puzzle cujo objetivo é desafiar e entreter. Para ele, o xadrez é simplesmente uma arte. Às vezes ele cria novas regras, novos protagonistas e tabuleiros diferentes.  

– Então é isso! – disse Nipongo. – Para ele, o xadrez marciano é somente outra invenção!

– E menos mirabolante que as criações dele – concluiu o General, com uma baforada gigantesca.

– Para sorte da Terra. A propósito, General, Xiang será condecorada com o “Totem da Águia”.

– Requisitou um para o “compositor” também? Você viu como ela é…

– Boa ideia. Vejo que nossa convivência tornou-o um hábil diplomata.

 

FIM

Ao príncipe das ilusões,

Mestre dos Mestres Compositores,

PETKO ANDONOV PETKOV!

Dedico este conto,

Feliz 2042!

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Sobre Fabio Baptista

11 comentários em “Xadrez de Estrelas (Haroldo de Campos)

  1. Victor O. de Faria
    21 de setembro de 2018

    ET (Enredo, Texto)
    E: Ora se não temos um enxadrista escritor por aqui. Surreal e genial. Como apreciador do jogo em questão, achei muito criativas as novas regras. Me lembrou do papel-pedra-tesoura-spock-lagarto do Sheldon. Não sei por que, talvez pela imagem, mas imaginei um bando de pessoas com perucas reais correndo para lá e para cá num castelo retrofuturista, atemporal, fora do espaço-tempo conhecido. Só por provocar essa sensação já vale muito. Infelizmente, a parte em que as jogadas são descritas, cansou um pouco. Poderiam ser resumidas como foi feito na segunda partida. Apostar no humor caiu bem ao contexto. Dificilmente levaríamos a história a sério se não fosse assim.
    T: Bem escrito, com diálogos convincentes e suaves. A parte da dedicatória soou deslocada, mas perdoa-se devido à palavra “fim” vir antes. Só não é meu preferido porque textos melancólicos me “arrastam” bem mais.

  2. Fabio Baptista
    19 de setembro de 2018

    Anotações durante a leitura:

    – sub-repticiamente
    – aproximar-se-á
    – inamovível
    – Dir-se-ia
    >>> lugares onde a excelência na escrita deu uma travada, ou por ir além do meu parco vocabulário, ou por me lembrar do Michel Temer.

    – Vamos preparar-nos para a viagem
    >>> Nunca sei com certeza quando é obrigatório colocar o “nos” depois ou antes, mas, de todo modo, o diálogo soaria mais natural com “nos preparar”

    – quando houvera os primeiros contatos
    >>> Assim como comentei em outro conto, tenho certa implicância com o mais-que-perfeito. Aqui acredito que poderia ser facilmente trocado por “ocorreram”.

    – Seria mais sensato desistir imediatamente
    >>> Essa oscilação da Xiang me causou estranheza. Por menos que gostasse do jogo, ela estava empolgada segundos antes, quando conseguiu ver que poderia ter vencido a partida.

    – Quem é ele? Algum Jedi?
    >>> Então, aqui eu interpretei que foi uma brincadeira, mas devido ao tom do conto, minha primeira interpretação foi literal (que os Jedi existiam nesse universo). É rabugice minha, claro, mas tentaria deixar mais claro que era piada: “quem é aquele se achando o Jedi?”, ou algo do tipo.

    ———————–

    Impressões finais:

    Conto sensacional. Uma técnica clássica, perfeitamente executada. Lembrei de um conto do Clarke (ou seria do Asimov?) em que um terráqueo experimenta uma sensação marciana e acaba tendo uma “overdose” de sentidos que fizeram todas as coisas perderem a graça depois.

    Algumas coisas não se explicam muito bem, tipo: por que os terráqueos aceitaram esses termos, sem ao menos tentar negociar que as partidas fossem “meio a meio”? (xadrez normal e marciano). Os marcianos não perceberam o lance da órbita? (isso, aliás, poderia até ser limado sem grandes perdas). Mas esses detalhes não chegam a ser furos, somente pontos que ficaram mais acelerados para o principal da história fluir.

    Achei surpreendente o modo como os movimentos do xadrez foram descritos sem que se tornassem entediantes. E minha atenção ficou presa o tempo todo, na expectativa de quem seria o vencedor.

    Não entendi muito bem essa dedicatória final, mas nada que comprometa.

    Parabéns!

    Abraço.

  3. Priscila Pereira
    18 de setembro de 2018

    Olá Haroldo, posso dizer que você foi muito feliz na escrita desse conto. Tinha tudo pra dar errado, xadrez marciano com muitas regras extras, poderia fazer com que o texto ficasse enfadonho e maçante, mas você conseguiu se livrar dessas coisas e entregou um conto muito interessante, fluido, gostoso de ler, muito criativo e original, parabéns!
    Procurei no Google o nome para quem você dedica esse conto e achei um homem búlgaro que tem um canal no YouTube com alguns vídeos dele tocando piano que são sensacionais, não sei se era pra ele a sua dedicatória…kkk provavelmente não, mas foi legal pesquisar e descobrir.
    Boa sorte! Até mais!!

  4. Antonio Stegues Batista
    15 de setembro de 2018

    Foi muito criativo a descrição do xadrez marciano, como um jogo de vídeo game, foi fácil entender a evolução dos movimentos. O xadrez imita uma batalha, cada adversário cria seu plano de ataque e defesa, elabora cada movimento minuciosamente. A principal ferramenta para derrotar o adversário é o intelecto, a sabedoria, o raciocínio e aí entra também as artimanhas, a sutileza dos movimentos, os engôdos. Ficou muito bom o enredo, os personagens, nomes, etc. Uma boa história, uma boa ideia. Boa sorte.

  5. iolandinhapinheiro
    11 de setembro de 2018

    Olá, autor

    Eu jogo xadrez, e o seu conto com cores, movimentos, peças completamente novas me confundiu um tanto, ainda assim eu prezo o esforço e a criatividade que teve para introduzir tudo isso em um conto sem afogar os leitores com regras.

    O texto é bem elaborado e criar uma contenda entre planetas decidida através de um jogo de xadrez foi bem inventivo. Gostei do cenário a la “Star Wars” que vc colocou. Os personagens iniciais não tinham muita força, e o conto realmente ficou gostoso de ler com a introdução do Grande Mestre, que agregou valor até à própria Xiang que se tornou mais simpática com a chegada dele.

    Não gostei da quantidade de personagens que o conto trouxe, mas entendo que a história exigia. Recomendaria que no futuro vc transformasse o seu conto em algo maior e pudesse investir mais nos personagens chave e um pouco nos muitos coadjuvantes.

    Vi um problema de colocação pronominal, mas foi só. Sorte no desafio, amigo

  6. Caio Freitas
    8 de setembro de 2018

    Gostaria de parabenizá-lo pela criatividade. Para criar toda essa nova dinâmica no xadrez você também deve ser um apaixonado pelo jogo. Gostei de quando você falou que os marcianos buscam a beleza e não apenas vencer. Só fiquei com vontade de saber mais sobre o velho, mas pela restrição no tamanho do conto isso não foi possível, infelizmente. parabéns e boa sorte.

  7. Marco Aurélio Saraiva
    6 de setembro de 2018

    É um conto delicioso de ler. Sua escrita é perfeita, com um estilo leve e fluido, palavras e revisão corretas, tudo no seu devido lugar. Há personagens bem desenvolvidos, tensão, apreensão… tudo o que é necessário para o desenvolvimento de um bom conto!

    Não há muito a falar do seu conto senão que é uma história muito bem contada e, com certeza, um dos melhores do desafio. Só tenho que concordar com o José Geraldo: a parte final era desnecessária.

    De resto, a trama é bem conduzida, há um clímax, uma mudança de status-quo e um desenvolvimento óbvio de Xiang, muito bem feito. As explicações fazem muito sentido; a sua imaginação é incrível.

    Realmente… parabéns!

  8. Ricardo Gnecco Falco
    6 de setembro de 2018

    Saudações, Haroldo! Terminei de ler o seu conto agora e, caso soubesse jogar, iria procurar na internet alguma partida de xadrez para disputar com alguém. A narrativa é bem descritiva e, como poder-se-ia dizer, até mesmo ‘técnica’. A tensão entre os personagens da história ficou bem perceptível, o que é um ponto positivo para o trabalho, visto tratar-se de um jogo de tabuleiro. Contudo, e talvez também pelo fato de eu não saber bulhufas sobre a dinâmica deste jogo, devido o enredo abordar tal tema durante praticamente toda sua duração, não consegui imergir na história, a ponto de sentir-me confortável com a leitura; como seria de se esperar devido ao bom domínio da Língua demonstrado. Assim sendo, resta-me apenas parabenizá-lo pela obra e agradecer-lhe por tê-la compartilhado por aqui, mesmo confessando não ter curtido (ou aproveitado) a viagem como gostaria de ter feito. Desejo-lhe boa sorte no Desafio!
    Paz e Bem!

  9. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    4 de setembro de 2018

    O melhor conto dos que li até agora, único que não tem erros óbvios, que nos distraem durante a leitura, único que não tem trechos frouxos, mas “sequestra” a atenção do leitor até o fim.

    E ali, no fim, está o que julgo ser o único erro do autor, e nem é muito grande, não compromete, mas poderia ser mudado para melhorar. A dedicatória ficaria melhor em epígrafe, para não parecer tão forçada.

    De resto, parabéns por me ter feito imaginar um jogo novo e inimaginável, e em apenas 2912 palavras. J. K. Rowling usou bem mais que isso para descrever um xadrez bruxo que é bem mais próximo do xadrez normal.

  10. Anderson Roberto do Rosario
    1 de setembro de 2018

    Conto bem escrito, impecável do ponto de vista gramatical e quando ao estilo. O único erro que notei nem é digno de nota. Meus parabéns. O que consideraria negativo é a trama, embora você descobre muito bem os diálogos, as descrições, enfim. Ficou um único fio condutor, os jogos e o destino dos dois lados do conflito. Senti falta da mitologia criada em torno disso tudo. Uma referência a um Jedi remeteu logicamente à StarWars, mesmo que fosse em tom de troça da parte que o mencionou. Então quis ver os marcianos interagindo mais no meio disso tudo. É hilário quando vemos alienígenas, marcianos, no caso, agindo como nós terráqueos. Enfim, foi um bom conto, reafirmo. Parabéns e boa sorte no desafio.

  11. Emanuel Maurin
    1 de setembro de 2018

    O ponto alto de seu conto é a criatividade, nesse quesito você esta de parabéns. Achei a historia envolvente, encontrei os ambientes e gostei da descrição dos personagens, mas me perdi no jogo marciano. Outra coisa que achei bacana foi a disputa de um bem através de um jogo, muito legal essa sua sacada. Enfim, gostei do que li, principalmente do desfecho.

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Informação

Publicado em 1 de setembro de 2018 por em Alienígenas.