EntreContos

Detox Literário.

Dentro do Peito (Sigourney Weaver)

 

É impossível mensurar a real importância de algo na vida de alguém a não ser, exatamente, por sua falta.

Só se conhece o autêntico valor de alguma coisa, portanto, após seu respectivo fim; quando — e somente então — revela-se em plenitude diante da própria inexistência.

Em outras palavras, é no findar-se que, algo ou alguém, pode ter sua subjetiva representatividade corretamente compreendida. O perfeito ‘quanto’ e o exato ‘como’ tal coisa, ou alguém, se relacionava e era importante na vida de outrem.

E, para aguçar ainda mais essa dramática constatação, a preciosidade que se descobre de fato extinta da própria vida não é carinhosamente retirada; ou removida com algum tipo de preparo. Ela geralmente é arrancada à força, extirpada. Oriunda de uma repentina poda; uma inesperada amputação emocional.

Ou seja, apenas depois de consumada a perda é que se torna possível a alguém saber que aquilo que (já) se foi perdido era, justamente, o que de mais precioso se tinha na vida.

 

Foi assim que Augusto descobriu o tamanho do buraco em seu peito; a profundidade daquele vazio que passou então a habitar em seu ser. Conhecera o lado oposto da plenitude, o antônimo da perfeição; e agora enfrentava a concretude fria de uma realidade imutável. E terrível.

Marcela não preencheria mais de vida o seu mundo, não faria mais parte de seus dias, da melhor parte de sua biografia; da porção mais rica, mais clara, mais bela. Não coloriria mais o horizonte com sua voz, sua luz; com a saudosa leveza de uma aquarela repleta de tons e semitons; de um inigualável fulgor.

O mundo, seu mundo, entrara em colapso. Augusto estava preso no interior de si mesmo; rompido, partido, tolhido. A dor e a angústia minando, a cada segundo, um pouco mais do que lhe restara das lembranças dela; das boas lembranças de Marcela.

Dentro do peito ecoavam seus passos, agora relapsos, tentando silenciar de vez seu abatido coração; os gritos em forma de murmúrios que a emoção não mais emanava. Apático, Augusto não demonstrava mais sinais. Sentimentos, reações, expectativas… Nada.

Entregara-se.

Restavam somente lapsos; as últimas imagens mentais de sua amada, ainda respirando, e que lhe arrebatavam a memória. O rosto lindo e angelical de Marcela; de proporções tão áureas que chegavam a desafiar os limites da beleza. Mesmo em meio a tantos fios, agulhas, tubos plásticos e instrumentos de aço… Sua face brilhava, ofuscando todo e qualquer dissabor.

Marcela jazia em cima daquela plataforma metálica como se fosse uma oferenda sobre um altar; ofertada aos deuses da ciência humana por íncolas de jaleco branco que por tanto tempo a cercaram e espetaram. Tudo em vão… Todos indignados, descontentes com o improfícuo resultado de tantos estudos, feitos ao longo de suas frustrantes vidas, e que ali, diante daquele espécime indubitavelmente mais fraco, mostraram-se inúteis.

Tantos conhecimentos adquiridos, tantas pesquisas, livros, cursos, seminários… E nada do que sabiam — ou acreditavam saber — pôde salvar Marcela. Infrutíferas técnicas de ressuscitação humanas foram em sequência adotadas e, então, abandonadas. Nenhuma das diversas especialidades, prêmios, medalhas e diplomas lhes dera a resposta; sequer lhes apontara a direção correta. O caminho certo, o ponto de destino, a meta… Não viram. Não sabiam. Sequer imaginavam.

Não sentiam.

O apito metálico, e afinal constante, formara bem no centro do enorme monitor uma linha verde e inalterável. Uma vastidão negra e fosca, separada agora pela metade; cortada em dois idênticos pedaços geométricos. Aquela linha contínua dividia não apenas a tela do aparelho, mas também — e com perfeita exatidão — demarcava a subjetiva representatividade da subsequente ausência de um ser amado… na vida de um ser amante.

Marcela estava morta. Seu coração havia, finalmente, parado. O sangue estacionado nas veias, o ar empacado nos pulmões; as pupilas dilatadas, as pálpebras semicerradas…

A imutabilidade da morte abraçara o grande amor da vida de Augusto, levando-o a um dilemático paradigma existencial, ao qual já estava fadado desde que por ali chegara.

O abraço fatal desferido pelo destino arrancara Marcela da existência e, como Augusto acabara de descobrir, a dor extrema e inigualável resultante daquela imposta amputação o fizera extirpar, de dentro de seu próprio peito, o órgão e ícone máximo da plenitude humana…

O coração.

Ou seja, ao experimentá-la finalmente em completude, Augusto se viu obrigado a extrair de seu ser, exatamente, a humanidade. E, numa ruptura paradigmal, tornou-se naquele momento o mais humano dos seres não humanos de todo o vasto universo.

Marcela abriu os olhos e suas pupilas diminuíram de tamanho, em resposta à luminosidade intermitente do soturno ambiente. Enxergava tudo em meio a uma névoa leitosa ainda, intensificada pela brancura dos azulejos que revestiam as paredes e o teto daquele lugar.

Tentou mexer os braços, mas percebeu não dispor de espaço para isso. Estava dentro do que parecia ser uma caixa de metal. Olhou para as bordas e viu que as mesmas possuíam corrimões, ou puxadores, que se estendiam paralelamente e adentravam o vão da parede, por trás de onde sua cabeça repousava. Não… Aquilo era uma gaveta; sem dúvida. Ela se encontrava deitada dentro de uma estranha e comprida gaveta aberta.

E estava nua.

Marcela firmou as mãos nas laterais metálicas e, fazendo um pouco de força, conseguiu erguer as costas, sentando-se sobre a base. Estava muito frio ali e boa parte da névoa, que ainda dificultava sua visão, vinha exatamente de dentro do armário do qual ela parecia ter sido puxada. Havia várias outras gavetas na parede, todas fechadas, com trancas semelhantes às de geladeiras frigoríficas de açougues.

Saiu com relativa facilidade dali de dentro, erguendo o corpo com desenvoltura, e se pôs ereta ao lado do cacifo de aço. Percebeu algo preso em seu pé, parecido com aquelas etiquetas de lojas de roupas, cujo barbante envolvia seu dedão esquerdo. Livrou-se da incômoda tarja com a ajuda do outro pé e, tremendo devido ao ar gelado que lhe arranhava a pele desnuda, empurrou o alongado compartimento, fazendo-o deslizar de volta para dentro da parede. A névoa fria foi se dissipando e, passados alguns instantes, Marcela reconheceu a silhueta surgida pouco à frente, de costas para ela.

Era Augusto, seu noivo. Ele estava parado no que parecia ser o centro daquela sala. Tinha acabado de vestir uma camisa, que foi também reconhecida por ela. Aparentemente, começava a abotoar a vestimenta, de baixo para cima, quando então a luz fluorescente, antes falhando, acendeu-se por completo no teto, extinguindo não apenas os resquícios da neblina de gelo, mas clareando também até mesmo os mais recônditos recantos da mente de Marcela.

E tudo veio à tona, como em um relâmpago.

A descida da serra durante a madrugada, debaixo daquele aguaceiro todo; o intenso nevoeiro na estrada; as lágrimas borrando a maquiagem e irritando seus olhos; a terceira taça de vinho sorvida, antes do espatifar do cristal sobre o rosto daquele patife; o sorrisinho sarcástico surgido no canto daquela boca cínica; o sentimento de raiva, ódio, impotência; a vontade de socar, cuspir naquela cara; vomitar naquela cama; desafundar daquela lama…

Um flash do carro perdendo a aderência depois da curva; as mãos brutais lhe girando a cintura; a traseira derrapando sobre o asfalto molhado; a força dele lhe impedindo, impelindo; o pedal do freio sendo pisado, forçado, maltratado, humilhado, penetrado; a violência do impacto; o corpo sendo jogado para frente, para trás, para frente, para trás; o sangue, a ardência, o suor pingando, escorrendo, babando; sufocando, esfolando, batendo,  espremendo; ejaculando… Sorrindo.

A atração, o flerte, a traição, a surpresa; o agir inconsequente, a desilusão, o medo; a capotagem, o cinto pressionando seu pescoço, apertando; o vidro estourando, a carne cortando, a cabeça arranhando, entrando; a porta abrindo, quebrando; o anel brilhando, a mão torcendo; a chuva molhando, sangrando; a aliança desfeita, o carro girando, rodando, rondando, golpeando, lambendo, fincando, trincando; afundando. O frio, a noite, a lama… A escuridão.

Marcela Ignácio Baptista — 23 de Agosto de 2018 — 06h.04m. — Falência cardíaca.”

Era o que estava escrito na etiqueta que tirara de seu pé e que ela agora lia. Em seu pulso direito também havia uma pulseira de papel, com as iniciais de seu nome, uma logo e as letras C, T e I. O relógio na parede em frente, oposta ao gaveteiro de onde havia acabado de sair, indicava as horas. Doze e dezesseis.

Marcela estava suja; manchada. Seu sangue, ressecado, espalhado pelo corpo, melecado; violado. Aquela sala fria e fúnebre fazia parte de algum hospital. Era para lá que as carcaças, sem o recheio da vida, eram levadas. Àquelas gavetas se destinavam os vazios, os que sucumbiram; estavam reservadas aos que não resistiram. Representavam a última parada antes da eterna morada. O postumeiro local visitado por aqueles cujos pecados já haviam sido julgados no grande e derradeiro tribunal…

Seu noivo permanecia de costas para ela, abotoando a camisa em um ritmo bem mais lento do que a sequência de flashes e fragmentos de memórias que assolavam a caótica mente de Marcela naquele confuso momento.

Lembrava-se de quando conhecera Augusto, oito anos atrás. Ele estava na mesma posição; de costas, parado na frente da jovem. Ela aproximara-se por trás e, num rompante etílico, tapara-lhe os olhos.

— Quem sou eu? — força a voz para um tom bem mais grave, falando ao pé do ouvido do solitário rapaz que, desde que chegara à festa, não havia ainda se enturmado com ninguém.

Passam-se alguns segundos de intenso silêncio.

— Quem sou eeeeeeu? — insiste ela, agora mudando para uma voz extremamente fina e estridente.

— Uma mulher. — responde o jovem.

Hmm… Parabéns! — Marcela retorna ao seu tom natural, ainda pressionando as mãos sobre os olhos do rapaz — E que tipo de mulher eu sou? — completa.

A resposta agora surge mais rápida:

— Do tipo extrovertido.

— Nossa! Você é mesmo um grande adivinho! Estou impressionada com o seu poder quase sobrenatural, rapazinho! — ela ironiza.

— Obrigado.

Hmm… Vejamos… — Marcela pensa por alguns instantes, antes de sugerir — Diga alguma coisa agora que eu não saiba! — enfatiza.

O rapaz franzino ergue os braços e pousa as mãos sobre as costas das mãos dela, retirando-as de seus olhos. Depois se vira e, encarando-a pela primeira vez, diz:

— Existe vida fora do seu planeta.

Marcela ri daquela frase, que lhe soa como uma piada nerd.

— Mas nós somos beeeem legais… — completa o jovem, olhando-a nos olhos e imitando o tom de voz estridente que ela havia utilizado antes.

Até o momento daquela divertida interação, Marcela nem sabia se achava o solitário rapaz — que vinha observando de longe, na festa, já fazia algum tempo — bonito ou feio; interessante ou repulsivo; desejoso ou desprezível; instigante ou fatigante.

No entanto, aqueles olhos despertaram algo denso dentro dela. Continham intensidade, mas não eram dotados de desejo, de malícia; de posse. Era um jeito de olhar muito diferente de todos os outros olhares que Marcela já recebera. Era algo mais profundo… Talvez exatamente por isso tenha sido tão apaixonante. E irresistível.

Aquela troca a fizera perceber um poder até então desconhecido. Uma força universal e transformadora capaz de mudar o rumo de sua vida; de alterar os rastros de sua história; modificar seu próprio destino. Aquele olhar fizera Marcela, verdadeiramente, sentir-se…

… Nua.

— E-eu m-morri, Augusto?

Marcela tremia muito, mas não era mais de frio.

— Sim.

Augusto permanecia inalterado.

— N-no aci-acidente?

— Não, Marcela. Seu coração parou de bater, de vez, lá em cima; no centro de tratamento intensivo do hospital, seis horas atrás.

Aquela câmara mortuária, onde definitivamente estava, devia ficar no porão do prédio, vista a ausência de janelas ou de luz natural. Aliás, nada ali parecia ou soava natural para ela. Mas era fato. Era real. Estava acontecendo.

Marcela sente as lágrimas, trêmulas, saltarem de suas pálpebras e percorrerem um curto trajeto sobre as bochechas, até salgarem as reentrâncias de seus lábios, também estremecidos.

— C-como você est-está me ouvindo, ent-então?

Augusto permanece em silêncio, mais entretido em finalmente terminar de fechar os botões da camisa e, só então, vira-se na direção da noiva, paralisada e de olhos estupefatos a encará-lo.

— Você p-pode me ver tamb-bém?

— Claro que sim, Marcela. Você está de pé bem na minha frente.

— Eu não… N-não entendo…

Augusto se aproxima. Marcela não reconhece aquele olhar. Havia algo diferente nos olhos dele; como se faltasse algo.

— Você está achando que é um espírito? Que continua morta?

Não continham emoção; muito menos profundidade.

— Eu…

— Você estava morta; mas agora está viva.

Apatia.

— Mas… — Marcela não compreende — Como? C-como isso é possível?

— Eu te trouxe de volta.

A lâmpada volta a falhar, no teto. Recorda-se do acidente. A sirene, as luzes piscantes. A dupla de socorristas; a maca, o cobertor térmico. O anel de noivado…

— Você aceita se casar comigo, Marcela?

Que vergonha! O restaurante inteiro olhando para ela. Esperando, vigiando, pressionando; intimando.

— …Aceita, meu amor?

Morar junto havia se mostrado uma grata surpresa. Dividir com alguém o mesmo teto, banheiro, cama; desejos, anseios… Limitações. Mas Augusto era o companheiro dos sonhos, o cônjuge perfeito. Carinhoso, atencioso, prestativo, parceiro; confiável, dedicado… Fiel.

Tão correto, justo, bom, amável; espiritualmente elevado… Tanto que Marcela, de uma hora para outra, descobriu finalmente o que não sabia sobre ela mesma. Conheceu não apenas o que não era, mas, comparativamente, a plenitude do que jamais seria.

Concretude.

Marcela percebeu, após certo tempo, que tal fartura, na prática, não mais lhe aprazia. “Fartava-lhe” algo… Marcela não se reconhecia mais no primor daquela relação. Surgira algo diferente dentro dela; um inexplicável — e inexorável — vazio. Uma latente apatia, só então revelada.

Abastando-se do que jamais lhe satisfazia, envaidecia-se. Sabotava-se… Encaixava-se no descabido. Cobiçava o perigo, almejava a insegurança; infringia. Ambicionava o desequilíbrio, a perda do autocontrole; a inexatidão do incerto. Inspirava a própria falha, fundamentando seus atos na crença de que somente a transgressão poderia sanar, da forma mais insana possível, seus mais secretos anseios.

Sete anos morando juntos, quando Augusto lhe estendera a mão com aquela caixa de veludo azul. Jantar romântico; restaurante chique, joelho no chão; sorriso no olhar. Noivado, casamento; depois viriam filhos, cachorros; fraldas sujas e sofás manchados… O clichê.

— …Amor!

O restaurante inteiro olhando para ela. Esperando; vigiando; pressionando; intimando… Julgando.

— Você está me ouvindo, moça?

Luzes piscantes; falantes…

— Qual o seu nome? Tenta ficar acordada! Não dorme!

O cobertor térmico, a maca…

— Quer que a gente ligue pra alguém? Moça? Não dorme!

A dupla de socorristas; a sirene…

— Ela não ouvindo!

— Vai na agenda; pra quem ela ligou por último. o nome; se aparece…

Peraí

O anel brilhando; a caixa azul aveludada…

— Fernando? Hey; moça… Não dorme! Podemos ligar pro Fernando pra avisar? É seu esposo, moça? Tenta ficar acordada! Fernando é o seu esposo? Podemos ligar pra ele?

— A aliança na mão direita… Deve ser o noivo dela.

Aplausos no restaurante.

O companheiro dos sonhos, o cônjuge perfeito. Carinhoso, atencioso, prestativo, parceiro; confiável, dedicado… Fiel.

— Eu aceito!

A apatia.

— Eu te trouxe de volta.

Augusto, ou o que parecia ser Augusto, não havia fechado os dois últimos botões da camisa; Marcela percebe as estranhas marcas na pele dele, parcialmente à mostra, pouco abaixo do pescoço.

— Mas… C-como?

— O seu coração parou de bater. Trouxeram você aqui para baixo. Esperei os funcionários saírem para o almoço e…

Marcela fica afoita, como se começasse a lhe faltar ar nos pulmões.

— …troquei de coração com você. — o noivo completa.

— Isso… Isso é impossível, Augusto! — busca apoio no armário gelado de onde saíra há pouco.

— Não para mim.

A jovem sente as pernas ficarem cada vez mais bambas. Eleva a mão esquerda à altura do peito e, relutante, toca a própria pele, sentindo as pequenas reentrâncias na região. Não tem coragem suficiente para olhar. Tenta encontrar auxílio na lógica, observando o entorno à procura de algo capaz de lhe tirar daquele pesadelo; fazê-la acordar.

Mas, tudo a sua volta apenas lhe traz a certeza de onde está e do quão absurda a realidade pode, num piscar de olhos, tornar-se.

— O quê está acontecendo aqui? — grita, então, em desespero.

— Eu já disse: substituí o seu coração pelo meu.

— O meu… Meu coração… Onde está? Onde está o meu coração? — Marcela espreme o tórax, agora com as duas mãos, comprimindo as reentrâncias sentidas na própria pele.

— Está aqui, dentro de mim. Mas ele não funciona. — responde, secamente, Augusto.

Ou o que parecia ser Augusto.

— E com… Como v… Como você está vivo, então? — Marcela sente o esmorecer da lógica em cada palavra e frase que forma.

— De onde eu venho, isso é natural. — seu noivo fala em um tom professoral.

— E de onde… De onde você vem? — ela tenta preencher com perguntas os espaços carentes de nexo em sua mente, refugiando-se na dialética das palavras, ao menos.

— De longe. Muito longe.

Augusto apenas a observa.

— Eu… Não entendo…

— Tudo bem. Demora um pouco. Logo irá compreender. E sentir.

— Então você… Você não é humano?

— Não.

Marcela decide finalmente olhar para o próprio peito, desnudo. Vê as marcas dos cortes; geometricamente uniformes e limpos.

— E eu? Eu sou agora o quê, então? — preocupa-se, voltando a pressionar as mãos sobre as perfeitas incisões visualizadas em seu tórax.

Augusto responde, indiferente:

— Uma mulher com um órgão alienígena dentro do peito.

— Mas… E o meu coração?

— Já disse. Está morto.

Marcela analisa o espaço visível abaixo do pescoço do noivo, através da abertura da camisa do mesmo.

— Então por que você o colocou dentro de você? — tenta ainda se manter agarrada a um fio de Lógica.

— Porque é isso o que nós fazemos. — explica.

— …“Nós”? — ela encara Augusto.

— Sim.

— Existem outros como você aqui na Terra?

— Muitos outros. — revela.

— E por que… Por que você… Vocês… Vieram pra cá?

— Exatamente para isso. — ele fala apontando, com o queixo, na direção do peito dela.

— Isso o quê?

— Substituir o coração de alguns humanos.

— Somente de alguns? — estranha.

— Sim. — Augusto esclarece — Não são todos os humanos que precisam desta troca. Na verdade, a maioria de vocês não necessita. Somente os que ainda não aprenderam.

— Não aprenderam o quê? — Marcela encara o noivo, curiosa.

— A amar.

— Amar?

— Exatamente.

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Sobre Fabio Baptista

13 comentários em “Dentro do Peito (Sigourney Weaver)

  1. Victor O. de Faria
    21 de setembro de 2018

    ET (Enredo, Texto)
    E: um texto bem pretensioso, no bom sentido, que começa com uma dissertação Augusto Cury e termina na Madrugada dos Mortos-Vivos. Um tantinho confuso e demorado, mas depois que engrena fica interessante. Estava quase me perguntando onde estava a criatura no contexto, mas ela “aparece” no fim. É denso, até demais, e acho que alguns pequenos cortes fariam bem à história. É profundo, melancólico e até perturbador em algumas partes. Ponto pra isso.
    T: Bem escrito, com certas passagens poéticas, embora carregado em certas partes. Confesso que esse texto me provocou sensações diversas. Se por um lado gostei do tom mais intimista, por outro, pareceu apenas uma recapagem bonita de uma história de terror qualquer. Até achei que o doutor revelaria o nome Frankenstein na lapela.

  2. jggouvea
    20 de setembro de 2018

    Um conto muito bem escrito, um tanto difícil de ler, mas isso não é algo que o desabone — e também um conto muito belo na questão da linguagem. Não se deve, nunca, considerar a beleza como algo ruim. Chamem-me me de piegas se quiserem, mas eu acredito, ainda, no sentido do Belo.

    O que realmente me matou foi a última frase.

    Toda a história parecia construir um enigma muito maior, mas o final é muito anticlimático, resvalando num excesso de pieguice que eu já não gosto, porque me pareceu forçar.

    Não que a ideia de trocar o coração para ensinar o amor seja ruim — eu mesmo conheço muita gente que precisaria disso — mas que ela não parece ser a solução adequada para o enredo que foi criado. Criou uma contradição.

    Eu ainda vou reler este conto para tentar resolver isto, porque tenho muita vontade de dar nota máxima aqui, mas ainda estou engasgando.

  3. Evelyn Postali
    17 de setembro de 2018

    Muito sutil e, até, delicado, eu diria. Tem muitas coisas que a gente lê e são colocadas de forma direta. No seu conto, tudo é feito com uma finura especial. Eu gostei muito disso. Porque não há necessidade de se mostrar tudo o tempo todo.
    Gostei dos diálogos e creio que eles deixam muito visível essa sutileza. Gostei de como você vai do fim para o começo, ou para o fim novamente. Esse movimento na escrita foi algo bem bacana. Foi o que me fez gostar muito de toda a construção.
    Parabéns! Abraços!

  4. Antonio Stegues Batista
    14 de setembro de 2018

    Achei o conto cheio de adjetivos que só aumentam a frase e não fazem falta alguma. Assim é todo o texto. As partes interessantes são entrecortadas pelos mesmo adjetivos que se tornam repetitivos e maçantes. Tirando todos os adjetivos sobra muito pouco, o enredo de um alienígena que troca de coração com humanos, apenas àqueles que não aprenderam a amar. Claro, é um conto ” romântico”, mas achei o argumento fraco. Embora bem escrito, a história não me impressionou. Boa sorte.

  5. Wilson Barros
    12 de setembro de 2018

    A frase inicial resume o conto de uma forma poética e filosófica. Começar um conto, um ensaio, uma redação ou qualquer coisa assim é uma técnica bem conhecida, que aqui foi realizada de forma bastante rica. O conto torna-se muito interessante pelo paralelismo entre “vazio no peito”, e a “ausência do coração”, no estilo das parábolas kafkianas. Neste sentido, é muito romântica a frase “troquei de coração com você.”, ainda que tenha sido literalmente. Aliás tudo no conto soa ambivalente, uma linearidade entre o mundo real e os sentimentos. Esse me parece ser o nexo, o propósito do conto. Parabéns.

  6. iolandinhapinheiro
    11 de setembro de 2018

    Olá, autor!

    Eu nem ligo para imagem, título, pseudônimo, então nem me importei que a história não tivesse absolutamente nada a ver com a imagem que vc usou, reforçado pelo nome da atriz que fez o papel principal do Filme Alien, o Oitavo Passageiro, bem como as suas sequências.

    Aliás, o tema alienígena passou bem suavemente pelo conto. Aparece numa conversa entre Marcela e Augusto e só no final quando ele revela que vai colocar um coração alienígena nela, mas isso é o que menos importa aqui, já que estamos diante de uma história belamente escrita, com vocabulário rico e estilo elegante, e no fim, ainda que de maneira sutil, o tema está lá, então cumpriu a tabela.

    Sutileza, inclusive, é um recurso usado aqui, em alguns momentos as informações não estão explícitas, em outras não apenas gritam, mas estão repetidas pelos parágrafos, realçadas através de palavras diferentes.

    Se cheguei a ver algum erro gramatical, passei direto pois estava atenta à história. O seu conto é diferente, intenso, um conto que a gente não esquece na leitura do próximo.

    Então, amigo, parabéns e sorte no desafio.

  7. Pedro Paulo
    8 de setembro de 2018

    Antes de começar, esclarecerei alguns dos critérios a partir dos quais estarei avaliando, ainda que a nota não vá estar totalmente definida antes do desafio. Avaliarei o conto a partir do domínio da língua portuguesa, da estruturação da narrativa, da adequação ao tema e, enfim, mas não menos importante, da criatividade. Vê-se que são critérios interligados. Vamos lá!

    Reitero o que o outro colega comentou sobre a imagem e o pseudônimo. Imaginei que se inspiraria em “Alien” para o seu enredo, mas já aí me surpreendeu com uma trama que divergiu completamente do suspense claustrofóbico e sangrento do filme de Ridley Scott. É um conto para se ler atentamente, pois as informações se entrecortam e fica fácil de perder o que está sendo narrado realmente, isso especificamente para o momento em que lemos sobre o estupro e o acidente de carro de Marcela. Acredito que tenha procurado e sucedido ao instaurar um efeito caótico à trama, guiada principalmente na perspectiva confusa de Marcela, então vou colocar que posso ter interpretado errado, mas, reordenando, o que ocorreu foi: Marcela conhece o singular Augusto em uma festa, apaixonam-se; noivam; ele é o cônjuge perfeito, mas ela não se sente mais satisfeita; busca algo fora do relacionamento, Fernando; o estupro; o acidente de carro; a morte; o renascimento. A fragmentação do enredo pareceu perfeitamente cabível por se encontrar situada dentro da própria confusão mental de Marcela, ainda se reencontrando com as próprias memórias. O centro do enredo é o diálogo que mantém com Augusto após acordar, em que pouco a pouco, enquanto gradualmente vamos compreendendo o que mais teria acontecido com Marcela em seu relacionamento e antes de sua morte, vamos desvendando a natureza de Augusto e o seu propósito, até o final, em que ele nos explica, desumanizado pelo sacrifício, sobre os humanos que não amam. Achei um tanto anticlimático, pois penso que estaria se referindo ao adultério de Marcela e ele mesmo caracterizou o “desamor” humano como algo de apenas alguns, enquanto acredito que não seja algo tão único assim… Outro aspecto negativo que comento é o começo, que acredito ter se estendido demais com a questão filosófica do “valor” das coisas e mesmo depois ao narrar o falecimento de Marcela. Acredito que é quando nos encontramos na perspectiva dela que o conto realmente começa.

  8. Sarah Nascimento
    8 de setembro de 2018

    Olá! Bom conto! Uma dica que eu daria é no início não repetir um conceito que você já explicou, só para reforçá-lo. E que não precisa usar palavras tão rebuscadas, pois acaba deixando sua história difícil de entender.
    Claro que todos entendem o sentido do que você quer dizer, mas fica uma leitura bem mais agradável quando tudo é um pouquinho mais simples, compreende?
    O modo como você descreveu as lembranças da Marcela após ela sair daquela gaveta de metal, me deixaram aflita e incomodada. Minha dica seria não exagerar nessas palavras de descrição, acho que o nome correto é gerúndio. Você escreveu umas dez linhas só com essas palavras e embora elas sejam boas para contar o que aconteceu antes, com uma quantidade tão grande assim o que causa na gente é irritação e desejo que esse trecho acabe o mais rápido possível.
    Por favor, compreenda que eu não disse para nunca usar esse tipo de descrição, apenas diminuir um pouco. Eu li um livro de Dean R. Counts em que ele descreve um acidente de automóvel dessa mesma forma. Mas tudo tem que ser com moderação.
    O seu conto ficou emocionante e com um toque de suspense que deixou tudo ainda melhor! Parabéns pela criatividade!
    O final dele foi excelente, as explicações e respostas do Augusto me deixavam ainda mais curiosa e no fim eu concluo que esses alienígenas aí não são nada legais.
    Claro que ele fez uma coisa boa fazendo a Marcela voltar a viver, porém, será que essa decisão foi para o bem dela mesmo? Fica a pergunta não é?
    Um detalhe que eu queria perguntar é: a Marcela gostava mesmo do Augusto? Pois na parte das lembranças do acidente, ela também descreve os dois tendo relações e pelo jeito que ela lembra, parece que não foi nada agradável para ela. E a traição, foi ele que traiu ou foi esse Fernando?
    Enfim, meu comentário já está enorme! Novamente parabéns pela história!

  9. Caio Freitas
    8 de setembro de 2018

    Seu conto é muito bom de ler. Consegue mostrar a construção da relação entre eles de maneira que prende a atenção do leitor. Só achei o final meio sem nexo. Ele transfere o coração porque ela morreu, não porque não sabe amar. Durante o texto eu tive a impressão oposta, de que ela gostava muito dele. No mais, um conto muito interessante. Boa sorte.

  10. Ricardo Gnecco Falco
    6 de setembro de 2018

    Olá, Sigourney Weaver! Acabei de ler o seu conto e gostei muito! Comecei induzido (sem o saber) pela figura que ilustra a obra (cuja protagonista, no cinema, é você mesma!), imaginando que iria encontrar alguma criatura nojenta e uma pegada mais ‘gore’ na escrita, mas… Surpresa! Você me apresentou uma história que no final (e somente no final!) se mostra totalmente o oposto disso. Sua narrativa soa profunda e poética, diria até que sonora, e ao contrário do que pensava, fala sobre relacionamento; sobretudo o humano. Aliás, aqui vale uma observação… Achei muito interessante a personificação que você imprimiu às personagens, fazendo com que, “exatamente”, o ser não-humano demonstrasse mais humanidade (ou capacidade de amar) do que o ser propriamente humano. Curti bastante também a forma com a qual você escolheu mostrar ao leitor os pregressos ‘desvios de conduta moral’ de Marcela, utilizando-se apenas de verbos no gerúndio. Ficou muito bom isso! A mensagem final do conto foi a cereja do bolo e, aproveitando a musicalidade de sua obra, confesso que me fez lembrar daquela música do Paralamas que diz assim: “Saber amar… É saber deixar alguém te amar”. Parabéns pelo trabalho e boa sorte no Desafio! Saudações torácicas,
    Paz e Bem!

  11. Rafael Penha
    6 de setembro de 2018

    Olá, Sigourney Weaver,

    Um conto bonito, com uma história simples.

    PONTOS POSITIVOS: A linguagem empregada, poética, dá um tom mais intimista e profundo. Você consegue se por no lugar dos personagens. A mensagem final também é bem bonita, fugindo da direção em que o conto parecia estar seguindo, surpresa é sempre bom.

    PONTOS NEGATIVOS: A meu sentir, houve um excesso incrível de adjetivos. Se faltam não ilustram, mas aqui, sobraram demais. Me vi pulando alguns para chegar logo onde a frase queria dizer. Aglo relacionado a isso, talvez, seja uma ´rimeira parte muito longa e uma segunda também longa. Senti como se a primeira e segunda partes fossem apenas uma junção de frases bonitas, mas sem progressão na história, que só começa a andar de fato, no final da segunda parte. Confesso ainda que, a imagem do conto despertou minha curiosidade, e me desapontei ao notar que o conto pouca coisa tem a ver com ela, a não ser o buraco no peito.

    Gostei do final, mas o inicio me pareceu penoso. Gostaria mais se o enredo fosse pririzado, em detrimento da linguagem.

    Grande abraço!

  12. Anderson Roberto do Rosario
    1 de setembro de 2018

    Essas trocas nas relações terráqueos x alienígenas sempre me lembram de O Pequeno Príncipe. O tom de romance também saiu dos padrões de FC, e isso foi bom. A mensagem final também gostei bastante. Os verbos no gerúndio enquanto Marcela narra toda a sua agonia numa confusa miscelânea de situações e conflitos foi bem descrito. Algumas correções podem ser feitas futuramente. Foi um bom conto. Parabéns e boa sorte no desafio.

  13. Emanuel Maurin
    1 de setembro de 2018

    No começo você fez uma descrição da vida através da sua subjetividade, o que eu acho difícil fazer. Seu conto chegou ao clímax, isso eu acho importante, nem todos chegam. Outra coisa foi a surpresa, eu fiquei curioso para saber quem era o alienígena, teve um suspense, achei bem legal. E ainda deixou uma mensagem no final. Muito gostoso de ler, parabéns.

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Informação

Publicado em 1 de setembro de 2018 por em Alienígenas.